Stasilândia
5. O palácio de linóleo
Já passa da meia-noite quando volto a Berlim. Tomei um bonde, um trem regional, o trem local e, por fim, atravessei a pé o parque, onde as coisas são apenas formas, sombra sobre sombra. A história de Miriam me tirou o fôlego. Minha cabeça, não mais concentrada em ouvir, começou a pulsar de novo, tão logo deixei o apartamento dela. Não gosto de ser obrigada a reconhecer que meu coração não passa de uma bombinha, fazendo o sangue circular. Estou mais do que cansada. Quando chego em casa, estou em câmara lenta, cruzando uma linha de chegada.
Meu prédio é revestido de cimento cinza borrifado, mas a entrada ainda ostenta portas grandiosas em arco. No fim do saguão, uma porta dupla conduz ao pátio, com seu castanheiro e o calçamento de pedras entremeadas de ervas daninhas. Moro no primeiro andar, depois das caixas de correio, subindo a escada à direita. Não olho a correspondência; em vez disso, acendo a luz do saguão e vou logo subindo. As paredes da caixa de escada estão cobertas de grafites coloridos, mas indecifráveis, podendo significar expressões de alegria ou de dor, dependendo de como se olha para eles. Não olho. Apresso-me a enfiar a chave na fechadura, antes que a lâmpada do corredor se apague automaticamente. Estou em casa, livre e a salvo.
Lá dentro, as luzes estão acesas.
Uma voz guincha: “Não se assuste! Não se assuste!”
Gelo de medo.
“Me desculpe, puxa, me desculpe”, diz a voz.
A bomba no meu peito bomba forte, sem parar. Deixo cair a bagagem.
Uma mulher em cima de uma escada de armar segura uma grande chave de fenda. Ê Julia, que me aluga o apartamento. “Eu sinto muito”, ela diz, voltando-se para mim e baixando a chave de fenda.
“Tudo bem”, respondo devagar e ofegante.
“Sei bem como é”, ela continua. “Às vezes, a gente só quer ir para casa, ficar sozinha.” Imagino que ela esteja dizendo isso porque moro sozinha. Não digo nada.
“Eu só estou desparafusando isto aqui”, explica. “Vou levar estas estantes de livros, espero que você não se importe.”
“Não me importo, não.”
“Preciso delas lá em casa, porque não tenho nenhuma.”
Moro no apartamento há seis meses e ainda não me acostumei com aquilo. Penso comigo que, uma hora, essa história precisa acabar, e espero que acabe enquanto ainda me restam umas poucas peças de mobília. Julia trabalhava na imobiliária que visitei quando procurava apartamento. Ofereceu-me sublocar o apartamento onde ela estava morando, até o final do contrato. Ela o dividia com outras pessoas, mas todos estavam se mudando. O imóvel era grande demais para mim, mas ficava na velha Berlim Oriental, onde eu queria estar, e eu podia pagá-lo.
E estava mobiliado, ainda que os móveis fossem — Julia me avisou — “escassos”. Era bem mais o caso agora.
Sei que Julia está preocupada com o tempo que está levando para se mudar de vez, com o desnudamento constante e progressivo da velha casa. Já a consolei outras vezes, dizendo que tudo de que eu precisava era de uma cama, de uma mesa, de uma cadeira e de uma cafeteira. Estava dizendo a verdade, mas, dois dias atrás, ao encontrar uma pilha de papéis amassados, lenços de papel usados e embalagens de fitas cassete embaixo da mesa, onde eu os tinha jogado porque costumava haver ali um cesto de lixo, pensei comigo que precisava falar com ela. O problema é que, neste momento, estou muito cansada.
“Onde você esteve?”, ela pergunta.
“Leipzig.”
“Ah”, ela diz, “onde tudo começou.”
“Julia, me desculpe, mas estou exausta. Preciso ir para a cama. Que tal a gente tomar um café uma hora dessas? Por que você não dá um pulo até aqui?” Durante o dia, penso comigo.
Ela diz que virá, mas não combinamos hora, porque Julia considera compromissos com hora marcada um cerceamento intolerável de sua liberdade. O que pode explicar como lhe ocorreu tratar da reforma da nova casa àquela hora da noite.
Caio na cama, e ela prossegue tão quieta com sua desmontagem noturna que nem ouço quando vai embora, equilibrando tábuas, suportes em L e parafusos no cesto da bicicleta, que ela deve ter carregado escada abaixo.
De manhã, a primeira coisa que noto é que posso ver minha respiração.
Um único dia sem aquecimento, e o ar daqui congela com o frio. Tenho a mente clara, mas ontem já me parece outro país. A segunda coisa que noto é que, diante da minha cama, onde costumavam ficar dois engradados azuis de leite que serviam de criado-mudo e banquinho de penteadeira, surge agora, recém-revelado, um pedaço de linóleo marrom.
Quando me mudei para cá, agradou-me a quase nudez do apartamento. Eu tinha dois quartos, uma enorme sala de estar com janelas na altura das árvores, dando para o parque, e uma cozinha do lado oposto, que dá para o pátio. À época dos comunistas, o edifício foi convertido numa fachada de cimento por fora, e num prático interior de linóleo marrom por dentro, lavado, encerado e sem nenhuma graça. Mas era verão quando me mudei, e, para mim, o apartamento era arejado e iluminado, com verde de ambos os lados.
Logo descobri que tudo aqui ou estava quebrado ou estava em vias de quebrar. Cada item de mobília tinha vindo ao mundo como peça útil do mobiliário alemão oriental de mais de uma década atrás. Depois da queda do muro, os estudantes se mudaram para o prédio e, quando saíram, nada do que restava pareceu de alguma valia nem mesmo para eles. Calombos apareceram no sofá da sala de estar, revestido de um tecido escuro no qual tenho até medo de mexer; a cordinha da persiana da cozinha fica permanentemente amarrada a uma cadeira de plástico, e o propósito disso é evitar que a persiana despenque de vez; as molas do meu colchão ameaçam varar o revestimento; e o banheiro, sem janelas e pintado de um verde escuríssimo, tem um tipo de encanamento cuja mecânica seria necessário aprender.
Julia deixou um balde cheio de carvão no corredor da entrada. Na noite passada, ela deve ter descido até o porão, escuro como breu, para enchê-lo. Alimento o aquecedor de ladrilhos marrons com combustível e carvão. Embora ele ainda vá levar horas para começar a aquecer o apartamento, já me sinto aquecida pela gentileza de Julia.
Não chego a levar a mal o fato de ela retirar a tralha daqui. Sei que Julia não dispõe de nada melhor onde está morando agora — num cômodo único, nos fundos de um prédio não muito longe daqui. Sei que, no verão, o fedor dos latões de lixo no pátio sobe até seu apartamento, fazendo-se quase visível. E sei também que, o ano todo, seus vizinhos não são nada amigáveis, tanto uns com os outros como dentro de suas próprias casas: Julia ouve o som das brigas ecoando através do pátio. Além disso, sei que Julia precisa da sua solidão, mas que sofre com ela também, e que seu apartamento está repleto de coisas baratas e quebradas, coisas que ela sente que pode precisar em algum momento da vida e que, se jogar fora, pode não ter dinheiro para tornar a comprar. Por fim, sei também que seu gatinho sofre de incontinência, o que faz com que, de alguma maneira, sua casa cheire a ansiedade.
Não posso portanto me ressentir de ela ainda ter as chaves e de revisitar sua velha vida de vez em quando. Vou me acostumando a cada nova partida inesperada — do tapetezinho de borracha do banheiro, da cafeteira e, agora, dos engradados de leite. Aclimato-me à atmosfera cada vez mais rarefeita. Da cozinha até minha mesa e do banheiro até a cama, traço trilhas livres de poeira pelo linóleo.
Na verdade, tudo que sinto hoje, ao passar pelo vestíbulo onde as estantes costumavam ficar, é a súbita predominância do linóleo em minha vida. Ao todo, posso contar cinco tipos de linóleo no apartamento outrora grandioso, e são todos marrons. Marrons em gradações diferentes: escuro no corredor, manchado no meu quarto, um outro tipo de marrom no outro quarto (que pode bem ter sido outra cor, antes de sucumbir às regras da casa), um marrom tendendo ao bege na cozinha e, meu preferido, a imitação de parquete na sala de estar.
Na cozinha, coo um café na garrafa térmica. O que me surpreende de morar aqui é que, não importa quanto retirem do apartamento, este palácio de linóleo segue contendo tudo que é necessário à vida, ao mesmo tempo que se recusa a admitir um único elemento — acidental ou deliberado — de beleza ou alegria. Nisso, acredito, é muito parecido com a própria Alemanha Oriental.
Levo meu copo de café para a janela da sala de estar. No parque, há neve no chão e nas árvores, luz sobre luz. Minha respiração se mistura ao vapor do café no copo. Limpo o vidro. Na distância estende-se a cidade, a torre de televisão na Alexanderplatz mais parecendo um enfeite exagerado de árvore de Natal, piscando uma luz azul.
Não posso vê-lo daqui, mas sei que bem ali perto, onde ficava o palácio dos imperadores prussianos, demolido pelos comunistas, ergue-se o edifício do Parlamento da RDA, o Palast der Republik. É marrom, parece de plástico, cheio de amianto e todo fechado. Não se sabe ao certo se a cerca em torno do edifício servia para protegê-lo das pessoas que gostariam de manifestar o que pensavam do regime ou se, ao contrário, para protegê-las do Palast, para o bem da saúde pública. A estrutura consiste num comprido retângulo de metal, composto de retângulos menores de vidro espelhado marrom. Quando se olha para o prédio, não se vê o que há lá dentro. Em vez disso, é o mundo exterior, com tudo que há nele, que se reflete nos vidros, curvado e marrom. Naquele edifício, sonhos foram transformados em palavras, decisões foram tomadas, anúncios receberam aplausos e costas, tapinhas. Ali dentro, o mundo podia ser outro, bem diferente, o tempo podia curvar-se e pessoas podiam desaparecer.
Como acontece com tanta coisa por aqui, ninguém consegue decidir-se seja pela transformação do Palast der Republik num monumento de advertência a lembrar o passado ou por sumir com ele, pura e simplesmente, e caminhar rumo ao futuro livre de todo e qualquer fardo, a não ser daquele representado pelo perigo de fazer tudo de novo. Num canteiro de obras nas proximidades, desencravaram o bunker de Hitler. Tampouco nesse caso uma decisão pôde ser tomada: um monumento poderia transformar-se num santuário para os neonazistas, mas apagá-lo da face da Terra poderia sinalizar esquecimento ou negação do passado. No fim, tornaram a enterrar o bunker. Mais cinquenta anos, disse o prefeito, e talvez as pessoas sejam capazes de decidir o que fazer. Lembrar ou esquecer — o que é mais saudável? Demolir ou cercar e apartar? Escavar ou deixar debaixo da terra?
Entre o Palast der Republik e meu apartamento estende-se o bairro que é chamado de Mitte, o centro velho de Berlim, com seus edifícios cinza, o céu branco e as árvores nuas. As ruas estão sendo renomeadas nas redondezas — de Marx-Engels-Platz para Schlossplatz, de Leninallee para Landsberger Allee, de Wilhelm- Pieck-Strasse para Torstrasse —, num ato maciço de redecoração ideológica. Mas a maior parte dos prédios ainda não foi reformada. Em grande parte, os edifícios já perderam o reboco e tornam a exibir trechos de tijolos por baixo, como rostos remendados depois de uma cirurgia plástica. Estão agora como eram antes de o muro cair, a não ser pelas antenas parabólicas que brotam das janelas, um súbito fungo branco sintonizado com o espaço sideral. Os bondes passaram a ser os ocidentais: foram dos primeiros a cruzar para o lado de cá depois da queda do muro. São um lampejo de amarelo vivo suspenso por cordas, movendo-se através da paisagem cinza.
Um bonde para bem diante do meu apartamento. Obedece a um semáforo logo abaixo da minha janela, embora não haja semáforo correspondente do outro lado da rua. Noto que o motorneiro abriu seu tabloide — que grita manchetes em vermelho e preto — sobre o painel de controle. Atrás dele, as pessoas sentadas têm um aspecto cansado, como se o dia tivesse amanhecido cedo demais para elas.
Não entendo por que aquelas luzes fazem o bonde parar sob a minha janela. O ponto em si fica meio quarteirão adiante, na esquina. Aqui embaixo, a porta nunca se abre para o embarque ou desembarque dos passageiros, que ficam apenas sentados ali, detidos e concordes. É estranha essa visão do bonde com uma fila de carros atrás de si, parados não por causa dos pedestres ou dos passageiros, mas por motivo nenhum, enquanto, do outro lado, os veículos sobem desimpedidos a colina rumo a Prenzlauer Berg. O farol muda, e o motorneiro, ainda lendo o jornal, aciona uma alavanca, pondo o bonde em movimento.
Saio para comprar jornal e pão e atravesso o parque. No verão, ele é adornado por grupos variegados de bêbados e punks. No inverno, para se aquecer, os punks ocupam as estações do metrô, ao passo que os bêbados se instalam nos abrigos dos pontos de bonde. Hoje, o ponto da esquina foi ocupado por um velho com uma verdadeira juba de cachos entrelaçados, enorme barba desgrenhada e um manto preto esvoaçante. Os pertences, em sacos plásticos ao seu redor, servem-lhe também de travesseiros. É uma criatura atemporal e grandiosa, como alguém surgido de outro século — um Rei do Inverno. Quando os passageiros desembarcam, ele os saúda como se fossem suplicantes em visitação a seu trono: cumprimenta-os com um leve movimento da cabeça e acena conforme tomam seu caminho.
Atravesso em direção à padaria, passando pelo cartaz que diz: “Anunciar torna você mais conhecido”. Em certa medida, minha padaria mantém a tradição. O dono faz pão integral, pão de centeio e pães caseiros, empilhados na parede dos fundos feito tijolos alongados. Agora, porém, livre de constrangimentos impostos pelo Estado à sua engenhosidade, ele parece estar conduzindo seu próprio experimento no ramo de vendas. Do lado esquerdo, sob o vidro do balcão, ficam os confeitos: donuts gelados, cheesecakes e tortas crocantes de uvas-do-monte. Na outra lateral, dispostos sob o vidro com semelhante capricho, vê-se toda uma variedade de livros de bolso com títulos em relevo.
Sou atendida por uma mulher com uma permanente malfeita. Ela veste uma camiseta que exibe o rosto de um leão — lantejoulas piscam em lugar dos olhos, bem onde os mamilos dela devem estar. Compro um pão de centeio e não pergunto nada sobre os livros. Quando chego de volta a meu prédio, vejo que o Rei do Inverno veio se postar no local onde o bonde faz sua parada inútil. Ele espera, mas não há passageiros a receber. Em vez disso, conforme me aproximo, ele se volta para mim e faz uma mesura, longa e perigosamente baixa.
Durante toda a semana seguinte, penso em Miriam e nos homens da Stasi. Tenho curiosidade de saber como há de ter sido frequentar o interior da Firma e, depois, assistir ao desaparecimento daquele mundo e do lugar que se tinha nele. Esboço um anúncio de jornal e o passo por fax para os classificados pessoais do jornal de Potsdam:
Procuro: ex-oficiais e colaboradores informais da Stasi para entrevista. Publicação em inglês, anonimato e discrição garantidos.