Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 11 de 36

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Stasilândia

6. O quartel-general da Stasi

 

No dia seguinte, o telefone começa a tocar de manhã bem cedo. Eu não tinha refletido bem antes de agir — não imaginara como seria receber em casa chamadas de uma série de tipos militares que perderam seu poder e sua pátria.

Estou dormindo. Atendo o telefone e digo meu nome.

“Ja, é sobre o anúncio no Märkische Allgemeine.”

“Ja…”, tateio em busca do relógio. São 7h45 da manhã.

“Quanto a senhora paga?”

“Bitte?”

<“A senhora precisa compreender…”, diz a voz. Sento-me na cama e puxo as cobertas para junto de mim.

“Com quem estou falando?”

“Isso não importa no momento.” A voz fala com segurança. “A senhora precisa compreender que anda muito difícil para muitos de nós conseguir emprego nesta nova Alemanha. Somos discriminados e explorados a todo momento neste... neste Kapitalismus. Mas aprendemos rápido também. Portanto, eu pergunto: a senhora está disposta a pagar quanto por minha história?”

“Como posso saber se não sei de que tipo de história estamos falando?”

“Eu era um IM”, ele diz.

A tentação é grande. Um IM era um “ inofizielle Mitarbeiter" um colaborador informal. Sei que provavelmente não vou encontrar muitos que queiram falar comigo. Esses colaboradores são as pessoas mais odiadas na nova Alemanha, porque, ao contrário dos oficiais uniformizados da Stasi e do pessoal administrativo que fazia o trabalho burocrático diário, esses informantes relatavam atividades da própria família e dos amigos, sem que os envolvidos soubessem. “Moment, bitte" digo, e apoio o telefone no colo. Lembro-me de Miriam me dizendo que os informantes costumam argumentar que a informação que deram não prejudicou ninguém. “Mas como é que eles sabem para que ela foi usada?”, Miriam me perguntou. “É como se tivessem distribuído a todos eles o mesmo manual de desculpas.”

Torno a erguer o telefone e digo não. Como posso recompensar informantes uma segunda vez? Além disso, não tenho dinheiro.

O telefone continua tocando. Marco uma série de encontros secretos com homens da Stasi: em Berlim, em Potsdam, do lado de fora de uma igreja, num estacionamento, num bar e até nas casas deles.

Minha cozinha dá para o pátio. Com frequência, vejo movimento por trás das janelas dos outros apartamentos. Hoje, há um homem de pé num deles, olhando para fora com ar absorto. Está nu. Estou ao telefone e desvio o olhar, esperando que ele não tenha se sentido observado. Quando me viro para desligar o fone, ele ainda está lá — por um momento, acredito que ele talvez não tenha me visto. Depois, noto que cobriu o pênis com a cortina e que a segura num gesto de estática modéstia: uma toga de poliéster.

Preciso sair de casa, ir para longe do telefone.

Lá fora, o frio é intenso e úmido. Não há vento; é como se todos nós tivéssemos sido congelados. Em meio à quietude, as pessoas deixam para trás rastros de hálito, como cometas. Pego o metrô para o quartel-general nacional da Stasi, na Normannenstrasse, no bairro de Lichtenberg. A brochura que apanhei na Runden Ecke mostra uma vasta área de prédios de vários andares, ocupando espaço equivalente ao de muitos quarteirões. Trata-se de uma foto aérea; como os prédios se juntam uns aos outros em ângulo reto, o complexo tem o aspecto de um gigantesco chip de computador. Era a partir dali que todo o inconsútil e deplorável aparato era comandado: o quartel-general da Stasi. E bem dentro dessa cidadela ficava o escritório de Erich Mielke, o ministro para a Segurança do Estado.

Em 7 de novembro de 1990, apenas alguns meses depois de os cidadãos de Berlim terem montado barricadas no complexo de edifícios, as salas ocupadas por Mielke — incluindo-se aí seus aposentos privados — foram abertas ao público na qualidade de museu. O Comissariado Federal para os Arquivos do Serviço Secreto Estatal da ex-RDA (a autoridade responsável pelo espólio da Stasi) apoderou-se dos arquivos. As pessoas vão até ali para ler suas biografias não autorizadas.

Através de uma janela vejo o interior de uma sala com homens e mulheres sentados cada um à sua mesinha. Examinam pastas pardas e cor-de-rosa, tomam notas. Que mistérios estão solucionando? Por que não conseguiram entrar para a universidade, por que não arranjaram emprego ou que amigo contou à Stasi sobre o Soljenitzyn proibido que tinham guardado na estante? Os nomes de terceiros mencionados nos arquivos encontram-se riscados com grossos traços de tinta preta, para que os segredos das pessoas não sejam revelados (que o tio Frank traía a esposa, por exemplo, ou que determinado vizinho era um beberrão). Mas o cidadão tem o direito de saber os nomes verdadeiros dos oficiais da Stasi e dos informantes que o espionaram. Ao menos durante o tempo que permaneço ali, em pé, não vejo ninguém chorando ou esmurrando a parede.

Sigo meu caminho rumo ao edifício principal como um rato num labirinto. Quero ter uma ideia do homem que comandava esse lugar, antes de me encontrar cara a cara com alguns de seus subordinados.

Hoje, o nome Mielke transformou-se em sinônimo de Stasi. As vítimas sentem honra duvidosa ao encontrar a assinatura dele em seus arquivos, nos planos para que alguém seja observado “com todos os métodos disponíveis”, nas ordens de prisão ou sequestro, nas instruções aos juízes relativas à extensão de uma sentença de prisão ou mesmo nas ordens de “liquidação”. A honra é duvidosa porque se trata de moeda comum: foram inúmeras as ordens que ele assinou. Esse aparato de Mielke, dirigido em grande parte contra seus próprios compatriotas, era uma vez e meia maior do que todo o Exército regular da RDA.

Depois da queda do muro, a mídia alemã chamou a Alemanha Oriental de “o mais perfeito sistema de vigilância de todos os tempos”. No fim, a Stasi tinha mais de 97 mil funcionários, mais do que o suficiente para vigiar um país de 17 milhões de habitantes. Mas ela dispunha também de mais de 173 mil informantes entre a população. No Terceiro Reich de Hitler, estima-se que havia um agente da Gestapo para cada 2 mil cidadãos; na União Soviética de Stálin, um agente da KGB para cada 5830 pessoas. Na RDA havia um oficial da Stasi ou um informante para cada 63 pessoas. Se incluirmos aí os informantes de meio período, algumas estimativas chegam a situar essa proporção na casa de um informante para cada 6,5 cidadãos. Onde quer que encontrasse oposição, Mielke enxergava inimigos, e quanto mais inimigos encontrava, mais gente e mais informantes contratava para sufocá-los.

Ali, na Normannenstrasse, trabalhavam todo dia 15 mil burocratas, administrando as atividades da Stasi no exterior e supervisionando a vigilância doméstica por meio de catorze escritórios regionais espalhados pela RDA.

As fotos de Mielke mostram um homem baixinho e sem pescoço, bochechudo e de olhos bem juntos. Tem o rosto e os lábios de um pugilista. Adorava caçar. Filmes o exibem inspecionando uma fila de carcaças de veado como se inspecionasse um desfile militar. Amava suas medalhas e as carregava espetadas no peito em fileiras de brilho gritante. Gostava de cantar também, sobretudo marchas instigantes e, claro, a Internacional. Dizem que os psicopatas, pessoas imperturbadas por suas consciências, dão generais e políticos de suprema eficiência, e talvez ele fosse um deles. Era, com certeza, o homem mais temido da Alemanha Oriental: temido pelos colegas, pelos membros do Partido, pelos trabalhadores e pela população em geral. “Não somos imunes à presença de vilões entre nós”, disse ele a um conjunto de oficiais de alta patente da Stasi, em 1982. “Se soubesse de algum neste momento, ele não sobreviveria ao dia de amanhã. Execução sumária. Penso assim porque sou um humanista.” E: “Toda essa conversa fiada sobre executar ou não executar, contra e a favor da pena de morte — besteira, camaradas. Executem! E, se necessário, sem julgamento”.

Mielke nasceu em 1907, filho de um fabricante berlinense de carroças. Aos catorze, entrou para a organização dos jovens comunistas, aos dezoito, para o Partido. Ao longo das décadas de 1920 e 1930, a situação política na Alemanha permaneceu instável — comunistas e nazistas brigavam nas ruas, assim como os comunistas e a polícia. A morte de um comunista numa escaramuça em Berlim, em 1931, fez com que o Partido ordenasse vingança. Em 8 de agosto, num protesto na Bülowplatz, Mielke e outro homem mataram o chefe de polícia da região e seu assistente com tiros nas costas disparados à queima-roupa.

Mielke fugiu para Moscou. Lá, frequentou a Escola Internacional Lênin, base de treinamento de elite para líderes comunistas, e trabalhou com a polícia secreta de Stálin, a NKVD. Em janeiro de 1933, o Partido Nazista chegou ao poder na Alemanha. Alguns dos comunistas responsáveis pelos assassinatos na Bülowplatz foram condenados à morte, outros, a longas sentenças de prisão. Um mandado de prisão foi expedido para Mielke.

Mas ele permaneceu longe da Alemanha. No final da década de 1930, participou ativamente da Guerra Civil Espanhola. Segundo ele próprio conta, esteve preso na França durante a Segunda Guerra. Depois, porém, Stálin condecorou-o com medalhas por serviços prestados. Parece claro que, a partir de meados da década de 1930, onde quer que tenha estado, Mielke cuidou do trabalho sujo para o serviço secreto de Stálin.

Quando a guerra acabou, ele retornou para o setor soviético de Berlim, onde estava a salvo da justiça. Trabalhou então na divisão de assuntos internos da força policial comandada pelos soviéticos. Em 1957 arquitetou um golpe contra seu comandante, e a partir daí assumiu o Ministério para a Segurança do Estado. Depois, foi adiante na consolidação de seu poder dentro do Partido e no país como um todo. Em 1971, Mielke ajudou a organizar o golpe que levou Erich Honecker ao poder, alçando-o à condição de secretário-geral. Honecker o recompensou com uma candidatura ao politburo e uma casa na luxuosa propriedade do Partido, em Wandlitz. A partir de então, os dois Erich passaram a governar o país.

Mielke era invisível, mas a foto de Honecker estava por toda parte. Nas escolas, nas instalações da Juventude Alemã Livre, nos teatros e nas piscinas públicas. Estava também nas universidades, nas delegacias de polícia, nas colônias de férias e nas guaritas dos guardas de fronteira. Vestia sempre terno e gravata, usava grandes óculos de aros pretos e penteava os cabelos — escuros no início, depois grisalhos — para trás da testa alta. Além de ser baixinho, Honecker não chamava a atenção por nenhuma outra característica física, a não ser pela boca estranha, de lábios cheios, que parecia se abrir apenas parcialmente num sorriso.

Seu histórico não era muito diferente do de Mielke. O pai era mineiro, e Honecker entrou para a Jung-Spartakus-Bund aos onze anos, ingressando na Juventude Comunista aos catorze. Concluiu o aprendizado de telhador, antes de passar os anos de 1930-1 na Escola Lênin, em Moscou, trabalhando à época na clandestinidade para os comunistas, contra o regime de Hitler. Em 1937 foi preso pela Gestapo e condenado a dez anos de prisão, por “tramar alta traição”. Escapou pouco antes do fim da guerra, quando começou, decidido, a fazer carreira no Partido que governava a Alemanha Oriental.

Em essência, a Stasi deveria ser “escudo e espada” do Partido Comunista, o chamado Partido Socialista Unitário da Alemanha, ou SED (Sozialistische Einheitspartei Deutschlands). Mas sua função mais ampla era proteger do povo o Partido. A Stasi detinha, encarcerava e interrogava quem bem entendesse.Inspecionava toda a correspondência do país em salas secretas, logo acima das agências do correio, e interceptava diariamente dezenas de milhares de telefonemas. Plantava escutas em quartos de hotel e espionava diplomatas. Tinha suas próprias universidades, seus hospitais, centros esportivos de elite e programas de treinamento de terroristas para os líbios e os alemães ocidentais da Facção do Exército Vermelho. Além disso, ela salpicou o campo de bunkers secretos para seus membros, para a eventualidade da eclosão de uma Terceira Guerra Mundial. Ao contrário dos serviços secretos em países democráticos, a Stasi era o esteio do poder estatal. Sem ela, e sem a ameaça dos tanques soviéticos a apoiá-la, o regime do SED não teria sobrevivido.

O saguão do quartel-general da Stasi é um grande átrio. Uma luz densa penetra das janelas por trás da escadaria, que sobe em ziguezague rumo aos escritórios. Uma mulher pequena, que lembra uma atendente de hospital — cabelos asseados, sapatos brancos conscienciosos —, mostra o edifício a um grupo de turistas. Os visitantes são pessoas de mais idade, muito falantes, que acabam de descer de um ônibus com placas de Bonn. Vestem cores vibrantes, tecidos caros e vieram dar uma olhada no que teria acontecido com eles caso tivessem nascido ou se estabelecido mais para o leste.

O grupo grupo se reúne agora em torno de uma maquete do complexo de edifícios, enquanto a guia lhes relata o que a população que protestava encontrou ali na noite de 15 de janeiro de 1990, quando enfim conseguiu entrar. Ela conta que havia um supermercado interno, com iguarias que não podiam ser obtidas em nenhuma outra parte do país. Havia também um cabeleireiro, com grandes fileiras de secadores laranja, parecidos com capacetes, para fazer “todos aqueles cortes eriçados”. O prédio tinha uma sapataria e, claro, um chaveiro. A guia encrespa o nariz, a fim de empurrar os óculos para cima, numa espécie de reflexo que faz também as vezes de um gesto de desgosto. Explica ainda que o edifício vizinho — o arquivo — era invisível de fora do complexo, e que haviam planejado para ele uma sala com revestimento de cobre, com o intuito de manter informações a salvo da vigilância dos satélites. Havia ali um depósito de munições e um bunker subterrâneo para Mielke e alguns poucos escolhidos, caso ocorresse uma catástrofe nuclear. A guia diz ainda que os berlinenses costumavam se referir àquele lugar como a “casa dos mil olhos”.

Começo a olhar em torno pelo átrio. Uma seta aponta para uma biblioteca; outra, para o alto, para a sala de exposições escada acima. O cheiro é de poeira e de ar viciado.

Então, ouço a guia dizer algo sobre uma “solução biológica”. Os alemães ocidentais estão em silêncio. Ela diz que, em vez de esperar por uma revolução, ela e os amigos depositavam todas as esperanças na morte dos velhos “Marxisten-Senilisten” no poder. Afinal, diz ela, encrespando o nariz, a RDA tinha os líderes mais velhos do mundo. “Nisso devemos ter batido algum tipo de recorde.” Mas ao contrário da China, onde os líderes eram retirados em cadeiras de rodas, virtualmente mortos, para serem expostos, os velhos da RDA se notabilizavam por mostrar pouquíssimos sinais de decadência física. “Estavam em forma”, ela explica, “injetando-se células de carneiro, doses altíssimas de oxigênio e sabe-se lá mais o quê. Aqueles sujeitos queriam viver para sempre.” Ela começa a falar sobre o início do fim.

Mielke e Honecker cresceram na luta contra o mal real do nazismo. E seguiram lutando contra o Ocidente, que viam como sucessor do nazismo, por outros 45 anos, depois de terminada a guerra. Tinham de fazê-lo, como Estado satélite dos soviéticos e como bastião do bloco oriental contra o Ocidente. Na Alemanha Oriental, porém, isso foi feito de forma mais radical, com uma dose maior de entusiasmo pedante do que empregaram poloneses, húngaros, tchecos ou mesmo os próprios russos. Ali, não queriam parar.

Quando Mikhail Gorbatchev chegou ao poder na União Soviética, em 1985, ele implementou as políticas da perestroica (a reforma econômica) e da glasnost (a abertura política). Em junho de 1988, declarou o princípio da liberdade de escolha para os governos do bloco oriental e renunciou ao uso do poder militar soviético para subjugá-los. Sem o apoio soviético na repressão ao descontentamento popular — como já havia sido o caso na revolta dos trabalhadores berlinenses, em 1953; na Hungria, em 1956; e em Praga, em 1968 —, o regime da RDA não podia sobreviver. Podia apenas escolher entre a mudança e a guerra civil.

Em comparação com outros países do bloco, a Alemanha Oriental nunca teve grande cultura oposicionista. Talvez isso se devesse em parte ao melhor padrão de vida, mas talvez também à eficiência da Stasi — ou, como já se disse, à boa vontade dos alemães em se tratando de submissão à autoridade. Em essência, porém, isso se devia ao fato de, ao contrário de todos os demais países do bloco oriental, a Alemanha ter um lugar onde “desovar ” aqueles que se manifestavam: a Alemanha Ocidental. Ela prendia os descontentes e os vendia para o Ocidente por dinheiro vivo. Assim sendo, o número de dissidentes não atingiu valores críticos até 1989, quando as mudanças na União Soviética deram coragem às pessoas comuns, e elas foram para as ruas.

Contudo, os homens que governavam a RDA revelavam alto grau de ossificação. Não estavam interessados em fazer reformas. Em pleno 1988 ainda se recusavam a permitir a entrada de filmes e revistas soviéticas, na tentativa de impedir que as pessoas fossem contaminadas pelas novas ideias. E recrudesceram, exilando ondas e mais ondas de “inimigos negativos” na Alemanha Ocidental. A expulsão sumária de Miriam, em maio de 1989, foi parte de um desses últimos expurgos.

O fato, porém, era que não podiam expulsar todo mundo. Isso não seria prático e, pior, corresponderia a dar às pessoas a liberdade pela qual ansiavam. “Assim”, diz a guia, “os velhos tinham outro plano: conter os dissidentes internos.”

Documentos encontrados após a queda do muro revelam planos meticulosos, correntes ao longo da década de 1980, prevendo vigilância, detenção e encarceramento de 85.939 alemães orientais, listados por nome. No “Dia X” (em que se declararia uma crise, qualquer crise), oficiais das 211 filiais da Stasi deveriam abrir envelopes lacrados contendo as listas de pessoas a serem presas em sua região.

As detenções deveriam ser efetuadas com rapidez — 840 pessoas a cada duas horas. Os planos continham disposições precisas acerca do uso de todas as prisões e campos de prisioneiros disponíveis, e, tão logo lotassem, para a conversão em prisão de outras edificações: antigos centros de detenção nazistas, escolas, hospitais e colônias de férias das fábricas. Cada detalhe havia sido previsto, desde a localização da campainha da casa de cada pessoa a ser detida até o suprimento adequado de arame farpado e as regras de vestuário e etiqueta nos campos: faixas para os braços, “verdes, de dois centímetros de largura” para o mais velho no cômodo; “verdes, com três listras de dois centímetros de largura” para o mais velho no campo; amarelas, com a insígnia LT em preto, para o Líder de Turno, a serem usadas no antebraço esquerdo. Havia também instruções escritas sobre o que o prisioneiro, no ato de sua detenção, deveria levar na mala:

2 pares de meias

2 toalhas

2 lenços

2 roupas de baixo

1 malha de lã

1 escova de dentes mais pasta

Acessórios para engraxar sapatos

Mulheres:

Adicional: absorvente higiênico

Ficariam todos presos por tempo indefinido sem motivo algum, mas teriam sapatos, dentes e roupa de baixo limpos.

Em meados de 1989, os protestos que se seguiam às orações pela paz, que aconteciam às segundas-feiras na Nikolaikirche de Leipzig, esparramavam-se por todo o país, chegando a Erfurt, Halle, Dresden e Rostock. As pessoas protestavam contra as restrições às viagens, contra a falta de produtos essenciais e contra a falsificação de resultados eleitorais. Nos protestos, dirigiam-se aos escritórios dos representantes mais óbvios do regime: não aos do Partido, mas aos da Stasi. Gritavam: “Democracia, agora ou nunca!”, “Fora Stasi!” e “SED, você me faz mal!”

Em agosto, os húngaros cortaram o arame farpado de sua fronteira com a Áustria, dando origem ao primeiro buraco no bloco oriental. Milhares de alemães orientais foram para lá e, aos gritos de alívio e raiva, fugiram, atravessando a fronteira. Outros milhares de pessoas viajaram até as embaixadas da Alemanha Ocidental em Praga e Varsóvia, onde montaram acampamento, dando origem a um pesadelo diplomático nas relações entre as duas Alemanhas. Por fim, o regime alemão oriental permitiu que partissem, sob a condição de que os trens que levariam aquelas pessoas à Alemanha Ocidental atravessassem a RDA. Honecker esperava humilhar os “expulsos” confiscando-lhes as carteiras de identidade. E queria também que temessem (e temeram) que ele fosse parar os trens e deter os passageiros.

O tiro de Honecker saiu pela culatra. Os passageiros dos trens rasgaram suas identidades chorando lágrimas de alegria. Milhares de pessoas dirigiram-se às estações, na esperança de poder subir a bordo ou de aplaudir os compatriotas.

No começo de outubro, Leipzig estava a ponto de explodir. Os frentistas dos postos de gasolina se recusavam a abastecer carros da polícia; os filhos de soldados estavam sendo barrados nas creches. As pessoas que trabalhavam no centro da cidade, perto da Nikolaikirche, eram dispensadas mais cedo. Os hospitais pediam mais sangue. Antes de ir às manifestações, as pessoas faziam seus testamentos e diziam aos filhos coisas de que queriam que se lembrassem. Rumores sobre tanques, helicópteros e canhões de água chegavam de toda parte, assim como os cartões-postais dos amigos que já estavam no Ocidente. O povo saiu às ruas.

Honecker ordenou que os “contrarrevolucionários” em Leipzig fossem “podados na raiz”. “Nada”, disse ele, “pode impedir o progresso do socialismo.” Em 8 de outubro, Mielke começou a pôr em marcha os planos para o “Dia X”, enviando ordens aos escritórios regionais da Stasi para que abrissem seus envelopes. Mas era tarde demais. Em vez de encarcerar as pessoas, a Stasi se escondeu, trancando-se em seus próprios edifícios. Nos escritórios regionais, havia 60 mil revólveres, mais de 30 mil metralhadoras, granadas de mão, fuzis de precisão, canhões antitanque e bombas de gás lacrimogêneo. O medo de linchamento era grande. Aos policiais de Leipzig, foram exibidas fotografias de um policial chinês imolado pela multidão na praça da Paz Celestial. Disseram- lhes: “São vocês ou eles”. Mas deram-lhes ordens também para que não atirassem ou fizessem uso de violência, a não ser que usassem de violência contra eles.

No dia 7 de outubro de 1989, a RDA comemorou seu quadragésimo aniversário de existência com portentosas paradas em Berlim. Havia um mar de bandeiras vermelhas, uma procissão de pessoas carregando tochas e muitos tanques. No palanque, os velhos vestiam seus ternos de um cinza claro, adornados de medalhas. Mikhail Gorbatchev estava ao lado de Honecker, mas parecia pouco à vontade em meio aos alemães, bem mais velhos. Tinha vindo para dizer a eles que era o fim, para convencer a liderança da RDA a adotar sua política reformista. Falara abertamente sobre os perigos de não “responder à realidade”. Disse com todas as letras ao politburo que “a vida pune os que tardam”. Honecker e Mielke o ignoraram, assim como ignoraram o clamor da multidão que cantava: “Gorby, nos ajude!”

Em Leipzig, a coragem extraordinária das pessoas não vacilava, nem tampouco degenerava em qualquer outra coisa. No dia 9 de outubro, 70 mil pessoas saíram às ruas escuras vestindo pesados casacos e carregando velas. Postaram-se à porta da Runden Ecke com suas exigências: “Revelem os informantes da Stasi!” E: “Não somos arruaceiros — somos o povo!” Tudo isso aos gritos constantes de “Violência, não!”. Daquela noite em diante, o número de manifestantes cresceu, e imagens filmadas das manifestações foram contrabandeadas para o Ocidente. Leipzig passou a ser conhecida como “a cidade dos heróis”.

Agora, os protestos ocorriam diante dos escritórios da Stasi pelo país todo. Mas mesmo nas cidades menores os agentes deram continuidade a seu trabalho meticuloso e fiel, enviando a Berlim relatórios contendo as demandas da multidão lá fora: “Mandem os agentes para trabalhar nas fábricas!” (ouviu-se em Zeulenroda), “Nós pagamos vocês!” (diziam em Schmalkalden), além do premonitório “Seus dias estão contados!” (Bad Salzungen). Em Leipzig, os manifestantes haviam começado a gritar: “Ocupem a Stasi já!” e “Daqui não saímos!”

Com atraso, o Partido tentou mudar sua imagem. Em 17 de outubro, Honecker foi desalojado por seu “vice”, Egon Krenz, que, embora mais jovem, era igualmente impopular. Medidas legais começaram a ser tomadas contra Honecker em 8 de novembro, por abuso de poder e corrupção.

No dia seguinte, 9 de novembro, pretendendo administrar a crise, o politburo se reuniu e decidiu relaxar as restrições vigentes no tocante às viagens. As pessoas passariam a ter liberdade para viajar e só seriam proibidas de deixar o país “sob circunstâncias especiais e excepcionais”. A sessão estendeu-se noite adentro. A essa altura, o regime adotara a prática de dar entrevistas coletivas à imprensa internacional. Naquela noite, Günter Schabowski, membro do politburo, foi designado para tanto. Ele não tinha participado da reunião, mas rabiscaram-lhe às pressas uma nota acerca da decisão que lhe caberia ler na coletiva.

Terminada a leitura, os jornalistas presentes não esboçaram nenhuma reação; canetas aguardavam a postos, as girafas com os microfones pairavam no ar. Então, veio a pergunta: “Quando entra em vigor essa nova medida?” Schabowski tem grandes bolsas sob os olhos e um rosto que mais parece o de um sabujo. Sem jeito, ele olhou para o papel, virou-o, mas não encontrou a resposta. “Ela entrará em vigor... que eu saiba, imediatamente”, disse.

A decisão só deveria ser implementada no dia seguinte, depois que os guardas de fronteira tivessem sido instruídos sobre como proceder. Contudo, uma vez tendo Schabowski dado sua resposta, já não havia o que fazer. Poucas horas após sua gafe, 10 mil pessoas dirigiam-se a pé ou em seus carros, os Trabant, ao posto de fronteira da ponte da Bornholmer Strasse, aglomerando-se diante do muro. As luzes da faixa mortal de segurança iluminavam sua respiração e o escapamento dos carros. Houve uma verdadeira sinfonia de buzinas. Os guardas estavam prontos para atirar, mas a ordem não veio. No fim, o supervisor decidiu dar passagem à multidão, sob uma condição: os guardas deveriam carimbar o visto de saída à esquerda da fotografia dos “mais importunos” (aqueles que estavam na frente da fila), para que, mais tarde, eles pudessem ser identificados e impedidos de retornar.

As pessoas não quiseram saber, pouco se importavam. Uma torrente atravessou rumo a Berlim Ocidental. Quando uns poucos começaram a voltar para casa com latinhas de cerveja ocidental, para mostrar onde tinham estado, os guardas tentaram impedi-los de entrar, mas já era tarde: estava tudo acabado, orientais e ocidentais subiam no muro, choravam e dançavam.