Os dialetos românicos ou neolatinos na África, Ásia e América
Observações morphologicas
Ha alguma tendencia para o iotacismo: di==de.
I desapparece em pos==pois, mas==mais.
Mudanças varias nas vogaes atonas: armum==irmão, proméro==primeiro, borgonha==vergonha, ruspêto==respeito.
Mudança nas vogaes accentuadas: cuza==cosa, favur==favor.
Apherese de vogal ou de syllaba: sim==assim, nhô==senhor,
nha [2] == minha; tâ==está.
Syncope de vogal: cumçâ==começar, crê==querer, conchê==conhecer.
Apocope de vogal ou de syllaba inteira: calabôs==calaboço, mó (como)==modo, mo==molho, ês==este.
Apocope de r: regular no infinito (ser é uma excepção, se não ha erro no paradigma que nos enviou o nosso informador); nhô==senhor, pâ==por.
Varia: ago==agua, sucuta==escuta.
Observações morphologicas
1. Genero. Os adjectivos não têem fórmas que indiquem o genero. A fórma typica é em geral a fórma masculina portugueza; mas ha excepção, como nha==minha.
2. Numero. O emprego das fórmas do plural não se póde estabelecer com certeza dos textos que temos á nossa disposição, nem das noticias que nos ministraram.
Os casos seguintes parecem-nos representar as tendencias do dialecto no emprego do s do plural: a) os adjectivos e pronomes empregados como adjectivos não tomam o signal do plural (mas diz-se quel, quels); b) com os numeraes o substantivo não toma o signal do plural (mas na carta 2.ª ha dôs companheros); c) quando do contexto da phrase resulta a idéa da pluralidade falta o s do plural. Exemplos:
es dos foja. estas duas folhas. tres preto. tres pretos. mujer, mujeres. mulher, mulheres.
Com relação ao plural diz-nos o nosso informador: «A tendencia que ha hoje para empregar regularmente as fórmas do plural torna-se muito sensivel».
3. Pronomes. Os pronomes demonstrativos são: ês (este, esse) e quel (aquelle).
Ês home. Este homem. Ês mujer. Esta mulher. Ês homes. Estes homens. Ês mujeres. Estas mulheres.
Quel rapaz. Aquelle rapaz. Quel rapariga. Aquella rapariga. Quels (ou quel) rapaz. Aquelles rapazes. Quels (ou quel) raparigas. Aquellas raparigas.
O interrogativo é: quen, qui, ou quê-nhê, quem.
Eis o quadro dos pronomes pessoaes.
Singular: En, in, mi eu Plural: Nós, nu nós
-n -me -no -nos Bu (abó) tu Nhô, nhôs vós Di bó de ti nhô vos -bo -te Ês elles Ê elle -ls lhes-l lhe
nhô lhe (vos) êl, -le o
Quên qui dan (dâ-n) el. Quem m'a deu. Quên qui dá-bo el. Quem t'a deu. Quên qui dá-nhô el. Quem lh'a deu. Quên qui dá-no el. Quem nol'a deu. Quên qui dá nhô el. Quem vol'a deu. Quên qui dals (da-ls) el. Quem lh'a deu. Bu tâ entendêle. Tu entendel-o. En tâ jural. Eu o juro.
Bu (vós) tendo usurpado o logar de tu, não ha pronome da segunda pessoa do plural; o pronomen reverentiae é substituido por nhô==senhor, nhâ==senhora. Nhô tomou o signal do plural: ô nh'amigos, nhôs al judan fazê ês cuza, ó meus amigos, vós haveis de me ajudar a fazer esta cousa.
O pronome da segunda pessoa do singular diz-se bó quando é precedido de proposição: di bó, de ti.
Nas ilhas de Barlavento ha bucê, bucês, bocê, bocês em logar de bó, abó e nhô.
Os seguintes exemplos mostram as fórmas dos possessivos ou seus equivalentes:
Nha caballo. O meu cavallo. Nha caballos. Os meus cavallos. Nha egua. A minha egua. Nha eguas. As minhas eguas. Ês caballo ê di men. Este cavallo é meu. Ês caballos ê di men. Estes cavallos são meus. Ês egua ê di men. Esta egua é minha. Ês eguas é di men. Estas eguas são minhas.
Bu cavallo. O teu cavallo. Bu cavallos. Os teus cavallos. Bu egua. A tua egua. Bu eguas. As tuas eguas. Ês caballo ê di bó. Este cavallo é teu.
Ês egua ê di bó. Esta egua é tua.
Si caballo, sês caballo. O seu cavallo, o cavallo d'elle.
Caballo di nhô ou nhâ. O seu (vosso) cavallo. Ês caballo ê di nhô. Este cavallo é vosso, seu.
Nós boi. O nosso boi. Nós báca. A nossa vaca. Ês boi ou ês báca ê di Este boi ou esta vaca é nós. vosso, vossa.
Si caballo, sês caballo.
O seu cavallo (d'elles).
Ês caballo ê di sês, d'êls ou
Este cavallo é seu (d'elles).
d'ês.
4. Verbo. Esta parte da grammatica do creolo de Santo Antão apresenta uma riqueza muito maior que em geral os outros dialectos similhantes. Não é difficil explicar este facto: o contacto persistente entre a população que falla o dialecto e os que fallam o portuguez puro tende naturalmente a fazer penetrar no creolo maior numero de fórmas portuguezas. Vimos já o que se dava com as fórmas do plural. Damos os paradigmas da conjugação e faremos depois algumas observações sobre elles.