O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 10 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 9

 

Matheus acordou com a conhecida sensação de vazio. Ligou o som e começou a se organizar para tomar banho. Foi quando a música começou a tocar no rádio e o fez parar aquilo que estava fazendo para ouvi-la. Aquele vazio transformou-se em uma dor insuportável; recordou-se da noite anterior, da maneira como tinha beijado a vizinha, e por um instante teve a impressão de que aquele vazio poderia ser preenchido por ela.

Levou a filha para a aula e, ao voltar, o porteiro entregou-lhe a correspondência. Um envelope branco, apenas com seu nome impresso, chamou sua atenção. Ao abri-lo, notou que havia uma folha de papel colorida dobrada ao meio e nela também pôde ler o seu nome, só que agora em uma letra elegante. Na parte superior, a data mostrava ter sido escrito há exatos nove anos, mas o que surpreendeu foi o conteúdo escrito.

Sabemos que amor verdadeiro é algo raro e valioso, e muito difícil de encontrar, mas quando aparece logo reconhecemos. No meio de tanta gente nesse mundo, é complicado achar alguém que combine conosco, que encaixe. Quando encontramos, não podemos deixar escapar. Precisamos valorizar esse acontecimento e respeitar o amor acima de tudo.

Quando bati os olhos em você, senti algo diferente, algo que nunca havia sentido. De repente, me vi envolvida e apaixonada. Para minha felicidade, era recíproco. Há um ano que não nos desgrudamos, e posso dizer que, se depender de mim, não desgrudaremos jamais.

Meu amor, eu quero ter você para sempre em minha vida. Eu desejo que esse ano se multiplique até chegar ao infinito.

Neoqeav

H. Amor eterno...

Quem teria lhe enviado aquilo? Tentou, em vão, lembrar-se de já ter lido a carta alguma vez. Neoqeav, ele já tinha visto aquela palavra em algum lugar. Será que a carta tinha realmente sido escrita para ele? Droga, por que não conseguia saber de nada antes do acidente? Será que aquele vazio em seu peito se devia ao fato de ter amado a pessoa que tinha escrito aquelas palavras?

Aquela palavra o deixou com uma sensação estranha. Sua agenda estava aberta na página que havia lido na noite anterior sobre a palavra nas alianças. Talvez, tudo não passasse de uma grande coincidência, ou será que havia alguma ligação entre aquela carta e suas alianças? Achou pouco provável, ninguém esconderia algo tão importante dele. E se as peças que estava juntando provassem que realmente existia uma mulher em sua vida antes do acidente, quem seria ela? Sua irmã saberia da existência dela? Tantas perguntas e Matheus não fazia a menor ideia das respostas.

Tudo estava ficando muito confuso. Queria, de algum jeito, saber como foi a sua vida antes, e alguns fatos só confirmavam suas suspeitas de que havia perdido uma lembrança muito importante. Será que tinha mudado tanto assim que ninguém o reconhecia mais naquela cidade? Alguém devia saber quem era e por isso teria lhe enviado o envelope. Queria investigar sobre sua vida, mas não tinha ideia por onde começar. Talvez devesse ir ao seu antigo apartamento; quem sabe não encontraria algo que esclarecesse um pouco as coisas?

Depois de passar a manhã inteira procurando pela chave, Matheus tomou a decisão de ir até lá. Aproveitou que a filha estava na aula de natação.

Estacionou o carro em frente ao prédio elegante de quatro andares que tinha alguns traços que lembravam muito seus próprios trabalhos. Apesar de saber que havia morado lá, estar ali não lhe trazia lembrança alguma. Hesitou por um breve instante e por fim entrou na portaria, um espaço simples, porém bem elaborado.

— Boa tarde. — Só então notou o porteiro do prédio. — Posso ajudar?

— Boa tarde, acho que sim. É que tenho um apartamento nesse prédio, e ele não é utilizado há alguns anos, e não sei ao certo onde fica — Matheus disse, pegando as chaves e olhando o número gravado na pequena placa de metal — É o de número vinte e cinco.

— Desculpe, sou novo aqui. Aguarde um momento que vou verificar — o homem requisitou, voltando-se para o computador — Terceiro andar, à esquerda.

Matheus seguiu apreensivo. Quando chegou à porta do apartamento, precisou de alguns momentos antes de abri-la.

De início, não viu nada que prendesse sua atenção. Tudo estava coberto e muito limpo. Sua irmã realmente tomava conta dessas coisas. Contudo, a parede da sala de estar chamou sua atenção. Havia um enorme quadro coberto por um lençol branco. Até onde sabia, não costumava colecionar obras de arte. Puxou o tecido, prendeu a respiração e soltou-a lentamente. Que droga! Sim, era ele, em trajes de gala, bem mais novo e sem as cicatrizes, ao lado de uma linda mulher mascarada, também em trajes de gala, que espalmava a mão direita sobre o peito dele exibindo um anel magnifico em seu dedo anelar. Eles se olhavam de maneira tão intensa que Matheus quase podia tocar o sentimento através da foto. Não fazia a mínima ideia de quem poderia ser aquela mulher.

De alguma forma, ele conhecia aquele olhar, mas não conseguia reconhecer a garota. Aquilo o deixou paralisado momentaneamente, até perceber que havia uma marca d’agua na foto com seu nome. Ficou perplexo. Em algum momento da sua vida, fora um fotografo profissional!

Sim, provavelmente ainda amava aquela garota. Seu coração saltava descompassadamente no peito com a possibilidade de conhecê-la. Aquele anel... Já o tinha visto. Que porcaria de cabeça era a dele, não conseguia ao menos lembrar onde tinha visto aquela joia.

Tudo parecia fazer sentido agora. Aquela devia ser a importante parte perdida de sua vida. Em sua cabeça, formavam-se tantas perguntas, mas era impossível respondê-las. Sempre soube que tinha habilidades como fotógrafo, talvez lá no fundo também sempre soube da existência daquela mulher. Só não imaginara que fosse dessa forma. Claro que havia as alianças, que implicitamente indicavam que poderia ter alguém em sua vida antes de toda essa bagunça começar. Além disso, havia a carta que recebera mais cedo e a coincidência com vazio que sentia nos últimos anos, mas francamente não acreditava na possibilidade de amar alguém no passado. Só que aquela foto dizia o contrário. O olhar dele para ela deixava claro que estava completamente apaixonado e o sentimento era recíproco. O problema é que só se podia ver seu rosto parcialmente e aquilo o intrigou, pois desse modo não poderia saber de quem se tratava. Não com a cabeça pouco confiável dele. O que teria acontecido a ela?

Entrou no quarto e na cabeceira da cama havia uma frase que fez seu coração acelerar conforme a lia.

“Que o nosso amor pra sempre viva, minha dádiva, quero poder jurar que essa paixão jamais será... Palavras”. Neoqeav

Aquela... Aquela, com certeza, era a letra da música que o deixava com um aperto no peito. Um sentimento de culpa o fez pensar que parte dele tinha se perdido para sempre. Como poderia não fazer a mínima ideia de quem era aquela mulher? A euforia tomava todo o seu corpo. Precisava respirar um pouco de ar fresco. Dirigiu-se até a varanda, que escondia um pequeno jardim muito bem cuidado, com uma variedade de espécies de orquídeas. Até parecia que alguém tinha estado lá há pouco tempo. Sentou no banquinho de madeira, fechou os olhos e tentou organizar os pensamentos. Como era possível que alguém esquecesse uma vida inteira?

Então, ele viu uma palavra rabiscada em quase toda a superfície do banco.

— Neoqeav — disse para si mesmo — Acho que deveria me fazer lembrar algo.

Ele havia quebrado a promessa e nem ao menos sabia quem era aquela pessoa que lhe despertava aqueles sentimentos. Agora, os danos pareciam ter sido maiores do que havia imaginado. Voltou para a sala e pôs-se a admirar o quadro. Aquele anel... Por que o intrigava tanto? Alguém em algum lugar carregava aquele anel, e tinha a impressão de já tê-lo visto.

Agora tudo começava a fazer sentido. Há muito tempo desconfiava de que Samantha escondia algo importante sobre sua vida. Talvez devesse confrontá-la.

Mais tarde, em sua casa, Matheus pensava nos acontecimentos daquele dia. Estava exausto e desgastado emocionalmente. Tomou um banho e se deitou um pouco para descansar, mas não conseguia parar de pensar no que tinha encontrado naquele apartamento. Falaria com a irmã e tentaria esclarecer alguns pontos. Pegou seu caderno de anotações e começou a escrever sobre as descobertas do dia. Acabou adormecendo.