Stasilândia
8. Telefonemas
O telefone toca. Reúno coragem para outro funcionário da Stasi. Mas a voz é de mulher.
“Anna, Anna, é você?” Alguma coisa se revira no meu peito. É Miriam.
“Oi, Miriam, estava mesmo pensando em…”
“Só estou ligando”, diz ela, “para agradecer pelo outro dia. Queria dizer um muito obrigada.”
Mas por que ela está agradecendo a mim? De repente, sei que devia ter telefonado para ela antes. “Não, por favor, eu é que agradeço”, digo. Tem algo de estranho acontecendo. Nossa intimidade recua.
“Foi muito legal conhecer você”, ela continua. “E desejo boa sorte com seu trabalho.”
Soa como uma despedida. Quero perguntar se ela ouviu falar das urnas não reclamadas na Runden Ecke, mas sinto que seria errado fazê-lo agora. “A gente podia se encontrar de novo”, digo, “uma hora dessas.”
“Eu adoraria”, ela responde com rapidez. “Adoraria que você viesse até aqui uma hora dessas. A gente podia ir visitar meus amigos que têm um jardim de esculturas. É muito bonito, e eu gostaria que você conhecesse eles, e...” A voz dela vai emudecendo. “Me dá uma ligada, e a gente vai.”
“Ligo, sim”, digo, “e obrigada. Por tudo.”
Ponho o fone no gancho. Se eu fosse Miriam e tivesse contado a alguém os episódios mais dolorosos e mais determinantes da minha vida, tampouco tenho certeza de que iria querer ver essa pessoa de novo. Em especial se minha vida já tivesse sido registrada por escrito por outras pessoas, se ela já tivesse sido roubada e manipulada. O telefone é de plástico preto. Não é um modelo sem fio, mas, como solução intermediária, algum estudante inteligente conectou nele uma extensão bem comprida. Caminho pelo apartamento vazio e combalido, seguindo o fio até sua origem.
Arrastei meu colchão para a sala de estar, para ficar mais perto do aquecedor. Toda noite, vejo televisão até adormecer. O aparelho é um caixote que só pega três canais — quais, ele próprio é que decide, e embora eu não tenha antena parabólica, um deles é um canal por satélite. A imagem é sempre preto-e-branco, e o chuvisco é constante nos dois canais normais.
Tarde da noite, passa um programa chamado Peep!. São entrevistas com convidados, que respondem a perguntas sobre sua vida sexual, sempre formuladas a partir de hipóteses marotas (“Se sua namorada trouxesse a irmã dela para brincar com vocês, você toparia...?” Ou: “Você teve de abrir mão de alguma coisa desde que trocou de sexo?”). As imagens desafiam a censura: exposições de artigos para o sexo, experiências sexuais, shows de sexo e arte de cunho sexual.
Hoje, uma das atrações é uma stripper de Leipzig chamada Heidi, também conhecida como Yasmina. Seu corpo é firme e atarracado, olhos azuis e cabelos loiros. Esta noite, ela e sua turma vão fazer uma apresentação de “horror erótico”, baseada na Walpurgisnacht — a noite em que as bruxas se encontram para festejar com o diabo. No palco, jovens bruxas vestem máscaras de látex, pele de leopardo e renda; são despidas por esqueletos, até ficarem reduzidas a rostos de borracha e um fio dental adornado de lantejoulas na penumbra de gelo seco. Em movimento vertiginoso, a câmera se aproxima e se afasta de seios e púbis. Depois, vem uma entrevista com Yasmina, que puxou sua máscara de bruxa para o topo da cabeça, de modo que o nariz avança um pouco sobre a testa, assentindo quando ela fala. O entrevistador quer saber como foi ter tido a única escola de striptease “nos tempos da RDA”, e se “é verdade” — ele aproxima o microfone do rosto dela — “que você fez striptease para o politburo”.
Yasmina sorri e agita a mão dotada de garras. “Sempre gosto de oferecer a meu público alguma coisa de diferente”, ela diz, “tanto antes como agora.” Ela pisca, o nariz assente, e o programa passa, num corte abrupto, para o próximo segmento: moldes em gesso de partes do corpo. O primeiro é de um torso feminino; no segundo, um par de dedos de unhas longas massageia ambos os lados do clitóris. Uma voz melíflua de homem anuncia: “Peep!-Special! Por 250 marcos, você também pode ter suas partes mais íntimas preservadas para sempre em gesso”.
Para mim, já não faz sentido nenhum. A brancura do gesso me lembra apenas a cabeça morta de Lênin sobre a mesa de Mielke. Mudo de canal e deparo com meu programa preferido. É uma benção para os insones, gente como eu, que não quer ficar quieta. Uma câmera é afixada em cima de um veículo. À medida que ele avança, as imagens vão mostrando ruas, estradas e autoestradas em pleno verão do leste da Alemanha. O efeito é hipnótico: um voo sem corpo por cidadezinhas, por sua rua principal e, de novo, rumo ao campo aberto. Veem-se lojas fechadas ou abertas, mulheres de avental varrendo caminhos onde pessoas, sentadas, tomam café e trabalhadores da manutenção das ruas encostados aqui e ali, de macacão. É o mundo não congelado. Em preto-e-branco, e há chuviscos na minha tela, mas sei que o que de fato ladeia as ruas é o amarelo vivo da colza, o verde enevoado do trigo e o verde mais escuro dos carvalhos no verão. De vez em quando, paramos no farol, à mesma altura dos olhos. Depois, seguimos sempre em frente, atravessando como num passe de mágica cidadezinhas descongeladas, uma após a outra, lugares em que nunca estive e aonde talvez nunca vá.
Em meu sono, sigo atravessando os campos em silêncio, extasiada com o vento na minha pele. De repente, outra mulher se junta a mim, voando à mesma altura. No lugar do rosto, vejo um borrão, mas isso não me incomoda nem um pouco. Ela está nua, a não ser pelas luvas de borracha cor-de-rosa. Os mamilos arrepiados são de um rosa mais escuro, e os pelos pubianos possuem dourado exuberante. Assusto-me ao notar que não estou sozinha no ar e que ela está nua. “As luvas são para dirigir, claro”, ela diz. Concordo com um gesto de cabeça e olho para minhas mãos. Estou sem luvas. Depois, olho para meu corpo e vejo que estou nua também. Minha sensação de bem-estar evapora. Dou uma olhada para baixo, por sobre a rua principal de uma cidadezinha, e vejo pessoas abaixo de nós. O sino da igreja começa a tocar, toca e toca sem parar, e sei que logo vou cair — estou sem luvas para dirigir! — e que vão me ver, caída, nua e sem sentido.
Acordo para atender o telefone. O relógio marca 2h30 da madrugada, hora propícia aos ataques cardíacos, às más notícias vindas de casa. Ou será algum outro sujeito da Stasi? Ameaças por telefone são comuns, mas não é possível que eu esteja no topo da lista deles. Quando finalmente encontro o telefone preto, ele já deve estar lá pelo décimo quinto toque. Estou embrulhada no acolchoado da cama.
“Alô?”
“Alô, minha amiga.” Uma voz lubrificada, proveniente do bar que frequento, chega até mim mediante uma boca que na certa segura um cachimbo, produz um sotaque saxônico forte e está envolta em barba. É Klaus. A julgar pelo som da voz, é o receptor que está amparando o queixo.
“E aí, como você se saiu da última vez?”, ele pergunta. “Está a fim de tomar umas?”
“Klaus, são duas e meia da madrugada.”
“Vamos lá”, diz ele, “da outra vez, você ainda estava começando a essa hora.”
Não é meu desejo ser lembrada de noites anteriores. Na minha opinião, uma das convenções entre parceiros decentes de copo é que, na ausência de amnésia real, ela deve ser simulada. Da outra vez, enchemos o ar de palavras e fumaça, mas isso agora é passado. Minha única lembrança é a da ressaca que levei comigo para Leipzig.
“Tive um dia longo.”
“Está legal aqui”, ele diz. “Estão tocando a nossa música.”
Não é bem uma cantada. Ele quer dizer que estão tocando a música dele.
Klaus Renft é o lendário “Mik Jegger ” do bloco oriental. Ele mora bem perto de mim, dobrando a esquina, num apartamento de um cômodo, cheio de vídeos e pôsteres da sua banda, a Klaus Renft Combo. Por lá tem sempre uma sacola cheia de cerveja e de todo tipo de equipamento que o homem já utilizou para fumar. Nós dois somos fregueses do bar aqui perto, que utilizamos, na verdade, como uma sala de estar. O sistema de som do estabelecimento está amplificando o belo lamento chamado “Hilflos”, música regravada no recente álbum de retorno da banda.
“Você ainda está aí?”, ele pergunta.
“Estou. E vou ficar por aqui mesmo.”
“Então durma bem, menina”, ele balbucia. Quando vai desligar, erra o gancho, e o fone fica pendurado de cabeça para baixo. Levo meu telefone de volta para a cama e, deitada, fico ouvindo “Hilflos”. Depois, desligo.
Acordo com novo toque do telefone. É de manhã.
“Guten Tag. A senhora pôs um anúncio no Märkische Allgemeine?”
“Sim. Obrigado por ligar. Estou tentando falar com gente que trabalhou para o Ministério, para poder dar uma ideia de como era. Estou escrevendo um livro sobre a vida na RDA.”
Segue-se uma pausa. “A nota diz que a senhora é australiana.”
“Sou.”
“A senhora é australiana?”
“Sim.”
“Então vem da Austrália?”
“Isso mesmo.”
Na RDA, boa parte da geografia permaneceu coisa teórica, porque as pessoas não podiam viajar para fora do bloco oriental. Se é que os orientais pensavam na Austrália, era na condição de um lugar imaginário para onde ir em caso de catástrofe nuclear.
“E está escrevendo em inglês ou em alemão?”
“Inglês.”
“Marco um encontro com a senhora”, ele diz. “Para pôr os pingos nos is. Quem sabe na Austrália a mídia não tenha envenenado as pessoas contra nós, e pelo menos lá possamos dar a nossa visão das coisas. Com informação e análise objetivas. A senhora pode amanhã?”
“Posso.”
“Em Potsdam, à tarde?”
“Sim.”
“Então nos encontramos da seguinte maneira: vou estar diante da igreja na praça do mercado às quinze horas. Levo comigo a edição de amanhã do Märkische Allgemeine enrolada debaixo do braço esquerdo. Entendido?”
“Sim”, respondo com obediência, embora mal possa crer que aquele homem queira brincar de espião sete anos depois da queda do muro. Em seguida, pergunto: “Qual o seu nome?”
Outra pausa. “Winz.”
“Então, até amanhã, Herr Winz.”
Chego cedo à igreja e estou sozinha diante dela. O céu fechado exibe um cinza-cobertor. Calço botas pretas e estou vestindo um casaco preto com um remate de pele falsa, roupa comum, mas visível a um quilômetro de distância. É óbvio que não estou fazendo nada, e sim à espera de alguém. No mercado ao lado da igreja, mulheres com cachecóis brilhantes e luvas de lã empurram seus carrinhos ao longo das barracas montadas em trailers, xeretando sob os toldos listrados de vermelho e branco. Compram batatas e picles nos tonéis, bem como pedaços de linguiça rosada de fígado. Na banca de petiscos, um homem de antebraços musculosos serve uma salsicha e um pedaço de pão num prato de papel a um funcionário municipal. Os sinos tocam três vezes. Salto de uma perna para outra, ambas congeladas.
Passados dez minutos, um homem se aproxima com um jornal enrolado debaixo do braço esquerdo. Tem cerca de sessenta anos, com pança e papada de cão de caça. Veste paletó de tweed que parece importado. Quando tira o jornal de debaixo do braço para me cumprimentar, vejo que o paletó tem até os retalhos de couro nos cotovelos: ele está disfarçado de ocidental.
“Estacionar por aqui é terrível”, diz Herr Winz, à guisa de desculpa pelo atraso, mas também como se a culpa fosse minha. Ele fala por meio de latidos autoritários. “Sugiro irmos para um lugar neutro”, diz. “Em geral, uso o Hotel Merkur.”
Neutro? Em geral? “Por mim, tudo bem, Herr Winz”, digo eu, e partimos a pé para o hotel, a uns bons quinze minutos de onde estamos. Vem-me à cabeça que ele escondeu o carro em algum lugar para que, caso sucumba à tentação, eu não tenha como segui-lo. De todo modo, fico feliz de me mexer.
O hotel tem um saguão de pé-direito baixo, com nichos apartados de poltronas marrons e um monte de plantas de plástico. Não há mais ninguém ali. Pedimos café a um garçom com uma marca de morango de um lado do nariz, e começo a explicar a Herr Winz meu interesse em falar com ex-funcionários da Stasi. Ele acena para que eu me cale. Espera até que o garçom se afaste mais do que o suficiente para não poder nos ouvir. Então, inclina- se para a frente. “Todo cuidado é pouco por estes dias”, diz, batendo de leve no nariz e olhando para as costas do garçom. Depois, olha bem para mim. “Em primeiro lugar, me mostre sua identidade, por favor ”, solicita.
“Bitte?”
“Quero ver sua carteira de identidade”, ele diz.
“Mas eu não tenho.”
“Como assim, não tem?”, ele pergunta.
“Na Austrália a gente não tem carteira de identidade.”
Ele perde a fala. Olha para mim como se todas as suas suspeitas houvessem se confirmado: venho de um lugar tão remoto, tão primitivo, que as pessoas lá ainda não foram etiquetadas e numeradas.
Eu, porém, concedo: “Tenho passaporte”, digo, e retiro o documento da bolsa. Há uma infinidade de coisas que não podem ser feitas no anonimato por aqui, desde comprar um cartão de celular até viajar de trem. Já tive de provar minha identidade tantas vezes que agora carrego o passaporte comigo, como uma fugitiva.
Ele lê minha data de nascimento e confere minha aparência atual com a outra, mais jovem, da foto. Depois, folheia as páginas para ver onde estive nos últimos anos. “Ah, Tchecoslováquia”, murmura em determinado momento. Então nota que, em 1987, estive na RDA. “Quer dizer que a senhora já visitou meu país?”, diz, aprovando o fato.
“Sim, estive aqui, em Potsdam, e fui a Dresden”, digo, “além de ter ido a uma festa com amigos, uma vez, em Berlim Oriental.”
Lembro-me de um dia cinzento em Potsdam, como o de hoje, as ruas desertas. Nosso ônibus cheio de universitários visitou apenas as partes pavimentadas e adornadas da cidade-vitrine, ruas selecionadas transformadas em fazenda de ovelhas para turistas. Em Dresden, um teleférico nos levou até o alto de uma colina, onde nos foi servida uma refeição composta apenas de enlatados, até mesmo o bife. A festa em Berlim Oriental foi dada por um jornalista judeu detentor de impecável pedigree comunista; depois da queda do muro, descobriu-se que se tratava de um informante. O par de carimbos com a foice e o compasso no meu passaporte pode me dar alguma credibilidade aos olhos daquele homem, mas não se pode dizer que conheço seu país. Eu o visitara apenas por tempo suficiente para me perguntar o que estavam escondendo de mim.
Também peço para ver a identidade de Herr Winz, mas ele me ignora com uma risada e um gesto displicente. Atrás dele, o garçom faz menção de vir nos atender, como se aquele gesto o houvesse convocado, mas olho para ele e faço um leve não com a cabeça. Ele devolve o bloco de papel ao bolso do avental.
Herr Winz abre sua pasta e retira dela documentos, panfletos e uma tese encadernada. Em seguida, põe um livrinho de capa dura no topo da pilha. É o Manifesto comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels.
Ele me conta que trabalhou no Ministério, em Potsdam, de 1961 a 1990, exclusivamente em contraespionagem. Depois, pega a tese e lê o título:
O trabalho do Ministério para a Segurança do Estado na defesa contra a infiltração de inteligência na RDA pelos serviços secretos dos países da OTAN. Exposição apresentada a partir do ponto de vista de um membro da Divisão de Contraespionagem, Administração Regional de Potsdam.
“Esta é uma dissertação que escrevi baseado no meu trabalho no Ministério. Se a senhora ler, vai aprender um bocado daquilo que deseja saber.”
Abro na folha de rosto e vejo que o trabalho foi escrito em 1994, para o “Grupo de Trabalho do Insiderkomitee de Potsdam para a Reavaliação da História do Ministério para a Segurança do Estado”.
“Isto foi escrito para o Insiderkomitee?”, pergunto.
“Sim.”
“O senhor é membro?”
“Sou, mas mudamos o nome para Sociedade para a Proteção dos Direitos Civis e da Dignidade Humana.”
Direitos civis e dignidade humana do Insiderkomitee? Ouvi falar nesse grupo. É uma sociedade mais ou menos secreta de ex-agentes da Stasi que escrevem sua versão da história, pressionam pelos direitos de ex-oficiais e ajudam uns aos outros quando um deles é levado a julgamento. A sociedade possui vínculos estreitos com o Partido do Socialismo Democrático, que sucedeu ao Partido Socialista Unitário, e o que se diz é que, juntos, seus membros podem ter acesso às dezenas de milhões de marcos que pertenciam ao SED, dos quais ninguém prestou contas.
Há também uma forte suspeita de que essas pessoas atormentam todos aqueles pelos quais temem ser denunciados. Um ex-guarda de fronteira que apareceu num programa televisivo de entrevistas recebeu ameaça de ser atacado com ácido e teve de ser posto sob proteção policial. Ataques em domicílio são comuns. Um sujeito encontrou na porta de casa um pacote que fazia tiquetaque. Esposas recebem revistas pornográficas que os maridos nunca encomendaram. A história mais estranha que já ouvi foi a do homem que recebeu um caminhão cheio de cachorrinhos, um festival de latidos na porta de casa enquanto o motorista exigia que ele assinasse o comprovante de entrega. Cabos de freio cortados, acidentes e mortes fabricadas. A filha de um escritor sem papas na língua foi levada da escola por um ou mais desconhecidos para tomar um chocolate quente por cerca de uma hora. Prender pessoas tem seus encantos, um hábito difícil de largar.
Olho para Herr Winz e, de repente, a paisagem ao redor parece repleta de vítimas: dos nazistas, de Stálin, do SED e da Stasi, e agora mais esta — candidatos a vítimas da democracia e do Estado de direito.
“O que o Insiderkomitee faz?”, pergunto.
“Tentamos apresentar um quadro objetivo da história”, diz ele. “Combatemos as mentiras e falsificações da mídia ocidental.”
“Dizem que o Insiderkomitee é também uma frente que coordena ações contra os que trabalham para revelar o que a Stasi fez às pessoas.”
“Disso, não sei de nada.”
“Como não?”
“Sou peixe pequeno”, ele diz. “Estou aqui apenas para contar à senhora o trabalho excelente, verdadeira obra de mestre, que a Stasi fez em matéria de contraespionagem. Foi como passei minha vida.”
Ou Herr Winz não sabe muita coisa ou não quer contar. Ele se recusa a responder minhas perguntas sobre o Insiderkomitee e tampouco fala sobre si mesmo. Toda vez que pergunto sobre a realidade da vida na RDA ele recorre às maravilhas da teoria socialista. Imagino que tenha esperança de, por meu intermédio, plantar as sementes do socialismo num recanto imaculado do mundo.
“Tínhamos gente em toda parte”, diz ele. Seu principal interesse parece ter sido plantar jovens e dedicados alemães orientais na Alemanha Ocidental, onde eles acabariam despertando a atenção do serviço de segurança e sendo recrutados. “Essas pessoas ocupavam altos postos! Tivemos Günter Guillaume, como secretário de Willi Brandt; Klaus Kuron, na contrainteligência da Alemanha Ocidental; e a mulher que preparava o boletim diário da inteligência para Helmut Kohl!” Tudo isso é verdade, mas todo mundo sabe. Acho difícil acreditar que Herr Winz estivesse pessoalmente envolvido com os altos círculos. Ele não demonstra confiança suficiente, é muito inconvincente bancando o espião para ter algum dia feito aquilo de verdade. Tento imaginar o que ele fazia de fato, já que ele não quer me contar. O melhor que posso imaginar é que redigia manuais de procedimentos.
Mas Herr Winz está se animando com sua história. “A CIA, sim: esses eram bandidos! Uma corja nojenta. Você sabia que eles tentaram matar Fidel Castro vinte vezes?”
“Não deviam ser grande coisa, então”, sorrio. Ele parece assustado. Não achou graça.
“Bandidos!”, ele grita, “uns bandidos!”
Lanço um olhar para além dele, na direção do garçom, ocupadíssimo em seu posto. Se ele tinha alguma curiosidade acerca das origens do freguês, já a satisfez plenamente.
“Como tratam o senhor hoje em dia, um ex-agente da Stasi?”, pergunto. Quero saber por que ele está disfarçado de ocidental.
“O inimigo fez uma guerra de propaganda contra nós, uma campanha de calúnias e difamações. Por isso, não costumo me revelar às pessoas. Mas em Potsdam” — ele adota uma vozinha lamuriante — “elas chegam e dizem: ‘Vocês tinham razão. O capitalismo é ainda pior do que vocês diziam que seria. Na RDA, uma mulher podia sair sozinha à noite. A gente podia deixar a porta de casa aberta!’.”
Nem precisavam, imagino. A Stasi via tudo que se passava lá dentro.
“Esse capitalismo é, acima de tudo, exploração! É injusto. Brutal. Os ricos ficam cada vez mais ricos, e os pobres, sempre mais pobres. Além disso, o capitalismo conduz à guerra! Sobretudo o imperialismo alemão! Cada industrial é um criminoso de guerra contra seu concorrente, as empresas estão sempre em guerra umas com as outras!” Ele toma um gole de café e ergue a mão, para evitar que eu faça outra pergunta.
“E tem mais: o capitalismo devasta o planeta, com esse buraco na camada de ozônio, com a exploração das florestas, com a poluição. Precisamos nos livrar desse sistema social! Senão a raça humana não vai durar nem cinquenta anos mais!”
É uma arte, uma arte profundamente política, tomar as circunstâncias existentes e atribuí-las ao nosso lado ou ao lado oposto, inculpando constantemente a realidade de fins dos quais ela é inocente. Fica claro, à medida que ele fala, que o socialismo, como artigo de fé, pode seguir existindo nos corações e nas mentes das pessoas, independentemente dos infortúnios da história. Aquele homem está disfarçado de ocidental para se mesclar melhor e sem ser notado ao mundo em que se encontra, mas quanto mais ele fala mais claro fica que ele está na clandestinidade, aguardando a segunda vinda do socialismo.
Herr Winz se recompõe, baixa o tom de voz e se inclina na minha direção como um conspirador. Seu hálito é quente e amargo, do café, e manchinhas de saliva amarronzada pulverizam a capa dura da tese. “Fique com isto.” Ele me passa o Manifesto comunista, erguendo-o do topo da pilha. Parece muito bem cuidado. “A senhora deveria ler isto aqui”, ele sibila. “Vai compreender muito melhor as coisas. Mesmo hoje, não existe análise melhor do capitalismo. Eu lhe dou de presente.” Ele apanha uma caneta e me escreve uma dedicatória: “Uma lembrança da nossa discussão em Potsdam”.
“Muito obrigado.”
Herr Winz junta suas coisas e se levanta para partir. Depois, apoia na mesa os nós dos dedos e aproxima seu rosto do meu. “Pode acreditar em mim”, diz. “Já passei por uma revolução, a de 1989, e conheço os sinais.” A voz dele vai ficando mais alta. “Esse sistema está no fim! Seus dias estão contados! O capitalismo não vai durar! A revolução”, ele ergue o punho da mesa, “está chegando.”
Então, marcha pelo saguão em direção à porta, e o garçom me traz a conta.
Uma voz alegre. “Ninguém pode atender no momento, mas se você deixar uma mensagem alguém liga de volta assim que possível. Se for notícia boa, liga mais rápido ainda. Tchau.”
“Miriam, é a Anna”, já vou dizendo. Então, ouço o bip e começo de novo. “Miriam, é a Anna. Estou ligando só para dar um oi. Não tenho nenhuma novidade. Chamo de volta outra hora, ou você pode ligar para o meu número de Berlim. Espero que esteja tudo bem por aí.” Não me ocorre outra coisa que eu possa dizer. “Tchau.”
Durante alguns dias, penso sempre que é ela quando o telefone toca, mas em geral são os homens da Stasi. Uma semana depois, a despeito deles, ainda tenho esperança quando o telefone toca. Outra semana se passa, e esse sentimento coagula-se em algo mais soturno: será que eu a ofendi? Preencho o silêncio dela com possibilidades diversas. “Deve ter perdido o meu número.” “Saiu de férias.” E mesmo, por extenso: “Foi demais para ela reviver a história toda. Ela se enforcou em sua torre”. Apesar da imagem vivida, decido esperar uns quinze dias antes de ligar de novo. Pelo menos em certa medida, tenho consciência de que estou atrás de uma pessoa que já foi perseguida o suficiente.
Contar a história da gente significa libertar-se dela? Ou será que significa avançar acorrentado em direção ao futuro?