O Tempo Não Apaga
Capítulo 7
— Oi, boa noite — Matheus disse, ajustando os óculos e enfiando as mãos nos bolsos da calça — Sam me pediu para pegar alguma coisa aqui, ela te ligou?
Helen já havia esquecido a ligação de Samantha à tarde pedindo que lhe emprestasse seu secador de cabelos, porque o dela tinha pifado.
— Ah, claro. — Saiu da frente da porta, dando espaço para que ele passasse. Ficou sem graça por estar tão malvestida, ou melhor, tão pouco vestida compara a ele. — Entre, sente-se, fique à vontade. Vou buscar e já volto. — Intencionalmente, passou a mão em seus cabelos ruivos, afim de que notasse o anel em seu dedo.
Ao que tudo indicava o objetivo tinha sido alcançado com sucesso.
Matheus não sabia que a vizinha estava noiva, nem sabia se tinha visto o anel em seu dedo na última vez, mas não podia confiar em sua cabeça.
Talvez por isso, sentiu-se triste ao ver aquele anel. Ninguém disse que a mulher ia casar, ou será que havia esquecido? Estar perto dela o fazia se sentir vivo. Não podia imaginar o motivo, mas era muito bom vê-la de novo e sentir seu cheiro adocicado. Como ela sugeriu, sentou-se para esperar e, de repente, já estava imaginando como seria tê-la novamente em seus braços. Perto dela, era sempre difícil não perder o controle.
— Pronto, aqui está — a voz dela o tirou de seus devaneios.
Com um aceno de cabeça, pegou a sacola e continuou sentado olhando-a fixamente. Que mulher! Seus cabelos ruivos molhados caindo sob seus ombros desnudos era uma bela visão. Sabia que alguma coisa em seu rosto lhe parecia familiar.
Não conseguia lembrar o nome dela mais uma vez.
— Está gostando da cidade? — Helen puxou conversa.
— Bom, não sei se já disse isso a você, mas na verdade já morei aqui, apesar de não me lembrar. Estou gostando, sim. Achei a cidade um pouco agitada.
— Ah... Acho que já falou sobre isso, mas por que você não lembra? — Helen fingiu não saber o motivo.
— Sofri um acidente e perdi grande parte das minhas memórias — ele respondeu, pensativo — Isso foi há sete anos, e nunca consegui me recuperar.
— Sinto muito — Helen realmente sentia. O amava e poderia estar ao seu lado até hoje, não fosse o fato de Samantha preferir tomar as rédeas da situação. — Então você não sabe absolutamente nada sobre seu passado?
— Não. Pouquíssimas coisas, mas é muito aleatório. — Ela gelou ao ouvir a resposta. — Por exemplo: de conversas com uma mulher que suponho ser a minha mãe, só que não consigo vero rosto dela...São coisas assim, geralmente vem e vão.
— E a sua irmã? Não lhe contou sobre a sua vida por quê? — já que estavam conversando, aproveitou para tentar descobrir se Samantha havia dito a verdade para ele. E para ela.
— Acho que sabia muito pouco sobre mim. Somos filhos de mães diferentes, sabe?
— Ah, e você não tinha alguém antes disso, sei lá, uma namorada, amigos...
— Para ser sincero, não sei, mas provavelmente não! Samantha disse que estava indo embora da cidade e não tinha ninguém. — Helen ficou atônita ao ver até onde a irmã dele foi com as mentiras. Ele percebeu que a expressão dela havia mudado, assumindo uma nitidamente assustada e com um pouco de raiva. Ele sentiu que tinha falado demais, além disso, estava ficando tarde. A irmã devia estar preocupada. — Desculpe, mas tenho que ir.
Matheus levantou-se e caminhou até o hall de entrada. Helen o acompanhou. Estavam frente a frente, paralisados, e ele teve que admitir: a mulher era maravilhosa. Sentiu o aroma dela invadir suas narinas, seu corpo se acendeu, os olhos se encontraram e seu coração acelerou. Foi dominado pelo desejo de beijá-la novamente. Ele nunca mais ia parar de querê-la.
Helen estava em transe, presa naqueles olhos oceânicos. Matheus encurtou a distância entre eles, pressionando seu corpo contra o dela e a encostando contra a porta. O hálito quente dela acariciou seu rosto. Havia uma força que o puxava para aquela mulher, não conseguia, e nem queria, evitar.
Quando seus lábios se tocaram, ele sentiu uma corrente elétrica percorrer seu corpo. A envolveu em seus braços - em um abraço quente -, queria sentir o calor dela. Lembrou-se da promessa de que nunca iria amar alguém além da irmã e da filha. Pareceu-lhe tão boba agora.
A mulher se afastou de repente.
— Por que você faz isso? Me beija, me tira o chão? — A vizinha indagou, mas não parecia ser uma pergunta direcionada a ele. Estava confusa e com os olhos cheios de lágrimas.
— Desculpe — Matheus disse, porém sem arrependimento algum, fitando-a — É algo que não consigo explicar.
— O que você não consegue me explicar, Matheus? — Sentiu borboletas no estômago. Ele tinha que saber quem ela era para fazê-la sentir tudo aquilo. O modo como ele agia colocava em questão se ele realmente não se lembrava dela.
Levou a mão aos seus lábios e sorriu, confusa, para si mesma. Não podia acreditar que aquele homem — que amava tanto — a beijara novamente. Na verdade, mal podia acreditar que a desejava muito mais que antes.
— Essa coisa de beijar você, de não conseguir me afastar— Ele segurou o queixo dela com a mão, gentilmente, impedindo-a de olhar para qualquer outra coisa que não ele. — Acho melhor eu ir antes que faça algo que possa me arrepender depois — disse sem ao menos mover-se do lugar — Me desculpe novamente. Boa noite.
O que tinha na cabeça? Vento, provavelmente, ele pensou.
A mulher continuava encostada a porta com um sorriso bobo nos lábios que o deixava confuso.
— Você me deu boa noite e não saiu do lugar — Ela disse por fim destrancando a porta.
— Ah, isso. — Ele passou a mão pelos cabelos bagunçados, um tanto desconcertado. Quando se aproximou dele e sentiu seu cheiro novamente, foi tomado por sentimentos conflitantes. Quando ela estava prestes a fechar a porta, ele se lembrou de perguntar sobre o anel. Não era da sua conta, mas queria saber.
— Quando vai se casar? — disse de uma vez enquanto ela arregalava os enormes olhos castanhos.
— Casar? Eu?
— É, você tá usando um anel bem grande no dedo.
— Isso é apenas uma lembrança boa, mas não estou noiva — Helen estendeu a mão, ele segurou e acariciou a joia com um sorriso vitorioso nos lábios.
Ele conhecia aquele anel, de alguma maneira sabia seu significado. Por que uma pessoa o daria alguém sem a intenção de firmar um compromisso sério?
Saber que ela não estava em um relacionamento com outra pessoa o deixou mais tranquilo. A puxou para si, lhe acariciou os cabelos enquanto o olhar intenso dela encontrava o seu. Com a mão da mulher espalmada em seu peito, tomou aqueles lábios quentes novamente, devorando, consumindo em uma explosão de sentimentos que o faziam querer ficar ali para sempre, cativo dos seus beijos, rendido ao seu olhar.
Que diabos ele estava fazendo? Se afastou, nem conhecia aquela mulher. A viu uns pares de vezes, e já estava ali, se entregando aos seus instintos primitivos.
— Acho melhor eu ir. Boa noite — disse, virando-se sem olhar para trás, deixando-a em um estado de euforia e confusão.
***
Samantha, durante as últimas semanas, vinha se sentindo um tanto culpada. Tinha sido muito egoísta e não pensou bem nas consequências ao optar por apagar o passado de seu irmão. Passou todos aqueles anos imaginando como seria a mulher que o fez recusar seu convite de ir conhecer o pai. Sempre soube quem era ela, porque inúmeras vezes Matheus sussurrou seu nome quando estava em coma. Além disso, havia todas aquelas fotos espalhadas pelo apartamento dele, mas nunca imaginou que um dia ficaria frente a frente com Helen.
Não saber nada tornou as coisas bem difíceis no início, mas também contribuiu para que mentisse sobre fatos importantes. Fez coisas das quais se arrependeria pela eternidade, mas agora não tinha como voltar atrás em suas decisões idiotas tomadas no ápice da raiva. Provavelmente, seu irmão nunca a perdoaria pelo que fez, e seu coração doía só de pensar no que aconteceria se um dia ele descobrisse o que realmente aconteceu.
Descobriu uma prova de que ele tinha um grande motivo para voltar quando visitou o apartamento dele para buscar suas coisas. Eram muitas evidências de sua vida antes do acidente, além de porta-retratos espalhados por toda a casa. Quando se deu conta disso, Samantha tomou outra decisão pela qual se arrependeria para sempre. Jamais mencionaria essa parte do passado dele, jamais falaria sobre o que poderia significar aquela droga de caixinha de veludo. Simplesmente o entregou como parte de seus objetos pessoais e logo depois se arrependeu de não tê-la juntado aos demais objetos escondidos em seu velho baú.
Quando Helen contou sobre eles, por causa do sentimento de culpa, simplesmente acreditou em tudo sem se dar conta de que nada foi dito sobre um possível casamento. Quando tomou ciência do fato, quis duvidar de tudo. Tentou descobrir mais alguma coisa ao pedir a ela que lhe contasse mais sobre o que viveram. E a história realmente a convenceu, até porque a mulher não poderia mentir com tanta convicção, mas em nenhum momento havia mencionado a palavra casamento.
Fez muitas coisas das quais não se orgulhava. Havia uma longa lista, incluindo uma carta, enviada meses depois do acidente, em nome do irmão dispensando a noiva por motivos banais e que não foi mencionada em momento algum.
Na manhã seguinte, quando viu o anel na mão dela, sentiu-se um lixo. Conhecia aquele anel das fotos do apartamento dele. Como podia ter sido tão egoísta e ter pensado apenas em si mesma? Definitivamente, teria que arrumar uma maneira de consertar as coisas.