Os dialetos românicos ou neolatinos na África, Ásia e América
4. Creolo da Ilha de S. Domingos
Encontram-se um Voccabulaire, français et crèole, dialogos e canções n'este dialecto no Manuel des habitants de Saint-Domingue, par Ducœurjoly. Paris, Lenoir, 1802, t. II, p. 283-393.
5. Creolo da Trinidad
O dialecto francez-creolo d'esta ilha póde estudar-se na obra The theory and practice of creole grammar, by J. J. Thomas. Port of Spain (Trinidad), the Chronicle publishing office. In 8.º, 134. p. Tenho noticia d'essa obra apenas por um artigo de M. Paul Meyer na Revue critique, 1872, art. 50.
«A conservação entre os negros das Antilhas, diz M. P. Meyer, de patois mais ou menos differentes uns dos outros, mas tendo incontestavelmente uma origem franceza, é um facto digno de attenção. É-o sobretudo na Trinidad que nunca foi colonia franceza. É evidente que todos esses negros vêem originariamente de colonias francezas, e aquelles mesmo da parte meridional dos Estados Unidos que fallam o inglez que nos fizeram conhecer os romances de Mrs. Beech-Stowe ou de M. Kirke, deviam ter fallado outr'ora um patois francez. Parece até que o patois da Ilha de França offerece, na deformação do francez, analogias com o da Trinidad que não são explicadas sufficientemente pela communidade do ponto de partida. A expansão de um patois negro formado do francez depende naturalmente das deslocações a que foram submettidos aquelles que o fallavam, e isso é um assumpto que não é geralmente conhecido, pelo menos d'este lado do Atlantico.
«O fundo do patois é francez, com alguns emprestimos do hespanhol (a Trinidad foi colonia hespanhola até 1797) e do inglez.
«Ha algumas particularidades curiosas no systema dos sons. A apocope e mais ainda a apherese (o fim da palavra sendo geralmente protegido pelo accento) representam n'elle um grande papel. Assim: tè por étais, était (ou antes talvez pelo participio été); sé por serais, serait. Outras suppressões effectuam-se sobre o centro das palavras; assim: vlez por voulez, em que vemos a extensão de um facto que o anglo-normando nos offerece em frai (ferai), fras, frad, etc. As liquidas l e r caem deante d'uma outra consoante, e a vogal precedente torna-se longa: mâgré (malgré), pâler (parler), môdre (mordre). Algumas vezes tambem l e r caem depois do accento diante de um e mudo, que seria melhor não escrever; assim: tabe (table), vîte (vitre). Todos que tiveram occasião de ouvir negros ou mulatos das colonias tiveram occasião de notar os mesmos factos na sua pronuncia, ainda quando elles fallam francez.
«Não é á phonetica que pertencem os factos mais caracteristicos do creolo, mas á flexão e á composição das palavras. O que n'essa parte se observa é bem feito para elevar ao mais alto o assombro dos que acham já enormes as formações novas que nos offerecem os idiomas romanicos comparados com o latim. Nós dizemos celui-là emquanto o latim vulgar dizia eccillum; mas os negros põem là a todo o instante depois dos substantivos como um demonstrativo a que não ligam já grande valor (M. Th., p. 15). O sentido das particulas e dos artigos está de tal modo obliterado que já não se empregam senão absolutamente confundidos com as palavras a que se juntaram e fazendo corpo com ella: difé, dithé, divin, dleau (p. 18) querem dizer: feu, thé, vin, eau; zoreies quer dizer as orelhas; pêncor (p. 122) quer dizer pas encore, contracção que nos offerece tambem o provençal pancaro. N'um idioma tão empobrecido é só o logar das palavras que indica as relações. Assim n'este proverbio: Pas fôte langue qui fair bêf pas sa pâler (p. 121) (Ça n'est pas faute de langue qui faire bœuf pas savoir parler).
«Os verbos parecem, pelo menos muitas vezes, reduzidos a uma só fórma, a do infinito (a não ser que alguma outra fórma tenha sido preservada por causa de uma differença bem sensivel e de um uso frequente). Estudar-se-hão com interesse os diversos tempos compostos com os quaes os negros remediaram as lacunas da conjugação, e achar-se-ha n'isso materia para diversas comparações com os factos parallelos das linguas romanicas. Todavia é mister não esquecer que a comparação não tem aqui senão a mais fraca base. Os negros quando aprenderam o francez, estavam habituados a uma linguagem absolutamente differente, e nunca souberam senão as palavras e as fórmas mais usuaes do seu novo idioma, emquanto o latim vulgar de que saíram as linguas romanicas por desenvolvimentos individuaes e locaes, foi sempre um idioma assás completo, cujas transformações foram assás lentas para que as lacunas tivessem tempo de se encher ao passo que se formaram.»