Stasilândia
11. Major N.
Foi então que chegou um cartão pelo correio. “Parecia bem normal, um cartão impresso comum, como se eu tivesse de me apresentar à polícia para renovar minha identidade. Tinha espaços em branco para que escrevessem meu nome, e estipulava dia e hora em que eu deveria comparecer.”
Ela não olha para mim. Nem é comigo que está falando. Os olhos de Julia circulam pela cozinha, embora não haja muito que ver ali: atrás de mim, sobre a pia, o tanque de água quente com sua pequena chama azul; à minha esquerda, a porta para o vestíbulo. A luz das velas ilumina o rosto dela, delineando maçãs do rosto e queixo. Eu a observo a se lembrar, convocando presenças mais reais do que a minha.
“Existem coisas...” ela para. “Não acho que vou conseguir me lembrar. Não me lembro.”
Atenho-me às pequenas coisas. “Você sabia o que era aquele cartão?”
“Pensei que tivesse ficado na Hungria por mais tempo do que meu visto permitia. Em geral, eles só carimbavam de novo o passaporte na fronteira e deixavam você voltar. Comecei a bolar desculpas em minha cabeça. Ao mesmo tempo, dizia a mim mesma: escute, não pode ser nada tão sério! O que é que eles vão fazer comigo? Quero dizer, não estava com medo de que viessem me buscar no meio da noite, para me trancafiar e torturar.”
Julia analisou a situação de todos os pontos de vista. Em seus últimos tempos, o regime interrompeu em grande parte toda ação direta (detenção, encarceramento, tortura) contra o povo. Em vez disso, optou por outros meios de silenciar as pessoas, valendo-se de métodos que a Anistia Internacional teria mais dificuldade em relatar. “A coisa mais comum que podia acontecer na RDA nos meus tempos — interromperem sua carreira antes mesmo de ela começar —, isso já tinham feito comigo! E agora que eu já não tinha namorado italiano, o que mais podiam querer?”
A delegacia de polícia tinha um amplo saguão. Em silêncio, as pessoas formavam duas longas filas serpenteantes, cada uma delas terminando num balcão. As filas mal andavam. “Peguei um número e, então, percebi que não sabia em que fila entrar ”, ela conta. “Por isso, fui até a policial que estava tomando conta de tudo aquilo. Ela olhou meu cartão e disse de imediato: ‘Ah, senhorita Behrend. A senhorita não precisa entrar na fila. Pode ir diretamente à sala 118’.”
Julia ri de si mesma. “De início, fiquei contente! Achei que tinha escapado da fila.”
Depois, ela notou que todas aquelas pessoas eram dirigidas para duas salas atrás dos balcões, mas nenhuma delas era a 118. “Precisei me virar sozinha, subir vários lances de escada, passar por um corredor comprido, virar para a esquerda e, depois, para a esquerda de novo. Não tinha ninguém por ali. Não vi ninguém entrando ou saindo das salas pelas quais passei. A 118 era bem longe, do outro lado do prédio.”
Julia bateu.
“Entre.”
Um único homem sentado a uma escrivaninha. A primeira coisa que Julia notou foi que ele vestia um terno ocidental e uma bela gravata. Levantou-se de imediato, com um pequeno aceno de cabeça, os pés juntando-se num breve estalo.
“Senhorita Behrend, meu nome é N., sou major ”, sorriu ele, estendendo a mão. Depois, com toda clareza, acrescentou: “Ministério para a Segurança do Estado”.
Julia teve medo, ela diz, “um frio na barriga”.
O homem tinha menos de quarenta anos, rosto largo, primeiros sinais de calvície. Usava óculos pequenos e redondos e exibia um reluzente bronzeado. Era simpático — ou, para os padrões da RDA, educado até demais. “Sente-se, por favor ”, disse ele. Sentaram-se. Julia tornou a pensar que talvez a história toda tivesse a ver apenas com o visto na Hungria.
Mas N. começou a falar. “Uma jovem assim, tão bonita e inteligente, talvez a senhorita possa me explicar ”, sorriu ele, “por que não está trabalhando.”
Ali estava a confirmação. Até aquele momento, tudo poderia ter sido apenas produto da imaginação dela: o internato, a visita do diretor, as constantes revistas na rua, a reprovação no exame, o aviso “amigo”, o Lada, o desemprego incomum.
Ela estava em choque. Falava devagar.
“O senhor deve saber por que não tenho emprego”, disse.
A voz dele era suave. Não parava de sorrir. “E como é que eu poderia saber, senhorita Behrend?”
Os pensamentos de Julia se aceleraram. Ela podia ver aonde aquilo ia dar: ia ser expulsa do país. “Pensei que era minha última chance de ficar ”, ela conta. Por isso, disse ao homem sem pestanejar: “Escute, por favor, eu não quero... Não quero ir para o Ocidente. Mas acho que os senhores estão me forçando a ir embora”. Julia percebeu que estava implorando. “Preciso trabalhar em algum lugar. Afinal, estou desempregada.”
“Mas, senhorita Behrend”, disse ele, “como pode ser?” Ele entrelaçou os dedos sobre a mesa. “Não existe desemprego na República Democrática da Alemanha.”
Ela não conseguiu responder.
O homem esticou o braço sobre a mesa em direção a uma pilha de papéis, que puxou para junto de si. “Em primeiro lugar, tenho algumas perguntas a fazer ”, disse, “sobre estas cartas.”
Julia olhou para a mão dele e reconheceu, embaixo dela, sua própria caligrafia. Ficou confusa. Olhou melhor.
Eram cópias das cartas para o namorado italiano.
Ela imaginara o tempo todo que sua correspondência estava sendo vigiada. Às vezes, as cartas que ela recebia do exterior haviam sido brutalmente rasgadas e fechadas de novo com fita adesiva: “Avariado em trânsito”. “Era ridículo mesmo”, ela conta. Mas, como fazia com tudo o mais, não pensara muito naquilo.
Major N. abriu a primeira carta sobre a escrivaninha, alisando-a com ambas as mãos. Pigarreou. E, para o horror de Julia, começou a lê-la em voz alta.
Fico pensando na vergonha que eu sentiria, sentada diante do major Fulano, na sala dele, vendo-o manusear coisas tão íntimas. A vergonha de ouvir minhas palavras transformadas pela boca dele nas banalidades universais do amor.
Julia e o namorado se escreviam em inglês. O major N. sublinhara em cada carta as palavras que não conseguira encontrar em seu dicionário alemão-inglês.
“Ele ficou sentado ali e...”, Julia se interrompe para tomar um gole de chá. Deve estar gelado a essa altura. O chá desce pelo caminho errado. Ela tosse muito, mas estende a mão para que eu pare de tentar ajudá-la: “... e me perguntava”, prossegue numa voz engasgada, “o significado das palavras”.
Os pelos do meu braço se eriçam. Parei de olhar para Julia porque, na penumbra, ela já não falava para mim havia algum tempo. Sinto-me humilhada por razões que nem sei explicar. Estou furiosa por ela, e me sinto ligeiramente culpada pela relativa sorte que tive na vida.
O major N. dedicava-se sem pressa a aperfeiçoar sua tradução. As palavras não encontradas no dicionário eram, em sua maioria, a da linguagem íntima dos amantes. Ele perguntava a Julia: “O que significa isto?” E de novo: “A senhorita se importaria de me explicar, por favor, o significado deste termo?” O comprido indicador sobre a caligrafia dela, sobre a de seu amante. “E este aqui?”, perguntou ele, tocando a palavra cocoriza, numa carta escrita pelo namorado.
“Cocoriza”, explica Julia, “significa ‘trigo’ em húngaro.”
“Então, que significado tem, senhorita Behrend, o seu amigo escrever: ‘Quero minha pequena cocoriza’?”
Ela teve de esclarecer. Nas férias, os cabelos dela tinham clareado, adquirindo a tonalidade do trigo. Cocoriza era o apelido amoroso que ele dera a ela.
“Muito obrigado, senhorita Behrend.” Em seguida, o major N., com seu terno ocidental, os modos estrangeiros e sua exagerada delicadeza, pôs-se a vasculhar o relacionamento dos dois, uma carta de cada vez.
“Levou um bom tempo”, diz Julia com uma voz distante. Os olhos dela se fixam na meia distância. O major N. foi meticuloso. Havia toda uma pilha das cartas dela ao italiano. E outra, com as respostas que ele enviou a ela. Aquele homem sabia de tudo. Sabia das vezes que ela estivera em dúvida e das palavras doces que a haviam acalmado. Sabia da saudade que o namorado italiano sentira, posta a nu, e da invenção, para seu próprio prazer, da garota distante.
N. insinuou saber — o que Julia na certa também percebera — que o italiano tinha feito dela uma imagem que não correspondia à realidade. Pôs-se a lisonjeá-la: “A senhorita é mais complexa, creio, e muito mais inteligente do que ele acreditava”. Quando terminou de ler, apontar e sondar, o major N. arrumou as duas pilhas de cartas e afastou-as de volta para um canto da escrivaninha. “Agora, vamos conversar um pouco sobre esse seu amigo, está bem?”
E começou a falar a Julia sobre o namorado dela. “Não disse nada de espetacular ”, ela conta, “mas contou coisas que eu não tinha como saber, porque não podia ir para a Itália e ver com meus próprios olhos.” Julia imagina que a Stasi tinha gente na Itália. “Foi até espirituoso, em certa medida, tentando me incluir na conversa, como se nós dois pudéssemos rir juntos de alguns aspectos da vida do meu namorado, como se estivéssemos do mesmo lado e fosse meu namorado, e não eu, o objeto da investigação.”
“Como nós sabemos”, disse o major, “nosso amigo trabalha no ramo de computadores.”
Julia assentiu. “Nunca entendi direito que tipo de negócio ele tinha”, ela diz, “e, com minha cabeça alemã oriental, menos ainda. Ele havia me contado que comercializava componentes.”
N. lhe deu os detalhes. “É gerente de vendas da filial regional da empresa.” Depois, descreveu a casa da família do namorado, na Umbria. Contou a ela a marca do carro que ele dirigia. Quando viu que aquilo não significava nada para Julia, interpretou os dados para ela: avaliou tratar-se de um carro de “classe média” e, “portanto, não há hipótese de ele ser rico ou coisa do tipo”.
Julia se perguntava aonde ele queria chegar.
O major abriu a gaveta da escrivaninha e retirou uma pasta grossa, que depositou, fechada, sobre a mesa.
“Agora, senhorita Behrend, chegou a vez da senhorita”, anunciou.
E começou a avaliar a vida dela até aquele momento. “Ele sabia tudo sobre mim”, diz Julia. “Sabia as matérias que eu tinha cursado e como me saí nelas. Sabia tudo sobre minhas irmãs e meus pais. Sabia que minha irmã mais nova queria estudar piano no conservatório.” O major N. sentia-se suficientemente bem informado para fazer até algumas avaliações psicológicas. Disse a Julia que havia questões que o pai dela evidentemente não entendia, que Dieter era “problemático”. Irene, ao contrário, era bem mais leal ao Estado.
“Está claro para nós pelas provas coletadas, senhorita Behrend, que a senhorita puxou à sua mãe”, afirmou ele. “O que, se posso me permitir o comentário, é uma coisa boa.”
“Ele estava me mostrando que me tinha na palma da mão”, diz Julia. Ela ergue os joelhos até a altura do peito e apoia os calcanhares no assento da cadeira. Depois, estica o blusão sobre os joelhos, transformando-se numa bolinha preta. “A única coisa...”, continua, “... é irônico, mas a única coisa que eles pareciam não saber era que eu tinha terminado com meu namorado!” Desde o rompimento na Hungria, o namorado italiano escrevera diversas cartas suplicantes. Julia respondera à primeira, mas, depois, parara de escrever para ele.
“Ou pelo menos o major agia como se não soubesse que a gente tinha rompido”, diz ela. “Achei estranho que ele não soubesse. Talvez estivesse de férias e tinha perdido as últimas cartas.”
Ou talvez soubesse, penso eu, e julgasse que isso melhoraria suas perspectivas com ela.
N. afastou a pasta grossa para o lado, para junto das cartas de amor. Juntando as pontas dos dedos, inclinou-se na direção de Julia. “Como a senhorita com certeza já percebeu, estamos interessados no seu amigo.” E foi então que ele disse: “O que propomos”, prosseguiu, “se a senhorita puder nos ajudar, é que nos encontremos de vez em quando. Para uma conversinha”.
Julia diz: “Achei absurdo. Pensei comigo: que diabo de interesse podiam ter nele?” Ela não podia nem imaginar que o namorado italiano fosse alguém de alguma importância. “Ele não tinha nenhum contato graúdo que tivesse mencionado alguma vez, nem qualquer treinamento ou especialização significativa.” Até chegar de volta em casa, Julia nem chegou a pensar que talvez fosse ela que eles quisessem.
Estava fora de questão. Ela não coletaria nenhuma informação sobre o namorado, nem sobre qualquer outra pessoa. “Eu sinto muitíssimo”, disse ao major N., “mas não tenho como ajudar, porque rompemos o namoro nessa última viagem à Hungria. Não quero ter mais nada a ver com ele. Ele queria mandar em mim. Eu sabia que, se ficasse com ele, não poderia mais decidir minha própria vida.” E acrescentou: “Não quero ver essa pessoa nunca mais, nem mesmo como amigo”.
N. sorriu. Depois, disse: “Se, depois de pensar um pouco mais no assunto, a senhorita vier a tomar outra decisão, não hesite em nos procurar, seja quando for ”. Ele deu a ela o cartão com seu número de telefone. “Ah, senhorita Behrend”, prosseguiu ele, “só mais uma coisa: a senhorita não deve comentar essa nossa conversinha com ninguém — nem com seus pais, nem com suas irmãs, nem com os amigos mais íntimos. Se fizer isso, vamos ficar sabendo. Esta nossa tarde de hoje nunca aconteceu. A senhorita nunca esteve na sala 118. Se me vir na rua, a senhorita não me conhece: siga em frente. Digo isso por razões óbvias, que a senhorita na certa há de ter compreendido há muito tempo.”
Julia assentiu com a cabeça.
E isso foi tudo. Ele mostrara a ela que, com um único telefonema, ela poderia estar dentro ou fora. Poderia se juntar a eles ou partir.
“Então, ele me dispensou.” A rua era um outro mundo, a luz do dia brilhava de um modo nada natural. Julia observou uma classe de crianças pequenas sendo conduzidas pela calçada. Sentia-se apartada da vida, súbita e irrevogavelmente. “Era como se, de repente, eu estivesse do outro lado”, diz ela, “apartada de todo mundo.”
Ela parece não ter mais palavras. Eu recolho os pratos e os deposito na pia atrás de mim. Procuro alguma outra coisa para comer no refrigerador, como se ele pudesse revelar alguma possibilidade não percebida à primeira vista. Encontro apenas um pacote murcho de linguiça de fígado e uma maçã. Jogo fora a linguiça e fatio a maçã. Ainda estou de costas para ela quando Julia recomeça. Ouvi-la é testemunhar o processo quase mecânico de recuperação do passado.
Ela fala devagar. “Acho que reprimi todo esse episódio”, diz. “O que veio depois, toda aquela história de 1989, talvez tenha sido tão forte que as outras coisas sumiram. Não tenho outra explicação.”
Não sei o que ela quer dizer com “toda aquela história de 1989”. Digo a Julia que acho que ela passou por uma experiência extrema.
“E foi mesmo”, ela concorda, “quando você toma consciência do que aconteceu. O estranho é que só agora, nesta cozinha, fui sentir aquele frio na espinha. Na época, minha crítica era outra — o fato de não me permitirem estudar e ter uma carreira. Mas, olhando para trás agora, foi a vigilância absoluta que me fez mais mal. Eu sei bem até onde as pessoas são capazes de invadir o espaço da gente, até não sobrar nada da nossa esfera pessoal. E acho que esse é um conhecimento terrível de se adquirir.” Ela afasta os cabelos, como se quisesse se livrar de alguma coisa. “Com a distância, percebo pela primeira vez como foi ruim o que aquele sujeito fez naquela sala.”
Julia pega um pedaço de maçã e balança o arco carnudo entre dois dedos pousados na mesa. A geladeira vazia sacode e para; reina um silêncio profundo na cozinha. “As pessoas falam do inconsciente”, ela prossegue, “e agora, falando com você, fica claro para mim o efeito que esse conhecimento produziu na minha vida.” Ela morde um pedacinho da maçã. “Acho que, definitivamente, sofri alguns danos psicológicos!” Ela ri, mas não está brincando. “Deve ser por isso que reajo de forma extrema a toda aproximação masculina, e por aí vai. Sinto isso como outra possível invasão da minha intimidade.” Ela observa meu rosto. “Acho que é pior quando a gente reprime.” Desenterrar ou deixar enterrado?
Quando Julia deixou a sala 118 ela estava bem, até chegar em casa. Aí, as pernas não conseguiram mais suportar seu peso. Ela foi ao banheiro e vomitou. Ao voltar, notou que sua voz tremia e que não conseguia evitar que isso acontecesse. Contou tudo aos pais e às irmãs. Naquela noite, a família se reuniu para decidir o que fazer.
“Minha mãe é uma pessoa muito pragmática”, diz Julia. “Tudo bem, você terminou com o italiano. Eu não quis interferir, mas estou contente por você não ter se casado com ele. Mas agora precisa pensar com muita calma sobre o que vai fazer.”
Julia mal podia acreditar no que estava acontecendo, ou seja, que estavam todos sentados na sala de estar, discutindo como ela iria viver o resto de sua vida. Tinha então vinte anos de idade. “A gente sempre discutia a história de eu ir morar com o namorado italiano, como se aquilo fosse uma opção. Mas era mais fantasia de adolescente, algo assim como: sou livre para fazer isso e ninguém vai me deter. De repente, tinha virado realidade: tenho de ir embora daqui para sempre — preciso abandonar minha família, nunca mais vou ver minhas irmãs, tenho de ir para o Ocidente. O que, como eu disse, eu nunca quis.” Julia começa a falar para o blusão que embrulha seus joelhos. “E acho, também, que tinha me decepcionado com o Estado. Pela primeira vez, percebi que ele não era o ‘bom pai' que a gente tem na cabeça. Vi que ele pode ser perigoso, muito perigoso, sem que eu tenha feito nada de errado."
Ela não ia se transformar numa informante. Restava, portanto, uma única saída real. “Você precisa encontrar alguém com quem se casar, para poder ir embora", disse Irene. “É o único jeito." Depois, deu voz ainda às dúvidas de todos. “Mas você quer mesmo se casar com qualquer um?", perguntou. Dieter, sentado à ponta da mesa, estava curvado de raiva e tristeza. Ninguém disse nada.
“Foi quando eu pensei comigo", Julia diz, “bom, quando não tem jeito, a gente tem de meter as caras. Existia, teoricamente, uma coisa chamada Staatsratsbeschwerde, que permitia às pessoas escrever diretamente para Erich Honecker caso elas precisassem de alguma coisa que não conseguiam obter ou quisessem fazer uma reclamação." Julia balança a cabeça. “Como se o cidadão tivesse de fato voz e direitos. As pessoas escreviam dizendo que queriam azulejos para o banheiro ou componentes para trator, e que não encontravam nada daquilo desde agosto, ou coisa parecida. Gente do povo às vezes dizia: ‘Ora, por que você não para de reclamar e escreve para o Erich?'. Bom, aí pensei comigo: por que a gente não escreve? Quero dizer, se a gente olhasse bem, o que tinha acontecido não era certo." Torno a ver em Julia a boa imitadora. “Eu já nem tenho esse namorado, quero estudar, quero ficar na RDA, por que não? A gente pode escrever para ele e reclamar." Ela olha para o teto. “Hoje eu vejo que tinha uma certa ingenuidade nisso, mas naquela época a gente pensava que o Partido e o Estado eram uma coisa, e que a Stasi era outra." Julia torna a balançar a cabeça e se desembrulha do blusão, pondo os pés no chão. Depois, abre bem as mãos. “Pensei, bom, o que eles podem fazer contra mim?"
O cartão do major N. estava em cima da mesa, diante de todos. “Você tem o número do telefone”, Irene disse. “Ligue para ele amanhã e diga que você e seus pais vão escrever para o Honecker e fazer uma reclamação.”
“Nunca vou me esquecer daquela noite”, diz Julia. “Eu disse a meus pais: está bem, é o que nós vamos fazer, então. E fui me deitar. Tive pesadelos que nunca tinha tido antes nem voltei a ter depois.” Sonhou que estava sendo perseguida num lugar em que tudo lhe era conhecido — a bancada da cozinha, a paisagem da janela do seu quarto, os rostos numa loja, a cabeça da irmã vista por trás. Mas ninguém a reconhecia, e ela não estava em casa. O pai dela estava morrendo, murchando como uma planta e chamando por ela, mas não a ouvia responder, não podia ver onde ela estava. Quando acordou, Julia não sabia se tinha sonhado com aquele lugar ou com o lugar para onde estava indo. “Foi uma noite horrível, horrível. Não me lembro se chorei. Acho que não. Só suei um bocado, até a cama ficar molhada. Acordei diversas vezes. Foi apavorante passar por aquilo.” Ela passa a mão nos cabelos. “Como perder tudo, até eu própria desaparecer.”
Na manhã seguinte, depois que todos já haviam saído, ela pegou o cartão e foi até a casa da avó, para dar o telefonema. Estava sozinha ali. Podia sentir o cheiro de desinfetante e de batatas cozidas. Olhou para os números em preto no cartão. Eles se mexiam. Viu que sua mão tremia e pôs o cartão na bancada. Naquele momento, já não era capaz de enumerar as razões pelas quais iria dar o telefonema, como chegara àquilo. Estava ali, apenas, com o cartão, o nome e os números que o fariam falar com ela de novo. Pôs os dedos no disco para fazer a chamada.
N. atendeu de imediato. Quando se deu conta do que ela estava dizendo (Você contou a mais alguém sobre a nossa conversa? Vai escrever o quê?), ficou furioso e exigiu que Julia se encontrasse com ele, sozinha. Ela deveria encontrá-lo num apartamento secreto, na cidade.
“Por ironia, o tal apartamento ficava em cima de uma agência de viagens...”, ela diz, e junta os lábios num sorriso amargo. “Claro, eu já tinha olhado aquela vitrine muitas vezes. Sabia exatamente onde ficava.” N. disse ainda que haveria graves consequências para ela, e provavelmente para a família também, pelo fato de ela ter quebrado o silêncio. Lembrou-a de que a irmã mais nova de Julia, Katrin, sonhava estudar piano no conservatório, não era verdade? Disse que iria contatar seu superior, o chefe regional, para ver que ação tomar a partir dali.
A família esperou uma semana até que um cartão chegasse. Receberiam uma visita em casa.
Vieram duas pessoas: N. e seu chefe. “Mas não aconteceu nada do que a gente imaginava”, Julia conta. “N. me parecia completamente diferente. Suava, constrangido. O chefe dele não causava impressão melhor. Não sabíamos o que se passava.”
Dieter disse aos dois que não havia razão — e que razão haveria? — que justificasse o que sua filha havia passado. Sempre haviam sido bons cidadãos. E Irene disse na cara deles que escreveriam para Honecker.
Os dois homens ergueram as mãos: não precisavam exagerar. Afinal, as coisas não haviam ido longe a ponto de não se poder resolvê-las ali mesmo, envolver Berlim era desnecessário. Aquela era uma situação — olhavam ambos para Dieter e Irene — em que a imaginação de uma jovem, uma grande qualidade, aliás, talvez tivesse desempenhado um papel. Dieter, Irene e as meninas ficaram em silêncio. Os homens pediram que lhes dessem algum tempo.
“Nós não percebemos de cara”, diz Julia. “Mas quando eles saíram sabíamos que havíamos vencido. Nunca soubemos direito onde se travava a batalha”, ela sorri, “mas sabíamos que havíamos vencido.”
Julia não sabe por que a Stasi teve medo de que eles reclamassem com Honecker. Talvez porque Dieter e Irene fossem professores e parecessem de acordo com o regime, ou talvez porque a Stasi não tivesse base “legal” para ter feito o que fez a Julia. É uma daquelas raras ocasiões em que se paga para ver o blefe e alguém “ganha” da Firma.
“O mais espantoso”, Julia continua, “foi que, na semana seguinte, me ligaram oferecendo um emprego.” Ela foi contratada como recepcionista de hotel. Ao que tudo indicava, trabalharia lá até o fim da vida.
Foi então que veio 1989.
“Aí é outra história, completamente diferente.” Julia apanha a caixa com as cartas de amor. “Já é tarde, preciso ir ”, diz. “Pensei em passar aqui, pegar as cartas” — ela dá um tapinha na caixa — “e dar uma olhada nelas. Tenho ido a uma psicoterapeuta, e o assunto agora são meus relacionamentos com os homens. Estou tentando me lembrar deles, parecem parte de uma outra vida.” Ela sorri e a luz ilumina seus dentes. “Estas cartas do namorado italiano vão me servir de lembrete”, diz. Olho para a caixa que ela tem nos braços e vejo que não se pode destruir o passado ou o que ele nos fez. Nada termina de fato.
Vou com Julia até a porta. No vestíbulo, ela encaixa a bomba de encher pneu na barra da bicicleta surrada, e eu abro a porta. Enquanto ela desce as escadas, sinto que falta alguma coisa naquele quadro. Ela não me parece uma garota que pagou para ver, trabalhou num hotel por dois anos e, então, foi libertada para o futuro pela revolução de 1989. Ninguém consegue somar os acontecimentos de uma existência e calcular as perdas; uma tabela das feridas da alma. Mas essa não é a soma total das coisas, penso comigo, enquanto Julia pedala de volta para sua torre fortificada, repleta das coisas que não consegue deixar para trás, mas que tampouco é capaz de encarar.