O Tempo Não Apaga
Capítulo 19
— Morena, me desculpe — Matheus disse assim que ambas entraram no quarto com médico. Helen ficou petrificada. Ele a chamava assim anos antes de toda essa confusão — Eu sei que prometi a você que não iria mais fazer manobras radicais naquela droga de moto.
Samantha trocou olhares confusos com ela.
— Que moto, Matheus? Você nem anda de moto. Você bateu a cabeça e caiu na beira da piscina em nosso prédio — a irmã o explicou o ocorrido.
— Quem é você? — A confusão era nítida no olhar dele.
— Sou eu, Samantha, sua irmã.
Matheus sorriu e sentiu uma pontada aguda de dor em sua cabeça.
— Não tenho uma irmã, mas com certeza tenho uma moto. Quem é ela, Helen? Você a conhece?
Helen não fazia ideia do que dizer a ele e buscou refúgio na cunhada.
— Sou Samantha, vizinha de Helen — Samantha pensou rápido, já estava habituada a lidar com esse tipo de situação, apesar de nunca ter acontecido dessa forma antes.
— Ser amiga da minha noiva, tudo bem. Afirmar ser minha irmã, isso foi muito esquisito, garota.
Aquilo foi estranho. Helen estava chocada com o que via e ouvia. Ninguém poderia imaginar que haveria uma remota chance dele se lembrar.
— Você poderia nos dar licença, Samantha? Preciso conversar com meu paciente. — Ela notou a confusão por trás do olhar imponente do médico.
A mulher deixou o quarto com o choro entalado na garganta e foi para a sala de espera. Por favor, meu Deus, de novo não.
— Ei, cara. Você não é o Vinicius, irmão de Tatiana?
O médico encarou a amiga encabulado. E escreveu na prancheta.
Você me deve explicações. Ela leu e concordou com o olhar.
— Matheus, quanto tempo cara. — Vinicius estendeu a mão para o paciente/amigo.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? Por que estão me olhando como se fosse um extraterrestre?
— Cara, você sofreu um pequeno acidente. Não foi nada grave. — O médico decidiu acabar com a agonia.
— Ah, mas isso já percebi. Como isso explica vocês estarem com esse olhar esquisito? Será que fiquei com o rosto desfigurado? Por que não estou sentindo dor alguma, Vinicius?
— Calma, cara. Você sofreu um acidente, mas não foi de moto. Você teve uma convulsão, bateu a cabeça e caiu desacordado na beira da piscina. Teve uma leve contusão, mas já fizemos o curativo. Estava muito agitado e nós tivemos que sedá-lo.
— Vinicius, é uma bela história. Pode me explicar porque não me lembro disso?
— Qual a última coisa que lembra antes de acordar aqui?
— Me lembro de estar pilotando a moto. Um cachorro passou na frente. Tentei frear, mas não consegui e acabei caindo.
— Helen pode falar com você um momento?
Matheus não entendeu, mas viu os dois saírem do quarto enquanto conversavam em um tom inaudível.
— Por que não me avisou que tinha chegado Vinicius?
— Desculpe, ruiva. Cheguei ontem à noite e hibernei quase o dia todo. O Dr. Marcos me pediu para cobrir o plantão dele. Você sabe como adoro esse hospital. Eu só começaria a trabalhar amanhã, um dia a mais um dia a menos, para mim tanto faz. Pode me explicar o que está acontecendo? — ele não deu chances para Helen perguntar mais coisas sobre seu retorno e exigiu saber o que se passou durante sua ausência.
— Me explique você, que é o médico. Não me diga que esses seis meses fora te fizeram esquecer que sou apenas uma simples biomédica?
— O Matheus não estava sumido, ou fugido, sei lá o que? Pode me explicar o motivo dele estar aqui com você? Tem alguma coisa que precise me contar? Como médico dele, e seu amigo, preciso entender o que está acontecendo. Esse acidente que ele lembra aconteceu mesmo? E quem é aquela maluca sentada na recepção?
— Ok. São muitas perguntas, vou tentar responder todas elas.
Explicou, resumidamente, o que ocorreu nas últimas semanas.
— Por último, estou aqui por conta do acidente que você já sabe. Ele não se lembrava de mim, mas de alguma forma, se apaixonou novamente. Embarcamos em um novo relacionamento. Pronto, falei!
— Minha cara Helen, de que drama hollywoodiano a senhorita tirou essa história maluca? Isso é mais do que posso aguentar — ele brincou, jogando-se na cadeira ao lado da porta — Difícil acreditar, mas estou tentando entender. Vamos aos fatos. Como seu amigo, só posso dizer que estou passado com essa história maluca. Você e essa sua mania de se meter em confusão. — O sorriso dele a acalmou. Vinícius tinha um jeito peculiar de fazer isso. — Como neurologista, o que posso te dizer sobre meu paciente, depois dessa história mirabolante, é que Matheus, com certeza, foi diagnosticado com amnésia retrograda, onde o paciente perde as memórias de determinada época da sua vida. Sabe me dizer se aconteceu algo? Se ele teve alguma emoção intensa nos últimos dias?
— Houve uma coisa. Ele me procurou hoje me fez inúmeras perguntas, mas não pude responder todas. Percebeu que eu o conhecia há mais tempo do que ele julgava. O deixei sozinho, me dói ficar mentindo para ele. Acho que, de alguma forma, ele preencheu as lacunas e descobriu a verdade sobre quem fui na vida dele.
— Ok. E quando pretendia me contar isso? — inqueriu.
— Esperei pela oportunidade certa. Ah, Vinicius, eu me sinto tão culpada por isso. Se meus sentimentos não fossem tão transparentes...
— Não se culpe, Helen. O que aconteceu foi por causa do estresse emocional, das emoções intensas e, claro, a batida na cabeça. Ele está em um estado de confusão mental e ficará sob observação. Não pretendo correr riscos.
Helen estava a ponto de se desmanchar em lágrimas quando Vinicius a abraçou.
— Ei, não se preocupe! Estou aqui. — Ele passou a mão pelos cabelos dela — Vai ficar tudo bem. Agora vai lá e converse com ele, mas explique devagar para não o assustar. Preciso ir, a garota histérica lá fora precisa de explicações.
Ela entrou no quarto e notou que alguma coisa estava errada com Matheus. O chamou, mas não obteve resposta. O olhar dele estava perdido. E, no minuto seguinte, todo o corpo dele pareceu entrar em colapso, se contorcendo sobre a cama. Os aparelhos conectados ao seu corpo começaram a soar em uníssono e Helen gritou em desespero. A partir de então, tudo aconteceu como se estivesse em uma experiência extracorpórea. As enfermeiras correndo ao lado da maca, Vinicius a tirando do caminho, Samantha chorando em pânico.
Não, ele não podia deixá-la outra vez.
***
— O que vamos dizer quando ele acordar, Helen?
— Sinceramente não sei, Samantha. Estou com medo. Vinicius disse que vai ficar tudo bem, mas ele é meu amigo e talvez só esteja me preparando para o pior. Achei que Matheus estava morrendo. Eu não posso perdê-lo outra vez. — Sam apertou a mão de Helen em sinal de solidariedade. Ambas estavam tomadas pelo mesmo medo. — Eles o sedaram novamente. Melhor descansar antes de saber qualquer coisa. E eu não posso fazer isso sem você, Sam. Por mais que me doa admitir, ele não é mais o mesmo de antes.
— Me desculpe por tudo. Sei que fui egoísta e uma completa idiota escondendo as coisas dele — Samantha confessou, limpando as lagrimas que teimavam em cair — Até agora, eu interferi na vida dele sem pensar nas consequências. Não estou preparada para enfrentar isso sozinha. De todas as coisas que passamos juntos, não sei se consigo passar por isso novamente.
Ela parou de falar por um momento e deixou o choro tomar conta. Helen continuava segurando sua mão, mas ela não faria mais isso quando souber toda a verdade. Assim como Matheus, também irá odiá-la.
— Sinto uma dor rasgando meu peito. Sei que fiz as escolhas erradas no passado. Vocês nunca me perdoarão por isso. Você não sabe e ele não se lembra do motivo real que o fez ir até meu pai — ela tentou sufocar o soluço — Eu prometi que ninguém iria saber o que havia acontecido de verdade. Meu pai estava com um câncer em fase terminal quando me revelou a existência de Matheus e me fez um pedido que eu não poderia recusar a um moribundo. Queria conhecer o filho que abandonou, quem sabe pedir perdão. Isso é outra coisa que nunca vou descobrir. Para mim, tudo soava como traição. Embora minha mãe não estivesse mais viva, aquilo me incomodou bastante. Odiava esse irmão que nem conhecia. Desejei a sua morte inúmeras vezes.
— Samantha o que você...? — Helen soltou a mão da outra e a olhou com espanto.
— Me deixe terminar. O procurei, mesmo contra a minha vontade. Tivemos uma discussão feia e ele foi inflexível. Tinha uma carreira promissora nessa cidade, estava prestes a se casar... O passado não importava para ele e meu pai só trouxera desgraças a sua vida. Não pretendia vê-lo, mesmo que estivesse morrendo. Isso despertou uma fúria em mim e o confrontei. — Esfregava as mãos, denunciando seu nervosismo, enquanto Helen se assustava com o rumo que a conversa tomava — Matheus viria encontrar meu pai nem que fosse arrastado. Sei o que está pensando. Sim, sou uma mulher decidida. Se quero alguma coisa, eu consigo. Meu pai era a única pessoa que tinha na vida, e aquele rapaz idiota se recusava a atender um último pedido de um velho cansado. Agi inconsequentemente. Contratei uns caras e o sequestrei. Se não fosse por bem, então seria assim.
— Não acredito que você foi capaz disso. Sabia sobre mim? — Helen sentiu o estomago revirar quando Samantha confirmou com um aceno em meio ao choro — Conhecia a nossa história e ainda assim mentiu para ele depois do acidente?
— Sinto muito, me perdoe — implorou. Helen estava imóvel ao seu lado — Eu tenho que tirar isso do meu peito. Sinto que vou explodir se não falar. Tudo deu tão errado... Meu pai piorou e tive que voltar às pressas para casa. Os caras doparam Matheus e o levaram à força. No caminho, se envolveram em um grave acidente. Ambos morreram, apenas meu irmão sobreviveu — Helen estava em choque. Quantas mentiras mais Sam tinha contado aos dois? — Meu pai faleceu e Matheus sumiu do mapa. Fiquei sozinha com esse problema nas costas. Quando o encontrei, me senti extremamente culpada. Precisava reparar o meu erro. Percebi muito tarde que tinha ido longe demais, apenas porque não o aceitava. Vê-lo fragilizado mudou tudo. Ele era a única família que me restava e me agarrei a ele como uma tábua de salvação. Um dia, ele acordou sem lembrar absolutamente nada, e tomei a decisão pela qual me arrependo todos os dias desde que cheguei nessa maldita cidade e conheci você pessoalmente. Apaguei a vida que ele tinha aqui, te apaguei das memorias dele. — Helen não conseguia encará-la. Jamais a perdoaria. — Por favor, me perdoe. Estava desesperada.
Aquela mulher merecia todo o ódio que Helen sentia. Ela não era tão inocente quanto havia se mostrado. Então, tudo tinha sido intencional, todo seu sofrimento com a perda do homem que amava, o ódio que sentira dele... Samantha simplesmente destruiu a vida de Helen e apagou o amor da vida de Matheus, se valendo de uma doença da qual era culpada.
— Você foi perversa. Lembra quando eu disse que talvez te perdoasse um dia? Esqueça! Samantha, você merece ser esquecida por ele. Tem que sentir a dor insuportável que sofri todos esses anos. A única diferença é que você saberá exatamente onde ele está. Toda ação tem uma reação, e nada justifica o que você fez com ele, com a gente. Se você não quiser que eu te arraste para fora desse hospital, suma da minha frente AGORA.
Ela viu o desespero nos olhos da mulher à sua frente. Por ora, essa seria sua decisão. Em questão de minutos, tudo havia ficado de pernas para o ar. Encontrava-se em um emaranhado de mentiras. Helen ainda não tinha certeza do que diria a Matheus, mas tinha que dar um jeito. Apesar de tudo, existia uma verdade que sobressaia: o amor que os unia. Não o abandonaria, não o deixaria ir. Desta vez, estaria ao seu lado mesmo que o mundo desabasse sobre suas cabeças.
— Tudo bem, apesar de não confiar mais em mim, eu confio em você, Helen. Sei que fará a coisa certa. Não deixe que nossas diferenças afetem suas certezas.
— Samantha, por favor, me poupe.
— Tudo bem — rendeu-se, por fim — Vou embora. Por favor, me mantenha informada. É do meu irmão que estamos falando. Eu o amo e me preocupo com ele — foram suas últimas palavras antes de partir, visivelmente exausta. Os fantasmas do seu passado estavam de volta e não teria como escapar deles.
Andou vacilante para o estacionamento, entrou no carro e se entregou ao desespero que sentia. Perder o irmão seria um preço alto demais.
Helen sentou-se ao fundo da sala de espera e deixou que as lágrimas viessem. A dor era dilacerante. Sentiu todo o seu corpo tremer e a vontade que tinha era de gritar.
Não queria acreditar que todos os seus sonhos tinham sido destruídos por causa dos caprichos de uma garota tola. Não queria acreditar que o homem que amava estava naquele hospital, lembrando-se da vida que haviam tido antes de tudo acontecer. Era o que ela mais havia desejado nas últimas semanas. Só que, agora, não sabia lidar com tudo que estava acontecendo.
O desespero e o medo a dominavam, e apenas uma pergunta se formara em sua cabeça: como faria isso dar certo? Os acontecimentos a tinham deixado exausta. Estava desgastada emocionalmente. Era madrugada e, depois de muito tempo chorando, foi vencida pelo cansaço.