Os dialetos românicos ou neolatinos na África, Ásia e América

9. Appendix:

Como já são hora de vem tudo parecero de jogo, eu já nompôde escrevê mas novidade. Amestê olá fazê chá, tirá sucre, mandá fazê torada, comprá manteguilha na botica de barbero.

Adeus, Minha Querida Chencha, Deus conservá saude pra vos e pro vosso Abelardo, Eu, vosso tio, tia tia, tio João, tudo mandá muto lembrança.

Vai ung-a botle de achar laia laia e ung-a flandi de bolo batê-pau torado.

 

Vosso tia e amiga

Pascoela.

 

9. Appendix:

 

O portuguez alterado como o fallam os negros e os estrangeiros que possuem mal a lingua tem sido muitas vezes imitado, principalmente no theatro e na litteratura de cordel. Apesar do interesse secundario d'essas imitações damos, alguns specimens.

(Indo Gonçalo seu caminho, apartando-se do Clerigo, topa hum Negro grande ladrão, e entra cantando buscando hum mulato: e diz Gonçalo, depois de cantar o Negro:)

 

. Dize, negro, es da côrte? . Mais tredor era o rascote

. Que m'a mim furtou a lebre. Qu'esso?

. S'es da côrte? . Qu'he quesso que te furtai?

. Ja a mi forro, nam sa cativo. Hũa lebre de meu pae,

Boso conhece Maracote? De meu cunhado huns capões,

Corregidor Tibão he, E marmelos e limões; Elle comprai mi primeiro; Abonda tudo lá vai. Quando já paga a rinheiro, . Jesu, Jesu, Deoso consabrado! Daita a mi fero na pé. Aramá tanta ladrão!

He masa tredora aquelle, Jesu! Jesu! hum caralasão:

Aramá que te ero Maracote. Furunando sá sapantado.

Jesu! cralasam.

Pato nosso santo paceto ranho tu e figo valente tu e cinco sego, salva tera pão nosso quanto dão dá noves caro he debrite noses ja libro nosso gallo. Amen Jeju, Jeju, Jeju.

Sa pantaro Furunando. Grande canseira: Dize, rogo-te, fallai: Firalgo sôlto, canseira; Conhece tu que furtai? Chovere muto, canseira; Porque tu nam bruguntando? Não póde chovere, canseira:

. Perguntarei por meu pae. Muito filho, canseira;

. Cal-te: Deoso cima sai, Nunca pariro canseira;

Que furtai ere oiai. Papa na Roma canseira; Deoso nunca vai dormi, Essa ratinho, canseira; Sempre abre oio assi, Não vamo paraiso, grande Tamanha tu sapantai. canseira;

Guarda mar esso mal, Vira reza mundo turo turo he

E senhora Prito santo. Canseira. Nunca rirá homem branco Mi nam falla zombaria. Furunando furta real. Pos para que furtai? Não sabe mi essa careira: Que riabo sempreza! Para que? para comê? Abre oio turo ria. Muto comê muto bebê Mi busca mulato bai. Turo turo sa canseira. Ficar abora, ratinho.

Vira mundo turo canseira: . Eu aguardo meu padrinho,

Senhor grande, canseira; Que va comigo a meu pae. Home prove, canseira; Eu vou ao rio perem, Muiere fermoso, canseira; Porque hei sêde e beberei, Muiere feio, canseira; E sicais que nadarei Negro cativo, canseira; Emquanto o clerigo vem. Senhoro de negro, canseira; Leixarei o chapeirão Vai missa, canseira; Mettido nesta mouteira, Prégação longo, canseira; E o cinto e esmoleira, Crerigo nam tem muiere, Porque lá logo o verão, canseira; Não me aqueça outra tal feira.

Crerigo tem muiere, canseira;

 

(Espreita o negro como Gonçalo esconde o chapeirão e o al, e tanto que se vai entra dizendo:)

. A mi abre oio e ve

Ratinho tira besiro:

Ere dexa aqui condiro:

Não sei onde elle mettê.

Senhora Santo Francico,

Santa Antonia, San Furunando!

Pois mi ha d'andar buscando,

E levare elle na bico

O servo Santa Maria.

 

Sabe a regina Matho misercoroda nutra d'hum cego savel até que vamos. A oxulo filho d'egoa alto soso peamos ja mentes ja frentes vinagre qu'elle quebrárão em balde ja ergo a quante nossa ha ilhos tue busca cordas oculos nosso convento e geju com muito fruta ventre tu ja tremes ja pias. Seuro santa Maria dinhero me lá darão he ve esa carta da me mucho que furte cantara Furunando.

 

(Acabada assim esta salve regina, acha o Negro o que Gonçalo leixou escondido, e diz:)

 

Ei-lo aqui sa! Deoso graça. Vas embora turo turo. Graça Deoso esse he capote; Sua rinheiro sa segura, Nunca dexa aqui palote: Mioro que elle promete. Ratinho, quem te forcasse! Marco Estevez moladeiro. Aramá que te ero villão! Elle rise: Santa Maria! Que palote saba sam, Rinheiro boso queria? Barete também bo era. Bai bai dormir paieiro.— Mi cansai e á deradera Boso que pedir, muieiro? A mior fica sua mão. —Tanta filho mi tem qui...

Vejamos bolsa que tem: Hum —Quem manda boso pari,

pente para que bo? Boso grande parideiro? Tres ceitil sa qui so: —Boso seria muito bô: Ratinho nunca bitem. Vaca ne Francico paia; O riabo ladarão! Tenha seis filho e mi so Corpo re reos consabrado! Nam temo comere ni migaia. Essa villão murgurado Elle rise: Sa masa prove que cão. Que culpo tem a Rei jam João

Quando bolsa mi achase Boso parir como porco,

Fernão d'Alvaro, esse si; Bai buscai sua pae torto, Nunca pente sa alli. Que dai a sua fio pão. Ah reos! quem te furtasse Velha, que boso querê? Bolsa, Nuna Ribeiro! —Molla, que a mi pobre sai. Home bai busca rinheiro: Elle rise: A toro ere rise: Porque boso nan guardai Ja rinheiro feito he. Rinheiro que boso bebê?— Aramá que tu ero gaiteiro! Jesu! Jesu! moladeiro

Fernão d'Alvaro m'acontenta; Sa riabo aquella home:

Elle nunca risse nam. Quando a mi more da fome Logo chama ca crivam, Nunca buscai sua rinheiro, —Crivaninhae esormenta; Porém graça a Reos, a mi Toma rinheiro, vas embora. Nunca minga que furtá; Boso, home de bem, que buscae? Pouco ca, pouco relá, —Mi da cureiro agarba sae. Pouco requi, pouco reli, —Boso que buscai corte agora? Grão e grão gallo fartá, —Buscae a Rei jam João, Quem furta, home sesuro: Paga minha casaramento. E louvar a Reos com turo —Dá ca, moso, trae esormento; E senhoro Prito Santo. Crivaninhae boso, crivão: A mi bai furta emtanto Home, tomae hum dos quatro sete: Camisa que sá na muro.

Gil Vicente, O Clerigo da Beira.

 

O preto, e o bugio ambos no mato discorrendo sobre a arte de ter dinheiro sem ir ao Brazil. Lisboa. Na officina patriarchal de Francisco Luiz Ameno 1789. 4.º 21 pp.—Excerpto:

«Já non pore deixá de incricá os cabeça, e confessá, que vozo doutrina sá huns doutrina tão craro, e verdadeiro, que pla mim sá huns admiraçom non sé platicada per toro o mundo. O trabaio a que vozo obliga os pleto, e os blanco; sá huns trabaio a que ninguem se pore negá sem melecé huns cóssa bom; porque os genia, e os incrinaçom do natureza a toro gente move pala ere, e fóla de trabaio ninguem pore vivé em satisfaçom. Mim agola sem trabaiá nom pore conté, ainda que mim ter abominaçon a captiveiro cruere de blanco, de que sá forro; com turo non aglada a mim estar aqui sem nada fazé: evita vozo tanta plegiça, os excessa de plodigo, e dos varento, que nozo poderemo toro assi havé os oira, e triunfá dos indigencia; e de turo quanto pore infelicitá. Se aqui apalecera agola uns blanco, que pole escrevé os mavioso doutrina, que vozo platicá, e toro o gente ouvire cos oreia aberto, faria ere ao familia toro do mundo hum favoro, que meoro non pore imaginá.» p. 21.