Stasilândia
22. O acordo
“Eu queria ir ”, Coch me conta, “porque tinha a sensação de que a organização era perfeita. Julguei que se o perigo fosse grande demais receberíamos um sinal, como tinha acontecido no plano dos passaportes falsos.”
Os estudantes aguardaram no apartamento de Frau Paul pelo aviso de um mensageiro. Como da vez anterior, a nova tentativa era organizada por estudantes ocidentais, que comunicariam aos alemães orientais a localização do túnel, além de quando e como ter acesso a ele.
O mensageiro chegou com a informação. “As instruções eram para que a gente fosse até uma rua perto do Teatro Rosa Luxemburgo”, diz Coch. “Lá, haveria um carro estacionado com algum sinal no vidro traseiro. Com base nesse sinal, saberíamos decifrar o endereço do prédio onde ficava o túnel.” Depois, deveriam ir a uma cabine telefônica nas proximidades. Se tudo estivesse em ordem, encontrariam um adesivo logo abaixo do fone. “Se o adesivo não estivesse lá, isso significaria que alguém o havia arrancado para nos avisar. Se tudo estivesse em ordem, era só uma questão de ir até o tal endereço e dizer uma senha.” Eles deveriam entrar no prédio um de cada vez, a intervalos de meia hora, e, uma vez lá dentro, seriam conduzidos até o túnel. Se tudo caminhasse bem, haveria um sinal proveniente da janela de um edifício do lado ocidental: uma bandeira branca indicaria o sucesso da operação. No caso de alguma complicação, apareceria uma bola vermelha.
“Antes, durante a tarde, Hartmut Rührdanz e eu fomos dar uma olhada no local. Pegamos o metrô até a estação Rosa Luxemburgo e demos um giro por ali.” Viram o carro, a cabine telefônica e cronometraram quanto tempo levariam do apartamento dos Paul até lá naquela noite. “Eu saí sozinho. Hartmut veio atrás, a uma distância segura. Ele estava uns cem metros atrás de mim.” Coch foi até o carro e leu o sinal junto do vidro traseiro. “Era um tipo de charada”, conta ele, “algo a ver com uma fonte, não me lembro exatamente”, diz, “e tinha também o número 45.” Brunnen significa “fonte, poço”. Coch compreendeu que deveria se dirigir à Brunnenstrasse, número 45. Em seguida, foi até a cabine telefônica e encontrou o adesivo embaixo do fone.
Dali até a Brunnenstrasse, 45, era um pulinho. O endereço, aliás, fica dobrando a esquina do meu apartamento. Caminhei até lá certa manhã. O céu estava alto, de um azul desbotado, e o sol brilhava como a lâmpada de um congelador. A Brunnenstrasse cruza a Bernauer Strasse, que era onde ficava o muro e foi também o local onde tiraram as famosas fotografias das pessoas saltando de seus apartamentos para os colchões estendidos do lado ocidental, em 13 de agosto de 1961. Hoje, o que se vê ali é apenas uma faixa de grama alta demais. Qualquer um que não saiba que o muro passava por ali achará difícil imaginá-lo naquele lugar. Na certa, o local acabará abrigando novos prédios de apartamentos, no mesmo estilo dos antigos, e, em menos de uma geração, a cicatriz se tornará invisível. No momento, porém, aquela faixa de grama tem um aspecto estranho: não é um parque, tampouco um terreno vazio, mas apenas um buraco na cidade.
Ergui bem minha gola enquanto caminhava. Observava com atenção os números dos prédios, procurando pelo 45, quando passei por uma loja e li uma placa. Voltei atrás. Tinha lido certo. A placa dizia: “Venda e aluguel de equipamentos para escavação. Escavadoras de poços, furadeiras elétricas, brocas, furadeiras de mão, bombas”. Dois garotos passaram por mim. Eram durões, os dois com a jaqueta aberta naquele frio. A camiseta de um deles dizia, em inglês: “Too drunk to fuck”. A do outro, em alemão, dizia: “Saiam da frente: babaca a caminho”. Olharam fixo para mim, para a loja e para mim de novo, como se tentassem compreender o que eu podia achar de tão fascinante numa loja de bombas e furadeiras.
O prédio da Brunnenstrasse, 45, é um edifício de apartamentos comum, de cinco andares. Nada o diferencia dos demais prédios da rua. Ele não exibe nenhuma placa nem qualquer inscrição na calçada em memória do túnel. E, como tantos dos edifícios da ex-Alemanha Oriental, está em reforma. Logo que entrei, dois trabalhadores turcos vinham saindo, carregando ferramentas e baldes de argamassa. Cumprimentei-os com a cabeça, como se soubesse o que estava fazendo ali, e segui adiante. O acesso ao porão ficava à direita. Parei por um momento. Depois, abri a porta rumo à escuridão e ao odor de poeira e umidade. Começava a descer a escada quando ouvi um chamado.
“Perdão, minha senhora! Senhora? Posso ajudar?” O mestre de obras, também turco, estava postado no topo da escada. Expliquei a ele que procurava um túnel cuja entrada ficava no porão do prédio.
“Espere um momento”, ele pediu. Foi buscar uma lanterna ligada a um cabo bem longo, e descemos pela escada. O porão tinha um teto abobadado e gabinetes de madeira para cada apartamento. Creio que nenhum de nós dois acreditava que fosse encontrar um túnel ali. Ele iluminou o chão poeirento da passagem até o final. E lá, na parede, havia uma área do tamanho de um homem em que os tijolos eram mais novos do que os demais. Dirigimos a luz para ela e ficamos ali. Pensei nas 29 pessoas que haviam deixado o país por aquela passagem, e em Werner Coch e nos outros.
Quando chegou ao edifício, Coch relata: “Fui até a porta do porão, no vestíbulo, e disse a senha. A senha era ‘O senhor Lindemann mora aqui?’. Como não houve resposta, eu repeti: ‘O senhor Lindemann mora aqui?’. Estava dizendo aquelas palavras para as pessoas que estariam atrás da porta, o pessoal que estava nos ajudando. E deveria esperar pela resposta. Imaginava que fosse aparecer alguém com uma tocha ou que alguém falasse comigo, me tirasse dali. Não aconteceu nada. Absolutamente nada. Pensei: tem alguma coisa errada. Ah, meu Deus, por favor me ajude a escapar dessa inteiro. Dei meia-volta e saí do prédio”.
“Foi aí que eles me pegaram. Gente da Stasi, à paisana. Acho que eram três, esperando na rua que eu saísse do edifício. Hoje eu sei que tinham cercado o prédio. Tinha um deles lá dentro também, na escada.”
Perguntaram a Coch o que ele fazia ali, e ele respondeu que tinha ido visitar o sr. Lindemann. “Não tem nenhum Herr Lindemann aqui”, disseram. E levaram-no embora: primeiro, para a delegacia de polícia; depois, para o quartel-general da Stasi em Berlim; e, por fim, para a prisão, em Hohenschönhausen.
“Hartmut Rührdanz aassistiu a tudo, parado do outro lado da rua”, Coch conta. “Depois, foi para casa, apavorado.” Os Rührdanz ficariam na Alemanha Oriental. Esperariam até que seu bebê estivesse bem o bastante para voltar para casa. E sua esperança era de que ele sobrevivesse.
Como tantas outras coisas, a memória não é confiável. Não apenas por aquilo que ela oculta ou altera, mas também por aquilo que ela revela. Frau Paul devia saber muito bem por que os estudantes tinham vindo para ficar, e provavelmente sabia que a tentativa de fuga pelo túnel havia fracassado. Se ela não o admite, é apenas porque esse conhecimento fez dela uma criminosa na RDA, e porque — o que é ainda mais triste — é assim que ela ainda se sente.
Ela me mostrou um relatório da Stasi sobre o túnel. Sua entrada estivera sob nossos pés na Brunnenstrasse, e não na parede, como revela este documento, em seu terrível burocratês:
GOVERNO DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DA ALEMANHA
Ministério para a Segurança do Estado
ATESTADO
Da existência de um túnel ligando Berlim Ocidental à capital da República Democrática da Alemanha.
No curso de uma verificação de rotina do porão do edifício localizado à Brunnenstrasse, 45, no bairro de Mitte, em Berlim, efetuada pelo Exército Nacional do Povo em 18/2/1963, observou-se a existência de um buraco no chão do referido porão, despertando a suspeita de que havia ali um túnel.
O alargamento e posterior exame do buraco confirmaram que o edifício da Brunnenstrasse, 45, abrigava o final de um túnel proveniente de Berlim Ocidental.
O túnel principiava em território pertencente a Berlim Ocidental, passava por baixo da Bernauer Strasse, em Berlim Ocidental, e por várias edificações habitadas da capital da República Democrática da Alemanha, conduzindo ao porão da Brunnenstrasse, 45.
Do porão da Brunnenstrasse, 45, até a fronteira nacional, o túnel media 130 metros, estendendo-se posteriormente para além da Bernauer Strasse, que possui cerca de 30 metros de largura.
As dimensões da passagem alcançavam 75 cm de largura e de 70 a 80 cm de altura. Durante o exame da referida passagem foram confiscadas 4 lanternas de produção ocidental, 1 pá dobrável de fabricação norte-americana, 1 pá de mão, 2 machadinhas, 1 furadeira para pedra e diversas chaves de fenda.
Além disso, foram encontrados no local do túnel e confiscados uma série de cabos leves, diversas lâmpadas e várias esteiras de borracha.
Por comparação com material já coletado até a data de hoje, deduziu-se que o estudante [nome], da Universidade Técnica de Berlim Ocidental, certamente esteve envolvido na organização da construção do túnel da Brunnenstrasse, 45.
Daquele momento em diante, Frau Paul e o marido passaram a ser seguidos. “De manhã, quando eu ia para o trabalho”, diz ela, “alguém me seguia bem de perto. Se ia fazer umas compras na Alexanderplatz, um homem me acompanhava desde a porta de casa até o ônibus, o trem e, depois, por todo o caminho de volta. Eles mudavam as pessoas, mas sempre tinha alguém. Queriam que a gente sentisse aquilo.” Sentir o quê? Uma ansiedade crescente, não específica? A não ser pelo fato de que estavam sendo seguidos, não tinham como prever o que estava por vir. Como na maioria das vezes, até que as coisas aconteçam, a gente não acha que elas vão acontecer conosco. Aquela situação perdurou por quinze dias.
Certa manhã, quando ela se dirigia para o ponto de ônibus, dois homens em trajes civis pediram a Frau Paul que mostrasse sua identidade. “Aquilo era muito comum. A gente tinha de carregar a identidade o tempo todo.” Mas antes que ela pudesse encontrar o documento dentro da bolsa, “uma grande limusine preta” estacionou no meio-fio. Os homens a agarraram na altura dos cotovelos e a jogaram dentro do carro. “Fui sequestrada em plena rua”, ela diz.
Frau Paul não sabia para onde tinha sido levada, “mas sabia que estava na Stasi”. Hoje, ela tem o registro de seu interrogatório, e ele mostra que ela estava na Magdalenstrasse, parte do quartel- general da Stasi na Normannenstrasse. Foi interrogada das oito horas da manhã de 28 de fevereiro de 1963 até às seis da manhã do dia seguinte. “Foi o tempo que aquilo durou”, diz ela, estendendo-me o documento. “Sempre disse que tinha durado vinte e duas horas e, quando tive acesso a meu arquivo, estava lá: vinte e duas horas.” É como se o que aconteceu a Frau Paul fosse algo tão extremo, para seu modo de ver as coisas e sua ideia de como a vida deveria ser, que ela quer se certificar de não estar, em momento algum, exagerando.
Ela se lembra muito bem do interrogatório. Era uma mulher jovem, imponente e mordaz. “No começo, neguei tudo, mas aí notei que eles já sabiam muita coisa. Queriam informação sobre os estudantes que tinham se hospedado lá em casa.” Ao final do interrogatório, foi levada de volta à cela. “Eu mal conseguia falar. Estava exausta. Mas não me deixaram ali por muito tempo. Vieram me buscar e me levaram num camburão para outro lugar. Depois, continuaram com o interrogatório, dia e noite. Gostavam de interrogar as pessoas sem deixar que dormissem. Não me deram descanso.”
Foi durante uma dessas sessões que ofereceram um acordo a Frau Paul.
Sentaram-na num banquinho baixo, sem encosto, a um canto da sala. Quando abriam a porta, ela ficava escondida. Penso no corpo avantajado de Frau Paul naquele banquinho, projetado para privar as pessoas de toda dignidade. Atrás de uma grande mesa, um tenente a interrogava. “Pelo que sei, seu filho se encontra em território inimigo”, disse ele.
“Sim, senhor.”
“A julgar pelas informações de que dispomos, ele está muito doente.”
“Sim, senhor ” Aonde ele estava indo? Tinha acontecido alguma coisa a Torsten que ela não sabia? Não iam fazer alguma coisa a um bebê minúsculo e doente, iam?
“A senhora gostaria de ver seu filho?”
Mas que pergunta era aquela? “Sim, senhor!”
“Podemos dar um jeito.”
Imagino a enorme esperança que aquilo inspirou nela, enchendo-lhe o coração enquanto ela permanecia sentada no banquinho. Mas Frau Paul me diz: “Foi quando eu comecei a desconfiar. Eu, sentada naquela jaula — perdão, sentada naquela prisão, e eles me oferecendo uma visita a território inimigo, porque era isso que o Ocidente era então. Não fazia sentido nenhum”.
“E como isso é possível?”, ela perguntou.
“Não é tão complicado”, respondeu o tenente. “Na verdade, é muito simples. Se a senhora deseja visitar seu filho em território inimigo, pedimos apenas que, enquanto estiver por lá, a senhora arranje um encontro com seu jovem amigo Michael Hinze. A senhora poderia ir passear com ele. No castelo de Charlottenburg, por exemplo.”
Ela ficou confusa. Então, ele completou: “O resto, pode deixar por nossa conta”.
“O resto, pode deixar por nossa conta!”, ela exclama. “E ele ainda disse: 'uma mão lava a outra'. Uma mão lava a outra!”. O tom de voz dela é uma mistura de horror e triunfo. Não entendo bem o que isso significa. Fico imaginando se existe alguma daquelas palavras compostas do alemão capaz de nomear essa estranha combinação de emoções.
“Naquele momento”, ela explica, “Karl Wilhelm Fricke me veio à cabeça. Anos antes, eu tinha ouvido ele contar na rádio ocidental sobre seu sequestro e encarceramento, e nunca mais me esqueci. Percebi de imediato: iam me usar como isca para sequestrar Michael.”
O nome Karl Wilhelm Fricke é bem conhecido na Alemanha, como jornalista, radialista e também como um fenômeno: “o caso Fricke”. Ele sempre havia sido um agitador contra a República Democrática da Alemanha. Em 1° de abril de 1955, numa reunião em Berlim Ocidental, agentes da Stasi derramaram droga em seu conhaque e o levaram, inconsciente, para o outro lado do muro. Ele foi condenado por “incitar a guerra e o boicote à RDA” e sentenciado a quatro anos de solitária, cumpridos até o último dia. Não havia nada que o Ocidente pudesse fazer para tirá-lo de lá. Quando o soltaram em Berlim Ocidental, ele de imediato narrou no ar a história de seu sequestro, não sem correr algum risco ao fazê-lo. Ao final de uma tarde que passei com ele, Fricke me disse: “Frau Paul — ou Rührdanz, naquela época — é uma mulher muito corajosa”.
Frau Paul que Michael confiaria num convite para encontrar- se com ela no parque, e quando viessem agarrá-lo e jogá- lo dentro de um automóvel, ela teria de dar as costas e ir-se embora. Ela não sabia se a oferta significaria mais do que uma única visita a Torsten ou se a libertariam. Só sabia que, se aceitasse, estaria nas mãos deles, tendo vendido a alma por uma visita ao filho gravemente enfermo. Estaria nas mãos deles para sempre: uma delatora, um ratinho domesticado.
“Eu, servindo de isca numa armadilha para pegar Michael! A resposta, claro, foi não. Eu não podia fazer aquilo.” Frau Paul mantém-se sentada com as costas eretas, as mãos formando punhos sobre as coxas. “Karl Wilhelm Fricke”, diz ela, “foi meu anjo da guarda.” Ela começa a fraquejar e a desmoronar. Nesse instante, não parece uma mulher que foi salva de alguma coisa. “Precisei decidir contra meu filho, mas não podia deixar que me usassem daquele jeito.” Suas costas cedem, e ela volta a chorar. Uma mão segura a outra e, de tempos em tempos, ela alterna a posição de ambas, como se para obter algum consolo.
“Naquele momento, tomei a decisão correta”, diz ela em meio às lágrimas. “E, mesmo depois, podia dizer a mim mesma: 'Não carrego essa culpa. Posso dormir à noite, com a decisão que tomei’.” Ela não tenta cobrir o rosto. Não havia uma resposta correta que pudesse dar, uma boa solução. “É verdade que não carrego isso na minha consciência, mas o fato é que”, ela resfolega num espasmo de dor, “decidi contra meu filho.”
É tão difícil saber que tipo de hipoteca nossos atos impõem a nosso futuro. Frau Paul teve a coragem de fazer o que era certo, de agir de acordo com sua consciência numa situação em que a maioria das pessoas teria decidido por ver o próprio filho, convencendo-se depois de que não havia tido escolha. Uma vez tomada, a decisão dela demandou redobrada coragem para seguir adiante. Parece-me que, como às vezes fazemos, Frau Paul superestimou suas próprias forças, sua resistência ao dano, tornando-se hoje, por respeito a seus princípios, uma criatura solitária, chorosa e em frangalhos. “O resultado foi que nunca mais me interrogaram.” Ela ficou sabendo que os três estudantes e seu marido haviam sido presos também, assim como cerca de trinta outras pessoas por toda a RDA, gente que planejava fugir por aquele mesmo túnel.