Os dialetos românicos ou neolatinos na África, Ásia e América

III. Dialectos Franceses

 

 

1. Creolo da ilha Mauricio

 

A este dialecto pertencem algumas poesias da collecção intitulada: Les essais d'un bobre africain, seconde édition, augmentée de près du double, et dédiée à madame Borel jeune, par F. Chrestien. Ile Maurice, G. Deroullede et C ie, 1831, pet. in-4. Achámos a indicação d'esta obra no catalogo da bibliotheca de Burgaud des Marets e n'um artigo de M. P. Meyer: Revue critique, 1872, artigo 50. A ilha Mauricio, depois do dominio do portuguez e hollandez (1598-1715) esteve em poder dos francezes de 1715 a 1810, em que se tornou possessão ingleza.

O dr. A. Bos publicou na Romania muito recentemente (vol. IX, p. 571-578) uma nota sobre o dialecto creolo d'essa ilha, a qual pudémos ler ainda á ultima hora. Resumimos o seu conteúdo.

«Esse creolo, diz o auctor, formado para o uso commum, laço de communicação entre as differentes raças que habitam a ilha, é muito desprezado; não se escreve e não é empregado pelos brancos senão para se fazerem comprehender dos seus creados de côr. O plantador de Mauricio não falla creolo senão a seus servos ou trabalhadores, negros ou indios, e ainda a seus cães de caça, repellindo para longe de si a idéa que esse patois informe possa jamais converter-se n'uma lingua. E, todavia, o creolo de Mauricio, como diremos mais abaixo, cresce e prospera de dia em dia; encaminha-se para a fortuna de uma lingua.»

Com relação á phonetica notaremos o seguinte:

1. O accento tonico não se desloca.

2. Ha alongamento frequente de a: ā-ccent, pā-rent. Esse alongamento é de lei quando ha quéda de consoante: pā-ti==partir (alongamento por compensação).

3. E medial atono muda-se em i: vini (venir) ou cae; e final atono cae sempre.

4. Ui muda-se em i; oi ás vezes em o.

5. Ch, g (e, i), j mudam-se respectivamente em ç, z.

6. R final cae sempre, até nas ligações como tre, bre; p. ex. cambe==chambre. R medial entre vogal e consoante cae igualmente: Zoze==Georges.

7. X é pronunciado como s (ç): éçélan==excellent.

Com relação ás fórmas eis o mais interessante:

1. Não ha distincção de generos: permanecendo a fórma masculina para o masculino e feminino, mon fame, ton lakaze, ma femme, ta maison.

2. A distincção do numero tende igualmente a desapparecer. Os pronomes pessoaes que são palavras differentes para o singular e plural conservam-se: moa, eu; nou, nós; toa, tu; vou, vós.

3. A suppressão do artigo é quasi completa. Como no dialecto da Trinidad o artigo e ainda a preposição partitiva coalescem com varias palavras: lacaze, casa (maison); dilo, dipin, divin (de l'eau, du pain, du vin). Como no dialecto da Trinidad se diz zoreis==oreilles (o s é o resto do artigo les), assim n'este temos, p. ex,: zozo, oiseaux. O z apparece tambem no singular: ène zozo, un oiseau, li zozo, les oiseaux.

4. Pronomes: moi, toa, li (lui); nous, vous, li. Os pronomes sujeitos do singular je, tu, il do francez desappareceram pois; o pronome da terceira pessoa do plural é identico ao do singular.

5. Uma unica fórma verbal—o infinito, é empregada no creolo da ilha Mauricio. O passado é expresso pelo infinito do verbo principal com o infinito auxiliar fini: moi fini travaïé, j'ai travaillé; mon fini broçe chambre, j'ai fait (brosser) la chambre. Para a expressão do futuro empregam-se com o infinito diversas locuções adverbiaes. Para alguns verbos, segundo o dr. Bos, essa fórma unica que substitue todas as outras não saíu do infinito, mas sim do presente: koné==connais, connaît; voulé==voulez. A explicação verdadeira d'essas fórmas está n'outro principio que o artigo que analysâmos nos ministra. Os infinitos em oir e re foram substituidos por infinitos analogicos pelos typos em e (er) e i (ir); assim éteindre por éteignir, tezi por taire. Estas fórmas assentam sobre as do plural éteignons, éteignez, éteignent, taisons, taiser, taisent, ou antes sobre os substractos éteign-, tais- com a desinencia do infinito i. O dr. Bos, tendo primeiro explicado voulé por voulez, apresenta-o depois como exemplo d'este processo.

6. O verbo avoir foi substituido por gagner (como na Luisiana).

7. Não se usam conjuncções; as proposições são raras. A construcção approxima-se do typo chinez: moa kosé vou alé baza, je vous dis (cause) d'aller au marché (bazar); toa guété çival pa pati, tu regarderas (guetter) á ce que le cheval ne parte pas; mamzèle kosé kóme ça mamzèle pa vini mamzèle faï, mademoiselle m'envoie vous dire précisément qu'elle ne peut pas venir, parce qu'elle est malade; vou kontan moa alé promené, êtes-vous satisfait, aimez-vous que j'aille me promener?

Com relação ao vocabulario diz-nos o nosso auctor: «O creolo apenas conservou do francez poucas palavras, as palavras que bastam para exprimir as primeiras necessidades da vida, as relações mais ordinarias. Evidentemente seria difficil e mesmo impossivel tratar um assumpto de philosophia em creolo; o mesmo succedeu provavelmente com o francez nos seus primeiros começos. A essas poucas palavras francezas que formam quasi em totalidade o seu vocabulario, o creolo ajuntou algumas recebidas dos paizes vizinhos: baza, mercado, salam, bons dias; tiffin (pronuncia-se toffin), o paladar, d'onde tiffiner, provar, palavras que pela maior parte se acham no francez em uso em Mauricio.»

«Esse creolo de Mauricio, apesar de ser tão grosseiro, está longe de querer desapparecer deante das linguas muito mais perfeitas, o francez e o inglez. A maior parte da população de Mauricio é hoje india; póde prever-se que ella augmentará cada dia mais, graças ás immigrações continuas da India. Deante d'essa onda que sobe, a antiga população creola, brancos, negros e mulatos, diminue proporcionalmente. Ora entre indios, chinezes, malgaches, creolos, mulatos e brancos o laço commum é o creolo. Um indio, um chinez, um arabe, um branco (europeu?) tratarão uns com os outros os seus negocios em creolo, e esse neo-francez tomará maior extensão ao passo que a população variegada da ilha for augmentando. É possivel até que n'uma epocha, muito afastada é verdade, o francez desappareça, como a população que o falla tende a diminuir. O creolo, ganhando ao contrario terreno, poderá tornar-se a lingua usual, commum, e até a lingua geral, como elle é já a lingua do povo, a rustica vulgaris.» O auctor pensa que o inglez permanecerá exclusivamente como lingua de administração sem influencia sobre o creolo.

No francez da ilha Mauricio algumas palavras indicam a proveniencia dos primeiros colonos, porque se acham lá como na Bretanha, de onde elles emigraram; além d'isso esses colonos eram marinheiros. Achando coincidencia de termos entre o creolo d'essa ilha e o de outras possessões europeas no vocabulario em contraposição com o do francez litterario, deve admittir-se que ella tem a causa em que esses colonos levam no seu vocabulario termos do francez de Bretanha e do vocabulario nautico que se encontram nas outras linguas romanicas. No francez de Mauricio diz-se, por exemplo, amarrer não attacher, espérer, não attendre, larguer não lâcher, como em portuguez.