O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 7 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 6

 

 

Tudo aquilo só podia ser uma brincadeira do destino!

Helen estava em seu quarto com todas aquelas fotos espalhadas sobre sua cama. Em algumas delas, ele tinha feito questão de escrever no verso, e as palavras doíam muito agora. Tocou seu pingente em forma de coração e sentiu uma lágrima solitária molhar seu rosto. Foram muitas promessas quebradas, e a contida naquele pingente, em seu anel de noivado e em todas aquelas fotos a machucavam demais. Ela não queria esquecer o que viveram.

Tê-lo tão perto e tão longe se tornou uma tortura.

Depois de contar a Samantha o que aconteceu entre eles, sentia-se mais aliviada. Pelo menos conseguiu falar tudo sem surtar. Como poderia ser possível que alguém esquecesse completamente um amor de verdade? Isso não seria faltar com a promessa feita?

Havia apenas uma coisa de que tinha certeza desde a primeira vez em que o viu em seu prédio: o queria de volta em sua vida mais que qualquer outra coisa no mundo. Não podia deixar esta chance passar. Embora não soubesse de que maneira ela o conquistaria novamente, estava otimista.

Na manhã seguinte, antes de ir para o trabalho, retirou o anel de sua gaveta e o colocou em seu dedo. Estava decidida a fazer com que ele se lembrasse dela ou, até mesmo, reconquistá-lo se fosse preciso. Não havia muitas evidências sobre os dois, apenas as fotos, alguns amigos — que se lembrariam dele caso o vissem — e a aliança que ele usava mesmo sem lembrar o seu significado real.

Quando estava descendo para o trabalho, topou com Samantha no elevador e não pode deixar de notar seu olhar, que era um misto de espanto e surpresa, ao ver o anel no dedo de Helen. Imaginou que fosse uma mistura de surpresa e arrependimento, mas achou melhor não perguntar nada.

Encontrou-se com Tatiana na hora do almoço. A amiga era enfermeira e as duas trabalhavam juntas no mesmo hospital.

— Oi — Tatiana disse, tirando seu jaleco — Por que tenho a impressão que alguém está fugindo de mim, hein? O que foi? Por que está me ignorando há uma semana?

— Oi. Bom dia pra você também. — Helen estava tentando esconder sua euforia.

— Vamos pular essa parte, tudo bem? Iremos logo ao que interessa. Por que está me evitando? Podia ao menos ser mais discreta... — disparou, só agora percebendo a euforia da amiga — Ao menos posso saber por que está com esse olhar de quem achou a mina do tesouro? E por que está usando esse anel?

— Já que você não quer ir devagar, te cotarei de uma vez, mas tem que prometer que vai agir civilizadamente e não vai me interromper. E, aproposito, eu não estou te ignorando!

— Tudo bem, prometo que não vou interromper. — Tati parecia uma garotinha mimada que acabara de ser contrariada. — Ah, tenho uma surpresa pra você, mas só vou contar assim que disser o que está aprontando.

— Ele voltou mesmo.

— Ele quem, criatura? — Tatiana estava impaciente.

— Matheus, eu o vi e...

— Viu? Quando? Então por isso que...

— O que disse sobre me interromper, Tatiana?

— Desculpe, fiquei curiosa — disse, empolgada.

— Posso continuar? — Tati assentiu. — Há mais ou menos quinze dias, descobri que ele mora no meu prédio com a irmã e a filha.

— Filha de quem, cara pálida?

— Dele — A amiga arregalou os olhos -, mas há um problema. Ele parece não saber quem eu sou.

— Que conversa é essa? Ele ficou maluco, bateu com a cabeça ou o que?

— Bom, foi quase isso...

Contou tudo, desde as apresentações ao beijo no elevador, sobre a doença dele a maneira como esquecia os nomes das pessoas.

— Credo, que coisa louca. Se eu contar, ninguém acredita. E essa Samantha é confiável?

— Acho que sim, mas ainda estou decidindo. Ela contou algumas mentiras básicas para o irmão. Em todo caso, não contei sobre o anel.

— Penso que você fez bem. Espere aí! Essa Samantha não é, por acaso, a que Fernando conheceu na festa?

— Sim, a própria. Ele ficou caidinho por ela, o sem vergonha. — Era divertido falar do ex-marido com Tatiana, porque ela queria controlar a vida do cunhado a todo custo.

— Acho que você deve fazer alguma coisa, se bem que... Com esse anel monstro aí, talvez ele possa lembrar que pagou uma fortuna por ele — riu travessa — Eu estou gravida — disse de supetão.

— O que? Eu ouvi direito? — Helen exclamou, completamente surpresa pela revelação.

— Sim, ouviu direitinho. Por isso precisava tanto da minha amiguinha ausente essa semana.

Parabenizou a futura mamãe, almoçaram juntas e colocaram o papo em dia. Tatiana prometeu fingir que não conhecia Matheus quando o visse. Pelo menos isso estava resolvido e agora viria a parte mais difícil.

Dois dias se passaram desde que colocara o anel e nada de Matheus vê-la. O seu trabalho estava exaustivo. Confirmar os resultados de exames e assinar laudos era cansativo. Quando chegava ao fim do dia, estava tão cansada que só queria sua cama. Nesta tarde, depois do trabalho, teria que passar no consultório de Fernando, que a essa altura sabia sobre a volta do ex-noivo dela. A cunhada fofoqueira fez questão de ir até lá mesmo depois de Helen pedir para que guardasse segredo. Ele tinha ligado nos dias anteriores para ver se estava bem, mas queria vê-la pessoalmente, e ela tinha necessidade de conversar com o amigo.

— Helen, você sabe que odeio te ver sofrer. — Estavam sentados no consultório dele conversando. — E se esse cara não tivesse ruim da cabeça eu juro que iria esmurrá-lo agora mesmo pelo tanto que te fez chorar.

— Tá, mas o que eu faço? Não sei como agir. Ele me beijou, mas não é como se ele soubesse que eu sou. Coloquei esse anel, mas e se nada acontecer, o que faço?

— Gostaria muito de ter a resposta perfeita, mas não tenho, por incrível que pareça. — Sabia que ele estava sendo sincero. — Que tal você seguir o que o seu coração diz, hein?

— É uma ideia... — Já tinha se cansado de bancar a coitadinha. Fernando tinha dito uma coisa certa e, provavelmente, como todas as vezes, seguiria seu conselho. Então se lembrou das palavras do pai mais uma vez.

Aquela história de casamento... Um absurdo, ele tinha quarenta e sete anos e, como diziam, estava “enxuto”, mas não conseguia sequer imaginá-lo com outra mulher que não fosse sua mãe.

— Ah, te contei que meu pai quer se casar?

— Não. É sério? O velho já quer casar novamente? — Trocaram ideias sobre o assunto e Fernando convenceu Helen de que nem precisava aborrecer a irmã com este assunto.

Sempre foi um ótimo amigo, lamentava pelo casamento que não havia dado certo. Despediram-se e ela seguiu para seu apartamento.

Já passava das oito horas quando finalmente chegou e foi imediatamente tomar um belo banho. Estava vestindo a roupa de dormir quando a campainha tocou. Ao abrir a porta, ficou surpresa ao ver quem estava em pé diante dela.