Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 15 de 36

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Stasilândia

10. O namorado italiano

 

Quando tinha dezesseis anos, Julia passou as férias trabalhando como guia na Feira de Leipzig, a famosa feira internacional em razão da qual, duas vezes por ano, a Alemanha Oriental abria as portas para o mundo exterior. À feira compareciam expositores de máquinas, livros, fotocopiadoras e utensílios para cozinha, bem como a imprensa internacional. Ficavam hospedados no Hotel Merkur ou, então, eram alojados com famílias que brigavam para recebê-los, e às notícias do mundo lá fora que traziam. O trabalho de Julia — bem como de outros jovens, eleitos tanto por sua lealdade quanto pelas capacidades linguísticas — era guiar os visitantes pela feira e pela cidade.

Foi ali que ela conheceu o namorado italiano. Ele a convidou para sair quase de imediato (“eles pensavam que a gente estava à venda”), mas ela não aceitou (“eu não estava”). Por fim, acabou aceitando: porque ele insistiu, porque podia ser divertido e porque que mal poderia haver?

O namorado italiano era um homem de trinta anos, representante de uma empresa de computadores do Norte da Itália. Ele e Julia mergulharam naquela espécie irreal de relacionamento à distância em que a saudade, sustentada por tempo suficiente de separação, termina por se transformar em amor. Ele vinha visitá-la duas vezes por ano, na Páscoa e no Natal, e os dois se encontravam na Hungria quando das férias anuais. Em termos comparativos, a Hungria era mais ou menos livre à época, “quase como o Ocidente para nós”, Julia diz. No resto do tempo, telefonavam-se uma vez por semana e escreviam cartas frequentes. Ele se tornou o correspondente mais íntimo dela.

“Quanto tempo vocês ficaram juntos?”, pergunto.

“Dois anos. Deus do céu, não, mais para dois anos e meio.”

Sempre que ele estava com ela a vigilância era intensa e escancarada. O casal mal conseguia sair de casa sem ser abordado pela polícia, para dar explicações. Ou então topava com a polícia em algum posto de controle nos arredores da cidade. “Pouco importava a que horas saíamos de casa ou aonde íamos, alguém estaria lá para nos interrogar ”, ela conta. Às vezes, eles revistavam o carro. “Se dizíamos que estávamos indo ao cinema, a polícia desaparecia por um bom tempo com minha carteira de identidade e com o passaporte dele, só para que a gente perdesse o horário da sessão.”

O namorado italiano ficava apavorado a cada revista. “Começava a suar, ficava branco e tremia, literalmente, de medo.” Julia, acostumada a tudo aquilo, o provocava enquanto esperavam pelos documentos. “Escute, não pode ser tão terrível assim”, ela dizia. “O que você acha que vão fazer com você? Não vão te matar! Afinal, isto aqui não é a América Latina.”

“Para mim, aquele tipo de vigilância era a realidade”, diz ela. “Eu não gostava, mas pensava comigo: eu vivo numa ditadura e, portanto, é assim mesmo. Estava claro para mim que aquilo seguia a lógica da RDA: estou com um ocidental, o que significa que estarei sob observação.”

Os Behrend não tinham telefone. Julia ia à casa da avó para receber o telefonema semanal do namorado italiano. Como as chamadas precisavam ser agendadas com as autoridades, os dois supunham estar sendo ouvidos por outras pessoas também. “Toda vez que eu desligava, dizia boa noite a ele e, depois, 'boa noite a todos', para quem mais estivesse na linha”, ela ri. “Era uma piada. Não ficava pensando se tinha mesmo mais alguém ouvindo.”

Aceitar a lógica da RDA e, ao mesmo tempo, ignorá-la era condição básica para a manutenção da sanidade mental. “Se você levasse as coisas tão a sério como as pessoas no Ocidente pensam que a gente devia levar, todos nós teríamos nos matado!” Julia ri, mas eu estou agitada. A luz fluorescente da cozinha começou a zumbir. “Quero dizer, a gente enlouqueceria”, ela continua, “se pensasse nisso o tempo todo.”

Depois de concluído o ginásio, Julia queria ir para uma escola conhecida pela excelência no ensino de línguas. Em vez disso, e por razões jamais esclarecidas, as autoridades a enviaram a um longínquo internato, sem reputação nenhuma. Sua mãe reclamou muito, mas a resposta que obteve foi a de que não havia nada a fazer. “Não sei se foi por causa do namorado italiano ou das pessoas com quem eu me correspondia. Talvez achassem que eu tinha muito contato com o Ocidente e, por isso, precisasse ser isolada.” Julia começa a bater com uma caneta na mesa e a não olhar para mim enquanto fala. Por um momento, a caneta e o zumbido da luz são os únicos sons que ouço.

Ela solta a caneta e sorri. Encontrou alguma história mais leve para contar. “A escola era rígida”, diz. “Tinha coisas lá que eram verdadeiramente traumáticas, como o que a gente costumava chamar de ‘tortura da TV’.”

Na década de 1980, a maioria dos alemães orientais assistia à TV ocidental, sobretudo aos noticiários. Ninguém via os da RDA, embora eles fossem exibidos diariamente nos dois canais estatais, em duas versões: longa e curta. Julia sorri. “Naquela escola, toda noite, sem falta, sentavam a gente e nos faziam assistir à versão longa do Aktuelle Kamera. Era um inferno.”

O noticiário era longo porque, a cada vez que mencionavam o nome de Erich Honecker, ele era anunciado por extenso, com a nomeação de cada uma de suas funções. Julia endireita-se na cadeira, põe as mãos na mesa e faz voz de locutora. À luz trêmula da cozinha e com seu cabelo esvoaçante, ela é uma locutora vinda do espaço sideral, captada em meio à estática: “O camarada Erich Honecker, secretário-geral do Partido Socialista Unitário da República Democrática da Alemanha, primeiro secretário do Comitê Central, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Defesa Nacional, líder dos blablablá...”.

Nós rimos, e ela afasta a cadeira, equilibrando-a sobre as pernas traseiras. É uma imitadora descontraída e confiante. “E então, a notícia de fato que vinha depois disso tudo era nada!” Ela torna a se endireitar: “... visitou as siderúrgicas tal e tal, conversou com os trabalhadores sobre os objetivos do plano para 1984, superados em mais de tantos por cento”. Ou: “... inaugurou hoje o enésimo apartamento construído no novo distrito de Marzahn”. Ou: “... parabenizou esta manhã a fazenda coletiva de sei-lá-onde pela colheita extraordinária, um aumento de produtividade 'n' vezes superior ao dos anos anteriores”.

Rimos sem parar sob a luz estroboscópica. “E a questão é que”, ela bate na mesa com a mão fina e branca, “nunca nos diziam coisa nenhuma sobre o que se passava no mundo!” Julia balança a cabeça ante a prolixidade daquela notícia nenhuma.

Pior ainda do que notícia nenhuma era a antinotícia. Os estudantes tinham também de assistir a Der Schwarze Kanal [O canal negro], com Karl-Eduard von Schnitzler. Já ouvi falar desse homem, o antídoto humano à influência perniciosa da televisão ocidental. “Na minha casa”, conta Julia, “a gente chamava ele de ‘Karl-Eduard von Schni…’, porque esse era o tempo que levava até que alguém pulasse da cadeira para trocar de canal.”

O trabalho de Von Schnitzler consistia em mostrar trechos de programas ocidentais que chegavam à RDA — qualquer coisa, do noticiário às gincanas ou ao seriado Dallas — e acabar com eles. “O sujeito era tão asqueroso que simplesmente não tinha credibilidade nenhuma. Você se sentia emporcalhada, como se tivesse passado meia hora falando muito mal de alguém.” Julia cruza os braços. “Quero dizer, a gente podia ter lá nossas dúvidas sobre o Ocidente — e eu tinha, com certeza —, mas sentíamos também que nosso próprio país estava nos contando um monte de mentiras e que nosso futuro dependia de darmos a impressão de concordar com elas.”

 

Um dia, em 1984, o diretor do internato marcou de ir visitar os pais de Julia na casa dela.

“Naquela altura, a gente já devia ter suspeitado de alguma coisa. Aquela visita era coisa inédita.” Os três ficaram sentados por duas horas, com café e bolo, uma visita bem formal. O diretor tinha ido até lá para convencer Irene e Dieter a interferir e fazer com que Julia rompesse com o namorado italiano. Quem não conhecia Julia podia supor que o namorado era a passagem dela para fora da RDA. O Estado estava fazendo todo o possível para impedir que aquilo acontecesse.

A mãe de Julia disse ao diretor: “Escute, a menina tem dezessete anos, é praticamente uma adulta, e se decidiu que ele é o homem da vida dela, que seja”. Mas Irene acrescentou: “Para dizer a verdade, também não estamos lá muito felizes com essa situação. Ele é bem mais velho do que ela, e não queremos que nossa filha vá embora daqui. Só que não vamos impedi-la”.

O diretor não conseguiu muita coisa. “Foi embora, insatisfeito”, Julia conta. “Na verdade, era um bom homem. Talvez tivesse sido avisado das consequências que aquilo traria para mim e estivesse tentando ajudar.”

Em 1985, Julia concluiu seu curso com notas máximas. Então, foi para Leipzig, a fim de prestar o exame de admissão na universidade para o curso de tradução e interpretação. Foi reprovada. “O exame escrito foi uma brincadeira, de tão fácil e curto que era. Mas havia também o exame político...”

“Como assim? O que quer dizer ‘exame político’? Você queria estudar línguas!” A lâmpada no teto continua falhando e zumbindo, e eu estou irritada e incomodada. Àquela luz, o rosto de Julia parece de mármore, e seus lábios ganham bordas azuis.

“Bom, eram perguntas sobre nosso conhecimento político. A ideia era que trabalharíamos com altos níveis do governo, inclusive internacionalmente. Portanto, acho que, até aí, estavam corretos em aplicar o exame.” Claro que estavam. É prática comum no Ocidente também. Só estou ultrassensível.

Eu me levanto e encontro algumas velas pequenas no guarda- louça, o que me permite desligar a luz fluorescente. Acendo as velas, nesgas de luz, por toda a cozinha — em cima da pia, sobre a mesa e no parapeito da janela, atrás de Julia.

“Não tenho certeza nenhuma de que tenham arranjado para que eu fosse reprovada”, ela afirma. “Eram muitos candidatos, e tenho de admitir que fiz muita besteira naquele exame.” Julia conta que não sabia as respostas. “Não é que eu tenha dado um fora qualquer: cometi erros crassos mesmo, em coisas muito importantes.” E começa a rir outra vez.

Julia não foi capaz, por exemplo, de dar os nomes dos partidos políticos da RDA. Havia outros além do Partido Socialista Unitário, mas eram partidos apenas no nome, e esses nomes eram muito parecidos com os dos partidos políticos reais da Alemanha Ocidental: democratas cristãos, liberais e assim por diante. “Morri de medo de errar. Se eu pusesse o nome de um partido ocidental, eles poderiam me reprovar.” Ela dá um tapinha no linóleo solto da mesa. O que estavam pedindo a Julia era que ela reproduzisse seu conhecimento do catecismo comunista, sua crença em coisas difíceis de lembrar, porque não eram reais.

Divulgado o resultado, um ex-aluno de Dieter veio lhe falar. Sua esposa e seu sogro integravam a banca examinadora. “Cá entre nós”, confidenciou a Dieter, “não faz sentido ela tentar de novo no ano que vem. Sugiro enfaticamente ao senhor que ela procure outra coisa para fazer. Que procure um emprego.”

“Como o diretor, talvez ele estivesse me fazendo um favor ”, Julia conjectura. “Me poupando do trabalho de me candidatar outra vez.” Ela começa a não olhar para mim, concentrando sua atenção no canto escuro da cozinha. “Mas o estranho”, acrescenta vagarosamente, “foi que, depois disso, eu simplesmente não conseguia arranjar um emprego. Qualquer emprego...” Julia remexe no cachecol enrolado em torno do pescoço. “Foi aí que as coisas ficaram difíceis para mim.”

Julia achou que conseguiria emprego como recepcionista num hotel de grande porte. Desse modo, poderia praticar as línguas estrangeiras. Tentou Berlim, Leipzig, Dresden. Era uma excelente aluna que falava inglês, russo, francês e um pouco de húngaro. Sempre conseguia uma entrevista. Apresentava-se bem vestida e recebia cumprimentos da gerência. Os gerentes, sem exceção, ficavam animados e impressionados com ela. Encaminhavam-na para o exame médico de rotina com um caloroso aperto de mãos, ansiosos por vê-la de volta o mais rápido possível.

Às vezes, chegava uma carta pelo correio uma semana depois. “Lamentamos informá-la de que a vaga foi preenchida. Agradecemos o interesse...” Outras vezes, ela própria ligava para o hotel, e lhe diziam que faltara muito pouco para que conseguisse o emprego. E outras vezes ainda ela não obtinha resposta nenhuma. Por fim, parou de ligar para ouvir sempre as mesmas desculpas embaraçosas. Tentou arrumar emprego como garçonete, e tampouco obteve êxito. Hoje, ela imagina que todos os hotéis e restaurantes eram obrigados a verificar os nomes dos novos empregados com a Stasi.

As opções estavam se esgotando. Julia matriculou-se num curso noturno para obter um certificado de Stadtbilderklarerin (ou seja, “elucidadora da paisagem urbana”).

“Certificado de quê?” Nunca tinha ouvido aquela palavra. Julia me explica que ela significa uma espécie de “guia de turismo”, mas que na RDA a palavra “guia”, ou “líder ” — Führer—, foi proibida pós-Hitler, der Führer. Como a palavra Führer também significa “condutor ”, não havia mais “condutores de trem”, que passaram a ser conhecidos por Lokkapitäne, ou “capitães de locomotiva”; também desapareceram as “carteiras de motorista ou condutor ”, substituídas pelas Fahrerlaubnis, ou “permissões para dirigir ”. Como “elucidadora da paisagem urbana”, ela poderia ganhar uns trocados. Não dava para viver desse dinheiro.

Julia foi, então, à repartição que intermediava os empregos, pegou uma senha e entrou na fila interminável. Estava entre pessoas que talvez tivessem passado por experiências semelhantes às dela, explicáveis ou não. Voltou-se para o homem atrás dela e perguntou: “Há quanto tempo você está desempregado?”.

Antes que ele pudesse responder, uma funcionária — uniformizada e retangular — saiu de trás de uma coluna.

“A senhorita não está desempregada!”, a mulher vociferou.

“É claro que estou”, respondeu Julia. “Por que outro motivo estaria aqui?”

“Este é um escritório de intermediação de emprego, e não de desemprego. A senhorita não está desempregada: está à procura de emprego.”

Julia não se deixou intimidar. “Estou à procura de emprego”, disse, “porque estou desempregada.”

A funcionária começou a gritar tão alto que as pessoas na fila foram se agachando. “Eu já disse que você não está desempregada! Está procurando emprego!” Depois, quase histérica, acrescentou: “Não existe desemprego na República Democrática da Alemanha!”.

Na cabeça, vou juntando as ficções da RDA: a exclusão de der Führer não apenas da história, mas também da própria língua; a “realidade” do noticiário televisivo; e, ao contrário do que Julia experimentava, a inexistência de desemprego. Sem que tivesse feito nada de errado, Julia tinha caído no buraco que separava as ficções da RDA da realidade do país. Ela já não concordava com a ficção. E, leal e talentosa como era, estava sendo excluída da realidade.

Das duas uma: ou Julia pensava que tinha falhado em tudo que tentara ou que a estavam perseguindo. Podia também tentar não pensar em nada. “É verdade que, depois disso, eu meio que fui me afastando das coisas.” Acordava cada vez mais tarde. “Acho que estava deprimida.” Matriculou-se em outro curso noturno — espanhol dessa vez —, mas, para ela, aprender uma língua estrangeira era cada vez mais como aprender um código secreto utilizado fora de sua caverna, falado em lugares que jamais visitaria. Depois da aula, ela ia “quase toda noite” ao clube noturno das redondezas. “Meus pais largaram mão. Não tinham mais o que fazer. Acho que sentiam pena de mim.”

Foi nessa época que a irmã mais nova, Katrin, notou o carro. Era branco. Já o havia observado três dias seguidos diante de casa quando resolveu falar alguma coisa. Julia não tinha visto. “Como eu disse”, ela olha para mim, “sabia que aquele carro estava atrás de mim.”

Sabia também que seguir em frente com sua vida significava deixar aquela vida para trás. Ia ter de se casar com o namorado italiano e ir embora dali. A ideia a assustava. “Era também parte do que me atraía naquilo — o fato de que eu ficaria totalmente dependente, na casa dele, no país dele, na língua dele. À mercê dele, enfim.”

Julia foi encontrá-lo nas férias na Hungria. No aeroporto, puseram-na de lado e revistaram sua bagagem. Desaparafusaram o secador de cabelos e esvaziaram os pacotes de absorventes sobre a mesa. Na Hungria, ela disse a ele que estava tudo terminado. “Ele era tão controlador, tão ciumento.” Agora, Julia se afastara dele também, enfiou-se dentro de casa, afastando-se de toda e qualquer esperança. Aquilo era mais do que “emigração interior ”. Era exílio.