Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 18 de 36

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Stasilândia

13. Von Schni...

 

Na porta consta o sobrenome de solteira dela, em vez do sobrenome dele. Sou recebida por uma mulher de rosto fino, na casa dos sessenta. Ela usa bobes nos cabelos escuros, lábios vermelhos, unhas pintadas de vermelho. Frau Marta von Schnitzler era atriz.

“Bem-vinda”, diz ela, estendendo-me a mão envernizada e me conduzindo até a sala de estar. O apartamento é pequeno, mas bem iluminado. Os escombros de uma vida inteira estão alojados em estantes e prateleiras ou pendem da parede; livros, caixas de metal, pequenas estátuas e copos de plástico cheios de esferográficas.

Na sala de estar, um homem de óculos quadrados e barba delineada com todo cuidado está sentado numa poltrona. Sua mão direita, lisa para um homem de 79 anos, segura o topo de uma bengala. Ele me cumprimenta com um aceno de cabeça. Na mesinha de centro há uma garrafa térmica com água quente, um vidro de Nescafé e outro de remédio. Diante de Herr Von Schnitzler, uma taça grande de vinho contendo o que parece ser um licor avermelhado. Sento-me de frente para ele. A cabeça é maior e mais enrugada, as maçãs do rosto mais pronunciadas do que na TV, mas trata-se sem dúvida de Sudel-Ede, ou Ed Sujeira. Atrás da cabeça dele, noto uma fileira de outras cabeças na parede, todas no mesmo nível: um busto de Marx, um daguerreótipo de Lênin e, prosseguindo com o olhar, até mesmo uma miniatura de Stálin de corpo inteiro.

“Herr Von Schnitzler ”, eu começo, “gostaria de fazer algumas perguntas sobre a biografia do senhor…”

“Sim, isso é importante: a) para saber da minha história de vida e b) porque noventa e cinco por cento do que a senhora terá lido sobre mim é mentira.” Da velha garganta ressequida sai uma voz que é como um grasnido.

“O senhor acha…”

“Eu não acho, eu sei. Assim é.” Sua voz começa a ganhar vigor e timbre.

“… mas o que eu li foram livros escritos pelo senhor mesmo”, digo a ele. “Não estariam equivocados, estariam?”

“Bom, nesse caso é diferente”, ele responde, mas não abre o menor sorriso. “Muito bem, muitíssimo bem.” Essa entrevista não vai ser fácil. Ele olha para mim com uma expressão de desafio. Posso ouvi-lo respirar.

Karl-Eduard von Schnitzler nasceu em 1918, no seio de uma abastada família berlinense. Seu pai, Julius Eduard Schnitzler foi cônsul-geral do imperador Guilherme em Antuérpia, além de tenente do Exército prussiano. Em 1913, o imperador promoveu Julius e os dois filhos à nobreza, concedendo-lhes o privilégio de usar o prefixo “von”. A família permaneceu nas proximidades do poder inclusive durante o regime nazista. Um dos primos de Von Schnitzler foi banqueiro de Hitler, enquanto outro era diretor comercial da IG-Farben, a empresa que fornecia o gás venenoso Zyklon B para os campos de concentração.

Karl-Eduard reagiu contra as disparidades da riqueza e contra o nazismo ao seu redor. Aos catorze anos, fascinou-se com o comunismo. Estudou medicina por um breve período e, depois, foi fazer um aprendizado na área de vendas. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu no Exército de Hitler. Em junho de 1944 foi preso pelos britânicos e levado para o campo “antifascista” de prisioneiros de guerra em Ascot. Poucos dias depois, começava a fazer transmissões em alemão na BBC para o programa Prisioneiros de guerra alemães falam a seu país.

Von Schnitzler foi libertado e devolvido à Alemanha em 1945, onde continuou com as transmissões desde a Zona de Ocupação Britânica, em Colônia. Mas não demorou muito até que seu comunismo ferrenho o pusesse em conflito com os administradores britânicos e ele fosse demitido.

Em 1947, partiu para a Zona de Ocupação Soviética. Lá chegando, disse a seu futuro líder, Walter Ulbricht, que queria tirar o “von” de seu nome. Ulbricht respondeu-lhe: “Você está louco? Todos precisam saber que todo tipo de pessoas está vindo para o nosso lado!”

E foi assim que o homem de nome ridiculamente nobre tornou-se o rosto do regime na mídia. Der Schwarze Kanal foi ao ar até o finzinho de outubro de 1989.

Von Schnitzler começou a falar e está dando todos os detalhes sobre a guerra.

Eu o interrompo. “Gostaria de falar sobre Der Schwarze Kanal…”

“Mas isso seria pular um pedaço muito importante da minha vida: meu período como prisioneiro de guerra, quando eu fazia transmissões para a BBC…”

“Eu ficaria muito feliz em conversar sobre isso, mas depende de quanto tempo o senhor tem.”

“Tenho tempo”, responde ele. “Quanto tempo a senhora tem?”

“O dia todo”, digo, “mas suponho que não queremos conversar o dia inteiro. Gostaria de falar com o senhor por umas duas horas.”

Frau Von Schnitzler instalou-se fora do nosso campo de visão, mas ao alcance das vozes. O apartamento é menor do que pensei. Está bem longe de ser a mansão onde Karl-Eduard nasceu. Acredito que FrauW on Schnitzler esteja costurando. Ela balbucia alguma coisa sobre o tempo que não consigo captar.

“Nein?”, ele diz, creio que para ela.

“Bom, talvez uma hora, então”, eu digo.

Mas ele continua a contar sua história na íntegra. Von Schnitzler fez carreira selecionando trechos e criticando a televisão ocidental, mas se recusa a me deixar selecionar trechos da vida dele. Mergulhou num ritmo autoritário de discurso no qual ele tem prática, com ênfases ocasionais que assustam — qualquer uma delas podendo transformar-se numa reprimenda ao interlocutor que deixou de prestar atenção.

Ergo a mão, a palma para cima, e torno a interrompê-lo. “Se só temos uma hora, eu gostaria muito de falar sobre Der Schwarze Kanal.

Ele agora ficou bravo. “Mas é mais importante falar sobre a história!” A bengala escapa da mão e cai na poltrona. Ele a apanha. “A senhora pode ler quanto quiser sobre Der Schwarze Kanal!” Ele sacode a bengala de um lado para outro. “O programa era parte da Guerra Fria, e eu era uma das principais figuras da RDA durante a Guerra Fria...” Ele perde o fôlego, ou o fio da meada.

“Exato”, digo eu, “e é na RDA que estou mais interessada.”

“Ã-hã, ã-hã”, ele murmura, recuperando a calma de repente. Reconheço o padrão dos gritos imprevisíveis seguidos de acessos de calma racionalidade: já vi em outros valentões que conheci. “Está bem”, ele diz com perfeita gentileza. “O que a senhora quer saber sobre o Kanal?"

“Como começou? Foi ideia do senhor ou lhe atribuíram a tarefa?”

“Foi ideia minha”, responde. “Uma vez, vi políticos ocidentais vomitando mentiras nojentas sobre a RDA num noticiário da TV, e antes mesmo de o programa acabar eu já tinha preparado um texto para pôr no ar! Devolvi o petardo na cara deles. A questão então era a periodicidade. Insisti no programa semanal. Hoje” — ele se inclina, furioso, na minha direção —, “hoje eu poderia fazer um programa por... um por dia!” Aquilo era uma explosão programada para me assustar. “Isso dá uma ideia de como é nojenta essa, essa merda de televisão!” Ele aponta com a bengala para o televisor na sala.

Está bem, então, penso comigo. Vamos continuar nessa direção. “O que deixa o senhor com mais raiva na televisão de hoje?”

“Nada me deixa com ‘raiva’!”, ele protesta, incandescente de tanta fúria. Com o rabo do olho, vejo Frau Von Schnitzler erguer a cabeça. “É por isso que sou um comunista! Para que nada me deixe com raiva!” Então, de súbito, ele torna a se acalmar. “Eu tenho pena”, diz, em tom de desprezo, “é do que mostram às pessoas hoje em dia nesse monte de lixo que é a televisão. Por exemplo, aquele programa idiota, como se chama?” A pergunta é dirigida a ninguém em particular, mas um murmúrio provém do cômodo ao lado.

Ele o ignora. “Bom, são todos idiotas, não são?”, ele me pergunta. “Marta, você precisa ficar fazendo careta?” Então, como se perguntasse a si próprio: “Qual era o nome daquele programa? Big Ben?”.

“Big Ben?”

“Aquele em que trancam dez pessoas…”

“Ah, sei”, diz a esposa em voz alta, “agora eu sei do que você está falando. Big Brozer.”

“Isso”, diz ele, "Big Brozer."

Imensamente popular, o reality show que tranca pessoas numa casa e as filma 24 horas por dia passou aqui recentemente. Batizado em homenagem ao chefe do regime de vigilância descrito por Orwell no romance 1984, o programa oferece um prêmio em dinheiro à pessoa que sobreviver mais tempo ao convívio com as demais sob circunstâncias tão claustrofóbicas e vigiadas. Orwell era proibido na RDA. Fico imaginando se Herr Von Schnitzler se ofendeu com os ecos orwellianos do programa ou apenas com a imbecilidade generalizada que nele impera.

Está olhando para mim. “Acho que aquele grande tirano das comunicações lá do seu país teve alguma coisa a ver com isso...” “Ela é australiana”, corrige Frau Von Schnitzler, “não é americana.”

“Eu sei o que estou dizendo”, ele confirma.

“Murdoch”, digo eu. “Sim, ele era australiano, mas agora é americano.”

“Que diferença faz?”, ele pergunta, zombeteiro. “É um imperialista global.”

Abro meu caderno de notas. Quero citar para ele algumas de suas próprias palavras. Estou apreensiva. “Posso ler uma coisa para o senhor?”, peço. “Em novembro de 1965, dois alemães orientais tentaram atravessar a fronteira, e um deles foi morto a tiros. Então, na época do Natal daquele ano, o senhor fez um programa...”

“As tentativas de fuga eram sempre na época do Natal”, ele diz. Usa a forma verbal insziniert, que significa “encenadas”, sugerindo que as fugas eram arquitetadas com o propósito deliberado de prejudicar a imagem do regime.

Sente-se tão à vontade com o assunto que minha apreensão dá lugar a um sentimento mais prático. “Quero ler esse texto daquele seu programa e perguntar se o senhor ainda concorda com ele.” Leio minha própria transcrição:

A política de “libertar o bloco comunista” é só pretexto para liquidar a RDA, e isso significa guerra civil, guerra mundial, guerra nuclear, ou seja, separar famílias, apocalipse atômico. Isso é inumano! Foi contra isso que fundamos um Estado! Contra isso erigimos uma fronteira rigorosamente controlada, com o intuito de deter o que vinha acontecendo durante os treze anos em que ela permaneceu aberta e alvo de abuso. Isso é humano! É um serviço prestado à humanidade!

Quando termino, os olhos dele estão cravados em mim, o queixo erguido. “E qual é sua pergunta, mocinha?”

“Minha pergunta é se hoje o senhor é da mesma opinião sobre o muro como feito humano e sobre as mortes na fronteira como ato de paz.”

Ele ergue o braço livre, respira fundo e grita, descendo o punho: “Mais! Que! Nunca!”

Eu me assusto por um momento. Depois, me preocupa que Frau Von Schnitzler possa querer pôr fim à entrevista. “O senhor achava aquilo necessário?”, apresso-me em perguntar.

“Eu não ‘achava’ necessário. Era absolutamente necessário! Uma necessidade histórica. Foi a construção mais útil de toda a história alemã! Da história europeia!”

“Por quê?”

“Porque impediu que o imperialismo contaminasse o Leste. O muro emparedou o imperialismo.”

Tudo que ele emparedou foi seu próprio povo, penso comigo. E é como se ele tivesse lido meu pensamento.

“Além do mais, os alemães orientais não foram ‘emparedados’! Podiam ir para a Hungria, podiam ir para a Polônia. Só não podiam ir para os países da OTAN. Porque, claro, não se viaja por território inimigo. É simples, não há nada de complicado nisso.”

A loucura é tamanha que não consigo pensar de imediato em outra pergunta. Mas, logo a seguir, ele se contradiz sozinho. Uma no cravo e outra na ferradura parece ser seu modus operandi.

“De fato, acredito que deviam ter aberto antes a fronteira, nos últimos anos”, diz ele. E, a seguir, quase em tom de arrependimento: “As pessoas teriam voltado”. Eu me pergunto se ele acredita mesmo nisso. Passados sete anos, os Estados do Leste seguem perdendo população. “A maioria, a maioria teria voltado.”

Von Schnitzler é um daqueles quadros cujas ideias foram moldadas nos anos 1920 pela batalha contra as grosseiras injustiças do mercado livre durante a República de Weimar e, depois, pela violência fascista. Viveu para assistir ao nascimento e à morte da nação construída em torno das ideias que o formaram. É um crente de verdade, para quem minhas perguntas demonstram apenas uma lamentável ausência de fé.

“O senhor viveu todo o período da RDA, do começo ao fim…”

“Vivi, sim, isso mesmo.”

“Na sua opinião, há alguma coisa que poderia ter sido feita de outra maneira, melhor?”

“Ah, tenho certeza de que existem coisas que poderiam ter sido feitas de modo diferente ou melhor. Mas essa já não é a questão que importa.”

“Eu acho que é”, digo, embora algum pensamento ainda nem formulado esteja me incomodando. “Houve uma tentativa séria de construir um Estado socialista, e deveríamos examinar por que, no fim das contas, esse Estado não existe mais. É importante.” O tal pensamento incômodo se revela: é a lembrança do pouco interesse que também Scheller e Uwe, ocidentais, demonstram pela RDA.

“Eu percebi relativamente cedo”, diz ele, “que, em termos econômicos, não teríamos como sobreviver. E quando começamos a nos enredar naquela propaganda ridícula do sucesso da RDA — exagerando resultados de colheitas, dos níveis de produção, e assim por diante —, eu me afastei disso tudo, atendo-me apenas à minha especialidade: o trabalho contra o imperialismo. Exclusivamente. E é por essa razão que hoje eu sou tão ‘amado”’, diz ele, sarcástico.

“‘Amado’? Como assim? Por quem?”, pergunto.

“Amado por todos aqueles que têm o pensamento imperialista, que agem de forma imperialista e criam seus filhos de modo imperialista!” Cada vez que pronuncia a palavra “imperialista”, ele empurra o punho sobre a bengala na minha direção. Esse homem, capaz de transformar o inumano em humano, enfrenta agora aquele que talvez seja seu maior desafio: transformar o fato de que é odiado no fato de que, a julgar por todos os indícios disponíveis, ele tem razão.

“Seu programa de TV tinha por base expor as mentiras da mídia ocidental. Quando o senhor percebeu a propaganda enganosa dentro da RDA, o senhor não se sentiu na obrigação de fazer o mesmo?”

“Não. O foco do meu programa era deliberada e exclusivamente o anti-imperialismo, não a propaganda da RDA.”

“Mas o senhor compreende a minha pergunta, Herr Von Schnitzler. A propaganda do sucesso na mídia da RDA também era uma mentira…”

“Ela de fato distanciava a população de nós, porque estava em contraste mais do que evidente com a realidade.” Sua facilidade de alternar pontos de vista é assustadora. Acredito que seja um sinal de alguém acostumado a tanto poder que a verdade já não importa, porque, afinal, não se pode ser contestado.

“E por que o senhor não comentou aquelas mentiras à época?”

“Nem teria passado pela minha cabeça!” Ele franze as sobrancelhas e encolhe o pescoço, como uma tartaruga contrariada. “Não vou criticar minha própria República!”

“Por que não?”

“A crítica ao imperialismo já é bastante coisa!”

“Eu critico meu país…”, digo.

Ele não perde a oportunidade: “A senhora tem muito mais razões para fazê-lo”.

Só posso rir. “É possível”, respondo.

Mudamos o assunto para o presente. Ele começa a falar de “meu grande amigo Erich Mielke”.

“Ele mantinha um arquivo sobre o senhor?”

“Não sei.”

“O senhor não pediu para ver?”

“E por que faria isso?”

“Por curiosidade.”

“Minha curiosidade está toda voltada para as maquinações do imperialismo e para como elas podem ser combatidas.”

Xeque-mate. Passo a outra pergunta. “A vigilância interna, voltada contra a população da RDA, com o auxílio de colaboradores oficiais e extraoficiais…”

Ele me interrompe. “Pode jogar fora noventa por cento do que a senhora sabe a esse respeito.” Está bravo de novo. “É tudo mentira. Veja bem, na minha opinião, mesmo dez por cento do que estão dizendo já seria exagero.”

“O senhor está dizendo que o número de funcionários da Stasi designados para vigiar a população alemã oriental era só dez por cento do que alegam que era?”

“Estou. O exagero aí é incomensurável. Seja como for, sou extremamente cético no que se refere a números.”

Ele muda de assunto e volta a falar do amigo Mielke. “O muro era necessário para defender uma nação ameaçada. E, no comando, estava Erich Mielke, um exemplo vivo do mais humano dos seres.”

Jamais ouvi alguém se referir a Mielke nesses termos. Ele era demasiado feroz e temido para ser mencionado com algum resquício que fosse de afeição. Desvio meu olhar para as estantes na parede, logo atrás de Herr Von Schnitzler. Elas estão cheias de livros e suvenires, além de uma fileira de vidros com comprimidos e de um toca-fitas barato. As palavras “o mais humano dos seres” pairam no ar. Ele começa a tossir seco e pesado diante de um lenço. Depois, ergue a bebida avermelhada até os lábios.

“E como o senhor tem visto os acontecimentos depois de 1989, agora que está vivendo em pleno capitalismo, ou, como o senhor diz, imperialismo? É o que o senhor esperava que fosse”, mantenho-me firme, olhando para ele, “ou não é tão ruim como o senhor pensava?”

“Eu vivo”, diz ele, agressivo, “no meio do inimigo. E não pela primeira vez em minha vida. Vivi entre inimigos durante o nazismo também.” Está a caminho de outro pequeno ataque de fúria. Noto que Marta o observa, e me pergunto se ele toma remédio para controlar a fúria ou seus efeitos. “O que posso dizer ”, ele continua, “é que, enquanto a RDA existia, nenhum porco em Bonn teria ousado começar uma guerra!” Resfolegante, ele forma um punho com a mão, mas o mantém no colo. “A RDA impediria, com sua própria existência, uma coisa dessas!” O que ele quer dizer é que, enquanto a Cortina de Ferro estava de pé, os países da OTAN não teriam bombardeado a ex-Iugoslávia, por temer uma retaliação russa em defesa dos sérvios.

Herr Von Schnitzler está ofegante, irritado e, creio, sem palavras, finalmente. Ele olha para mim, e posso ver as veiazinhas vermelhas emaranhando-se em seu globo ocular. “Ponto final!”, ele grita. “Esta… conversa… termina… aqui!”

Segue-se uma breve pausa.

“Muito obrigada”, digo a ele.

“O quê?”, ele pergunta, ainda aos gritos.

“Eu disse ‘muito obrigada’.”

“Ah, de nada.”

Começo a juntar minhas coisas e me lembro de que trouxe um presentinho para ele da Austrália. É um alfinete esmaltado, contendo as bandeiras cruzadas da Alemanha e da Austrália.

“O que é isto?” ele pergunta, tirando-o da minha mão e segurando-o a grande distância dos olhos.

“É a nossa bandeira, da Austrália”, respondo. “Me desculpe não ter encontrado…”

“Espere aí. Espere um pouco”, ele me interrompe, olhando bem para o alfinete. “Esta aqui não é a minha bandeira. Esta é a da República Federal.”

Imagino que ele vá gritar comigo de novo. “Eu sei”, digo rapidinho, “mas, lá na Austrália, não consegui encontrar um que tivesse a bandeira da RDA.”

“Tudo bem”, ele diz, num súbito contentamento. “Acho que tenho lugar para este aqui bem ali”, e aponta para a estante atrás de si, para Marx, Lênin e até Stálin.