Stasilândia
Orelhas
A data é bem conhecida de todos: em 9 de novembro de 1989 caía o muro de Berlim. Ela figura hoje nos livros escolares, nas efemérides dos almanaques e nas inúmeras análises produzidas para explicar uma guinada no curso da história mundial que ainda na véspera teria sido considerada impensável. Passados, porém, muitos anos desde a “revolução pacífica” que pôs fim a República Democrática da Alemanha, seus atores cotidianos permanecem no anonimato.
Por ocasião da queda do muro, a Stasi (ou Staatssicherheitsdienst, o aparato de segurança do Estado alemão oriental) contava com cerca de 97 mil funcionários e 173 mil informantes para vigiar uma população de 17 milhões de pessoas. Computados os colaboradores informais, estima-se que, de cada seis cidadãos da ex-Alemanha Oriental, um trabalhava para a Stasi — um sistema de vigilância cujos números superaram em muito os da Gestapo nazista ou os da KGB soviética.
Findo o regime e abertos os arquivos, os holofotes da crítica ocidental voltaram-se de imediato para o “colaboracionismo” da intelectualidade alemã oriental. Ressentidas acusações foram trocadas entre as duas Alemanhas, agora reunificadas. Mas, como lembra Julia, mera coadjuvante nesse drama, “para que alguém consiga entender um regime como o da RDA, é necessário contar as histórias das pessoas comuns. É preciso ver como elas lidam com seu passado”.
Foi precisamente a isso que se propôs a australiana Anna Funder. Na exata confluência de jornalismo e literatura, Stasilândia relata as histórias ouvidas diretamente de perseguidores e perseguidos. Da adolescente de dezesseis anos que esteve a um passo de “pular ” para o Ocidente à mãe separada do filho recém-nascido e doente; do homem que traçou a linha por onde passaria o muro a ex-agentes da Stasi atuando hoje como detetives particulares e corretores de imóveis ou seguros.
Um relato a um só tempo factual e profundamente humano de como viviam então — e de como vivem hoje — os protagonistas daquela que já foi chamada a única revolução bem-sucedida da história alemã.
Anna Funder nasceu em Melbourne, na Austrália, em 1966. Advogada, jornalista e documentarista, vive hoje em Sydney. Stasilândia, seu livro de estreia, recebeu, entre outros, o Samuel Johnson Award, um dos mais respeitados prêmios literários da Grã-Bretanha.