Stasilândia
15. Herr Christian
Passam-se vários dias nos quais minhas atividades principais parecem ser alimentar e esvaziar o aquecedor. Agora, bem agasalhada, estou a caminho da estação. Na entrada, tem um estúdio fotográfico. Sempre dou uma olhada nas fotos à mostra na vitrine, para ver os nativos do jeito que eles querem ser vistos. Há bebês carecas com fitas em torno da cabeça; uma foto de casamento com a noiva na motocicleta, parecendo parte do pacote; um rapaz, com o cabelo cortado curto na frente e dos lados, mas comprido atrás, segura a namorada com orgulho, como se tivesse acabado de consegui-la. As fotos mudam de tempos em tempos, mas hoje, como sempre, tem uma de uma mulher de beleza deslumbrante, tão linda que fico olhando para ela como se fosse um enigma, ou uma resposta.
No trem, outra mulher muito bonita está sentada bem à minha frente. Junto do peito, ela carrega uma criança num porta- bebê. Eu me pergunto se mais alguém nota como são bonitas as mulheres aqui, ou se todos já se acostumaram com isso. O turco a meu lado está absorto em coisa diferente. Ao ver a própria imagem na janela ao lado da mulher, ele tira um pente do bolso e põe-se a pentear suavemente o bigode. A jovem mãe olha para baixo, para o bebê, e não consigo tirar os olhos deles. Quando ela levanta a cabeça, vejo que tem um piercing no nariz e que os olhos azuis são um pouco vesgos, só um pouquinho, atraídos pelo piercing como se por um ímã.
Estou na borda do estacionamento da estação Potsdam. Todos os outros passageiros passam por mim, em direção aos carros, bondes e a lugares que conhecem. Depois que todos se vão permaneço sozinha, a não ser por um homem de jeans inclinado sobre o capô do maior e mais negro BMW que já vi. Ele acena para mim. É minha carona. Meu mais recente agente da Stasi.
Herr Christian aperta minha mão com cordialidade. Tem um enorme sorriso torto. “Pensei que um passeio seria uma boa ideia”, ele diz, com voz informal e enfumaçada, “para que eu possa mostrar à senhora alguns dos lugares onde operei.”
“Ótimo.”
Ele abre a porta do carro para mim, corre em direção ao outro lado e embarca.
Olho para ele. É um longo caminho. Herr Christian deve ter seus 45 anos, o rosto é jovem e plano, o nariz já foi quebrado várias vezes. Os cabelos formam cachos loiros próximos à cabeça, os olhos são pequenos, azuis e faiscantes. Ele me olha bem nos olhos, sorrindo seu sorriso torto, como um gângster, ou um anjo.
“Vamos lá”, ele diz, e noto que ele tem a língua presa. Depois de pôr os óculos escuros, ele dá a partida.
O carro desliza pelas ruas como um iate. Herr Christian o conduz com leveza. Mais parece um menino com um brinquedo do que um homem com uma vasta propriedade negra. Atravessamos as ruas de Potsdam, passando por paralelepípedos que nem sentimos e por grandiosas edificações em variados graus de má conservação. Os vidros do carro são escuros, ninguém pode nos ver ali dentro.
Estacionamos diante de um bem conservado casarão com dintéis brancos e um jardim de sebes. “Esta”, diz ele, “era a ‘Mansão dos Códigos?’”. Herr Christian costumava trabalhar ali, codificando transcrições de conversas interceptadas de telefones de carros e dos walkie-talkies da polícia ocidental. “Elas chegavam por telex, nós as transformávamos em código e as repassávamos para Berlim.” Ele ri. “Codificávamos absolutamente tudo que era dito, até mesmo os Ja, os Guten Tag e o que as pessoas tinham comido no almoço. Berlim tinha de saber de tudo. E note que captamos também um bocado de políticos ocidentais conversando entre si.”
Vamos em frente. Os plátanos ao longo da rua estão nus, com seus troncos malhados e galhos terminando em tocos. Formam fantasmas de luz e sombra sobre o capô do carro. Herr Christian está muito falante e à vontade. Vê algo de divertido no trabalho que realizou para a Stasi. Fala comigo como se eu fosse sua cúmplice numa conspiração. “Eu nunca fui muito de ideologia”, ele diz. Deixamos a cidade de Potsdam para trás e avançamos por uma autoestrada. Estamos ultrapassando um Trabi verde-sapo, com janelas pintadas de preto e um escapamento fumegante. No porta-malas, em letras onduladas de um rosa neon, lê-se: “Sou seu pior pesadelo”. Nós dois rimos ao passar por ele.
Aos dezenove anos, quando prestava o serviço militar, Herr Christian foi chamado a uma sala especial para uma entrevista. “Fiquei imaginando o que tinha feito de errado”, diz. O homem dentro da sala vestia terno e fumava cigarros ocidentais. Perguntou a Herr Christian o que ele pretendia fazer da vida.
“Lutar boxe no Dynamo”, foi a resposta. Dynamo era o clube esportivo das Forças Armadas, e da Stasi também. O homem o fez assinar um compromisso, afirmando que trabalharia para a Stasi. “Para mim, não era problema nenhum”, ele conta. “Achei que podia render um pouco de aventura.” Mais tarde, um acidente de carro acabou com a carreira de boxeador, mas ele permaneceu na Firma. “Sempre tive um acentuado senso do dever, de obediência à lei”, diz, “e acreditei que era a coisa certa a fazer.”
Deixamos a autoestrada por uma vicinal sem uso. De ambos os lados, uma floresta de pinheiros escuros, plantados em fileiras e todos da mesma altura. O carro arremete adiante como um barco, até alcançarmos uma cerca com uma placa que diz: “Entrada proibida”. Herr Christian avança de pronto. Chegamos ao que parece ser apenas um monte de terra. Ao redor, esparramam-se anexos.
Ele se volta para mim e sua jaqueta de couro chia em contato com o couro dos bancos. “Este aqui era o abrigo para o alto escalão da Stasi de Potsdam, caso houvesse uma catástrofe nuclear ”, informa. “Fiquei de guarda aqui por um tempo. A entrada era num daqueles prédios ali”, ele aponta para uma cabana cinza de fibrocimento, “e a gente descia para um complexo imenso de concreto embaixo da terra. Quando construíram isto aqui tiveram de remover toneladas e mais toneladas de terra em falsos caminhões de transporte de animais e despejar tudo bem longe daqui. No interior do abrigo tinha tudo que se possa imaginar: comida, remédios, quartos de dormir, equipamento de comunicação, mesas de pingue-pongue, tudo.” Havia muitos desses abrigos na RDA, para que a Stasi se salvasse e repovoasse a Terra — caso se lembrassem de levar alguma mulher lá para dentro.
Um policial de uniforme verde vem em nossa direção. Ele é jovem, barba feita, traz um pastor alemão na coleira. “O que os senhores fazem aqui?”, pergunta.
Herr Christian conta a ele que costumava guardar o lugar, quando era um abrigo da Stasi.
“Não sei do que o senhor está falando”, diz o jovem. “Isto aqui é propriedade federal, e peço aos senhores que se retirem.”
No carro, Herr Christian se pergunta: “Para que será que estão usando isso aí hoje em dia?”
Em vez de voltarmos pelo caminho que viemos, em direção à autoestrada, ele conduz o carro por uma série de trilhas enlameadas por entre os pinheiros. Em diversos pontos, há interrupções nas fileiras de árvores, e posso ver por onde passava o muro — uma faixa de areia que corta a floresta e abriga equipamentos para remoção da terra, bem como velhas guaritas cobertas de pichações. Pergunto a ele o que faz da vida hoje em dia.
“Sou, bom… detetive particular ”, diz, com certo acanhamento. “Isso mesmo, continuo fazendo mais ou menos o mesmo trabalho que fazia antes. Nesta minha segunda vida.”
“E como vão os negócios?”
“Na verdade, não vão lá muito bem”, lamenta-se. “Os trabalhos não surgem com a regularidade que eu desejaria, e muitos são de um tipo”, ele tosse um pouquinho, “que eu não pego.” Ele dá uma olhada para mim.
“E que tipo é esse?”
“Adultério”, diz, tornando a olhar para a trilha. “Nisso, nem ponho a mão. Aquela história: um dos cônjuges suspeita que o outro está tendo um caso e quer que a gente investigue.” Ele acende um cigarro de um maço de Stuyvesants e dá uma longa tragada. “Quando entrei para a Stasi eu era casado, mas não éramos felizes, e eu me apaixonei por uma das professoras do meu filho. Começamos a ter um caso. Confidenciei a novidade a meu melhor amigo, mas ele se revelou possuidor do que se pode chamar de um senso de lealdade superdesenvolvido e contou tudo aos colegas de trabalho. Me trancaram numa solitária por três dias. Depois, me rebaixaram e me puseram para trabalhar num canteiro de obras durante um ano. Meu supervisor me disse: ‘Todo mundo pode ter um caso, mas isso precisa ser informado’.”
A Stasi não poderia admitir que um dos seus tivesse alguma coisa na vida de que ela não soubesse. Mas Herr Christian, ao que parece, sempre soube que certas coisas são pessoais. Ele exala das narinas duas colunas de fumaça rumo ao pretume do carro. “Eu tive medo, sabe? Quero dizer, quando trabalhei naquele canteiro de obras. Por ter trabalhado no centro de codificação, sabia tanta coisa que achei que viriam atrás de mim. Tinha medo de sofrer algum acidente de carro, alguma fatalidade no trabalho ou mesmo de que arranjassem algum outro meio de executar a sentença.” Ele balança a cabeça. “Adultério não investigo. Está abaixo da minha dignidade.”
Depois da temporada no canteiro de obras, e depois de se casar com seu novo amor, Herr Christian foi aceito de volta no rebanho e designado para trabalhar como agente de segurança disfarçado em edifícios da Stasi. “Agora, acho que já estamos perto de onde eu trabalhei a maior parte do tempo”, ele diz, “o posto Michendorf.” Emergimos da floresta asseada e triste e atravessamos a autoestrada rumo a um posto comum de parada de caminhões. O prédio principal compõe-se de dois pavimentos de concreto cinza, com uma lanchonete no piso térreo. Era a última parada antes de se chegar a Berlim Ocidental. O posto ainda está em funcionamento, as velhas bombas de gasolina seguem postadas lado a lado na frente, além das duas novas cabines telefônicas rosa da Deutsche Telekom.
Saímos do carro e caminhamos pelo cascalho. Herr Christian afasta os óculos até o topo da cabeça e acende outro cigarro. “Nos meus tempos, este lugar era submetido à vigilância completa. Naquela sala ali em cima”, diz ele, apontando para uma protuberante janela escura no telhado, “tinha gente dia e noite. E dali tinha-se uma visão de tudo que acontecia por aqui, de todos os veículos indo do leste para o oeste. Era segredo absoluto. Os frentistas do posto de gasolina eram informantes, mas nem eles sabiam o que se passava ali em cima.”
“Sempre mantínhamos umas duas pessoas em trajes civis circulando, para trabalho de campo. Esse era o meu trabalho. Eu levava um gravador no bolso ou, se ficava dentro do carro, ele tinha câmeras instaladas nos faróis. Tínhamos equipamento de escuta capaz de captar o que as pessoas conversavam dentro dos veículos. Havia uma câmera naquela bomba ali”, ele aponta para a bomba de gasolina, “que eu operava por controle remoto e que me dava uma imagem em close das pessoas, mesmo estando longe delas. Nossa vigilância cobria tudo mesmo.”
O trabalho de Herr Christian era caçar carros que estivessem levando passageiros clandestinos, alemães orientais em fuga para o Ocidente. Caminhamos para o outro lado do posto. O céu exibe a mesma cor do concreto; somos ensanduichados por aquele cinza. A ponta do meu nariz e os lobos das orelhas começam a pulsar de frio. “Contrabandear pessoas para o Ocidente era um negócio tocado por criminosos, de verdade. Depois de atravessá-los para o outro lado, eles tomavam grandes quantias de dinheiro dos pobres coitados, coisa de vinte mil marcos ocidentais. Ou faziam com que pagassem adiantado, com alguma herança de família ou com coleções de selos. O carro ocidental parava em algum ponto ao longo da rota de trânsito, os orientais os encontravam lá, pagavam e embarcavam. Vi algumas coisas terríveis. Pessoas que dopavam as crianças e punham elas no porta-malas. Uma vez, abri um porta-malas e encontrei uma mulher lá dentro, com uma criança. Como eu vestia roupas civis, acharam que eu pertencia à organização dos contrabandistas. Eu me lembro da alegria no rosto deles, durante aquele instante no qual pensaram que estavam livres.” Herr Christian apaga o cigarro e põe as mãos nos bolsos da jaqueta, curvando os ombros no ar cinza. “Confesso que foi triste, porque sou um homem sensível. Mas sou também um cumpridor da lei, e achava errado o que estavam fazendo. Desde muito pequeno, desde os primeiros tempos do jardim de infância, fui criado para pensar assim.”
“O que aconteceu com eles?”
“Foram levados para a detenção em Potsdam e, na certa, condenados. Em geral, a pena era de um ano e meio a dois anos. Era a lei.”
“Mas havia coisas divertidas também no trabalho”, ele diz, a respiração como que lançando mais fumaça naquele frio gélido. “Acho que eu tinha o único emprego no mundo em que eu ia a um depósito toda manhã para escolher: 'O que vou ser hoje?’.” Ele ri. “Escolhia um disfarce. Às vezes, era guarda de parque, de uniforme verde, ou então lixeiro, de macacão, ou ainda um funcionário enviado para consertar alguma coisa na rede elétrica. Gostava mesmo era de me fingir de turista ocidental, porque as roupas eram de qualidade muito superior, com luvas de couro de verdade, e eu podia dirigir uma Mercedes ou, no mínimo, um Golf.”
Retornamos ao BMW, e ele clica no seu controle remoto para abrir o carro. “Agora, sabe o que era o melhor de tudo?”, ele pergunta, voltando-se para mim. “O melhor de tudo” — ele soca meu ombro, de brincadeira — “era me disfarçar de cego. Usava bengala, óculos escuros e a braçadeira com os três pontos. Às vezes, uma garota segurava meu braço, me servindo de guia. Mas precisava me lembrar sempre de tirar o relógio de pulso!” Herr Christian olha em torno daquela aridez, desfrutando da lembrança do trabalho bem-feito. Um carro passa; somos apenas duas figuras pequenas embarcando num automóvel enorme num posto de gasolina. “Pois é”, ele diz, “disfarçar-se de cego é a melhor maneira de observar as pessoas.” Ele dá uma risada, desce os óculos para diante dos olhos e dá a partida em seu bólido negro gigantesco.