Stasilândia
23. Hohenschönhausen
Frau Paul e o marido ficaram detidos na prisão de Hohenschönhausen por cinco meses. Depois, junto com os três estudantes, foram transportados até Rostock, na costa do mar Báltico, para o julgamento. Ela acredita que isso se deu porque a mídia ocidental sabia do sofrimento de Torsten, de um lado do muro, e dos pais dele, do outro; e porque as autoridades queriam ter certeza de que não haveria publicidade.
O casal nunca soube do que estava sendo acusado, nem tampouco da sentença. Ofereceram-lhe os serviços do dr. Vogel, o advogado com íntimas ligações no governo que se tornou famoso por negociar a troca de pessoas entre Leste e Oeste. Mas os Rührdanz desconfiaram da oferta e a recusaram, insistindo em permanecer com o advogado da família. Ele, porém, pouco pôde fazer para ajudá-los, uma vez que só teve acesso às acusações contra seus clientes cinco minutos antes de o julgamento começar.
O promotor sustentou:
Rührdanz, Sigrid, é acusada de induzir ou ao menos auxiliar e favorecer a saída ilegal do país de cidadãos da República Democrática da Alemanha.
A acusada mantém contato com membros de uma organização de Berlim Ocidental responsável por operações de contrabando de pessoas e terrorismo, a qual seduz cidadãos a deixar a RDA e facilita sua saída ilegal do país ou por meio de documentos falsos ou mediante a violação da fronteira nacional. [...] [Ela] estava de posse de passaportes ilegais em seu apartamento, organizou reuniões e transmitiu informação relativa a operações planejadas de contrabando de pessoas, além de haver abrigado pessoas a serem contrabandeadas. Existem fortes suspeitas de que ela própria deixará ilegalmente a RDA.
Frau Paul lê o documento para mim sustentando sua inocência a cada acusação. “Como já contei à senhora, havíamos desistido de tentar fugir fazia tempo”, ela diz. “Eu não sabia o que os estudantes estavam fazendo em nosso apartamento.” Somente em 1992, passados 29 anos do julgamento, ela pôde ler pela primeira vez a sentença em seu arquivo. Nela, não havia nenhuma menção a Torsten. Os juízes escreveram que “sua atitude de rejeição a nosso Estado” havia sido “agravada pelo fato de a acusada ser ouvinte habitual das calúnias veiculadas por rádio pela OTAN”.
“Puseram essa história de rádio da OTAN porque não aceitei ser usada como isca na armadilha deles.” Frau Paul e o marido foram, ambos, sentenciados a quatro anos de trabalhos forçados. Ela foi posta num camburão e levada de Rostock a Hohenschönhausen, onde cumpriria a pena. Werner Coch pegou um ano e nove meses de prisão comum, porque a pena para os cúmplices de tentativas de fuga do país era maior do que aquela reservada ao fugitivo em si.
A prisão de Hohenschönhausen não fica longe do centro de Berlim Oriental, mas sua existência era desconhecida até mesmo dos moradores de bairros vizinhos. Toda rua que conduzia para aquela área ou dela provinha era bloqueada por uma barreira gradeada e uma sentinela. Hohenschönhausen destinava-se a prisioneiros políticos — era a instalação de segurança máxima dentro de uma área de segurança em um país apartado do mundo por um muro. A prisão era outra lacuna no mapa.
Um dia, Frau Paul me levou até lá. Era um dia comum, muito frio, e estávamos numa rua residencial revestida do cinza habitual. Enquanto caminhávamos, ela acenou com a cabeça, dizendo: “Ali ficava a barreira gradeada”. Tudo que restava dela era a coluna atarracada e baixa na calçada, à altura da cintura. Nós a ultrapassamos e entramos na área de segurança da Stasi. “Aquele prédio ali era do Departamento M, encarregado da vigilância postal”, informou Frau Paul, caminhando um pouco à minha frente e apontando com a mão espalmada. “Naquele outro ali ficava a oficina de falsificações da Stasi. E o outro era um hospital especial, também da Stasi.” Os dois prédios que ela me mostrara eram edifícios comuns de concreto. Pareciam vazios. “Aqueles prédios altos ali adiante eram de moradia para gente da Stasi”, ela prossegue. Sigo a direção para onde a mão dela aponta e vejo um conjunto de torres brancas e cinzas, de vários andares. De uma delas emerge um homem de meia-idade levando um dachshund numa coleira retrátil. Ele nos ignora, mas o cachorro me olha com cautela enquanto faz xixi no meio-fio.
Avançando pela área de segurança, chegamos a um edifício com muros altos de concreto encimados por arame farpado. Os muros parecem estender-se mais e mais, abrangendo um perímetro correspondente a todo um quarteirão. Nas esquinas, há torres de guarda octogonais; abaixo delas, do lado de fora, cercados vazios destinados aos cachorros. Hohenschönhausen está fechada há vários anos. As pessoas agora batalham para transformá-la num museu do regime. Frau Paul participa desse esforço e tem uma chave dali.
Nós nos aproximamos dos enormes portões de aço da entrada. Junto deles há uma porta de dimensões humanas. Frau Paul tem os olhos claros, suas roupas produzem aquele farfalhar do náilon. Ela caminha à minha frente com uma postura prática e profissional que diz: “Odeio este lugar, mas continuo aqui”. Entramos na prisão vazia, imiscuindo-nos num pátio gigantesco, cercado de edificações e com um prédio atarracado bem no centro. O chão, de asfalto e cascalho, crepita como a cobertura de um bolo crocante. Um caminhão está estacionado no pátio. Ele é cinza e contém uma sólida jaula de aço na parte traseira, sem janelas nem qualquer ventilação aparente. “Foi num camburão como este que me transportaram para cá durante cinco horas, desde Rostock”, ela diz. Depois, para minha surpresa, ela acrescenta: “Entre aí”. Eu entro no caminhão. Dentro, em vez das duas bancadas para acomodar os prisioneiros que eu esperava encontrar, vejo um corredor minúsculo com seis celas, cada uma delas com uma tranca na porta. As celas não têm dimensão suficiente para comportar uma pessoa em pé; apenas uma tábua onde sentar. Frau Paul me acompanha dentro do caminhão. “Entre”, ela torna a dizer, apontando para a última cela minúscula, lá no fundo. “Assim, a senhora terá uma ideia de como foi.” Entro na cela, e ela fecha a pesada porta de aço. A chave gira na fechadura. Eu me sento; é escuro como breu, horrível, lá dentro. Do lado de fora, ela diz, alto: “Agora, imagine alguém sentado aqui fora, com uma metralhadora”. Imaginei, e então ela me deixou sair.
Mais tarde, descobri que aqueles caminhões às vezes eram camuflados como serviço de entrega de lavanderia, caminhão frigorífico para transporte de peixe fresco ou ainda como furgão de padaria, quando, na verdade, cruzavam o país levando prisioneiros e dissidentes com uma arma apontada para si.
Atravessamos o pátio em direção ao prédio no centro, adentrando- o pelos portões gigantes de um acesso para caminhões. “Foi aqui que me deixaram”, ela diz. “Eu não tinha ideia de onde estava. Tanto quanto eu sabia, podiam ter me levado de Rostock para qualquer lugar da RDA. O certo é que não imaginava que estivesse bem no centro de Berlim.” O camburão e aquele acesso para caminhões tinham sido projetados para que os prisioneiros fossem descarregados ali um a um, sem que nenhum visse o outro, a luz do dia, uma rua ou a entrada do prédio.
Subimos a escada. Uma enorme porta de metal cheia de tachas deslizou para o lado, revelando um comprido corredor de linóleo. Frau Paul me mostra um sistema primitivo de cabos e ganchos que corre ao longo das paredes, à altura da cabeça. Quando um novo prisioneiro chegava, o tal sistema operava como um alarme, acendendo luzes vermelhas a intervalos de tempo. Era o sinal para que todos os prisioneiros fossem trancados em suas respectivas celas e para que os guardas desaparecessem de vista. O novo prisioneiro não deveria saber quem mais estava ali nem ter qualquer contato humano que não fosse rigorosamente monitorado por seus captores, com objetivos psicológicos.
Caminhamos pelo corredor. Algumas celas estavam abertas, outras, fechadas. O único som provinha de nossos próprios passos no chão. Tinta cinza descolava-se das paredes. Não é a primeira vez que Frau Paul volta ali, mas imagino que aquilo não seja fácil para ela. Bem sei que existem lugares que eu própria não visito, evito até passar na frente de alguns deles, onde coisas ruins me aconteceram. Mas ali está ela, no lugar que a derrubou, e é sobre ele que ela me fala. Em parte, isso é bravura, do tipo daquela que a fez recusar o acordo com a Stasi, mas, em parte, talvez seja obsessão, causada pelo que fizeram a ela em seguida.
Ela me leva à sala onde a interrogaram. Naquele complexo de instalações havia 120 salas disponíveis para interrogatórios simultâneos. A dela exibia papel de parede com padrões de cor marrom até a metade da altura da parede, piso de linóleo pardo e uma grande mesa com uma cadeira. Atrás da porta, um banquinho de quatro pés, como aqueles utilizados para a ordenha. “Vinte e duas horas sentada naquilo ali”, ela diz.
Depois, fomos para outro prédio, o chamado “U-Boot”, ou “submarino”. No nível do chão, parecia um edifício bem comum. Descemos alguns degraus. Frau Paul me conta que se tratava de uma edificação projetada pelos russos em 1946 para abrigar uma série de salas de tortura. Eu a ouvia, mas tentava sobretudo me adaptar ao cheiro estranho. Alguns cheiros são difíceis de decifrar. Lembro-me da biblioteca da universidade à época dos exames. Cheirava a suor, casacos úmidos e mau hálito. Era uma mistura de odores, e era também o cheiro do puro medo. O “U-Boot” onde me encontro agora cheira a umidade, urina velha, vômito e terra: o cheiro do tormento.
O corredor-túnel é comprido e árido. Lâmpadas isoladas pendem de fios. Frau Paul começa a abrir portas. A primeira mostra um compartimento tão pequeno que só comporta uma pessoa de pé. Foi projetado para conter água gelada até a altura do pescoço. Ela me conta que havia ali 68 compartimentos daquele tipo. Além deles, havia as celas de concreto sem nada dentro, onde o prisioneiro era mantido no escuro em meio aos próprios excrementos. E havia também uma cela toda revestida de borracha preta. Frau Paul ficou presa ali ao lado. Ela se lembra de ouvir o prisioneiro da cela de borracha perdendo pouco a pouco o juízo. No final, tudo que ele dizia era: “Nunca... mais... sair!” Uma vez, ele foi levado embora dali, e ordenaram que ela limpasse o sangue e o vômito.
A cela mais estranha era a que continha uma espécie de canga de madeira, como um aparelho num parque de diversões. O prisioneiro era praticamente dobrado ao meio, cabeça e mãos enfiadas nas aberturas, sobre as quais a canga se fechava. Diante da cabeça, pendia um balde de água, como um bornal. Chão e paredes eram pretos, forrados de pregos. Frau Paul explica que o prisioneiro ficava descalço, preso à canga. Os pregos espetavam-lhe as solas dos pés. De um cano que atravessava o teto, pingava água em sua cabeça. No fim, a dor era tanta que ele acabava por perder a consciência, e a cabeça tombava para a frente, mergulhando na água do balde. Ou voltava a si e enfrentava a dor ou morria afogado.
Não havia nada de engraçado naquela cela, assim como tampouco era engraçado estar ali ao lado de Frau Paul, sentindo o chão me espetar através das botas, tocando aquela canga grotesca e me imaginando quase dobrada ao meio no escuro, submetida à dor lancinante e à alternância entre a consciência e o afogamento. Mas havia ali sem dúvida algo de muito grosseiro. Parecia primitivo demais para meados do século XX e para aquele lugar. Era um aparato que parecia pertencer a outro lugar, mais a leste, e a outra época, mais remota, como a algum espetáculo histórico de segunda linha, bizarro e surreal.
E, no entanto, havia algo ainda mais arrepiante na sala com o banquinho em que Frau Paul foi obrigada a se sentar, com a mesa comum de escritório e a cadeira de onde o interrogador presidia a sessão. Era nesses escritórios que a Stasi exibia todo seu talento, seu verdadeiro dom para a inovação, para a invenção de histórias e para a negociação faustiana. Foi naquela sala que um acordo foi oferecido e recusado, dobrando e deformando para sempre uma alma humana.
Nem um único dos torturadores de Hohenschönhausen jamais foi levado à justiça.
Quatro vezes por ano, Frau Paul obtinha permissão para receber visita (na maioria das vezes, a mãe dela), mas, para tanto, era levada a outro local, a fim de que nem ela nem o visitante soubessem em que lugar da RDA ela estava presa. A correspondência era sempre enviada a outro endereço da Stasi, de onde traziam-na até ela, devidamente aberta. Haviam-na retirado do tempo e do espaço.
Ao longo dos anos, Torsten permaneceu no hospital de Westend. Enfermeiras e médicos alimentavam-no por meio de tubos, administravam-lhe os medicamentos e trocavam suas fraldas. Cantavam canções para ele, ensinaram-no a falar e tentavam fazê-lo aprender a andar. O hospital e sua equipe eram a única casa e as únicas pessoas que Torsten Rührdanz conhecia. Reproduzo a seguir uma das cartas que chegou às mãos dos pais dele. Foi escrita em novembro de 1963, quando Torsten estava com quase três anos de idade:
Caros senhor e senhora Rührdanz,
Soube que os senhores gostariam de receber informação sobre a saúde de Torsten, um desejo que posso compreender muito bem. De um modo geral, ele é alegre, vem aos poucos aprendendo a andar e está feliz. Tornou-se o xodó da nossa enfermaria. É claro que, de tempos em tempos, ainda encontramos problemas a superar, o que significa que, infelizmente, ainda não é possível vislumbrar uma possível alta do hospital. Não conseguimos alimentá-lo sem o auxílio de um tubo ligado ao estômago, porque a comida, tão logo ingerida, lhe causa dor. O peso, 7.670 gramas, permanece insatisfatório, e sua altura é também muito inferior à considerada normal para a idade. Contudo, a diarreia praticamente cessou. Não há nada que possamos fazer a não ser continuar com o trabalho que vimos fazendo, na esperança de que seu estômago possa pouco a pouco se avolumar e de que o problema na extremidade do diafragma venha a ser sanado.
Os senhores podem ter certeza de que seguiremos fazendo todo o possível por seu filho. Antes do Natal, torno a escrever.
Cordialmente,
Prof. Dr. L.
Michael Hinze sempre viveu no Ocidente. Nunca foi raptado pela Stasi e nem sequer ficou sabendo que estavam atrás dele. Até bem pouco tempo, tampouco sabia que Frau Paul tinha alguma coisa a ver com sua continuada liberdade. “Descobri isso há uns dois anos, depois da queda do muro. Fazia anos que não tinha notícia dos Rührdanz. Então, eles me ligaram”, ele conta. “Toda essa história da chantagem e dos planos para me sequestrar, eu não sabia de nada.” A ideia provoca nele um ligeiro desconforto. “Quero dizer, sempre me vi como peixe pequeno. Só reunia as pessoas, conseguia passaportes. Sabia que aquilo era ilegal pelas leis da RDA, mas...” Sua voz desaparece. Ele, de fato, nunca chegou a refletir sobre o assunto. Ainda que o tivesse feito, como haveria de imaginar que alguma outra pessoa estava sendo obrigada a pagar o preço pela liberdade dele? “É uma mulher muito corajosa”, Hinze continua. “Tenho grande respeito por ela. E sou-lhe grato também. Mas, ao mesmo tempo, não creio que precise me sentir culpado — quero dizer, não me sinto culpado, só tive a sorte de não cair nas garras da Stasi. Nem dessa forma nem de nenhuma outra.” Ele acredita que se a Stasi realmente tivesse querido pegá-lo, ela o teria feito, e é provável que teria sido assim.
“Ela foi muito ativa nessa história toda”, diz Hinze com admiração. “Os Rührdanz costumavam orientar e ajudar pessoas de Halle, Dresden ou de qualquer outro lugar que quisessem sair do país. Eram gente muito dedicada.”
Frau Paul não me contou nada disso, embora fosse o tipo de coisa da qual outra pessoa teria se orgulhado. A imagem que fazemos de nós mesmos, com todos os seus ajustes e contornos fantásticos, é que nos mantém. Frau Paul não se imagina como heroína ou dissidente. É técnica em odontologia e uma mãe com uma história familiar terrível. E é uma criminosa. Esta me parece a coisa mais triste de todas: que a imagem que ela faz de si mesma seja aquela que a Stasi montou para ela.
“Eu disse a ela que sua história me comoveu profundamente”, conta Hinze. “E que não conheço muita gente que não teria me traído. Disse que não existem muitas pessoas dotadas da coragem que ela teve. Comportar-se assim, com...” — ele busca as palavras certas —, “com tamanha humanidade, eu diria. Ela se comportou com tamanha humanidade...” Ficamos ambos em silêncio por um momento. “Mas, infelizmente”, ele completa, “a um alto preço para ela.”
Em agosto de 1964, a liberdade dos Rührdanz foi comprada por 40 mil marcos ocidentais. Contudo, em vez de serem libertados no Ocidente, para que se reunissem com o filho, eles foram abandonados numa rua de Berlim Oriental sem nenhum documento. Frau Paul o atribui ao fato de terem dispensado os serviços do dr. Vogel como seu advogado. Do número estimado de 34 mil pessoas cuja liberdade foi comprada entre 1963 e 1989, sabe-se hoje de apenas nove casos documentados de tamanha crueldade, em que a Alemanha Ocidental pagou em dinheiro vivo e a RDA não entregou as pessoas que tiveram sua liberdade comprada.
Torsten seguiu vivendo no hospital de Westend. Em 9 de abril de 1965, quando ele tinha quatro anos de idade, Frau Paul recebeu notícias do filho por intermédio da irmã Gisela, uma das enfermeiras.
Nós todas desejamos à senhora e a seu marido uma Páscoa de muita saúde e felicidade. Torsten fez um desenho para os senhores, e fez tudo sozinho: coelhinhos de Páscoa marrons, com um ninho de ovos coloridos. Disse: “É para a minha mãe. Ela vai gostar disso!” Ontem, recebemos o cartão adorável que os senhores enviaram, e agradecemos em nome do Torsten. Ele ficou tão feliz que tivemos de ler o cartão para ele de imediato. E agora as mãozinhas dele não o largam mais. Ele não se cansa de olhar para o cartão...
Minha querida senhora Rührdanz, Torsten está agora melhorando de fato. É uma pena mesmo que a senhora não possa estar aqui para desfrutar de todo o progresso que ele tem feito. Essa tragédia absoluta entre partes de uma mesma cidade seria capaz de levar qualquer um ao desespero! Mas não quero escrever sobre isso.
Melhor eu contar mais sobre Torsten. Agora, ele está pesando 9.450 gramas e tem 84 centímetros de altura. Fala e entende tudo como uma criança de seis anos. Não perde nada! E me pediu para dizer à senhora que logo estará indo para casa, em Kaulsdorf. Torsten consegue andar cinco metros sozinho! Além disso, roda a tarde toda pela enfermaria. Cara senhora Rührdanz, nossos melhores desejos para a senhora, e mil beijos do Torsten, para o papai também.
Os Rührdanz precisaram esperar ainda oito meses até que seu filho estivesse bem o bastante para ter alta do hospital de Westend. Quando foi para casa, na Alemanha Oriental, tinha quase cinco anos. Era pequeno, curvado e muito educado.
“É claro que não me reconheceu como a mãe dele”, conta Frau Paul. “Nem sabia o que era uma mãe. Só conhecia a atmosfera estéril do hospital e a equipe de lá, os médicos, as irmãs e outros funcionários. Embora todos tenham cuidado dele com tanto carinho, tentando...” — ela está chorando, muito — “... tentando criar da melhor maneira que podiam uma atmosfera familiar, não era a casa dele. Ele estava assustado. E quando eu…” Ela é obrigada a parar, porque não consegue pronunciar as palavras. “E quando eu o tomei nos braços pela primeira vez e o abracei, ele deve ter pensado: ‘Mas o que essa velha quer comigo? Ela diz que é minha mãe, mas o que é mãe?’. Ele falava conosco usando o pronome formal: Sie. Dizia: ‘Mãe, a senhora poderia, por favor, me fazer a gentileza de preparar um sanduíche para mim? Estou com fome’. Ou então: ‘Pai, o senhor se importaria de me erguer até a cadeira? Não consigo subir sozinho’. Ficava essa distância terrível entre nós. Transformaram nosso menino num estranho para nós mesmos.” Ela baixa o tom de voz. “E foi aí que mais tive de lutar comigo mesma. Tinha agido certo no interrogatório, recusando-me a ser usada como isca para um sequestro? Ou devia ter ido me juntar a meu filho?” Ela não para de chorar.
Sinto-me igualmente perturbada. São as pequenas coisas que nos fazem chorar. Imaginar as enfermeiras e os médicos em Berlim Ocidental, tentando explicar a um menininho o que era uma família, tentando prepará-lo para encontrar sua própria família. A ideia de que não há paz para Frau Paul, que ainda hoje tenta. justificar para mim uma decisão tomada mais de trinta anos atrás. Ponho-me à cata de lenços de papel, que parecem existir apenas em variados e embaraçosos graus de desagregação no fundo da minha mochila. Nem sequer penso em Torsten.
A campainha da porta toca, e Frau Paul vai atender. Quando volta para a sala, ela está acompanhada de um homem cuja idade é difícil estimar, mas sei de imediato que é ele. Quando me levanto para cumprimentá-lo, minha altura é enorme perto da dele, e sua mão cabe dentro da minha. O corpo é pequeno e corcunda, braços e pernas parecem tortos, finos e desconjuntados. A cabeça parece pequena também. Tem olhos fundos e escuros, maçãs do rosto protuberantes. A jaqueta exibe dois ou três distintivos na lapela, informal e descolada. “Muito prazer ”, diz Torsten, afável, e afunda meio inclinado no sofá a meu lado. Não parece surpreso ao ver que a mãe esteve chorando.
Torsten não sabe ao certo se se lembra da primeira vez que viu seus pais. “Vi as fotos”, ele diz, “e é difícil distinguir o que me lembro de fato de tudo que vi desde então. Sei, porque me contaram, que eu usava o pronome formal com eles. Não sabia o que era um pai ou uma mãe. Às vezes tenho uma imagem vaga do que foi nosso primeiro encontro, lá na escuridão do passado, como se fosse uma miragem. Mas conscientemente, não, não me lembro.” Sua voz é muito suave.
Quero saber se ele acha que a mãe tomou a decisão certa ao não se juntar a ele e, por isso, faço-lhe uma pergunta direta. Ele demonstra tranquilidade. “Nunca olhei para meus pais e pensei que tomaram a decisão errada”, ele diz, “nem jamais os vi como a Stasi os viu, como criminosos ou coisa do tipo. Muito ao contrário: admiro o que eles fizeram.” Torsten parece ter aprendido a conter tanto a saudade quanto o arrependimento. “Não me passa pela cabeça”, prossegue ele, “que pudessem ter feito coisa diferente e que tudo talvez pudesse ter tomado outro rumo.”
“De todo modo”, sugiro, “imagino que uma única visita não teria feito muita diferença...” Eu não estava tentando tirar um pouco do heroísmo de Frau Paul. Tentava encontrar uma maneira de encarar a escolha dela que não significasse o drástico abandono do filho. Gentil, porém, ele me interrompe e vê o fato da perspectiva da mãe. “Bom, é verdade”, ele diz, “mas se a gente acredita que alguém está morrendo, provavelmente vai querer vê-lo de novo antes que isso aconteça. Isso faz, sim, uma diferença, embora não mude nada.”
Torsten complementa sua pensão por invalidez trabalhando em bandas da cena musical eletrônica. Isso é algo que, de uma forma ou de outra, ele tem feito desde antes da queda do muro. Naquela época, em virtude da condição de inválido, ele podia viajar para o Ocidente uma vez a cada quinze dias. Músicos de rock da RDA encomendavam-lhe peças a serem contrabandeadas, no caminho de volta, para dentro da Alemanha Oriental. Torsten era bem conhecido dos guardas de fronteira, que o revistavam “noventa por cento das vezes”, ele diz, sorrindo. “Viviam me pegando, mas, felizmente, as consequências não eram tão ruins. Embora eu tenha de fato sido acusado de ‘comércio perigoso de instrumentos musicais e peças eletrônicas’”, ele ri.
A despeito de sua história familiar, a Stasi foi atrás dele, querendo ver se Torsten atuaria como informante. Primeiro, juntaram material comprometedor relativo aos contrabandos. Depois, levaram-no para interrogatório. Torsten ficou mudo, de tal modo que o mesmo material que teria sido utilizado para pressioná- lo a se tornar informante transformou-se, em vez disso, em prova de sua inadequação para a função. Um relatório final de 17 de junho de 1985 contém duas frases: “R. não é pessoa adequada para a colaboração não-oficial com o Ministério. (R. toma parte em atividade criminosa.)”. Evidentemente, ninguém terá pensado em escrever: “R. se recusa, por princípio, a colaborar ”.
Pergunto a Torsten se ele acredita que sua vida foi moldada pelo muro.
“Acho difícil dizer com precisão em que sentido minha vida foi moldada pela existência do muro, como ela poderia ter sido diferente sem ele. Mas que ela foi moldada pelo muro, disso não tenho dúvida.”
Torsten aprendeu a não jogar o jogo do “e se...?”. Se o muro não tivesse existido, minha saúde não teria piorado, eu poderia ter crescido com meus pais, eles não teriam sido presos, eu poderia ter tido um corpo saudável, um emprego, uma companheira. Ele se move no sofá de modo a me olhar bem de frente. “Não existem pessoas completas, inteiras”, ele diz. “Todo mundo tem seus problemas. Os meus podem ser um pouco mais difíceis, mas o importante é como a gente lida com eles.”
“E como você lida com eles?” Estou de frente para Torsten, vejo seu corpo retorcido e o ouço respirar através dos tubos que implantaram nele.
“Bom, é um problema para mim. Penso que a vida pode acabar muito rapidamente e, portanto, não tenho aspirações de longo prazo. Tudo que eu possa querer, quero para já, quero para hoje. Não tenho paciência para guardar dinheiro ou construir algum tipo de negócio. Isso me deixa nervoso. Algumas pessoas dizem: ‘Você tem bastante tempo, ainda é relativamente jovem’. Mas estou sempre com medo de que tudo possa acabar a qualquer momento.” Ele faz uma pausa. “Ou de que, também no campo político, tudo venha a mudar de novo, e aí eu não teria a chance de experimentar certas coisas.”
Comento que apesar de ter sido algo tão grande, que marcou a vida deles com tamanha brutalidade, hoje é difícil encontrar algum vestígio do muro. Estou prestes a dizer que acho estranho permitir que todos o esqueçam tão depressa, quando Torsten observa: “Eu me sinto feliz que ele tenha desaparecido e também que reste tão pouco dele hoje em dia. Ver o muro me lembraria de que, um dia, ele pode voltar. E de que tudo que aconteceu pode ser revertido”.
“Mas isso não seria possível!”, eu rio.
Torsten me olha com seriedade. “Tudo é possível”, ele diz. “Nunca se pode dizer que alguma coisa não é possível.”
A mãe dele concorda. “Quem poderia pensar que construiriam um muro?”, ela pergunta. “Isso também era impossível! E, no fim, quem teria pensado que ele poderia cair um dia? Era impossível!”
As pessoas aqui falam do Mauer im Kopf, do “muro na cabeça”. Sempre pensei que isso fosse uma forma abreviada de se referir ao modo como os próprios alemães ainda se definem como orientais e ocidentais. Agora, porém, vejo um sentido mais literal para a expressão. O muro e o que ele representava ainda existem. O muro persiste na cabeça dos homens da Stasi como algo que eles esperam que possa voltar algum dia, e como uma possibilidade apavorante na cabeça de suas vítimas.
Torsten oferece-me uma carona até a estação. Frau Paul lhe dá um beijo, e toma minha mão nas suas. Depois, encolhe os ombros. “Bom, é isso”, ela diz, como se, juntando as partes de sua vida, o resultado fosse coisa sem maior importância.
O carro de Torsten é uma BMW à antiga, com assento especial elevado junto do volante. Ele põe uma música de ritmo latino, que se mantém em estranha e sincopada sincronia com os limpadores de para-brisa. Começamos a conversar e ele me leva para muito além da estação, seguindo até a Alexanderplatz. Então, despede-se com um aceno e vai-se embora, torto, aleijado e vivendo um dia de cada vez.