Stasilândia
19. Klaus
“Posso dar uma passada aí?”
“Para quê?”
Acho que o acordei. É uma hora da tarde. “Para fazer uma visita, Klaus. Preciso sair de casa.” O que eu preciso, na verdade, está se tornando um hábito: uma certa composição química de lúpulo e cevada. Preciso me sentir bem, temporariamente, diante de placas e muros, velhos e normas, padarias e tapeçarias, corredores e mais corredores de salas lacradas com propósitos secretos. Preciso ver um sobrevivente.
“Está bem”, ele diz, “mas não agora. Mais tarde.”
“Tudo bem, vejo você mais tarde então.”
Estamos na terceira cerveja, e são apenas seis da tarde. Klaus parou de tremer e trocou o roupão que vestia quando cheguei por jeans pretos e uma jaqueta à prova de vento. Seus cabelos estão multicoloridos, e multicolorida está também a barba. O rosto é enrugado, com dentes marrons e olhos apertados e sorridentes. As mãos dele são grandes e arroxeadas, mãos de fumante inveterado.Klaus está rabugento e simpático ao mesmo tempo, ainda só aquecendo os motores
Como muita gente, sei um pouco sobre a vida dele, mas não me importaria de ouvi-lo contar sobre ela, uma história noturna. De início, ele resmunga — que ícone com algum respeito por si próprio precisa dizer como chegou onde está? Mas abrimos mais algumas latas, e ele me faz a gentileza, relaxando pouco a pouco. Larga o corpo na poltrona, assumindo a forma da mobília.
Estamos diante de uma mesinha de café contendo palitos de fósforo, latas, cinzeiros cheios de guimbas, pedaços de papel e montinhos de tabaco que mais parecem tufos de cabelos. Além dela, um enorme aparelho de TV com som estéreo. O cômodo é também quarto de dormir e escritório de Klaus — há um colchão no mezanino à minha esquerda e, embaixo, fax, computador e sintetizador.
As paredes mostram fotos e cartazes, além das sombrias pinturas a óleo do próprio Klaus. A que está mais próxima do meu campo de visão exibe uma série de gravuras, mostrando a evolução do seio, de firme e pontudo a frouxo e pendular. Esse cômodo é a vida de Klaus, o interior da sua cabeça.
As primeiras fotos mostram Klaus Jentzsch antes de ele escolher o sobrenome de solteira da mãe como parte de seu nome artístico: um jovem certinho em 1958, vestindo terno, gravata fininha e olhando com modéstia para baixo, para seu contrabaixo acústico. As fotos rastreiam seu percurso até o astro de cabelos longos, casaco de pele de carneiro e baixo elétrico. As mais recentes são cartazes de turnês: um grupo de seis homens de meia-idade com uma variedade de bandanas, barbas e óculos escuros, punhos erguidos e suor no peito. Se houve uma transformação em Klaus, ele parece ter se transformado mais nele mesmo: sem bandana, sem óculos — apenas jeans, camiseta e baixo.
Klaus Renft é o garoto malvado do rock-'n'-roll alemão oriental. A Klaus Renft Combo tornou-se a banda de rock mais doida e popular da RDA.
Klaus começou a carreira tocando Chuck Berry e Bill Haley nos anos 1950. Nos 1960, passou a tocar Animals, Beatles e Rolling Stones. E, nos 1970, Steppenwolf, Led Zeppelin e Pink Floyd. Em geral, os álbuns dessas bandas eram invariavelmente proibidos, de modo que Klaus e seus amigos infringiam a lei, ouvindo a rádio ocidental RIAS (a rádio do setor americano) e gravando as músicas em gravadores enormes, para depois trabalhar nelas. Cantavam aos gritos: “A kent get nö, zetizfektion”.
Fico espantada de as autoridades terem deixado que cantassem “Satisfaction”, dos Stones, uma canção que, tendo se tornado um hino para os desejos de todo tipo no Ocidente, só podia ser entendida como um protesto contra o sistema em si no Leste. “Eles compreendiam o significado?”, pergunto.
“Nem nós sabíamos o que a música significava”, Klaus ri, picando tabaco e pedacinhos queimados de haxixe dentro de um cachimbo de tubo branco. Sua risada é profunda e inocente. Ele é um homem que tem o dom do prazer. Seu sorriso aquece o cômodo.
Com o tempo, a Klaus Renft Combo passou a tocar um número cada vez maior de composições próprias. Quando Gerulf Pannach se juntou ao grupo, em 1969, as letras ganharam em rebeldia, mordacidade e esperança, ou, como escreveu uma revista, “em alma, fragilidade e dor ”. No mundo dos sucedâneos como o lipsi, Renft era uma coisa autêntica, não autorizada. Contudo, só havia uma gravadora na RDA, a AMIGA, e Klaus conta que as letras de todas as canções eram modificadas antes de eles poderem gravá-las. A banda, segundo ele conta, cantava canções sobre as “coisas sagradas” da Alemanha Oriental — o Exército e o muro —, porque queria “arranhar a RDA na medula”.
Ele se levanta da poltrona e se movimenta com a rapidez de um gato, embora eu talvez esteja começando a ver as coisas em câmera lenta. Tento imaginar como seria receber toda minha experiência de rock ao vivo, mas de segunda mão. Será que Mick Jagger, Robert Plant e Roger Daltrey sabiam de seus duplos no Leste?
Mas assim que Klaus põe a música para tocar, eu acredito: I am a believer. Há alguma coisa num bom rock que desafia o pensamento. Ele é puro e vil ao mesmo tempo, e mexe com a gente de um modo que não dá para dizer com palavras. O vocalista, Christian “Kuno” Kunert, aprendeu a cantar num coro de igreja em Leipzig, e a voz dele soa como a verdade. Ele canta a famosa “Die Ketten werden knapper ” [As correntes apertam cada vez mais] e “A balada do pequeno Otto”, que anseia por juntar-se ao irmão no Ocidente. Klaus torna a se sentar e fuma alegremente. Terminadas as canções, ele continua a falar.
O Renft não podia tocar nas cidades grandes, por isso a banda tocava para enormes multidões que iam vê-la em cidadezinhas pequenas. “Era um Woodstock por dia”, ele sorri. “Sabe como é, para nós, a RDA não era só Stasi, Stasi e mais Stasi. Era 'sex e drugs e rock-'n'-roll”, diz Klaus, usando as palavras em inglês. “Drogas” significavam álcool e cigarros, as únicas de que dispunham, mas tiravam delas tudo que podiam. “Quero dizer, a gente vivia de verdade!” explica, “e era divertido.”
“Em algumas das cidadezinhas onde estivemos, os prédios da rua principal eram pintados só até a metade da altura! A parte de cima era concreto puro, cinza.” Ele me olha como se tivesse acabado de me propor uma charada, e era o que tinha feito. “Era porque, quando Honecker passava, aquela era a altura até onde ele podia ver do banco de trás da limusine. Não havia tinta suficiente para pintar além daquele ponto!” Eu já tinha ouvido falar nisso, bem como nos açougues cheios de mercadorias que desapareciam assim que Honecker ou algum outro membro graúdo do governo passava. Klaus acha tudo isso muitíssimo engraçado. Depois, diz: “Essa sociedade foi construída em cima de mentiras — uma mentira atrás da outra”.
O imperador está nu! Os prédios, seminus! O Renft podia ter começado com os rocks que tomara emprestado do Ocidente, mas as mentiras eram tantas que cantar a verdade garantiu ao grupo status a um só tempo heroico e criminal. Por volta de meados da década de 1970, a banda incorporava uma combinação letal de rock, letras contra o governo e adoração em massa. Seus membros eram desgrenhados, usavam calças boca de sino, tinham uma postura ousada, eram o máximo, e eram ricos, para os padrões da RDA, mas explosivos demais para o regime.
Artistas necessitavam de uma licença para trabalhar. Em setembro de 1975, o Renft foi chamado a tocar para o Ministério da Cultura em Leipzig, visando à renovação de sua licença. Klaus se levanta para apanhar uma pasta embaixo do mezanino. “Agora, posso consultar os detalhes da minha vida nos arquivos da Stasi”, ele sorri, “o que não é ruim.” Uma vez, ele já se referiu ao estado de seu cérebro como “comida para cachorro”. Gosto dele por esse seu autoconhecimento, e retribuo o sorriso. Pouco antes da audiência para a renovação da licença ofereceram-lhe um passaporte, dinheiro vivo e uma vida mansa — na RDA ou no Ocidente —, se ele se separasse de dois dos membros da banda de maior franqueza política: Pannach e Kunert. Klaus disse não. “Eu sabia que aquilo seria uma sentença de morte para nós”, diz.
“Imagino que precisava de muita coragem para recusar uma oferta dessas.”
Ele encolhe os ombros. “Com Hitler, era muito pior ”, ele diz. “A gente teria sido despachado para um campo de concentração.”
A fumaça é doce, e o tempo começa a perder seu controle sobre a noite. Há uma certa singeleza em Klaus, em se tratando de um astro de rock. Ele nunca tem respostas prontas. “É difícil descrever ”, ele diz. “Por um lado, acho que minha atitude demonstra caráter ou coisa do tipo. Mas, por outro, para ser honesto, eu estava cagando nas calças...” Ele começa a rir. Depois, para. “Ao que parecia, nós todos iríamos parar na prisão — teria sido o desfecho habitual”, ele pondera com sobriedade. “E as pessoas nas prisões eram tratadas pior do que animais. Claro que a gente não queria isso.”
Agora que ele dispõe dos documentos que integravam sua ficha na Stasi, Klaus pode ver a sequência de acontecimentos do ponto de vista do outro lado. Ele folheia a pasta e, de repente, se detém. “Isto aqui é engraçado”, diz. “Do Honecker para o Mielke.” Ele lê em voz alta: “Caro Erich. Por favor, cuide do caso de Jentzsch, Klaus, o mais rápido possível. Saudações, Erich”. Klaus ri. “Viu essa? De Erich para Erich.” Mas essa história logo podia perder toda a graça. A certa altura, Mielke pediu a seus agentes em Leipzig: “Por que vocês não pegam todos eles? Por que não liquidá-los?” Mas os membros do Renft eram famosos demais para uma abordagem tão direta.
Klaus segue virando as páginas e encontra uma queixa formal feita pela administração do Klubhaus Marx Engels, onde o Renft havia tocado quinze dias antes. Ela é dirigida à camarada Ruth Oelschlägel, presidente do comitê para a concessão de licenças que eles iriam ver em breve.
“Você vai gostar desta aqui”, ele diz, e lê em voz alta. Klaus é a única pessoa que conheço capaz de extrair tanto prazer da patacoada contida no arquivo que leva seu nome. A administração do clube reclamava da bebedeira do grupo. “Depois do show, foram encontradas cerca de quarenta garrafas de vinho... é incompreensível para nós que um conjunto musical necessite consumir tamanha quantidade de álcool para entrar no clima da apresentação.” A reclamação contemplava ainda “os arrotos ao microfone, o uso de palavras como ‘merda’.” Começo a rir, muito mais do que a piada merecia, mas quem se importa? Klaus balança uma perna por cima do braço da poltrona e também está rindo. Ele prossegue com a leitura. “Protestamos contra o uso de palavras inflamadas no palco, tais como ‘Decadente é a sociedade; nós somos o contrário', ‘Hoje me sinto livre', ‘Tem pessoas sentadas nesta sala que vão nos denunciar', ou ‘Vocês serão os últimos a ver o Renft, porque nós vamos ser banidos'.” A risada de Klaus desce pelo peito e ele começa a tossir. Depois, bebe um longo gole de cerveja e se põe a enrolar um baseado.
“Eu tinha algum dinheiro ocidental”, ele conta, “e, antes da audiência, comprei um gravadorzinho cassete em uma Intershop.” Quando toca, Klaus segura o baixo numa posição esquisita, em pé, quase como um baixo acústico. Passa a correia do instrumento por cima do ombro esquerdo; ela desce pelas costas e por entre as pernas, circundando o corpo. Enquanto se preparavam para tocar para o comitê, ele ligou o gravadorzinho e o escondeu entre o instrumento e a virilha, preso à correia do baixo.
Mas nem chegaram a tocar. A camarada Oelschlägel pediu que se aproximassem da mesa. Disse que o comitê não iria ouvir “a versão musical do que os senhores entenderam por bem nos submeter por escrito”, porque “as letras nada têm a ver com nossa realidade socialista... insultam a classe trabalhadora e difamam o Estado e as organizações de defesa”.
Klaus se inclina para apanhar sua latinha de tabaco. “E aí ela disse para a gente: ‘Estamos aqui hoje para informar que os senhores deixarão de existir'.”
Seguiu-se um silêncio. Um dos membros da banda sinalizou para uma roadie que parasse de montar o equipamento. Kuno perguntou: “Isso significa que fomos banidos?”.
“Não dissemos que os senhores estão banidos”, respondeu a camarada Oelschlägel. “Dissemos que os senhores não existem.”
Klaus está tentando acender o baseado com seu Zippo. Ele dá uma bela tragada, olha para mim e começa a exalar a fumaça, rindo. “Então, eu disse a ela: ‘Mas... nós... ainda... estamos... aqui...’. Ela me olhou bem nos olhos. ‘Como banda’, disse, ‘os senhores não existem mais’.”
Foram dispensados. Klaus deu um jeito de passar a fita cassete para sua namorada, Angelika. “Ela não sabia o que era”, ele conta, “mas sabia que era importante.” Angelika. escondeu a fita no cachecol e a levou de volta para o apartamento deles. Quando chegou em casa, depois de beber a tarde inteira no Ratskeller, Klaus escreveu “Fats Domino” em letras grandes sobre a fita e guardou-a na estante.
Angelika tinha um passaporte grego, o que significava que podia viajar para o Ocidente. No dia seguinte, Klaus pediu que ela fosse a Berlim Ocidental, “comprar pasta de dentes ou coisa assim”. Ele não podia ter certeza de que ela não seria revistada no posto de fronteira e, portanto, ela não levou a fita consigo. Mas ele queria que as autoridades vissem que ela havia atravessado a fronteira e voltado. Depois, Klaus espalhou por Leipzig que tinha feito uma gravação do decreto do comitê, agora em poder da RIAS, em Berlim Ocidental, e que, se alguma coisa acontecesse a eles, a gravação iria ao ar imediatamente.
É difícil dizer em que medida aquilo lhes deu proteção, se é que lhes deu alguma. Os discos do Renft desapareceram das lojas da noite para o dia. Pararam de escrever sobre a banda e de tocá-la no rádio. A gravadora AMIGA mandou reimprimir todo o seu catálogo, apenas para poder excluir dele o grupo. “No fim, foi como eles tinham dito: a gente simplesmente não existia mais”, diz ele, “como no Orwell.”
O Estado espalhou o boato de que a banda havia se separado e estava em dificuldades. Ou seja: não podia tocar. Alguns membros queriam ficar na RDA, outros sabiam que teriam de ir embora. Pannach e Kunert foram presos e encarcerados até agosto de 1977, quando o Ocidente comprou sua liberdade. Os outros dois, “os mais apolíticos”, diz Klaus, permaneceram na RDA com seu empresário. Klaus se ajeita na poltrona. “Você já ouviu falar no grupo Karussell?”, pergunta.
“Não.”
Klaus explica que o empresário que ficou com os dois membros mais dóceis, descobriu-se depois, era da Stasi. Sob seu comando, o Renft se reagrupou com o nome de Karussell e saiu gravando canções do antigo Renft, copiando-as “nota por nota”. “Era uma cópia tão perfeita”, conta Klaus, “que não dava para saber se era o Renft ou o Karussell.” A Stasi estava satisfazendo as necessidades do público, mas com uma banda que ela podia controlar.
“Você não ficou furioso?”
Ele encolhe os ombros. Outra pessoa poderia ter visto aquilo como traição, motivo suficiente para ficar se remoendo durante um bom tempo. Afinal, aquele acontecimento marcou, para Klaus, o início de um hiato de quinze anos. Mas Klaus tem o dom de não levar as coisas tão a sério. Amparados pelo álcool, seus tombos terminam numa aterrissagem suave. Ele parece incapaz de todo e qualquer arrependimento, e a raiva evapora de seu corpo como o suor.
A partir do final de 1975, Klaus passou a não ter mais o que fazer nem com quem fazer o que quer que fosse. Depois das chicanas habituais por parte das autoridades, deixaram-no partir com a namorada para Berlim Ocidental. Foi difícil a passagem do dinheiro e da fama para o nada. Do outro lado do muro, o cachê do Renft não era o mesmo. Klaus ficou atônito. Seus fãs eram rebeldes e não estavam ali. Durante anos, trabalhou no teatro, cuidando do som. Depois que o muro caiu, descobriu que “a gente tinha se tornado uma banda cult na RDA. Nossos álbuns eram mais caros do que um disco do Pink Floyd”. Desde então, a banda tem se reunido, mas a formação mudou, e Pannach, que fazia as letras, morreu.
Nos últimos tempos, andei lendo sobre a morte de Pannach. Ele morreu cedo, de uma espécie incomum de câncer, assim como Jürgen Fuchs e Rudolf Bahro, ambos dissidentes e escritores. Todos eles estiveram em prisões da Stasi mais ou menos à mesma época. Quando uma máquina de radiação foi encontrada em uma dessas prisões, a Administração dos Arquivos da Stasi começou a investigar o uso eventual de radiação contra dissidentes. O que descobriram chocou um povo acostumado às notícias ruins.
A Stasi usara radiação para marcar pessoas e objetos que queria rastrear. Ela desenvolveu uma gama de etiquetas radioativas, incluindo-se aí um alfinete radioativo que podia ser espetado às ocultas na roupa de uma pessoa, ímãs radioativos a serem fixados em carros e projéteis radioativos que podiam ser disparados contra pneus. Desenvolveu também um spray de mão, a fim de que seus agentes pudessem abordar pessoas numa multidão e impregná-las ou borrifar radiação no chão de suas casas, para que elas deixassem pegadas radioativas por onde passassem. O manuscrito de Rudolf Bahro recebeu radiação, com o intuito de rastrear seus receptadores, mesmo no Ocidente. Com o propósito de detectar a pessoa ou o objeto marcado, a Stasi desenvolveu contadores Geiger pessoais que podiam ser presos ao corpo, vibrando quando o agente detectava alguma coisa. Nas prisões, às vezes, a Stasi utilizava máquinas de radiação, assim como câmeras fotográficas, para fichar prisioneiros. O relatório da Administração dos Arquivos da Stasi foi cauteloso. Não encontraram prova do emprego de radiação no assassinato das pessoas marcadas, homens ou mulheres. Mas descobriram que radiação foi, sim, utilizada de modo temerário, sem levar em conta a saúde da população. O relatório recomendava que ex-prisioneiros da Stasi fizessem exames médicos periódicos.
Embora Pannach tenha morrido, Kuno está bem e lidera agora um Klaus Renft Combo reformado. De novo, estão em turnê pela velha RDA, tocando para casas cheias e multidões famintas por algo que já foi seu, que não se domesticou e que era bom. Tocam uma mistura de composições velhas e novas. Seu álbum mais recente se chama Como se nada tivesse acontecido. A foto da capa mostra um cinzeiro cheio, latas vazias de cerveja e uma garrafa aberta de uísque. A última faixa do CD é um misto de piada, vingança e explicação para os anos perdidos: trata-se da gravação original, de 1975, da voz de Oelschlägel declarando que eles não existiam mais.
Nossa conversa vai e volta. Klaus ainda está pensando na minha afirmação, se foi um ato de coragem recusar a oferta inicial da Stasi, não querer dançar conforme a música deles. “Não sei se foi coragem”, diz. “Foi mais uma espécie de ingenuidade que me protegeu, acho ” E penso que ele está certo, mas é uma espécie de ingenuidade cuidadosamente alimentada e mantida, uma inocência que ele não permitiu que arruinassem. “Quero dizer, não temos mansões à beira do Mugglesee, como os Pushdys, mas posso me olhar no espelho de manhã e dizer: ‘Klaus, você se saiu bem'. Bens materiais não são o que importam para mim.”
Ele se recosta na poltrona. A fumaça que sai de sua boca a oculta numa névoa cinza, como a barba grisalha. “Acho que esse pessoal da Stasi já recebeu punição suficiente.”
“Como assim?”
“Bom, se eles têm um mínimo de consciência…”
“E se não tiverem?” Penso em Herr Winz, Herr Christian, Herr Koch e nos diversos tipos de consciência que existem.
“Não estou tão interessado”, ele diz. “Não deixei que me pegassem.”
Essa, penso eu, é sua vitória. É isso que o impede de permanecer acorrentado ao passado e de carregá-lo consigo como uma ferida. Se houve “emigração interior ” na RDA, talvez tenha havido também vitória interior.
Klaus olha para mim. Ao longo do anoitecer, ele parece ter adquirido uma compreensão cada vez mais ágil e aguçada, ao passo que eu estou tão inerte como uma esponja. “Quer ouvir uma coisa bonita?”, ele pergunta. Faço que sim com a cabeça. Ele põe um vídeo da banda tocando uma música que Pannach escreveu pouco antes de morrer. Hoje, Kuno mais parece um açougueiro ou motoqueiro, mas sua voz é linda e suave, tão boa quanto sempre foi.
Eu canto meu blues para um homem
Que poderia te contar
Como eram vermelhos os sonhos nas ruínas
Onde hoje há torres de concreto
E quer saber o que restou
Dos sonhos daquele homem? Pergunte às paredes
Da cela 307 em Hohenschönhausen
Eu canto o blues em vermelho
Para alguém que não pode me ouvir
Como uma criança no escuro
Canta uma canção para si mesma…
Por um momento, a canção paira no ar, e nada mais existe; não tenho corpo, e o tempo para de passar. Klaus se estica em sua poltrona. Quando a música termina, ele diz: “Você não pode deixar que te devorem, sabe como é? Que te deixem uma pessoa amarga. Tem de rir, sempre que der ”. Ele tem razão, claro. E a gente tem de beber também. Pelas minhas contas, eu o acompanho à razão de um para três, mas não tenho certeza dos meus cálculos. Klaus pega o violão e começa a dedilhá-lo sem pensar, amorosamente, o braço sobre a curva da madeira. Eu olho através do fundo do meu copo — a mesa, o cinzeiro e as latas de cerveja. Parecem estranhamente pequenos e distantes. Afasto apressada meu rosto do vidro e percebo que estou olhando para a capa do CD. Também a mesa, porém, está coberta de cinzeiros e latas de cerveja. A mesma cena em dois tamanhos diferentes. Está na hora de eu ir embora.
Não sinto o frio gélido, não sinto muita coisa. Pedra rolante, rolling stone. Pedra rolando para casa. Os paralelepípedos estão molhados e as lâmpadas nos postes formam poças de luz amarela no chão. Penso no meu amigo em sua sala, cantando felicidade.