O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 11 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 10

 

Matheus estava em uma praia com a moça de olhos castanho-dourado. A lua cheia iluminava a noite, e tinha uma sensação de déjà vu. Por mais que tentasse, não conseguia se lembrado nome dela.

O aroma tentador o deixava sem ar. Estava deitado em seu colo e tinha um ímpeto de beija-la até não poder mais. A proximidade o deixava inquieto e o desejo de tê-la para si apenas aumentava; não pode resistir. E a sensação ao tocar sua pele e sentir seus lábios macios o trouxe a lembrança de Helen. Abriu os olhos e foi invadido pelo olhar intenso da mulher! Aquilo não poderia ser possível, o rosto era o mesmo, apenas mais jovem e com cabelos castanhos.

Como seria possível que aquela mulher fosse Helen?

O desejo, o beijo, o perfume, o que sentia... Tudo era o mesmo que sentia com a vizinha. E ele soube que a amava. Não se tratava de um sentimento novo, mas sim de uma chama que esteve apagada por muito tempo e se reacendia, consumindo todo seu ser.

— Eu amo você — disse num sussurro com a cabeça enterrada no pescoço dela, inalando o perfume doce que lhe invadia os pulmões e o deixava tonto. Enquanto uma mão percorria a maciez dos cabelos dela, a outra a trazia para mais perto. Ele ouvia o descompasso do próprio coração. Fez uma trilha de pequenos beijos caminhando em direção aos lábios dela, parando algumas vezes para gravar as sensações. Não tinha muito controle sobre si mesmo estando com ela em seus braços. Seus lábios se tocaram devagar, com as mãos dela puxando para mais perto tentando diminuir uma distância que nem sequer existia.

— Por quê? — Helen disse ofegante afastando-se dele.

— Eu te amo e não sei ao certo o porquê. Muito menos como. — Não sabia de onde vinha todo a aquele sentimento, mas explicava de forma exata o que sentia naquele momento. — Apenas te amo sem maiores explicações — declarou, acariciando o rosto dela que tinha os olhos marejados. A beijou novamente e sentiu-se enfeitiçado por aquela mulher. Amava-a muito, além da própria vida.

— Matheus... — Ela se afastou novamente, tocando o rosto dele. — Me prometa uma coisa?

— Qualquer coisa — afirmou, encostando a testa na dela com os olhos ainda fechados.

— Prometa que não vai me abandonar nunca mais?

Sentiu a dor de um soco no estômago. Formulava a resposta quando escutou alguém gritar seu nome.

— Matheus, o que é que você ainda está fazendo aqui? Cadê a Olivia? Eu não posso acreditar que você não foi buscá-la. — Abriu os olhos e Samantha estava em pé diante da cama dele.

— Ah, me desculpe — disse assim que notou a cara de brava da irmã — Eu estava tão cansado e acho que apaguei. — Foi então que recordou que precisava buscá-la na casa da babá, que era sua vizinha.

— Onde esteve a tarde toda? Te liguei várias vezes e você não atendeu. — Ela ficava possessa sempre que tentava falar com ele e não conseguia. — Um dia, ainda quebro essa porcaria de celular. Falei para você que a Marly ia sair. Ela acabou tendo que levar Olivia, sabe por quê? Porque o pai dela estava tirando uma soneca. Ah, Matheus, faça-me o favor.

— Ei, calma. Vou buscá-la agora, ok? Eu posso não faz era mínima ideia de onde anda meu celular, mas tenho certeza de que não sou a única razão para você estar com os nervos à flor da pele. Então, por favor, me diga o motivo pelo qual estou aqui, ainda tonto de sono, ouvindo a senhorita gritar comigo? — Sua irmã estava histérica. Com certeza tinha acontecido algo, que não envolvia ele ou a filha, para deixá-la tão chateada daquele jeito.

— Me desculpe— ela falou, e riu, ao perceber o estardalhaço que havia feito — É que eu quase bati o meu carro agora pouco. Discuti com um idiota no trânsito. Quando entrei aqui em casa, não vi a minha sobrinha e te encontrei dormindo, fiquei louca.

— Relaxa, Sam. Vá tomar um banho, deite um pouco. Eu vou colocar uma roupa e buscar minha filha, mas fica calma — começou a sorrir e fingiu estar com raiva — Senão, quem vai ficar louco sou eu.

— Engraçadinho — ela deu um sorrisinho tímido -Tudo bem, mas vê se não demora, viu? Já passa das seis da tarde, está anoitecendo e sua filha está na rua — disse com tom de reprovação — Antes que me esqueça, amanhã a Helen nos convidou para jantar com alguns amigos dela. Eu disse que iríamos. Ah, e nem adianta você dizer que não vai. Você precisa conhecer pessoas novas. Outra coisa, acho bom você começar a usar sua câmera, porque sua cabeça está pouco confiável ultimamente.

— Quem é Helen? — Matheus disse, um pouco confuso, sacudindo a cabeça e tentando, em vão, se lembrar do rosto da pessoa que Sam acabara de citar.

— A vizinha. Aquela do secador lembra?

Ele riu para si mesmo. Que porcaria de cabeça eu tenho!

Sam saiu do quarto e Matheus ficou pensando na vizinha e em seu convite. Tinha que ser sincero com sigo mesmo, apesar de não se lembrar do rosto dela, sabia que a mulher mexia muito com ele. Talvez, não devesse pensar nela desse jeito, ainda mais depois de descobrir que provavelmente ainda amava uma ex-namorada, por ora desconhecida. Apesar do impasse, lembrou-se dela, da noite anterior, do beijo, da confusão de sentimentos que sentiu e da maneira como seus olhos âmbar o fitaram. O sorriso dela fazia o mundo de Matheus parar por alguns instantes. Desejou vê-la novamente.

Resolveu tomar uma chuveirada, precisava relaxar um pouco antes de buscar a filha. Então, se lembrou do sonho que lhe parecera tão real, mas agora era como um borrão que foi se apagando conforme a água lavava seu corpo. Todos os acontecimentos da tarde lhe deixaram ainda mais confuso.

***

Helen não parava de pensar em Matheus e nos beijos que a pegaram de surpresa. Não eram as mesmas sensações de antes. Tudo acontecia de forma intensa, pondo em questão o fato de ele não se lembrar dela, pois, a partir do momento que a tocava, um fogo avassalador parecia lhe invadir. Ela podia sentir como se de alguma forma ele soubesse quem ela era, como se os anos separados tivesse ampliado tudo o que ele sentira antes, como se o corpo se lembrasse das sensações que o cérebro apagou.

Ficou rolando na cama muito tempo pensando sobre o que mais Samantha poderia ter escondido dele. Que história maluca era aquela de que o ex-noivo estava indo embora para casa do pai quando o acidente aconteceu sem nem ao menos conhecê-lo? Ela mesma havia dito que ele não aceitou bem a ideia de conhecê-los. Helen sabia que, no fundo, a outra mulher só queria protegê-lo, da maneira errada, claro. Teria que conversar a respeito com sua “ex-quase-cunhada”.

Finalmente dormiu e quando acordou estava bem-disposta para ir ao trabalho. Passavam-se das três da tarde quando recebeu uma ligação de Tatiana.

— Amiga, eu e Lucas tivemos uma ideia não sei se você vai gostar — ela estava eufórica.

— Que ideia mirabolante vocês tiveram agora? Eu acho que aguento qualquer coisa.

— Que tal uma reunião na sua casa no sábado à noite? Apenas nós, o Fernando... E você convida a tal da Samantha e o Matheus com a filha para que possamos conhecer melhor os seus novos vizinhos. — Não podia esperar menos de Tatiana, pensou Helen.

— Eu posso saber qual o objetivo dessa visita a minha casa, com direito a ex-marido e ex-noivo, todos juntos como uma grande família?

— Ah, qual é, Helen? Só achamos que seria bom ver o Matheus de novo e a única pessoa que pode nos ajudar a fazer isso sem deixá-lo em choque é você. Prometo que vamos nos comportar direitinho. E ai, o que acha?

— Eu acho que você e seu marido estão ficando malucos. Como irei colocar o Matheus frente a frente com pessoas que já o conhecem, mas fingindo o contrário? Não sei... Antes preciso conversar com a Samantha.

— Uma droga o Vini não estar aqui. Aquele bobão faz uma falta... Sempre conseguiu te convencer a fazer qualquer tipo de bobagem — ela relembra.

— Confessa que está com saudade do seu irmão, Tati — Helen diz, rindo da amiga — Mas ele realmente faz muita falta. Ah! Já ia me esquecendo de um pequeno detalhe. Talvez Matheus não queira vir a minha casa.

— Por que isso agora? — perguntou a amiga, já impaciente.

— Ele me... Beijou novamente ontem!

— Que história é essa? Você não disse que ele tinha ficado ruim da cabeça e não fazia a mínima ideia de quem você era? — Tatiana disparou, evidentemente confusa.

— E falei a verdade, mas ontem ele veio até a minha casa buscar uma coisa para a Sam e entre uma conversa e outra acabou me beijando. E não foi um beijo qualquer. Foi uma coisa de sentimentos, desejo, sei lá. Só sei que, no final, ele saiu de repente sem olhar para trás, me deixando sem chão. E tem mais. Também viu o anel e não deu sinais de que se recordava de qualquer coisa. Achou que eu estava noiva.

— Nossa, que maluquice. O que disse a ele?

— Que não, que foi apenas uma boa lembrança. Tive a impressão de que ele estava com ciúmes de mim, mas foi só uma ideia que me ocorreu. Já te contei sobre as cicatrizes dele?

— Não! Que cicatrizes são essas? — Tatiana quis saber.

— Acho que são do acidente, amiga. Ele fica tão irresistível com elas — Helen suspirou.

— Ah tá. Agora, me diga por que um homem não iria à casa da mulher que agarra descaradamente todas as vezes que estão sozinhos?

— Sua doida, ele está diferente. Sei lá, mais maduro, mais intenso. Ele me intimida, faz as coisas sem pensar nas consequências. Me deixa plantada e vai embora sem olhar para trás, como se não fosse nada de mais me beijar — Helen confessou, pensativa — Talvez ele simplesmente não queira ir a minha casa.

— Parece que alguém tá caidinha pelo ex-noivo de novo... Só não entendi o porquê de você ter que falar com a sua cunhadinha. Ela já é sua amiguinha, não é? — Os diminutivos usados pela amiga eram, certamente, intencionais.

— Pare de ser ciumenta, Tati. Ela é super protetora e talvez ache que não deva ir. Por causa disso, preciso saber primeiro.

— Está bem, fale até com o Papa, contanto que amanhã estejamos todos juntos como nos velhos tempos. Tirando a Samantha, e sem o paspalho do meu irmão. — Podia visualizar a careta que a amiga fez ao dizer o nome da irmã de Matheus.

Tinha certeza de que Tatiana e Lucas estavam aprontando alguma. Teria que ficar de olhos bem abertos. Procurou o número da irmã de Matheus em sua agenda e discou os números. Ao contrário do que pensou, Samantha achou a ideia ótima. Helen ligou de volta para a amiga com a boa notícia.

— E então, o que a senhorita super protetora disse? — Questionou ansiosa.

— Que... — criou uma pausa de suspense — É uma ótima ideia!

— Ah, agora estou começando a achar que vou adorar conhecer essa sua nova amiguinha.

— Para de bancar a chata, Tati, e me conte o que faremos, então, amanhã.

— Nós podíamos assistir a um filme, comer aquela lasanha maravilhosa que você faz e jogar conversa fora. O que acha?

— Sabia! Por que não disse logo que queria comer minha lasanha? — Tatiana adorava a comida de Helen e inventava qualquer desculpa para fazê-la cozinhar.

— Está bem, admito. O que você acha da ideia?

— Sei lá, só um frio na barriga. — Só de pensar na situação, ela já ficava apreensiva.

— Para de ser boba — zangou Tatiana — Ninguém vai falar a verdade para ele.

— E se ele reconhecer alguém e ficar confuso? Infelizmente, não temos como saber se vai dar certo.

— Pare já com isso, Helen — a amiga ralhou mais uma vez — Ele é bem grandinho e já tem uma babá, que por sinal não vê problemas com o convite. — Enquanto Tati não conhecesse Sam, ela ficaria com o pé atrás e não confiaria na mulher. — Ah, você tem que ligar para Fernando. Além disso, tem que escolher uns filmes bons na Netflix para gente não perdermos tempo.

Depois de desligar o telefone, passou um longo tempo pensando no encontro do dia seguinte. Por que se preocupava tanto? Se ele reconhecesse alguém, seria até bom. Percebeu que todo o seu medo se devia a um único motivo: e se, de repente, ele se recordasse de tudo? Será que estaria preparada para isso? Será que teria coragem de assumir que ainda o amava?

Passou no supermercado depois do trabalho para fazer umas compras. Encontrou sua vizinha, Marly, no estacionamento com as duas filhas e a garotinha filha do ex-noivo.

— Quando você vai me levar para brincar com aquela garota, Helen? — A pequenina disse, rodopiando em volta dela.

— Que tal amanhã à tarde? — Sugeriu.

— Acho que você tem que falar com o papai.

Olivia ficou com Helen enquanto Marly fazia suas compras e monitorava as duas filhas. Não demorou muito para que a pequena se sentisse à vontade e começasse a tagarelar, contando-lhe sobre a escola, a aula de balé, natação, os coleguinhas, a professora e sua família. Era uma garotinha muito esperta e inteligente. Sentiu uma onda de carinho por Olivia, que a cativava a cada palavra. Na volta, cismou de ir com a nova amiga e, quando chegou ao condomínio, Helen subiu, equilibrando suas compras e a menina em seus braços, para deixá-la na casa da vizinha.

— Papai! — A menina gritou antes de entrarem no apartamento de Marly, sacudindo-se para ser colocada no chão. Então os olhos de Helen encontraram os de Matheus, que acabara de sair do elevador e observava atentamente a cena entre a ela e a filha.

— Oi, princesa — disse, pegando-a no colo — Boa noite, Marly. Desculpe-me pela demora. Dormi e acabei perdendo a hora.

— Sem problemas, a Olivia não dá trabalho algum. E então, vamos entrar? Vocês já se conhecem, não é mesmo?

— Helen... — ele olhou para a mulher encantadora ao seu lado, aliviado por recordar-se do nome, e estendeu-lhe a mão — Nos conhecemos, sim. Boa noite, tudo bem com você?

— Tudo ótimo — muito melhor agora, ela pensou quando suas mãos se tocaram. O aroma amadeirado dele a deixou tonta.

— Papai, a Helen disse que vai me levar amanhã à tarde pra brincar com uma garota. Você deixa? — Olivia perguntou, fazendo beicinho.

— Me desculpe, Matheus, é que havia prometido para ela dias atrás e crianças não se esquecem das coisas. Até já conversei com Samantha. Tem algum problema? — Helen tentava se explicar, tocando um pingente que até agora ele não tinha notado, ou talvez simplesmente não se lembrava.

— Não. Se você já falou com a Sam, por mim tudo bem. — Impressionante a maneira como ela o deixava perturbado com pequenos gestos.

— Eba! Amanhã vou passear com a Helen! — A garotinha cantarolou, abraçando as pernas da vizinha. Matheus ficou surpreso ao ver o brilho nos olhos da filha. Tudo indicava que Helen, de alguma maneira, havia conquistado o carinho dela.