O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 16 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 15

 

— Deus me livre, Helen. O que você estava fazendo para demorar tanto para atender esse telefone? — A voz aguda de Tatiana soou eufórica.

— Tati, são seis da manhã. E, para você que vive no mundo da lua, hoje é sábado. As pessoas normais costumam dormir até mais tarde. — Helen tinha demorado a dormir pensando nos acontecimentos da noite. Ainda estava zonza. — Então, me diga qual foi o furacão que te acordou essa hora da manhã?

— Amiga, eu estou com uma pulguinha atrás da orelha, sabe?

— Aí vem coisa... Não dava para esperar amanhecer o dia?

— Não. Meu feijãozinho não me deixa dormir. Aquela lasanha não me fez muito bem. — Aquilo era mesmo a cara de Tatiana. Devia estar pesquisando cada detalhe sobre a gravidez. — Ah, amiga deixa de me enrolar. Eu preciso saber o que aconteceu naquele quarto ontem, porque essa sua carinha de santa não me engana.

— Oh, céus. Por que não me surpreendo? — Helen revirou os olhos — Não aconteceu absolutamente nada, apenas conversamos.

— Ah, tá. E eu sou a rainha da Inglaterra. Se não aconteceu nada, por que o Matheus estava com aquela cara de quem tinha ganhado na loteria? Por que não tirou mais os olhos de você? Com certeza aconteceu alguma coisa e nem adianta querer esconder de mim!

Não queria falar sobre ele. Precisava entender tudo aquilo primeiro.

— E então, só isso? Como você está?

— Não muda de assunto, viu. Mas tudo bem, para eu saber é só uma questão de tempo mesmo. Respondendo sua pergunta, estou muito bem, obrigada! Tirando os enjoos matinais e as cólicas, meu feijãozinho está muito bem. Sabia que grávida sente cólicas?

— Sabia, sim. Querida, isso é só o começo.

— Ai meu Deus, onde fui me meter? — Tatiana disse em tom dramático.

Quando desligou o telefone, Helen decidiu caminhar no parque. Vestiu seu short de corrida e uma blusa larga, calçou seu tênis e saiu. Já que estava acordada, não custava nada se exercitar. Precisava espairecer um pouco. As coisas estavam acontecendo muito rápido, e ficava cada vez mais difícil esconder os sentimentos que, apesar dos anos, continuavam os mesmos.

Tudo parecia cheio de vida essa manhã. As árvores estavam mais verdes, os pássaros cantavam alegremente, as flores pareciam tão coloridas e as pessoas estavam felizes. Tantos anos morando ali, tão perto do parque, e nunca havia notado como a vista da orla era linda pela manhã. O ar parecia mais puro. Helen parou um pouco, encostou-se no corrimão de madeira, fechou os olhos e sentiu a brisa tocar seu rosto levemente.

— Linda manhã, não acha moça? — Ela ouviu uma voz familiar e se virou. Era Matheus, que, assim como a manhã, estava magnifico. O moletom que usava lhe caia muito bem e a camiseta branca acentuava os músculos em seu peitoral. Os óculos Ray-Ban escondiam seus olhos azuis. O aroma que exalava dele a deixou tonta. Notou que ele trazia uma câmera pendurada ao pescoço.

— Oi, Matheus — foi o que conseguiu dizer, logo após ele lhe exibir um sorriso torto.

— Desculpe, eu deveria conhecê-la? — Ele disse, sorrindo travesso — Acho que te peguei dessa vez, não é mesmo, Helen?

— Poxa, isso assusta bastante! — ela tentou parecer descontraída — Costuma falar com desconhecidos assim?

— Geralmente não, mas tinha algo familiar em seu rosto. Então, não resisti. — O sorriso que ele exibia era contagiante.

Nossa! Matheus tinha a sensação de que realmente a conhecia. O sorriso dela, o jeito de passar a mão no cabelo. Naquele instante, tudo lhe pareceu familiar e não conseguia tirar aquilo da cabeça. O olhar dela era como se o conhecesse profundamente.

Eles sentaram de frente para a orla e faltaram as palavras. Helen estava um pouco assustada com o que ele havia dito. No fundo, sabia que não a esquecer a completamente. Precisava se recompor antes de dizer qualquer coisa. Tudo aquilo parecia tão surreal. Sentiu suas mãos suarem, apesar da brisa fria da manhã. Enfiou-as no bolso do short e olhou de relance para a mão de Matheus que usava a aliança. Droga! Queria perguntar-lhe sobre o anel, mas enquanto decidia, ele quebrou o silencio.

— Que foi? — questionou, esticando o braço no banco e rosando nos cabelos dela — Ah, antes que me pergunte, não estou noivo.

— Já sei disso. — Ela se lembrou do quão envergonhada ficara durante o jantar. — Qual o motivo de usar a aliança?

Uma pergunta difícil de responder, pensou ele. Não sabia ao certo o motivo de usá-la. Sentia que, talvez, fosse a única coisa que o ligava a seu passado, e depois de ir ao apartamento, alguma coisa lhe dizia que seria a resposta para as inúmeras perguntas que surgiriam em seu futuro imediato.

— Perguntinha difícil para uma pessoa que não tem memória boa, hein? Você pegou pesado — ele disse, mexendo no celular sem encará-la — Falando sério, acho que tem alguma ligação importante com o meu passado, mas sinceramente ainda não sei. É realmente difícil explicar o significado dele para mim. E você, por que usa aquele anel?

O coração de Helen disparou. Será que ele tinha noção do que realmente significava? Agora ele estava com o olhar perdido no horizonte.

— Acho que pelos mesmos motivos que você, mas eu não bati com a cabeça — Matheus riu — E essa câmera? Disseram-me que você faz maravilhas com ela.

— Isso foi golpe baixo, e as pessoas falam demais. Você poderia ser minha musa agora, aceita?

Ele a pegou de surpresa.

— Eu? Outro dia... — Click! Ele disparou a câmera

— Pronto, com essa não esqueço mais o seu rosto, nem o seu nome, palavra de escoteiro. Helen — ele hesitou —, queria falar com você sobre ontem. Na verdade, quero pedir desculpas. Não me leve a mal, mas às vezes tudo fica muito confuso na minha cabeça. Não sei explicar.

— Matheus, não precisa se justificar. — Essa conversa a estava deixando nervosa.

— Me deixe terminar. — Ele respirou fundo, como se tomasse coragem para continuar — Quando estou perto de você, tem algo que me puxa e eu faço essas bobagens de macho alfa. Não consigo raciocinar direito quando está perto de mim. Você mexe comigo de um jeito que não consigo explicar, e fica cada dia mais difícil controlar tudo isso — Ele falou rápido, como se tivesse medo de esquecer tudo aquilo de uma hora para outra.

Talvez, se ela ficasse ali, imóvel, não acordaria daquele sonho.

Ele se aproximou, tocou no rosto dela e ficou observando a pele ficar rosada.

— Matheus, você sabe o que está falando? — ela balbuciou com a voz trêmula.

— Claro que sei. Por que brincaria com algo assim? — perguntou, se aproximando cada vez mais dela — Talvez não seja o que você espera, talvez seja complicado demais. Acho que me apaixonei por você, não me pergunte como ou por que. Sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas é uma coisa que parece que sempre esteve aqui, guardada, esperando você chegar e preencher o vazio que venho sentindo todos esses anos.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas, sentindo a respiração dele acariciar os seus lábios. Perdeu a fala e um sorriso bobo brincou em sua boca. Ele tocou seu rosto, fazendo com que ela mergulhasse no oceano de seus olhos. Matheus sabia que havia algo mágico entre eles. Quando se aproximavam, as faíscas eram quase visíveis. Ele colocou a mão entre as madeixas ruivas e sedosas. Tinha se apaixonado por Helen e precisava daquela confusão de sentimentos que ela lhe causava.

Os lábios se tocaram, comprovando a verdade de suas palavras, e já não lembrava mais do motivo de sua indecisão.

Tudo isso é real, Helen pensou. Havia esperado tanto tempo por aquele momento, que foi quase impossível acreditar que estava acontecendo. Ambos se deixaram levar pelo sentimento que os envolvia.

— Helen, não me sinto preparado para essa explosão que acontece quando estamos juntos — ele disse após o longo beijo — Essa coisa de sentimentos me confunde, e sempre acabo enfiando os pés pelas mãos. — Apesar de as palavras expressarem o que acreditava, o que ele desejava era estar perto dela.

Ainda totalmente enfeitiçada pelo beijo dele, ela mal escutava o que estava dizendo. Procurava reorganizar seus pensamentos, entender o que ele havia acabado de lhe falar. Depois de um longo momento, finalmente encontrou o que dizer.

— Por quê? — demandou saber. Sim, precisava saber o motivo, ela tinha certeza de que conseguira reacender a chama que havia se apagado anos antes.

— Minha vida é uma bagunça, talvez não queira fazer parte disso. Prometi a mim mesmo que não existiria nenhuma mulher na minha vida além da minha filha e da minha irmã. Há muitas coisas sobre mim que você não sabe, talvez não consiga lidar com isso. São muitas pontas soltas na minha vida. Preciso fechar esse ciclo para começar algo novo.

Ele se afastou dela por um momento para encará-la.

— E seu eu quiser fazer parte disso? — Helen percebeu que não estava disposta a esperar uma eternidade até que ele se lembrasse dela. Claro que a reação dele a pegou de surpresa, e tinha todas aquelas velhas e novas emoções que a invadiam. Era uma mistura de felicidade e medo. Suas mãos suavam, suas pernas tremiam. — Ninguém está realmente preparado para algo até experimentar de verdade. Estamos indo rápido demais? Claro! Quem sabe não podemos unir essas pontas soltas juntos?

Helen não queria despejar tudo em cima dele. Alguma coisa lhe dizia que isso não seria certo. Conduzi-lo secretamente nessa busca pelo seu passado seria o mais correto; deixar que ele descobrisse sozinho e tomasse a decisão que considerasse melhor. Apesar do risco de perdê-lo mais uma vez, ela faria cada momento ao lado dele valer a pena.

— Sério? Tem certeza de que quer isso? Eu sou um pacote completo de problemas. — Matheus tinha consciência de que precisava dela na sua vida quase como precisava do ar para respirar, porém não queria envolvê-la aos seus assuntos inacabados.

Ele tocou aquele rosto feminino calmamente, contornando a linha da boca ponderando suas opções. Por fim, perguntou novamente:

— É isso o que você quer?

— Sim, é isso que quero. — A convicção na voz dela também estava estampada em seus os olhos e Matheus não queria pensar muito. Parecia que uma força maior queria juntar os dois e ambos pareciam não querer lutar contra o que sentiam.

Matheus a envolveu em um abraço forte. Era como se suas vidas dependessem totalmente daquele momento, o que, de certa forma, tinha seu fundo de verdade. Ele tinha a sensação que de alguma forma se reencontraram. Em todo esse tempo, muitas vezes as coisas em sua vida não faziam sentido, porém tê-la em seus braços era algo perfeito. Não restavam dúvidas de que lá era onde ela pertencia. Todo o seu corpo se acendeu com a proximidade. Todos aqueles sentimentos conflituosos brigando por um espaço que nem sabia existir dentro dele. Ela estava ali e, por hora, nada mais importava.

Helen afastou-se por um instante e o fitou. Matheus a olhava como se realmente pudesse ler sua alma. Ele tocou seu rosto e a puxou para mais perto. Ela lhe sorriu, fechou os olhos e sentiu os lábios dele tocando os seus suavemente. Não havia urgência, ele só queria senti-la e ter certeza que realmente pertenciam um ao outro.

O coração dela nascera reservado para o dele e ninguém poderia mudar isso.