Stasilândia
26. O muro
Em meio a essa primavera suave, comecei a caminhar todo dia. São por volta de dez da noite, e o sol acaba de se pôr. As fileiras de cerejeiras nas ruas espalham sementes e manchas vermelhas nas calçadas, como se fosse sangue. No caminho de casa, passo pelos cafés ao ar livre da Kollwitzplatz, onde estudantes, ocidentais em sua maioria, comem e riem. Não tenho certeza do quanto eles sabem sobre o que aconteceu nesse mesmo lugar. Estou sonhando à beira da calçada quando uma mulher de bicicleta, vestindo um chapéu de bobo da corte e shorts curtos, quase leva minha orelha ao passar.
Ao dobrar a esquina de casa, o céu já está negro. Um homem se curva, desequilibrado, contra a parede do meu prédio, e segue quicando ao longo dele como mosca no vidro da janela. No escuro, ele é mais uma forma do que uma pessoa, um esboço com uma garrafa nas mãos. Está bêbado — muito bêbado. Quando me aproximo, ele vem em minha direção e começa a falar, mas não fica claro se está falando comigo ou com o universo.
“Eu não quero mais ser alemão!” soluça ele. “Não quero mais ser alemão!” Seu rosto está sulcado de lágrimas prateadas.
“Por que não?” Estico a mão para estabilizá-lo.
“Porque nós somos terríveis.” Ele mal olhou para mim. Não podia saber que não sou alemã. “Eles são terríveis. Os alemães são terríveis.”
E vai-se embora, tateando as paredes dos edifícios.
A que alemães ele se referia? A alguns ou a todos? Talvez esse alemão oriental, acostumado a pensar que os alemães ruins estavam do outro lado do muro, já não saiba ao certo. Eles são tão ruins assim? São piores do que ele pensava? E seu próprio povo, arruinado, bêbado, envergonhado, fugido, preso ou morto — será que valia alguma coisa?
Um amigo meu, que trabalha na Administração dos Arquivos da Stasi, me telefona.
“Ontem, recebemos aqui uma requisição interessante de arquivo pessoal”, ele diz. “Pensei em te dar um toque.”
“Quem?”
“O senhor Mielke.” Meu amigo ri. Nós dois sabemos sem precisar dizê-lo. Mielke deve achar que o aparato que criou era tão meticuloso, dotado de um ímpeto administrativo próprio, que em alguma parte alguém há de ter seguido seus passos.
Alguns dias depois, telefono para Frau Paul. Conversamos um pouco. Ela desempenha papel ativo numa organização em prol dos perseguidos pelo regime. Leva as pessoas para visitar a prisão de Hohenschönhausen (“Estamos pensando em abrir um café lá”, ela me conta) e faz campanha pela indenização das vítimas. “Tem outra coisa que eu queria contar ”, ela me diz.
“O que é?”
“Outro dia, à noitinha, eu vinha voltando de uma reunião pública sobre as indenizações, e fui seguida até minha casa”
“O quê?”
“É verdade. Um carro me seguiu até o metrô, na mesma velocidade em que eu caminhava. Eu estava com amigos e não dei muita bola. Mas quando desci do trem, em Elsterwerdaer Platz, estava sozinha, e ele estava lá, esperando por mim. Seguiu meu ônibus também. Quando desci do ônibus, ele apagou os faróis e me acompanhou até a porta de casa.”
“Que coisa horrível.”
“Pois é”, diz ela, “tem muita gente que não quer que a gente levante a voz e lute por aquilo que merece conseguir.”
“A senhora tem alguma ideia de quem era?”
“Não, mas tenho quase certeza de que era ex-agente da Stasi.” Ela está assustada, mas coragem é o que não lhe falta. “Era um Volvo”, diz. “Estou procurando alguém que dirige um Volvo.”
Mielke morreu esta semana. Tinha 92 anos. A manchete dizia: “Morto o mais odiado dos homens”. Penso no outro “mais odiado” e ligo para ele. A esposa atende e me passa para o marido. Karl-Eduard von Schnitzler me conta que não está bem e que as coisas estão piorando. Por “coisas” ele quer dizer o mundo ao seu redor. “As pessoas continuam espalhando mentiras sobre meu bom amigo Erich Mielke, que agora está morto e enterrado! O caixão foi enterrado na segunda e profanado já na terça! Debaixo do nariz da polícia que lhe dava proteção! A senhora compreende? As cinzas do meu amigo foram espalhadas e seu túmulo foi pro-fa-na-do!” A voz dele continua exatamente a mesma: rouca, velha e raivosa. “Isso é o capitalismo nu e cru, brutal! Uma absoluta Unkultur.”
É improvável que a profanação do túmulo de Mielke tenha sido obra de ocidentais, e ela só é produto do capitalismo na medida em que ele não protege — ou não o faz adequadamente, na opinião de Von Schnitzler — os ex-líderes da ex-RDA daquilo que seu próprio povo pensava deles. Contudo, eu detecto medo em sua voz, o reverso da fúria. Medo talvez de que seu fim próximo seja também um túmulo profanado. Então, me lembro da convicção que ele tinha da causa. Creio que o medo dele não seja tanto da morte em si quanto do fato de que ela vai anular, por fim, seu poder de refutação.
Hoje, subo a Brunnenstrasse e passo pelo túnel de Frau Paul rumo à Bernauer Strasse, onde ficava o muro. Há um novo museu ali. A maior peça em exposição encontra-se do outro lado da rua: toda uma seção do muro reconstruída em tamanho real — completa, inclusive com uma faixa mortal de segurança recém-construída e muito bem varrida, especial para turistas. Ao longo da peça, à direita na Bernauer Strasse, ainda existem pedaços do muro real, cobertos de coloridos grafites, como sempre foram do lado ocidental. Esses remanescentes, porém, estão atrás de arbustos, aos pedaços e desmoronando. Alguns pontos revelam, nua e crua, a ferragem que reforça o concreto.
O novo muro, no entanto, é perfeito. Não contém uma única pichação. Posso compreender por que o antigo praticamente desapareceu e por que, como disseram Frau Paul e Torsten, as pessoas queriam que ele sumisse. Mas o novo é uma versão à la Disney, devidamente higienizada, pintadinha para agradar.
Dentro do museu, há expositores e apresentações touch screen que mostram como o muro foi construído, bem como gravações do discurso "Ick bin ein Berliner” [Eu sou um berlinense], de Kennedy, e dramatizações de várias tentativas de fuga. “Sim, isso mesmo”, um homem de costas para mim diz a outro, atrás do balcão. “Levo o pessoal até lá e depois trago de volta para cá. Deve levar umas duas horas. É o que vou verificar agora.”
“Então está bem”, diz o outro, que agora olha para mim. Ele usa óculos elegantes, que parecem compostos de uma fileira de multicoloridos prendedores de roupa em miniatura. “Posso ajudar?”
O homem diante do balcão se volta para olhar para mim. “Frau Funder!”, exclama ele. É Hagen Koch. “Ora, ora, como vai? Sim! Talvez a senhora queira me acompanhar!” Ele fala por meio de exclamações. É como se eu nunca tivesse me ausentado. Para ele, o passado é o muro, e eu sou parte do presente, tanto faz se de três anos atrás ou de agora. Seus cabelos estão brancos, mas os olhos seguem exibindo o mesmo castanho brilhante e sorridente.
“Herr Koch, eu vou bem, obrigada. Acompanhar o senhor aonde?”
“Amanhã vou levar um grupo de turistas pelo antigo trajeto do muro, que hoje mal dá para reconhecer. Estou indo ver quanto tempo leva.”
“Eu adoraria ir com o senhor.”
Vamos percorrer os limites da cidade, a linha sobre a qual o muro foi construído: um anel em torno do centro velho, a leste, passando pelos bairros da região oeste, Wedding, Moabit e Tiergarten. Depois, ele me informa, iremos até onde o muro atravessava o centro e descia pela Niederkirchnerstrasse até o rio Spree, cujas margens vamos seguir até a ponte Oberbaum.
Embarcamos no seu carrinho vermelho. Ele dirige depressa e com segurança. Está feliz por ter público para ensaiar seu número habitual, a “turnê pela cidade esquecida”. A primeira parada é logo adiante, na mesma rua: uma faixa de grama de cerca de cem metros de largura. A grama alta se esparrama, atingindo a altura do joelho e balançando no ar quente como se dotada de sensitividade. Há um cemitério logo atrás. Um grande anjo de pedra sobre um pedestal está virado para nós, a cabeça baixa, em oração. Caminhamos até o centro do gramado. O céu parece amplo daqui.
“Esta era a chamada faixa mortal de segurança”, Herr Koch estende o braço, “mas, antes, o cemitério ia até a rua. Quando da construção do muro, tiveram de retirar os cadáveres e levar embora as lápides.” Ele ergue as sobrancelhas. “Os guardas costumavam ter um certo medo por causa disso.” Ao que parece, os guardas da fronteira que trabalhavam na faixa da morte preferiam não topar com nenhuma prova da morte por ali.
Herr Koch está contente por estar na companhia de alguém que compartilha do seu interesse pelo muro. Talvez ele seja ainda mais obcecado pelo muro do que me lembro. É como se tivesse perdido a noção de que, no seu caso, trata-se de um interesse especial. De novo, ele é um crente verdadeiro: o muro é a coisa que o define, e ele se recusa a esquecê-lo. Penso por um momento em Frau Paul, que também se recusa a esquecer. Herr Koch começa a tirar fotos. Ergo os olhos para a expressão infeliz no rosto do anjo e me lembro de Miriam e de Julia, de suas vidas igualmente moldadas pelo muro. Será que elas vão esquecê-lo? Será que ele as deixará esquecer?
Nossa parada seguinte é o Schiffahrtskanal. Herr Koch está agitado, fala depressa. Estacionamos diante de um novo conjunto habitacional. Os apartamentos são novos, de cores vivas. Estão dispostos em torno de um pátio, ao estilo berlinense habitual, mas, numa surpreendente ruptura com a tradição, há uma torre de guarda alemã oriental de dois andares no meio do pátio, construção original. Herr Koch aponta para ela. “Esta”, ele diz com orgulho, “é minha torre.” Por um momento, seu contentamento é tanto que ele perde a fala.
Eu olho para a coisa. É, sem dúvida, uma velha torre de guarda da faixa mortal. Tem paredes quadradas de cimento e janelas lá no alto, que permitem ver em todas as direções. No topo, há uma área cercada de onde os guardas podiam atirar. Não é coisa que inspire alegria, mas Herr Koch rebrilha de felicidade.
“Sua torre?”
“Minha torre.”
Ele explica que, no final de 1989, em sua função no Departamento Cultural da Stasi, ele tomou para si a responsabilidade pela Denkmalschutz, ou seja, pela preservação de monumentos históricos. Encontrou uma série de plaquinhas azuis e brancas esmaltadas com a inscrição “patrimônio nacional” e, no caos daqueles últimos dias, pôs-se a fixá-las nas coisas que lhe eram caras, como o muro, a barreira gradeada do Checkpoint Charlie e as torres de guarda. A maioria delas foi posta abaixo, a despeito de seus esforços.
Aquela torre ali, ele me conta, deu-lhe muito trabalho, em especial quando os construtores chegaram para dar início às obras do conjunto de apartamentos. “E o que eu fiz?”
Olho para ele, nem posso imaginar.
“Encontrei um sem-teto e o instalei nela! Dei dinheiro e um trabalho a ele: reformar a torre! Não puderam demolir porque era habitada!”
Noto que, sobre a porta, alguém pintou à mão um endereço: Kieler Strasse, 2. Nós entramos e, claro, um banheiro moderno de azulejos brancos está sendo instalado no andar de baixo. “Infelizmente”, Herr Koch diz, “meu inquilino morreu.” Subimos por uma escada até o topo, onde os guardas trabalhavam. A torre está desmoronando e cheira a concreto úmido, mas me agrada pensar que o inquilino anterior, um velho morador de rua da Alemanha Oriental, teria desfrutado daquela vista, do mesmo posto de onde, antes, os guardas o haviam vigiado.
Herr Koch prossegue: “Acho que a torre está salva agora. Tiveram de construir os blocos de apartamento em torno dela. De início, os inquilinos não gostaram, mas andei conversando com eles e, à medida que o tempo passa, eles apreciam cada vez mais seu significado histórico”. Antes de sairmos, ele pega uma pá de lixo, uma vassoura e dá uma varridinha de proprietário do imóvel.
Partimos em direção à cidade, passando pelo Bundestag, pelo Reichstag e pela Potsdamer Platz. Num semáforo, vejo um poste com um cartaz do Renft afixado, anunciando a atual turnê da banda pela Alemanha Oriental. Gosto da ideia de Klaus andando firme de novo e vendo renascer sua existência de astro de rock. Paramos numa rua comum.
“Está vendo?”, Herr Koch me pergunta de braços abertos. Olho em torno. Não há nada para ver.
“Não dá para ver! Não dá para ter ideia de por onde passava o muro!” Ele tem razão, não restou nem sinal, nenhum pedacinho de concreto, nenhum vazio.
“Mas olhe aqui embaixo”, ele aponta para o chão. Uma estreita faixa de granito incrustada no pavimento, um pouco mais escura do que a calçada em si. “É tudo que sobrou!”, ele exclama. “Antes, era uma linha vermelha, mas mesmo isso foi considerado gritante demais. Então, inventaram isto aqui. E tem mais: nos lugares em que escreveram ‘Muro de Berlim, 1961-1989', a inscrição foi feita para ser lida do lado ocidental — para nós, do Leste, está ao contrário!”
Enquanto voltamos para o carro, ele diz: “Sou a única pessoa a manter viva a memória do muro da parte oriental. Se tem uma coisa que a vida me ensinou, foi que a gente não pode ver as coisas por um lado só! Por causa disso, muita gente não gosta de mim, mas esse trabalho precisa ser feito!” Herr Koch é um cruzado solitário contra o esquecimento.
Pegamos a Zimmerstrasse e nos afastamos do centro em direção a Bethaniendamm. É uma região esquálida da cidade. Há mais apartamentos novos e coloridos de um lado, e cinzentos prédios de cimento do outro. No meio vê-se o que parece ser um terreno vazio, cercado por telas de arame, tábuas e paus. Para além da cerca, alguém plantou fileiras ordenadas de batatas e berinjelas, além de estacas com tomates. Eu, porém, ainda não sei bem o que é que estou vendo. “Estas”, diz Herr Koch, “são as cebolas turcas.”
Ele me conduz ao redor da área cercada, para um pequeno triângulo de terra. Numa extremidade do terreno há um elaborado barraco de três andares, feito com pedaços de fibra compensada, engradados e uma escada. Uma videira sobe pela estrutura. Do lado de fora vê-se um sofá velho e cadeiras e, na outra ponta do terreno, um balanço de madeira oscila preso a uma árvore, pintado de vermelho e amarelo.
Herr Koch me conta que, a rigor, esse terreno ficava no setor oriental, mas que era demasiado custoso o muro fazer uma curva ali, apenas para incluí-lo. Assim, o muro seguiu pela rua mais próxima, deixando no Oeste aquela ilha de terra. Em Berlim Ocidental ninguém sabia o que fazer com ela; era impossível utilizá-la, para qualquer propósito que fosse, sem desagradar ao regime oriental. Literalmente, era terra de ninguém. No fim, uma família turca acabou cercando o terreno para plantar legumes e verduras. Quando o muro caiu, ninguém reclamou a posse do terreno, de modo que a família ainda continua plantando ali. Passo os olhos pela cerca. Vejo um damasqueiro e um grande carvalho lá no fim. Imagino uma família grande de abelhas trabalhadoras, vovó no sofá, as crianças no balanço e o cheiro de café vindo do palácio de verão lá na ponta.
“Mas a senhora sabe o que aconteceu?”, pergunta Herr Koch. Eu me volto para ele. “A família terminou brigando — eram dois irmãos, acho. Brigaram tão feio que, no fim, tiveram de instalar uma cerca no meio da plantação e dividir o terreno em dois setores apartados!” O rosto de Herr Koch se ilumina com a ironia da coisa. “Venha ver aqui.” Caminhamos até o centro, onde uma cerca entrelaçada de dois metros de altura atravessa o meio do terreninho, separando a parte do barraco daquela que contém o balanço, sem comunicação entre elas.
Nossa última parada é a ponte de Oberbaum. Berlim é um vazio ali, onde as linhas de bonde entre o Leste e o Oeste só foram reconectadas recentemente. O segmento mais extenso do muro original estende-se nessa margem de rio — não tanto porque tenha havido o desejo de preservá-lo, mas porque o esqueceram. Na ponta, vê-se o que, à primeira vista, parece ser um pequeno conjunto de tendas de circo. Ao nos aproximarmos, noto que são banquinhas de suvenires, com bandeirinhas em cima e placas em inglês que dizem “Souvenirs for You” e “I Stamp Your Passport”. Por um marco, obtém-se um carimbo no passaporte com um visto de entrada na RDA, como se, ao entrar naquela tenda, ganhássemos acesso a um lugar do passado. Turistas americanos idosos estão desembarcando de um ônibus. Parecem combinar — todos vestem roupas bem passadas de cores pálidas e calçam tênis muito limpos. “Betty”, uma mulher pergunta a outra com forte sotaque sulista, “este casaco é o mesmo que você usou aquele dia em Auschwitz?”
Herr Koch entra na banquinha principal. “Gerd!”, ele chama.
“Hagen, meu amigo!” O dono salta de detrás de suas mercadorias para cumprimentá-lo. Herr Koch me apresenta. Gerd é um sessentão bronzeado que veste uma camisa azul desabotoada até o umbigo e sorri um sorriso de vaudeville. Herr Koch me contou mais tarde que ele havia sido ator de teatro na Alemanha Oriental.
A banca de Gerd é um relicário de seu antigo país. Ele vende quepes de soldados russos e alemães orientais; medalhas russas cunhadas como condecoração pelos serviços prestados na invasão de Berlim, em 1945 (“genuínas, genuínas", ele afirma, persuasivo); velhas placas esmaltadas com os dizeres “Você está deixando o setor americano" em inglês, russo, francês e alemão, e “Cuidado: minas! Área restrita: risco de vida!"; carrinhos Trabant do tamanho de uma caixa de fósforos; ursinhos, abridores de garrafa, adesivos para carros, canecas para tomar café; e, a um lado da barraca, em escaninhos minúsculos, ele tem ainda uma enorme quantidade de pedaços do muro para vender.
“Por favor, aceite isto como um presente meu", ele diz, pressionando um pedaço do muro contra a palma da minha mão. É um saquinho plástico, completo, com “Certificado de autenticidade". Parece uma amostra de um laboratório de medicina legal. Os dois olham fixo para mim, sorrindo animados. Fico com medo de que, a qualquer momento, comecem a cantar.
“Como o senhor sabe que é genuíno?", pergunto.
“Ah, é genuíno, sim", diz Gerd, cintilando como um apresentador de programa vespertino de TV.
O provável é que já tenham vendido pedaços “genuínos" do muro em quantidade suficiente para construir dois muros. Herr Koch se inclina na minha direção, interessado, como sempre, nos documentos. “Veja", ele diz, “tem um certificado para comprovar."
Agradeço a ambos e subo até o novo ponto de bonde na Warschauer Strasse. Quando olho para trás, noto que Herr Koch arrebanhou os turistas americanos e está contando a eles o seu lado da história.