Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 14 de 36

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Stasilândia

9. Julia não tem história

 

Depois do trabalho, pego o metrô para Rosenthaler Platz e atravesso o parque a pé, na direção de casa. Para além da esquina, o gramado sobe em direção a uma colina, fato raro nessa cidade pantanosa. No alto há um centro comunitário, com um bar no terraço que serve café e cerveja. Aos sábados à tarde o centro se enche de casais de aposentados, que passeiam numa dança terna e atemporal.

Os aposentados só estão de visita — o parque pertence aos bêbados e aos punks. Os bêbados vestem abrigos ou ternos velhos. Toda manhã, eles emergem dos quatro cantos do parque e se embaralham como num anfiteatro em torno da estátua de Heine. Ficam ali o dia todo, discursando como se numa discussão filosófica, gesticulando devagar com a mão livre, enquanto a outra segura uma lata de cerveja. Parecem compartilhar o conhecimento de um mundo em que, um dia, cada um deles teve o seu lugar.

Mais perto da estação ficam os jovens. Ali, veem-se tanto mulheres como homens. Dispõem de tanta cerveja e tantos cigarros quanto os bêbados, mas seu rancor é bem maior. As cabeças estão parcialmente raspadas ou cobertas de dreadlocks em azul e preto.Usam piercings no rosto e tatuagens nos braços e nas pernas. Sua aparência diz a um só tempo “olhe para mim” e “vá se foder ”. Há brigas, lágrimas, dor terrível, pública, no parque. Às vezes eles pedem dinheiro. Ao contrário dos bêbados, que tomam conta dos bancos e dos abrigos nos pontos de bonde, os jovens sentam-se e dormem no chão, aquecidos apenas por seus cachorros, que em geral parecem mais bem arrumados do que os humanos. Nessa tarde, porém, passando por um garoto, percebo que provavelmente subestimei o esforço necessário para manter ereta e verde, todo santo dia, uma crista composta de oito cones de cabelos de trinta centímetros cada um.

 

Minha porta está destrancada. Ao abri-la, posso ver a sala de estar. É como se um gato gigante tivesse mijado duas vezes no linóleo. Depois, ouço um som da minha infância que reconheço instintivamente: gambás no telhado. O problema é que o telhado do meu prédio está a quatro andares do chão. Eu me volto e vejo uma escada encostada na parede do vestíbulo, alcançando a altura do mezanino, cerca de um metro abaixo do teto.

“Sou eu, sou só eu”, diz uma voz abafada. Um traseiro pequeno, vestido com calça do exército, vem de ré em minha direção. “Dei uma passada para regar as plantas”, Julia gira e me diz. “E, já que estou aqui, pensei em levar umas velharias.” Ela me passa uma bomba de bicicleta como se fosse um bastão de revezamento e desce da escada com uma caixa de sapatos embaixo do braço.

“Cartas de amor antigas”, desculpa-se, e, para minha surpresa, cora. O vermelho se espraia a partir do pescoço e sobe rapidamente na direção dos cabelos loiros. Isso costumava acontecer comigo também, até que um deus misericordioso pôs fim ao tormento. Por isso, não olho: vou direto para a cozinha.

Julia começou a usar as plantas como desculpa para aparecer, como se, ao mesmo tempo, me poupasse o trabalho de regá-las e gentilmente me recriminasse por não fazê-lo. “As plantas” são duas palmeiras magricelas, tortas e peladas, dispostas em vasos na sala de estar, e é verdade: eu não apenas esqueço de regá-las, como também esqueço que elas existem. No meu subconsciente, passei a ver o apartamento como uma espécie de universo fechado, autossustentado, com leis naturais próprias. Ele tolera minha presença, mas exige que minha interferência seja a menor possível. Atenho-me a minhas trilhas habituais: da cama para o banho, da janela à escrivaninha.

Julia vem até a cozinha. Além da calça do exército, ela veste seu quinhão habitual de preto: botas pretas, suéter preto folgado e cachecol preto enrolado no pescoço como um pano de prato. Nesse exato momento, ela veste preto, vermelho e amarelo — as cores da bandeira alemã —, ostentando um patriotismo que não lhe é característico.

“Café?” ofereço.

“Eu adoraria. O meu acabou faz dois dias.”

Olho para ela e sei que, por baixo de todas aquelas camadas de preto, há um corpo robusto e uma mente super afiada, mas alguma coisa em Julia me corta o coração. Ela demonstra uma honestidade que começo a entender como alemã oriental, um senso transparente de justiça com tudo e todos que a torna extremamente vulnerável. Mas não é isso. Ela é um caranguejo eremita, toda suave com os amigos, mas pronta a recuar para dentro de sua concha à menor menção de contato. Não é isso também. Não sei o que é.

“Nos últimos tempos, ando pensando em todos aqueles bêbados e sem-teto que frequentam o parque”, digo a ela.

“Os bêbados não existiam antes da queda do muro”, Julia comenta. “No parque, quero dizer ”, ela corrige. “Não havia desabrigados como há agora.”

Talvez não estivessem no parque, mas bêbados existiam. Per capita, os alemães orientais bebiam duas vezes mais do que os ocidentais. Às vezes, eram obrigados a fazer arranjos insustentáveis para ter onde morar, por causa da falta de moradias: casais divorciados seguiam vivendo juntos, ou recém-casados iam morar com parentes. Mas, quaisquer que fossem as outras deficiências, sempre se encontrava cerveja e aguardente para comprar. As pessoas iam trabalhar bêbadas, saíam bêbadas do trabalho e voltavam bêbadas para casa, tolerando-se num ambiente do qual não havia escapatória.

“Você precisa tomar cuidado com esses mendigos, sabe?” Julia acrescenta.

“Ah, os bêbados, pelo menos, me parecem inofensivos.”

“É, mas não são”, ela diz. “Uma vez, um deles subiu pela árvore na frente da janela da sala e entrou aqui.”

“É mesmo? Para quê?” Noto que penso na rua lá fora como uma espécie de fosso entre mim e o parque.

“Roubou um gravador.”

“E como é que você sabe quem foi?”

“A vizinha me disse que viu o sujeito saindo do prédio”, ela diz. “Melhor você não deixar abertas essas janelas da frente.”

Acho difícil imaginar um daqueles bêbados de pernas bambas atravessando a rua e tremelicando árvore acima até aqui.

“Está piorando, eu acho”, Julia continua. “Quero dizer, não só esse tipo de coisa. Basta sair para a rua e a gente é vítima de assédio quase todo dia.” Ela afasta um feixe de cabelos do rosto, mas ele volta a cair.

Sejam quem ou o que forem, aqueles bêbados não são agressivos. Movidos a cerveja, alcançaram um mundo em que sua potência, ainda que ilimitada, é totalmente imaginária. Nunca fizeram mais do que me cumprimentar com a cabeça quando passo. Talvez Julia sinta necessidade de identificar agressores, saber exatamente quem eles são e onde podem estar. Mas admito que já notei homens mal-encarados na rua. “Comigo, acho que esse tipo de coisa acontece mais aqui do que no meu país”, digo a ela. “Mas pode ser também que eu note mais as coisas aqui do que lá.”

“Isso é porque os homens percebem que você é estrangeira”, ela explica.

“O que você quer dizer?” Sempre imaginei que tinha herdado o suficiente de meus antepassados dinamarqueses para passar despercebida na Alemanha.

“Bom”, diz Julia, “você não parece alemã.”

“Ah, é?”

“Você é branca demais.” Sinto toda a cor escoando-se para fora de mim. “Sua pele é muito branca. Os olhos também são pálidos. Quando uma alemã tem olhos azuis, por exemplo, eles são bem azuis. Não têm essa tonalidade meio pálida.”

Estou desaparecendo, misturando-me às paredes da cozinha, que já foram brancas, mas hoje exibem uma cor estranha, uma notável tonalidade encarnada. Olho para Julia e ela lembra a mim mesma — cabelos claros e desgrenhados para os quais ela pouco liga, olhos verdes acinzentados, dentes ligeiramente tortos que já viram muita nicotina. Ponho-me a imaginar se ela já foi genuinamente alemã, de cores mais vívidas. Não sei o que dizer, mas, de todo modo, ela está perdida em seus pensamentos.

“Acho que é porque meu primeiro namorado era um tipo machão”, ela está dizendo, “deve ser por isso que reajo com tanta força a todo assédio.”

Ainda estou olhando para ela, imaginando como é que podemos ter ideias tão equivocadas sobre nossa aparência, nossa cor, nossas formas e o espaço que ocupamos no mundo.

“Na verdade”, Julia prossegue aos risinhos, “ele era um ‘macho autêntico’: era italiano.”

“E como é que você foi arranjar um namorado italiano?”Nossa conversa vai ficando cada vez mais bizarra. Julia jamais poderia ter viajado para o “mundo não socialista”, como o resto do planeta era conhecido, e não houve imigração italiana na RDA. Involuntariamente, vem-me à mente um namorado italiano que eu tive: um vendedor de sorvetes com uma bela voz e um caminhão com sinos, meu doce sorveteiro.

“É uma longa história”, ela murmura. “Você sabe”, diz ela, olhando para sua caneca, “como eu vivi no Oeste e no Leste sem nunca ter me mudado de casa, acho que posso dizer a você que existe uma diferença entre assédio sexual e assédio, ponto.”

Sua figura sentada é emoldurada pela janela que dá para o pátio. A luz do fim de tarde atravessa os tufos de cabelo, iluminando-os como seres à parte em torno da cabeça. No pátio, pardais voam ao redor do castanheiro nu, mergulhando em sua direção. O céu paira sobre os telhados, pálido e venoso.

“Ah, é?”, comento.

“É, sim. Por exemplo, quando a gente era adolescente, os garotos do lugar apareciam no verão — minhas irmãs e eu na sacada, tomando sol. Ficavam para cima e para baixo com suas motos.Às vezes, tiravam a camisa para nós. Não tinha nada de assustador nisso. Mas tinha também um carro — um carro caro para a RDA, um Lada russo — que de vez em quando passava bem devagar pela rua da nossa casa. Nós morávamos numa casa afastada, meio fora da cidade, não havia outras casas por perto. Dentro do Lada, iam dois homens. Era de arrepiar.”

“Sei”, disse eu. Decidi não fazer perguntas. Tenho esperança de que Julia não volte para dentro de sua concha. “Mas devia ser diferente, se vocês eram quatro. A maioria numérica era uma segurança.”

“Aquele carro”, ela afirma, “estava atrás de mim.”

“Hã? Como assim?”

“Uma longa história...” Ela bebe um gole de café e fica em silêncio por um momento. “Na verdade, tinha a ver com o namorado italiano.”

As leis do amor, suponho, tanto quanto a da gravidade, vigoram em toda parte. Estamos de volta aos namorados. “As coisas podem terminar tão mal”, ela diz.

“Isso é verdade”, concordo, embora em geral eu seja da opinião de que o coração jovem é maleável, resistente a cicatrizes.

“Foi mesmo muito engraçado, eu acho. Terminei meu namoro com o italiano nas férias que a gente passou na Hungria.”

“Puxa, devem ter sido umas férias e tanto.” Ela me ignora.

“Mas a coisa toda não terminou aí.”

“É, nunca termina…”

“Não, não é bem isso”, diz ela. “Estou falando de outra coisa. Acabei indo parar na polícia.”

“O quê?”

“Ou pelo menos pensei que estava na polícia.”

“Como assim?”

“Uma longa história...”, Julia torna a dizer. Começo a perceber que a frase, na verdade, significa “história nenhuma”. Em vez de me contar, ela pergunta sobre minha viagem a Leipzig. Conto que conheci uma mulher cuja vida era vigiada e controlada pela Stasi, e sobre a fileira de homens da Stasi que agora integravam minha vida. Digo que estou em busca de outras pessoas também, gente que sobreviveu ao comunismo, o experimento do século XX com os humanos.

Julia afasta o olhar. “Não tenho nenhuma história da Stasi nem nada parecido”, ela diz.

O relógio funciona no meu apartamento, e ela espia as horas. “Obrigada pelo café. Preciso ir. Tenho aula.”

De repente, estou longe, pensando em velhos namorados, outros experimentos com humanos. Lembro-me da liberdade da juventude, da possibilidade de partir em expedições exploratórias a territórios assaz impróprios: ao incompreendido, ao imprevisível, ao avassaladoramente sombrio, ao homossexual latente, ao astro de rock mirim, de voz monótona. Depois, a gente dá um jeito nesses antigos namorados — faz uma manobra post-mortem da memória que suga deles tudo que é viscoso, tornando-os secos e estáveis, incapazes de machucar. É a taxidermia do amor perdido. Agora, não quero ficar sozinha ali, com todas aquelas cabeças empalhadas no sótão, balançando na ventania. Antigos namorados parecem território mais seguro do que ex-agentes da Stasi. Quero que Julia fique.

Ela põe no colo a caixa de sapatos com as cartas de amor e afasta sua cadeira.

Não consigo me controlar. “Fique, por favor ”, peço.

Julia ergue os olhos e posso ver que se surpreendeu com aquela minha carência. “Está bem, então.” Com um som surdo de papelão, ela torna a depositar a caixa de sapatos no chão.

“Ótimo”, digo, e os deuses me abandonam: coro desde os ombros até as sobrancelhas, escarlate.

Levanto-me para ferver mais água numa caçarola. De pé, posso ver o canto do pátio, onde os muros altos se encontram, encerrando-nos lá dentro. Eles contêm um tanque de areia e, bem ao lado, uma mesa de madeira. Do lado contrário, antigos estábulos inclinados parecem avançar em direção ao chão de uma maneira quase audível.

Bebemos mais café, e Julia fica. Mais tarde, cozinhamos alguma coisa com o que tenho na geladeira — linguado defumado, pão, queijo, chá de erva-doce.

 

Julia e eu nascemos no mesmo ano, 1966, o que torna possível e imediata toda correspondência que se queira fazer entre nossos universos paralelos. Ela estava com 23 quando o muro caiu, afortunada integrante da geração mais jovem, que pôde alcançar os contemporâneos ocidentais. Pôde ter uma boa educação e uma vida nova, ao contrário de muitos dos mais velhos, que simplesmente perderam a vida que levavam. Mas Julia segue estudando línguas obscuras — como ela própria admite — na Universidade Humboldt, idiomas do velho bloco oriental que só lhe serão de alguma valia se ela for se esconder nos países obscuros onde eles são falados. Na Alemanha, os estudantes costumam permanecer na universidade até perto dos trinta anos, mas o que me parece é que Julia não pretende se formar nunca. Ela me deixa curiosa: uma mulher solteira num cômodo de solteira no último andar do seu bloco de apartamentos, incapaz de avançar rumo a seu futuro.

“Existem coisas de que não me lembro”, ela diz. Não sei se quer dizer que transformou num hábito não pensar nelas ou se não se recorda. Para meu alívio, ela começou a falar por si só, e Julia possui aquele tipo de voz articulada com que a gente às vezes depara na Alemanha, uma voz capaz de transformar essa língua de latidos numa canção de dolorosa beleza e refinamento.

Julia Behrend foi a terceira de quatro meninas. Os pais dela, nascidos no começo da guerra, eram professores de colegial numa cidade da Turíngia, o pequeno estado encravado no sudoeste da Alemanha Oriental.

Como muitas outras famílias, os Behrend eram ambíguos em relação a seu país. “Não éramos dissidentes, não pertencíamos a grupos da Igreja, de ambientalistas nem nada do tipo”, diz Julia. “Éramos uma família comum. Nenhum de nós jamais tinha tido qualquer conflito com o Estado.” Não obstante, tinham, “desde o momento em que acordávamos”, um senso apurado do que podia ser dito fora de casa (muito pouco) e do que podia ser discutido dentro dela (quase tudo).

Os pais de Julia tinham jeitos distintos de conduzir sua relação com as autoridades. A mãe, Irene, é uma mulher prática. Não esperava grande coisa do Estado nem batalhava para modificá-lo. Quando garota, tinha sido nadadora, praticara salto em altura e fora também trapezista. Disse às filhas que elas podiam ser o que quisessem.

O pai de Julia, Dieter, é um homem sensível. Queria melhorar o que via como um sistema deficiente, mas, na ideia que o embasava, mais justo do que o capitalismo. Ao contrário da mulher, era participativo: ingressou na Juventude Livre Alemã (a FDJ, Freie Deutsche Jugend, sucessora comunista da Juventude Hitlerista) e, mais tarde, chegou mesmo a ingressar no Partido, o que muitos professores eram incentivados a fazer.

Como recompensa por tantos esforços, seu país o transformou num pária, tornando-lhe a vida um inferno. “Toda quarta-feira, antes da reunião do Partido, o humor do meu pai ficava terrível”, conta Julia, “sombrio mesmo.” Dieter falava contra as coisas das quais discordava, como o recrutamento de ginasiais para o Exército ou o ensino do realismo socialista praticado por autores russos chatíssimos. Voltava para casa em frangalhos. “Ralhavam com ele como se ele fosse uma criança.”

Na RDA, as pessoas eram solicitadas a reconhecer uma série de ficções como fatos reais. Algumas dessas ficções eram fundamentais, como a crença na natureza humana como obra em andamento, passível de ser aperfeiçoada, e no comunismo como forma de fazê-lo. Outras eram mais singulares, como, por exemplo, a crença de que os alemães orientais não tinham sido (nem mesmo em parte) os responsáveis pelo Holocausto, de que a RDA era uma democracia pluripartidária, de que o socialismo era pacifista, de que não havia ex-nazistas no país ou de que, no socialismo, a prostituição não existia.

Muitos se recolhiam ao que chamavam de “emigração interior ”. Protegiam sua vida pessoal e secreta na tentativa de manter algo de si fora do alcance das autoridades. Depois de 1989, Dieter se aposentou assim que pôde. Estava deprimido e necessitava de medicação. “Acho que também ele pode ser incluído entre as vítimas do regime”, Julia diz. Viver por tanto tempo numa relação de tácita hostilidade — mas de aparente aquiescência — com o Estado o havia arrasado.

Em tempos recentes, um estudo indicou que pessoas deprimidas têm uma visão mais precisa da realidade, embora essa precisão de nada valha, já que ela é deprimente, e os deprimidos vivem menos. Otimistas e crentes vivem uma vida mais feliz e saudável em seus mundos irreais. Como muitos outros alemães orientais, Julia e sua família trilhavam essa linha fina entre ver as coisas como eram na RDA e ignorar a realidade que viam, a fim de manter a própria sanidade.

Até onde a memória alcança, Julia sempre teve interesse em línguas estrangeiras. Antes mesmo de aprender a ler, as letras romanas e cirílicas que encontrava pela casa já a fascinavam. Na escola ensinavam inglês (“muito mal”) e russo. Julia ganhou o primeiro prêmio de uma competição estatal de língua russa: uma viagem a Moscou. Curiosa em relação ao mundo, tinha correspondentes na Argélia, na União Soviética e na Índia. Gastava seu tempo livre escrevendo cartas em francês, russo e inglês, e as enviava para o mundo exterior.

Queria ser tradutora e intérprete. “Cresci na década de 1980, no auge da Guerra Fria. As pessoas acreditavam de fato que os Estados Unidos e a Rússia poderiam começar uma guerra nuclear, e a RDA ficava bem na linha de frente. Era meio ingênuo, mas eu achava que, se fosse capaz de facilitar ao menos um pouco a comunicação entre os povos, podia contribuir para que isso não acontecesse.” Ela balança a cabeça, recriminando-se, como se a extravagância de suas esperanças a envergonhasse. Mas não vejo por que uma linguista talentosa, que acreditava em seu país, haveria de se envergonhar daquele seu objetivo. Por outro lado, porém, não vejo diante de mim uma linguista talentosa que acreditava em seu país. Vejo uma mulher que deixa seu passado numa caixa, mas, depois, vem buscá-la; que passa parte do tempo estudando e parte do tempo trabalhando numa imobiliária, o que a conecta apenas parcialmente ao mundo.

Como seu pai, Julia acreditava na Alemanha Oriental como alternativa para o Ocidente. “Eu queria explicar a RDA às pessoas no exterior, queria explicar que o comunismo não era tão ruim.” Ela não queria ir embora dali. “Víamos um bocado de TV ocidental, e eu sabia do desemprego, dos sem-teto, das drogas pesadas. E da prostituição — prostituição! Quero dizer, como é que alguém consegue pensar que pode simplesmente comprar uma pessoa? Para mim, era inacreditável.” Julia não parece amargurada pelo fato de ter acreditado na RDA. De certo modo, ela parece saudosa.

Ela está tremendo. Desço até o porão em busca de carvão para alimentar o aquecedor. Quando volto para a cozinha, vejo que ela não se moveu. Fico aliviada. Meio que esperava encontrar um daqueles bilhetes amarelos que ela às vezes deixa, com sua bela caligrafia: “Acabo de me lembrar que tenho um compromisso. Me desculpe. J.”

Mas ela quer falar mais. A borda de linóleo da mesa está se soltando e, sem se dar conta, ela a alisa. As lembranças não vêm na ordem certa. À medida que as ouço, penso que isso se deve ao fato de Julia não as ter expressado com muita frequência no passado. Contudo, o motivo pode ser outro: alguma coisa à qual sua mente sempre retorna, mas que ela evita contar.