Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 26 de 36

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Stasilândia

21. Frau Paul

 

Sei muito pouco sobre essa mulher. Minha guia no quartel-general da Stasi recomendou com tanta ênfase que eu fosse conversar com ela que simplesmente telefonei e marquei uma hora. Pego o trem em Mitte e vou até o fim da linha, em Elsterwerdaer Platz, ao sul de Berlim Oriental. Ali, espero pelo ônibus que me levará à casa de Frau Paul.

No ponto há um florista vietnamita com uma banca de flores tristes e maltratadas pelo frio. A RDA importava “irmãos socialistas” norte-vietnamitas como mão de obra e os tratava muito mal. Moravam em acampamentos e todo dia eram levados de ônibus para as fábricas, a fim de que o contato com os nativos fosse evitado. Agora, viram-se como podem.

Compro o arranjo de aspecto menos cansado que vejo. São cravos e mosquitinhos. Por alguma razão, sua aparência é fúnebre. O vendedor é um homenzinho minúsculo, com o rosto esticado de uma múmia e dentes que não cabem na boca. Ele apanha o troco de um bolso de couro em seu avental e me oferece um cigarro. Eu aceito, e sorrimos um para o outro. Então, ele se agacha atrás do balcão e retira dali um pacote de Marlboro. “Cigarro?” ele torna a perguntar, abrindo um largo sorriso.

“Não, obrigada”, agradeço. A banca de flores murchas é, portanto, fachada para a venda de cigarros no mercado negro. Caminhões deles são contrabandeados da Polônia, para fugir de taxas e impostos, e vendidos nas esquinas, na entrada do metrô ou, em abordagem mais poética, em bancas de flores, em geral por vietnamitas. Gosto do disfarce daquele homem, e também de seu estilo generoso.

 

Uma mulher corpulenta, de seus sessenta e poucos anos, abre a porta. Ela tem um boné de cabelos pretos e olhos muito azuis num rosto suave. Sigo-a até a sala de estar, mobiliada com dois ou três sofás pequenos de vinil e plantas penduradas em vasos. Tudo “muito bem arrumadinho”, como diria minha mãe, o mesmo valendo para Sigrid Paul. Roupas e cabelos em perfeita ordem, e ela tem os dedos gordinhos e afilados nas pontas de uma Madalena penitente. Com eles, bem apertados, segura já um lenço. Preparou deliciosos sanduíches com ovos mexidos, carne rosada e pepinos em conserva.

De antemão, ela se desculpa. “Costumo perder o fio da meada”, diz. “Isso pode consumir um bocado de fita. Por isso, escrevi uma pequena nota biográfica”, ela a apanha da mesinha de centro, “para me ajudar a não fugir muito do tema.” Parece hesitante, uma mulher apegando-se a notas sobre sua própria vida. Frau Paul me passa o relato de duas páginas. O título diz: “O muro atravessou meu coração”.

Contudo, ela não faz uso das notas. É verdade que se perde e, às vezes, se repete também. Mas conta muito bem sua história.

Em janeiro de 1961, Frau Paul — ou Rührdanz, como era seu sobrenome de casada — , técnica em odontologia, deu à luz o primeiro filho. O parto foi difícil, parto caudal. O horário era o da troca de turno dos médicos, e houve alguma demora nos cuidados necessários. Quando por fim ela foi atendida “uma perna já estava para fora”, ela conta, mas submeteram-na a uma cesariana assim mesmo.

Nos primeiros dias após o nascimento, Torsten Rührdanz cuspia sangue. Não conseguia se alimentar. Os médicos julgaram que podia ser algum problema estomacal e tentaram dar-lhe chá. Seis dias após o parto, Frau Paul teve alta do hospital, mas o bebê retinha muito pouco da alimentação que lhe era dada. E continuava cuspindo sangue. Ela o levou a outro hospital, na região leste da cidade, mas tampouco ali conseguiram identificar qual era o problema. “Aquilo me deixou muito nervosa”, ela diz. “Para mim e para meu marido, era o filho dos nossos sonhos.”

Em seguida, Frau Paul levou o menino para o hospital de Westend, na zona oeste da cidade, onde lhe deram um diagnóstico em 24 horas. Torsten tinha sofrido uma ruptura do diafragma durante o parto. Estômago e esôfago haviam sido danificados, e o quadro era de inflamação e hemorragia interna. Ele corria risco de vida e, por isso, foi operado de imediato. Depois, permaneceu internado até que se recuperasse.

No começo de julho de 1961, estava bem o bastante para ser levado para casa, com instruções estritas sobre sua alimentação e medicação. Frau Paul e o marido, Hartmut, precisariam de leite em pó e remédios especiais, que o hospital de Westend lhes forneceria com regularidade. Embora o muro ainda não existisse, a fronteira da região era controlada, e eles necessitavam de permissão para ir apanhar os remédios. Frau Paul solicitava autorização ao Ministério da Saúde a cada vez que atravessava a fronteira para ir buscá-los.

Nas semanas que se seguiram, Torsten fez progressos lentos, mas inquestionáveis. “Disseram-nos que, com a alimentação especial e os remédios, era provável que ele se desenvolvesse normalmente”, conta ela. Frau Paul começa a chorar, tão em silêncio que é como se as lágrimas vazassem. Escorrem pelo rosto, mas ela as enxuga. “Por favor ”, diz ela, “sirva-se.” Ponho alguma coisa na boca. Olho em torno, à procura de retratos de família, mas não há nenhum nas paredes, e tampouco consigo ver algum nos armários.

Na noite de 12 para 13 de agosto, o muro de Berlim foi traçado com arame farpado. Frau Paul e o marido moravam ainda na mesma casa, bem na zona leste. Não viram nem ouviram nada sobre a divisão da cidade, mas acordaram num mundo diferente.

Na próxima vez que Frau Paul solicitou autorização ao Ministério para ir buscar o leite em pó e os remédios, o pedido foi recusado. Ela se lembra de ter protestado com o funcionário, de ter dito a ele que seu bebê era muito doente e que poderia morrer sem aqueles cuidados. “Se seu filho está doente assim”, ele disse a ela, “melhor seria que ele morresse mesmo.” Frau Paul parou de chorar; seu rosto largo está agora vermelho de raiva. O casal não teve escolha, a não ser recorrer ao leite em pó comum. O menino voltou a cuspir sangue. Uma noite, à meia-noite, levaram-no ao Charité, o grande hospital da região leste. Os médicos puseram o menino sob observação e disseram a ela que voltasse para casa.

“Na manhã seguinte, quando voltei ao hospital para ver meu filho, ele não estava mais lá. Ninguém me avisara de nada. Não houve tempo para isso.” Quando perceberam que não podiam ajudá-lo, os médicos alemães orientais deram um jeito de atravessá- lo para o outro lado da nova fronteira, de volta ao hospital de Westend. Frau Paul não sabe como conseguiram fazer aquilo, mas acredita que foi o que salvou a vida do filho. “Não tenho absolutamente nada contra os médicos do Charité. Era impossível prever o que aquilo significaria para Torsten e o que acarretaria a todos nós.”

O bebê estava agora do outro lado do muro. Frau Paul e o marido foram ao Ministério da Saúde, pedir permissão para visitá-lo. Mas cruzar “a medida preventiva antifascista” era agora assunto do Ministério do Interior.

Ela se abaixa para apanhar uma fotografia antiga e passá-la para mim. É uma foto dela, com o semblante mais suave e os cabelos armados da década de 1960. Segura um bebê e esboça um sorriso incerto. A criança chupa o lábio inferior e olha para a câmera. Não se vê seu corpo. Um homem com uma batina preta de pastor e colarinho branco se encontra postado junto deles, que estão ladeados de enfermeiras de touca e uniforme. “Isso foi em outubro de 1961”, ela diz, “no batismo feito às pressas.”

Depois de nove e meia semanas de separação, apenas Frau Paul recebeu visto de um dia para assistir ao batismo do filho, que de novo corria sério risco de vida. As autoridades não permitiram que o marido a acompanhasse, temendo que, juntos, eles decidissem permanecer no Ocidente. Ela volta a chorar, como se as lágrimas a inundassem. O silêncio é total, não se ouve nem mesmo barulho de tráfego. O único som provém da respiração dela.

Toda manhã, ao acordar, Sigrid Paul sentia-se por um instante como ela havia sido no passado, mas logo a imagem do corpo frágil e doente do filho invadia-lhe a mente. Ele não melhorava. Operaram-no quatro vezes no hospital de Westend. Ele precisou receber um esôfago artificial, um diafragma artificial e um piloro artificial. Necessitava também de alimentação artificial. De novo, disseram aos pais que o menino podia morrer. “Fui visitá-lo naquela ocasião e, é claro, queria mais”, ela diz, “queria mais.”

Como diz Frau Paul, na linguagem das autoridades, “meu marido e eu decidimos fazer uma tentativa ilegal de deixar o território da RDA”. Ela segura o lenço no colo com as duas mãos. “Não sou nenhuma combatente clássica”, ela diz, “nem sequer era parte da oposição. Até hoje, não sou membro de nenhum partido político.” Assoa o nariz. “E não sou uma criminosa.”

Ela respira fundo e endireita o corpo. “De fato, eu costumava ouvir a RIAS, a rádio ocidental. Era contra a lei, mas todo mundo ouvia. Era importante para mim ter notícias do mundo lá fora. E, no fim das contas, foi a RIAS que me salvou.”

Frau Paul e o marido, um construtor de barcos, começaram a procurar maneiras de se juntar ao filho. Em 1961 e 1962, inúmeras pequenas comunidades de interesse estavam se formando na Alemanha Oriental. As pessoas se reuniam baseadas em pouco mais do que um tênue conhecimento uma da outra e na vontade de ir embora. Um certo dr. Hinze e sua esposa moravam na cidade de Rathenow, em Brandemburgo, e queriam se juntar ao filho, Michael, em Berlim Ocidental. Michael estudava sociologia na Universidade Livre quando o muro foi erguido, e ele decidiu ficar no Ocidente. O dr. Hinze conversara umas poucas vezes com o marido de Frau Paul sobre construir um iate e sair pelo mundo. Agora é que aquilo não iria acontecer, é claro, mas isso significa que ele sabia da dificuldade pela qual o casal estava passando. Além disso, seu filho Michael, na companhia de outros jovens estudantes ocidentais, estava envolvido num esquema para tirar pessoas da RDA.

Michael Hinze mora na Alemanha Ocidental, onde conversei com ele por telefone. Fala macio e com humildade. Não menciona o que fez como se estivesse pondo a própria liberdade em risco para libertar outras pessoas. Não soa nem sequer como um homem modesto, pouco a vontade ao ouvir falar do próprio heroísmo. Seu tom mais parece o de alguém se lembrando de como, certa vez, passo a passo e da maneira habitual, consertou o próprio carro. “Em 1961”, ele conta, “eu tinha 23 anos e experiência nenhuma nessas coisas.” Depois que erigiram o muro, Michael contatou um grupo berlinense ocidental dedicado aos direitos humanos. “Alguém lá me falou sobre um jeito de tirar pessoas da RDA.”

Quando o muro foi construído, a Alemanha Oriental tentou bloquear toda e qualquer rota de fuga. Os trajetos dos ônibus foram alterados, os trens não deveriam mais fazer paradas no setor ocidental, bloqueios foram posicionados nas ruas ao longo da fronteira e o patrulhamento nas águas do Báltico foi intensificado. Mas era impossível lacrar inteiramente um país, apartá-lo do mundo exterior, e mais impossível ainda fazê-lo de uma só vez em todas as partes e contemplando todos os meios de transporte. Os trens que iam da Europa Ocidental para a Dinamarca e a Suécia passavam pela Alemanha Oriental e paravam na Ostbahnhof de Berlim Oriental. Com um visto válido de trânsito no passaporte, cidadãos da Alemanha Ocidental podiam atravessar o território da RDA a caminho de Warnemünde, na costa do mar Báltico, para pegar a balsa para Malmö ou Copenhague. E, na estação ferroviária em Berlim Oriental, ainda não havia muro ou posto de controle entre as plataformas locais e aquelas que serviam aos trens em viagem de longa distância. Como sempre havia sido, e assim é até hoje, a verificação de bilhetes, passaportes e vistos é feita no próprio trem. Munida de um passaporte alemão ocidental e de um visto de trânsito, uma pessoa podia embarcar em Berlim Oriental e viajar para fora dali.

“Éramos oito, talvez dez pessoas ao todo”, conta Michael Hinze, “estudantes que se dedicavam àquilo. Eu diria que, no total, conseguimos tirar cerca de cinquenta pessoas da RDA usando esse esquema.” E acrescenta: “Eu não fazia grande coisa”.

O esquema era simples e inteligente. Consistia em transformar um alemão oriental num alemão ocidental por um único dia. Os estudantes pediam a cidadãos da Alemanha Ocidental que doassem seus passaportes pela causa. “Não tínhamos dificuldade de conseguir os documentos. As pessoas se mostravam mais do que dispostas a ajudar outras pessoas a sair dali.” Escolhiam ocidentais cuja idade, altura e cor dos olhos se parecessem com as dos orientais que iam contrabandear para o outro lado. O titular do passaporte requisitava um visto de trânsito às autoridades de Berlim Oriental. Ao mesmo tempo, fotografias para passaporte dos alemães orientais eram levadas através da fronteira para Berlim Ocidental. Quando os passaportes retornavam a seus titulares, já com o visto estampado neles, os estudantes os levavam a um artista gráfico, que inseria em cada um a respectiva foto da pessoa que iria intentar a fuga. Os passaportes completos eram, então, contrabandeados para os alemães orientais à sua espera.

“Embrulhávamos cinco ou seis passaportes num jornal e enfiávamos tudo na entrada de ar do meu fusca.” Michael podia viajar para o Leste com visto de um dia. Junto com os passaportes, ele levava os artigos necessários à transformação completa de um alemão oriental em um turista alemão ocidental. “Levávamos coisas como pastas de dente de marca ocidental, para pôr na bagagem deles, e as carteiras de motorista dos titulares dos passaportes. Cigarros ocidentais também, é claro, Marlboro ou coisa do tipo. E dizíamos a eles para remover as etiquetas de suas roupas, de modo a que não carregassem consigo aqueles dizeres: ‘Manufaturado pelo Povo’.”

Num beco perto da estação, Michael entregava os passaportes e os artigos. Portando uma mala que não fosse maior do que aquela necessária a passar um feriado, os alemães orientais se preparavam para ir ao encontro da nova vida. Por volta do Natal de 1961, o pai e a madrasta de Michael Hinze estavam a salvo em Berlim Ocidental.

Durante o inverno de 1961, Frau Paul recebeu permissão para visitar Torsten quatro vezes. Numa delas, um envelope estava à sua espera no hospital. Era uma notinha do dr. Hinze, contendo seu número de telefone e alguns trocados. Quando ela ligou, ele lhe disse que o filho ajudaria a ela e ao marido a sair da Alemanha Oriental. Na próxima vez que foi a Westend, Frau Paul levou fotografias dela e do marido para os passaportes. Michael providenciou para que elas fossem inseridas em passaportes ocidentais.

““Então, em fevereiro de 1962”, conta Frau Paul, “nosso plano era fugir pela rota de trânsito que ia da Ostbahnhof de Berlim até a Dinamarca, para depois chegarmos a Berlim Ocidental. Era uma rota que dava uma tremenda volta”. Frau Paul é uma mulher inteiramente desprovida de ironia. Na verdade, ela parece guardar muito pouca distância do que aconteceu com ela. Tudo permanece próximo, e duro.

Três estudantes orientais fugiriam com eles: um jovem chamado Werner Coch e um casal. Frau Paul e o marido deram seu carro a um amigo e, discretamente, venderam alguns de seus pertences. Deixaram a casa intacta e mobiliada. “Eram tempos terríveis, de muita incerteza”, ela diz.

Werner Coch é hoje engenheiro químico e tem quase sessenta anos. De fala macia e precisa, tem cabelos e olhos escuros e um rosto tranquilo. Está vestido com asseio, roupa clara, sapatos claros. Estamos sentados na sala de estar da casa espaçosa e confortável que ele construiu, e ele me conta sobre a rota de fuga. Um relógio de pêndulo marca as meias horas da tarde.

“Recebemos os passaportes e as passagens de trem”, diz ele, “e decoramos cada um a sua história: quem éramos, nome, data de nascimento, aonde íamos passar o feriado, e assim por diante.” Precisaram aprender também sobre onde tinham estado. O passaporte de Coch havia pertencido a alguém que já estivera em Togo. “Togo!”, ele ri. “Não posso dizer que sou especialista na história do Togo, mas pesquisei o nome da capital, Lomé, e que língua era falada no país: o francês.”

No dia marcado, os cinco foram para a estação ferroviária. Deveriam ficar no saguão até receber o sinal de que estava tudo bem, a cargo de um estudante ocidental com visto de um dia. Então, subiriam para a plataforma dos trens de longa distância e embarcariam. O estudante telefonaria para Copenhague, para se certificar de que o grupo anterior havia chegado em segurança. Somente depois daria o sinal. Coch não se lembra qual era o sinal combinado. Conta que “tinha a ver com um jornal, com a maneira como ele estaria segurando o jornal”.

Frau Paul parece ter se esquecido desses detalhes, ou reprimiu todos eles. Ela conta apenas que “o estudante fez o sinal que significava que não deveríamos embarcar. Se embarcássemos, seríamos presos. Fomos direto para casa”.

Coch vai um pouco além. Ele conta que, quando recebeu o sinal, “foi um choque. Mas devo dizer também que senti, ao mesmo tempo, uma sensação de alívio. Eu sabia que levava coisas na bagagem que ainda tinham cara de produtos da Alemanha Oriental”.

Hoje, Frau Paul sabe que o grupo todo que os precedeu foi detido e encarcerado. O estudante ocidental que os acompanhava foi preso e cumpriu sentença de dois anos numa prisão da RDA. A Stasi tinha ficado desconfiada e, da noite para o dia, instituíra um novo carimbo como parte do visto de trânsito. No tempo que levara para solicitar os vistos e contrabandear os passaportes para o Leste, o carimbo havia, sem que o grupo soubesse, se tornado obrigatório.

“Levamos todos os passaportes para casa”, conta Frau Paul, “e os queimamos aqui mesmo, neste apartamento.” Ela o diz em tom definitivo e exagerado, como se a fogueirinha os houvesse purificado a todos do crime. “Depois disso, restou a esperança de que nosso filho melhorasse e voltasse para casa, para junto de nós. Pensamos: tentamos uma vez, não deu certo. Não vamos tentar de novo.” O fracasso pusera fim ao menos àquela ansiedade em particular, e a sensação foi de alívio temporário. Ela insiste em que ali, naquele momento, ela e o marido Hartmut desistiram de fugir da RDA. “Para nós já era o bastante. Mas em todo aquele processo ficamos conhecendo os três estudantes que moravam aqui, na Alemanha Oriental.” Frau Paul e o marido se corresponderam com eles ao longo do ano seguinte. “Pessoas com pensamentos parecidos acabam se encontrando na vida, e nós mantivemos o contato.”

Em fevereiro de 1963, um ano após a tentativa frustrada com os passaportes, os três estudantes perguntaram se podiam passar algumas noites em Berlim. Torsten ainda estava em Berlim Ocidental, ainda no hospital. “Respondemos que sim”, diz Frau Paul. Desse ponto em diante, porém, a conversa se torna confusa, temperada por afirmações de que ela “não sabia à época” ou “não poderia ter imaginado”. Confiou nos estudantes e deu a eles a chave de casa. “Eu trabalhava em tempo integral como técnica em odontologia”, diz, “e, portanto, não tinha como saber o que se passava neste apartamento durante o dia. Simplesmente não estava aqui.” Ela remexe em seu colar. “Meu marido é quem ficava aqui”, ela diz.

“Frau Paul e Hartmut estavam nervosos”, conta Coch sobre sua estada na casa do casal, “era uma atmosfera tensa.” Os estudantes haviam voltado para tentar de novo. Um túnel havia sido escavado desde Berlim Ocidental, passando por debaixo do muro e estendendo-se até o porão de um prédio de apartamentos na Brunnenstrasse, em Berlim Oriental. Vinte e nove pessoas haviam fugido por ele meses antes. Então, o túnel inundara, bloqueando a passagem de outros que aguardavam do lado oriental. Agora, porém, em pleno inverno, a água havia congelado, e o plano para uma nova fuga estava em andamento.