Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 8 de 36

Páginas do PDF

Stasilândia

3. A ponte da Bornholmer Strasse

 

A viagem de Leipzig a Berlim leva menos de duas horas, mas Miriam nunca havia estado lá. Sozinha na cidade grande, ela comprou um mapa na estação. “Queria dar uma olhada em alguns pontos da fronteira. Pensava comigo: não pode ser verdade; em algum lugar deve haver um jeito de passar para o outro lado.”

No portão de Brandemburgo ficou espantada de poder caminhar até o muro. Não podia acreditar que os guardas a deixavam chegar tão perto. Mas o muro era liso e alto demais para ser escalado. Mais tarde, descobriu que toda a parafernália da fronteira entre Leste e Oeste naquele ponto só começava atrás do muro. “Mesmo que eu tivesse conseguido subir até lá em cima, só poderia ter esticado a cabeça acima do muro para dar um tchauzinho aos guardas orientais.” Ela acena com as duas mãos e encolhe os ombros.

Já à noitinha, as chances não pareciam nada boas. “Não tinha encontrado nenhum buraco no muro”, Miriam diz. Estava com muito frio e sentia-se infeliz. Sentada no trem de subúrbio a caminho da estação Alexanderplatz, ia pegar o trem regional para casa.Estava escuro e ela ia voltar para a prisão. Avançando sobre estacas, lá no alto, o trem espremia-se entre edifícios. Edifícios de ambos os lados, com suas fachadas lisas de concreto e janelas retangulares, todos de cinco andares. Alguns com as luzes acesas, outros, no escuro; alguns tinham plantas, outros, sem nada. Então, o panorama mudou. Miriam levou alguns instantes para percebê-lo no escuro, mas de repente ela estava passando por uma cerca de tela de arame.

“Eu pensei: se o trem passa por aqui, e tem essa enorme cerca de arame do meu lado, então Berlim Ocidental só pode ser ali do outro lado.” Miriam desceu do trem, atravessou a plataforma e pegou outro trem, que ia em sentido contrário. Era como ela havia pensado: uma cerca alta de arame. Então, desembarcou de novo e tornou a pegar o trem no sentido oposto, mas dessa vez desceu na ponte da Bornholmer Strasse.

Depois, fui procurar aquela ponte num mapa da cidade. Tinha ouvido falar dela e imaginei que pudesse ser um daqueles lugares onde as Alemanhas Oriental e Ocidental costumavam trocar espiões. Agora, toda vez que abro o mapa, só vejo essa ponte. É como quando a gente nota que alguém tem um olho vesgo e, a partir daí, não consegue enxergar mais nada no rosto dessa pessoa.

Encontros entre as linhas de trem orientais e ocidentais eram raros na Alemanha dividida. Na estação da ponte da Bornholmer Strasse, a linha proveniente do lado ocidental ainda mergulha de noroeste a sudoeste, ao passo que a linha que vem do lado oriental sobe de sudeste a nordeste. As formas que elas compõem no mapa parecem perfis de duas figuras dando um beijo de nariz à maneira dos maori.

Na ponte da Bornholmer Strasse, em teoria, a fronteira passava entre os trilhos. Em outras partes de Berlim, ela — e portanto o muro — abre uma estranha ferida que corta a cidade. O muro atravessava casas, ruas, canais e fatiava linhas do metrô. Ali, porém, em vez de cortar a linha do trem, os alemães orientais construíram a maior parte das fortificações defronte à linha, do lado oriental, permitindo que os trens do leste avançassem até o muro mais distante, ao final da faixa mortal de segurança.

“Dei uma olhada na situação e decidi: nada mau.” Miriam podia ver as instalações fronteiriças, toda a cacofonia de arame, cimento, asfalto e areia. Defronte ao local onde tudo isso começava havia mais ou menos um hectare de jardinzinhos cercados, cada um deles com sua própria casinha. Esses jardins minúsculos são uma solução tradicional alemã para aqueles que vivem em apartamentos mas anseiam por um galpão de ferramentas e uma horta. Compõem uma colcha verde de retalhos nos recantos mais improváveis de solo urbano, ao longo de vias férreas, canais ou, nesse caso, à beira do muro.

Miriam pulou as cercas que separavam os jardins, na tentativa de se aproximar do muro. “Estava escuro e eu tive sorte. Mais tarde, fiquei sabendo que eles normalmente patrulham os jardins também.” Foi até onde podia, mas não chegou ao muro em si, porque havia “uma sebe larga e imensa” antes dele. Então, resolveu remexer um pouco no galpãozinho de ferramentas de alguém, à procura de uma escada, e encontrou o que queria. Apoiou a escada na sebe e subiu. Lá em cima, deu uma boa e longa olhada ao redor.

Toda a faixa era iluminada por uma fileira de postes com enormes lâmpadas de rua, todas dobradas num único e mesmo ângulo, em submissão. No céu, os fogos de artificio do ano-novo tinham começado a silvar e espocar. A ponte da Bornholmer Strasse estava a cerca de 150 metros de distância. Entre a ponte e o Ocidente havia uma cerca de tela de arame, uma faixa de patrulhamento, uma cerca de arame farpado, uma rua asfaltada de vinte metros de largura, utilizada para o transporte de pessoal, e um caminho estreito. Depois, as guaritas das sentinelas orientais, apartadas uma da outra por cerca de cem metros, e, atrás delas, mais arame farpado. Miriam pega um pedaço de papel e desenha nele uma confusão de linhas, para que também eu possa ver e entender.

“Para além disso tudo, eu podia ver o muro que tinha visto de dentro do trem, o muro que corre ao longo da ferrovia. Supus que ali, atrás daquele muro, era o Ocidente, e estava certa. Podia ter me enganado, mas estava certa.” Se possuía algum futuro ele estava lá do outro lado, e ela precisava alcançá-lo.

Sentada em minha cadeira, ponho-me a explorar o significado da palavra “abobalhada”, que vou girando em minha mente. Rio com Miriam quando ela ri de si própria e da ousadia dos dezesseis anos. Aos dezesseis, somos invulneráveis. Rio com ela da história de remexer no galpão de ferramentas dos outros em busca de uma escada, e rio mais ainda por ela ter encontrado o que procurava. Rio da improbabilidade de algo assim acontecer, de alguém que é pouco mais do que uma criança ir xeretar no jardim de Beatrix Potter junto do muro, de olho no sr. McGregor e em seu bacamarte, ao mesmo tempo que procura uma escada de mão para escalar uma das fronteiras mais fortificadas da Terra. Nós duas gostamos da menina que ela foi, e eu gosto da mulher que ela se tornou.

De repente, ela diz: “Ainda tenho as cicatrizes nas mãos, de subir pelo arame farpado, mas agora já não dá para ver tão bem”. Miriam exibe as palmas das mãos. As partes mais macias apresentam um emaranhado de marcas brancas, bem definidas, cada uma delas com cerca de um centímetro.

A primeira cerca era de tela de arame, com um rolo de arame farpado em cima. “O estranho é que, bem, sabe aquela espécie de tubo de arame farpado que eles punham em cima da cerca? Minha calça estava toda rasgada e enganchou ali, ficou presa naquele rolo de arame! E eu fiquei pendurada! Não posso acreditar que ninguém tenha me visto.” Uma marionete, pendurada em exposição.

O fato é que ela conseguiu se soltar, porque, a seguir, pôs-se de quatro e começou a travessia, avançando pela rua larga e pela faixa que vinha logo depois. A área toda estava tão iluminada que parecia dia. <£Eu simplesmente me ajoelhei e fui em frente. Mas tomei cuidado, ia bem devagar.” Depois do caminho estreito, ela atravessou a rua larga de asfalto. Não sentia o próprio corpo, estava invisível. Era nada mais do que um feixe de terminações nervosas e medo.

Por que não vinham atrás dela? O que estavam fazendo?

Miriam alcançou o final da faixa de asfalto, e eles ainda não a haviam apanhado. Quando topou com um cabo suspenso a mais ou menos um metro do chão, ela parou. “Eu já tinha visto aquilo da escada. Achei que podia ser algum tipo de alarme ou coisa parecida e, por isso, eu me deitei de barriga no chão e passei por baixo do cabo.” Atravessou então o último trecho, arrastando-se até uma dobra no muro, onde se acocorou e pôs-se a olhar apenas, sem nem respirar. “Fiquei ali, olhando fixo, esperando para ver o que ia acontecer.” Chegou a pensar que os olhos saltariam de sua órbita, de tanto que olhava. Onde estavam eles?

Alguma coisa se mexeu bem perto dela. Era um cachorro. O enorme pastor alemão voltou-se na direção dela. O tal cabo não era alarme nenhum, e sim o local onde acorrentavam os cães. Miriam não podia se mexer. O cachorro tampouco se moveu. Ela imaginou que os olhos do guarda seguiriam a direção para onde apontava o animal. Esperou que o cachorro latisse. Se ela se movesse ao longo do muro, ele a atacaria.

“Não sei por que não me atacou. Não sei como funciona a visão dos cachorros, mas talvez ele tivesse sido treinado para atacar alvos em movimento, pessoas correndo, e eu me pusera de quatro. Talvez ele tenha pensado que eu fosse outro cachorro.” Ficaram se entreolhando pelo que pareceu ser um longo tempo. Então passou um trem, e, embora isso fosse incomum, era um trem a vapor. Uma névoa fina cobriu os dois.

“Será que foi aí que ele perdeu meu cheiro?” No fim, o cachorro foi-se embora. Miriam tornou a esperar um bom tempo. “Achei que ele ia voltar para me pegar, mas ele não voltou.” Ela subiu pela última cerca de arame farpado rumo ao topo do muro que margeava a linha do trem. Podia ver o Ocidente — os carros cintilantes, as ruas iluminadas e o prédio da editora Springer. Podia ver até os guardas ocidentais sentados em seus postos de sentinela. O muro era largo. Em cima dele, cerca de quatro metros ainda por cruzar; depois, precisaria passar por baixo de uma grade. Era só isso. Miriam não podia acreditar. Queria atravessar correndo aqueles últimos metros, antes que a apanhassem.

“A grade, na verdade, era desta altura”, diz ela, apontando com o braço a altura da coxa, “eu só precisava me enfiar por baixo dela. Tinha sido tão cuidadosa, fizera tudo tão devagar. Agora, pensava comigo: são só mais quatro passos, c o r r a , antes que te peguem! Mas, bem aqui” — ela rabisca um X, diversas vezes, no mapa que desenhava para mim —, “bem aqui, tinha um fio.” A voz soa muito suave. Miriam desenha e redesenha o X, até eu ter a impressão de que o papel vai se rasgar. “Não vi o fio.”

Sirenes dispararam, soando alto. As guaritas das sentinelas ocidentais buscavam-na com holofotes, para encontrá-la e impedir que os orientais atirassem nela. Os guardas do lado oriental levaram-na embora a toda pressa.

“Seu monte de merda!”, um jovem lhe disse. Levaram-na para o quartel-general da Stasi de Berlim. Ataram mãos e pernas, e foi a primeira vez que Miriam notou o sangue ou sentiu alguma dor. Tinha sangue no rosto e nos cabelos.

“Mas eles de fato não tinham me visto. Ninguém tinha nem sequer me visto.” Ela chegara muito perto.

O Ocidente reluzia de neon e, sobre a cabeça, os fogos de artifício explodiam no céu.

 

Miriam foi levada de volta a Leipzig na traseira de um camburão. O agente da Stasi que a interrogou disse-lhe que haviam entrado em contato com os pais dela, que não queriam ter mais nada a ver com a filha.

aVocê acreditou nele?”

“Hmm, bom… Não, não muito.” Era muito difícil ter certeza sobre qualquer coisa ou qualquer pessoa. Miriam faz uma pausa. Era uma pergunta incômoda. “Acho que provavelmente rebaixaram aquele cachorro, coitadinho”, diz ela. “Ou então deram um tiro nele.”

Prenderam-na numa cela na Dimitroffstrasse, hoje reconstruída no museu da Stasi, ali perto. A cela tem dois metros por três e, numa das extremidades, bem no alto, uma janela minúscula de vidro fosco. Tem ainda uma bancada com um colchão, um vaso sanitário e uma pia. A porta é grossa, atravessada por trancas de metal e dotada de uma vigia, para que o guarda possa olhar para dentro. Fica tão enfiada numa parede espessa que me senti como se entrasse numa câmara de compressão.

De novo, Miriam foi privada de dar um telefonema, de ter um advogado e de qualquer forma de contato com o mundo exterior. Aos dezesseis anos, estava de volta à solitária. “Quando vinham me buscar para os interrogatórios”, ela conta, sorrindo, “pelo menos era alguma coisa para fazer. Mas era aí...” ela se detém: “Era aí que a desgraça começava para valer ”. Em Leipzig, a Stasi pegou pesado.

Durante a guerra da Coreia, na década de 1950, circularam mitos acerca de métodos obscenos de tortura praticados contra prisioneiros de guerra norte-americanos. Depois de capturados, os homens eram levados para um campo e reapareciam nem bem uma semana depois, repetindo absortos para as câmeras que tinham se convertido ao comunismo. Terminada a guerra, ficou-se sabendo que, ao contrário do que diziam os boatos, o segredo militar dos coreanos não era nem tradicional nem de alta tecnologia: estava na privação do sono. Um homem faminto ainda é capaz de vociferar, mas um zumbi é extraordinariamente dócil.

Os interrogatórios a que Miriam Weber, de dezesseis anos, foi submetida tinham lugar toda noite (foram dez noites seguidas) e duravam seis horas: das 22 às quatro da manhã. As luzes na cela se apagavam às oito da noite, e ela dormia por duas horas antes de ser levada para a sala do interrogatório. Depois, era conduzida de volta para a cela duas horas antes de as luzes se acenderem, às seis da manhã. Não deixavam que ela dormisse durante o dia. Um guarda espiava pela vigia e esmurrava a porta, caso ela cochilasse.

“Às vezes, eu olhava para aquele olho que me espiava da vigia, enquanto esmurrava a porta, e pensava comigo: £Por que você não vai à merda, só para variar?’, e continuava cochilando. Aí, ele entrava, me sacudia e me tirava o colchão, para que eu não tivesse nem onde me sentar. Faziam mesmo de tudo para que eu não dormisse. É impossível explicar como isso arrebenta com a gente.”

Posteriormente, fui dar uma pesquisada no assunto. A privação do sono pode produzir sintomas semelhantes aos da inanição, sobretudo em crianças. As vítimas ficam desorientadas e sentem muito frio. Perdem a noção do tempo, presas a um presente interminável. Ficar sem dormir também causa uma série de disfunções neurológicas, que vão se tornando mais extremas à medida que a privação avança. Por fim, as horas de vigília assumem a lógica de um sonho, produzindo associações entre coisas estranhas entre si e fazendo com que a vítima sinta muita, muita raiva do mundo que não a deixa repousar.

Para a Stasi, era incompreensível que uma garota de dezesseis anos, sem nenhuma ferramenta, nenhum treino e nenhuma ajuda pudesse atravessar de gatinhas, com as mãos e os joelhos, a “Medida de Proteção Antifascista”. Revelando involuntariamente sua admiração, o primeiro guarda que a conduziu à sala dó interrogatório quis saber a que clube desportivo Miriam pertencia. A nenhum.

Mas o propósito principal das perguntas, noite após noite, era obter o nome da organização clandestina de fuga que a havia ajudado. Queriam os nomes dos membros e descrições físicas. De quem havia sido o plano de fazer aquilo na véspera do ano-novo, em noite de tanto barulho? Como ela sabia dos lotes de jardinzinhos da Bornholmer Strasse, se nunca tinha estado em Berlim? Quem a havia ensinado a escalar arame farpado? E, com a máxima insistência, queriam saber também quem a ensinara a passar pelos cães.

“Não podiam compreender como eu tinha conseguido passar por aquele cachorro”, ela diz. “Pobrezinho.”

A Stasi não estava acima do despeito. Disseram a Miriam que mesmo que ela tivesse atravessado para o outro lado seria mandada de volta, porque era menor de idade. Ela protestou. “Os ocidentais não teriam me mandado de volta para cá de jeito nenhum”, replicou aos interrogadores, “porque sou uma refugiada da perseguição política de gente como vocês, que se assustou toda com meus panfletos.” Miriam ergue o queixo, como uma menina insolente que ainda acha que uma rede de proteção poderá ampará-la.

Havia um interrogador principal, o major Fleischer, mas às vezes eram dois. Ambos tinham bigode, cabelos curtinhos e eriçados e trajavam uniformes cinza impecáveis. O mais jovem era tão rijo que parecia ter uma assadeira retangular enfiada por dentro do casaco. O major Fleischer tinha pelos nas orelhas. De vez em quando fingia ser um amigo, “como um tio bondoso”. Outras vezes, era ameaçador. “Existem outras formas de fazermos isso, você sabe.” As respostas dela permaneciam as mesmas. “Peguei um trem em Leipzig, comprei um mapa na estação, usei uma escada, me arrastei de barriga no chão e corri.”

Dez vezes vinte e quatro horas em que mal se dormiu. Dez vezes vinte e quatro horas em que nem bem acordado se está. Dez dias é tempo suficiente para morrer, nascer, se apaixonar e enlouquecer. Dez dias é muito tempo.

Pergunta: o que o espírito humano faz, depois de dez dias sem dormir, dez dias de isolamento amenizado apenas por sessões noturnas de ameaças?

Resposta: ele sonha e inventa uma solução.

 

Na décima primeira noite, Miriam deu aos interrogadores o que eles queriam. “Eu pensei: ‘Vocês querem uma organização clandestina de fuga? Pois então vou dar uma a vocês’.”

Fleischer vencera.

“Pronto”, ele disse, “não foi tão difícil assim, foi? Por que não contou logo e se poupou de toda essa encrenca?” Deixaram-na dormir duas semanas e deram a ela um livro por semana. Ela os leu em um único dia; depois, começou a memorizar cada página, andando de um lado para outro da cela com o livro junto do peito.

“Agora, quando me lembro daquilo, é engraçado”, Miriam diz. “Mas naquele momento era frustração pura e simples. Bolei uma história para eles na qual nem eu teria acreditado, mesmo àquela época. Era totalmente absurda. Mas estavam tão doidos atrás de uma organização promotora de fugas para o Ocidente que engoliram tudinho. Eu só queria dormir.”

O Auerbachs Keller, a cave de Auerbach, é uma célebre instituição em Leipzig. Trata-se de um bar e restaurante com mesas de carvalho dispostas em compridas alcovas sob um teto abobadado, como uma adega. Paredes e tetos estão recobertos de cenas escuras do Fausto de Goethe: o encontro de Fausto com Mefistófeles, Fausto traindo Margarida, Fausto em desespero. Goethe costumava beber ali. É um bom lugar para se encontrar o demônio.

Eis a história que Miriam contou à Stasi.

Tudo começou quando ela estava indo encontrar um amigo no Auerbachs Keller, para comer uns enroladinhos de gordura de ganso. O amigo não apareceu, e ela resolveu se sentar sozinha a uma das mesas compridas e começar a comer. O lugar estava cheio, era quase Natal. Quatro homens surgiram e perguntaram se podiam dividir a mesa com ela. Sentaram-se para comer. Miriam ficou escutando a conversa deles. Um dos homens tinha um sotaque berlinense, que transforma gut em “yut” e ich em “ick”.

A essa altura, Miriam estava se divertindo. Ela olha para mim, e seu rosto brilha. Está se imaginando de volta aos dezesseis anos, e isso a deixa feliz.

“Aí eu perguntei ao homem, ao que parecia ser o líder: ‘Você é de Berlim?’. E ele respondeu que era.‘E como estão as coisas por lá?’, continuei”, os olhos de Miriam se abrem bem, e ela parece de novo o moleque de história em quadrinhos.

“Bem, obrigado.”

“Onde você mora em Berlim?”

“Pankow.”

“E isso é, hã… perto do muro?”

“É, sim… Você não está pensando em cair fora, está?”

“Estou.”

“Bom, não dá para simplesmente ir até o muro, na esperança de encontrar um lugar para pular! Venha comigo, que eu te dou uma dica.”

Miriam concordou: “Tudo bem”. Os cinco, então,saíram e pegaram um táxi. Rumaram para o sul, mas ela não sabia dizer direito para onde, porque já estava escuro. Foram até um apartamento no segundo andar de um prédio — ou terá sido no terceiro? Difícil lembrar com precisão. Na porta, não havia nenhuma placa com o nome do morador, de modo que ela infelizmente não podia dizer de quem era o apartamento. O sujeito e seus cúmplices apareceram com um mapa de Berlim e mostraram a ela o local onde poderia passar para o outro lado. Depois, chamaram outro táxi, levaram-na de volta ao Auerbachs Keller, e ela pegou o bonde para casa.

Miriam ri. Olha para mim, como se dissesse: “Você já ouviu uma história tão ridícula assim na sua vida? Dá para acreditar que eles engoliram isso tudo?” Retribuo o olhar, confusa. Tento mudar a expressão no meu rosto. O que há de tão improvável em alguém oferecer dicas práticas de como pular um muro? Sinto que estou prestes a pedir que me expliquem alguma coisa que é básica. Tombo a cabeça para o lado, como um cachorro assistindo à tv: não consegue entender o que está acontecendo, mas com certeza parece coisa interessante.

Com gentileza, Miriam explica que na RDA era inconcebível que uma pessoa perguntasse a um estranho se ele morava perto do muro. Tão inconcebível quanto o estranho perguntar se a pessoa em questão estava pensando em fugir do país. E ainda mais impensável era que o estranho se pusesse no ato a oferecer dicas práticas de fuga. As relações entre as pessoas eram condicionadas pelo fato de que uma ou outra podia ser um deles. Todo mundo desconfiava de todo mundo, e a desconfiança assim gerada fornecia o alicerce da vida social. Miriam poderia ter sido denunciada pelo homem por ter feito uma pergunta relativa à fronteira com a Alemanha Ocidental e por ter admitido que pensava em fugir para lá, assim como ela própria, por sua vez, poderia tê-lo denunciado por oferecer-se para mostrar a ela como fazê-lo. Organizações clandestinas de auxílio à fuga existiam de fato na RDA, mas era necessário um intermediário para que se pudesse entrar em contato com elas. Isso jamais aconteceria de forma tão despreocupada, diante de alguns enroladinhos de gordura de ganso e de um copo de cerveja.

Fleischer queria um nome. “Isso eu não saberia dizer ”, Miriam respondeu-lhe. “Não ouvi nenhum deles chamar o outro pelo nome.”

“E que aparência tinha o líder?”

“Bem, era mais ou menos desta altura”, disse ela, erguendo a mão no ar, acima da cabeça. “E parecia um sujeito forte, bem proporcionado, sabe como é.” Ela sorri, curtindo sua fantasia masculina. “Disse a ele que o sujeito era completamente careca. Ah, e que chamava a atenção que tivesse pés tão pequenos.”

Agora sou eu que estou rindo à beça, divertindo-me com aquele detalhismo infantil.

“Pois é, aí está. Noves fora, um sujeito com uma careca reluzente e pés bem pequenos! E mais: disse ao Fleischer que tinha a impressão de que se tratava de algum freguês assíduo do Auerbachs Keller.” Ela ri também, e puxa um cigarro enquanto se ajeita na cadeira.

Miriam tinha pensado em tudo. Pouco importava quantos carecas de pés pequenos eles localizassem para que ela fizesse o reconhecimento: não reconheceria nenhum.

Duas semanas se passaram até o interrogatório seguinte. Ela foi chamada à presença de Fleischer não às dez da noite, mas durante a tarde. Ele segurava a mesa com ambas as mãos, parecia se controlar para não arremessá-la.

“Meu pessoal”, gritou, “foi para a rua queimar a pele no frio por sua causa! Como você se atreve a contar uma história da carochinha? Que tipo de possessão fez você inventar uma história dessas?”

“Eu queria dormir.”

Fleischer disse que aquele tipo de conduta equivalia a fraudar o ministério, o que constituía crime. Agora, ela estaria sujeita a sentença ainda mais longa. E a pena seria bem rigorosa, considerando- se que ela podia ter dado início a uma guerra.

Miriam achou que ele devia ter enlouquecido. Se ela tivesse pulado aquela última grade, ele continuou, os soldados da Alemanha Oriental teriam atirado nela pelas costas, e os alemães ocidentais teriam revidado. Ela poderia ter sido responsável pela eclosão de uma guerra civil. Em seguida, porém, ele amoleceu: “Mas, para o seu bem, vou excluir esse episódio da sua ficha. Depois, não venha me dizer que não demos a você tratamento justo”.

Mais adiante, ficou claro para Miriam que Fleischer estava protegendo a si próprio. Se perguntassem a ela no tribunal por que ela havia inventado aquela história, ela diria apenas: “Porque não me deixavam dormir ”. Ao que parece, mesmo na RDA, privação de sono significava tortura, e tortura — pelo menos de menores — não era política oficial.

No fim, o juiz sentenciou-a a um ano e meio em Stauberg, a prisão feminina em Hoheneck. Ao término do julgamento de três dias, ele disse a ela: “Acusada juvenil número 725, a senhorita tem consciência de que suas atividades poderiam ter dado início à Terceira Guerra Mundial?”

Estavam todos loucos, e, no entanto, era a ela que estavam trancafiando.