Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 32 de 36

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Stasilândia

27. Quebra-cabeças

 

Pego o trem para Nuremberg. Ao chegar, tomo um café em pé no bar da estação. Atrás do balcão, serve-me uma mulher jovem e bonita, usando uma touca de lanchonete fast-food. O homem a meu lado pede Riesenbockwurst. A garçonete pega primeiro a salada de batata e o pão; depois, a salsicha cozida. “Mostarda ou ketchup?” Ela segura o prato de papel no alto, aguardando pela resposta; a mão livre busca o ponto acima do balcão onde normalmente ficariam as duas garrafas, com a boca para cima. Em vez disso, pendem dali duas tetas amarelas gigantes. A garçonete faz um movimento rápido e preciso, espremendo e girando uma das tetas para ordenhar a mostarda.

Quando comprava minha passagem, lembrei-me de Uwe, Scheller e da nossa antiga conversa sobre as mulheres dos quebra- cabeças. Liguei para Uwe na estação de TV, para pôr a conversa em dia e dizer a ele que eu fechara um ciclo. Um ex-colega atendeu o telefone. Disse que Uwe tinha sido promovido a correspondente itinerante nos Estados Unidos, e que ele, Frederica e o filhinho, Lucas, estavam agora felizes e aconchegados em Washington. Pedi ao colega que retransmitisse meus melhores votos.

 

O escritório da Administração dos Arquivos da Stasi, que abriga as mulheres dos quebra-cabeças, localiza-se em Zirndorf, uma cidadezinha nos arredores de Nuremberg. O escritório fica no mesmo complexo murado onde são mantidas as pessoas em busca de asilo. Dois etíopes, ou talvez eritreus, com seus tristes rostos bíblicos e braços sem rumo, caminham pela área externa ao prédio.

O diretor, Herr Raillard, me recebe na entrada do edifício, e subimos até seu escritório. O prédio é um edifício administrativo simples, cheirando a chão encerado e papelão úmido. Herr Raillard é um homem de constituição compacta, cabelos brancos e lisos até os ombros e óculos pequenos. É um arquivista.

Estou nervosa feito um gato, com uma pressa inexplicável. Faz muito tempo que venho pensando nesse lugar como o foco das esperanças de Miriam. Quero que haja bancos de aço inoxidável, gente usando redinha nos cabelos e luvas brancas de tecido. Quero guardas de segurança nas entradas e câmeras nas salas de trabalho. Quero que as páginas completas dos quebra-cabeças sejam digitalizadas por computadores e relacionadas aos arquivos correspondentes, e quero também que as pessoas afetadas sejam chamadas por funcionários sensíveis e treinados, para que eles possam informar a elas sobre os novos vínculos em suas vidas.

Quero que descubram o que aconteceu a Charlie Weber.

Tenho certeza de que Herr Raillard tem coisas a fazer, mas a mesa dele não está entulhada e ele me dá a impressão de ter cancelado sua agenda para nosso encontro de hoje. É um homem quieto e despretensioso, que fez carreira nos arquivos da Alemanha Ocidental, em Koblenz, e anseia agora pela aposentadoria. “Sim”, diz ele, “faço sessenta e três em breve.” É como se dissesse: “Vou cair fora daqui”.

Ele me conta que seu trabalho começou em 1995, depois de os sacos e sacos de material terem circulado à toa por Berlim durante cinco anos. Quinze mil sacos foram encontrados na Normannenstrasse em janeiro de 1990. Continham arquivos picotados por máquinas ou rasgados manualmente, fichas e fotos, assim como fitas e filmes desenrolados.

Herr Raillard agendou para mim um café com alguns dos funcionários. Estou ansiosa para encontrar as pessoas que trabalham nos quebra-cabeças. Pergunto quantos são e se são mesmo só mulheres, como ouvi dizer. “Ah, não”, ele me diz, “mas provavelmente há mais mulheres do que homens.” Cauteloso e preciso, ele pede à secretária para verificar os números exatos. Ela volta com uma notinha: dezoito mulheres, treze homens.

Primeiro, seguimos pelo hall até as salas de trabalho. No caminho, ele relata que tem havido alguma controvérsia, porque as vítimas querem maior rapidez no trabalho que é feito ali. Existe um programa de computador que poderia acelerar o processo: ele é capaz de juntar as peças com grande rapidez, baseado numa imagem escaneada da forma exata da borda rasgada. Mas, para efeito de prova legal, explica Herr Raillard, os documentos reconstituídos por computador não são considerados originais. Isso não faz muito sentido para mim, uma vez que, em geral, as pessoas não vão até ali com o propósito de abrir um processo legal: querem apenas saber o que aconteceu em suas vidas. “E custaria muito dinheiro também”, ele acrescenta. Essa, sim, é a provável razão pela qual o programa não é empregado.

A porta se abre para um escritório comum; meus olhos registram plantas em vasos, tinta velha nas paredes e um pôster de gatinhos de olhos vidrados enroscados num novelo de lã. Vejo uma grande mesa com uma cadeira vazia atrás dela. “Deve estar fazendo seu intervalo”, diz Herr Raillard, apontando na direção da cadeira. Mas não estou prestando atenção ao que ele diz. A janela está bem aberta, uma cortina branca balança ao vento, e eu estou em pânico, o coração subindo pela garganta, porque há montanhas de pedacinhos de papel sobre a mesa — alguns organizados em pilhas, mas outros esparramados por toda parte. É tanto papel picado que a mesa não é suficiente, e o funcionário começou a empilhar os pedaços sobre um gabinete também. Os pedaços são de tamanhos diferentes, desde um quinto de uma folha A4 até papeizinhos de dois ou três centímetros quadrados. E não há nada que os impeça de sair voando pela sala e pela janela afora.

Herr Raillard interpreta mal a expressão em meu rosto. “Sim, é bastante trabalho, como a senhora pode ver ”, ele diz.

A sala seguinte é parecida. O funcionário, também no horário do intervalo, parece estar primeiramente triando o material dos sacos e depositando-o em caixas de papelão, para depois espalhá-lo pela mesa. De uma fotografia rasgada no interior de uma das caixas, um olho feminino me observa; sobre a mesa, passo os olhos pelo nome do escritor Lutz Rathenow num retalho de papel. Há um rolo grudento de fita adesiva perto da cadeira, e uma página parcialmente completa logo à frente: um canto e a margem esquerda.

Na próxima sala, os pedacinhos são ainda menores. “É um trabalho minucioso”, diz Herr Raillard, “o maior número de pedaços em uma página que tivemos até agora foi de 98.” O funcionário dessa sala está próximo de completar um maço de páginas que repousa numa pasta aberta de papelão. As páginas estão todas lá, empilhadas umas sobre as outras, a não ser por um ou mais pedaços faltantes no meio, compondo um buraco bem-feito. “É preciso força bruta para rasgar toda essa quantidade de páginas de uma vez só.” Herr Raillard balança a cabeça. “O homem da Stasi que fez isso mal terá conseguido mover um dedo no dia seguinte.”

A caminho do encontro com os funcionários, pergunto a Herr Raillard sobre a segurança. Ele me diz que todos os que trabalham ali, inclusive o pessoal da limpeza, passam por uma verificação, para saber se não tiveram nenhuma ligação com a Stasi no passado, embora sejam todos alemães ocidentais. Diz também que seus funcionários são advertidos para não comentar com ninguém sobre o conteúdo dos arquivos que reconstituíram. Às vezes é necessário enfatizar esse ponto. “Se encontram, por exemplo, o arquivo referente a um político importante da Alemanha Ocidental, então eu vou falar com o funcionário em questão, converso com ele e lembro que ele não deve mencionar isso a ninguém”, diz. Pergunto sobre vigilância eletrônica das salas, porque imagino que haja gente lá fora disposta a pagar um alto preço para impedir que certas informações venham à luz. “Não, não”, diz Herr Raillard, “às vezes duas pessoas dividem uma sala. Mas isso é mais para aliviar o tédio do que para qualquer outra coisa. E eu me certifico de ter ligado o alarme quando vou embora, no fim da tarde.” Não era o que eu esperava ouvir. É cordial, pequeno, discreto. Alguma coisa entre um sítio para o lazer dos fãs de quebra-cabeças e uma oficina protegida para obsessivos.

Herr Raillard me apresenta e sai. São três mulheres e dois homens sentados a uma mesa sobre a qual há suco de fruta, bolachas e uma garrafa térmica de café. Deixaram para mim o lugar à cabeceira. As duas mulheres à minha direita são roliças, usam maquiagem e estão na meia-idade. À minha esquerda, uma jovem de sardas e cabelos escuros na altura dos ombros. Ao lado dela, um homem baixinho de cabelos castanhos e óculos, e, a seguir, um grandalhão de aspecto gentil, cabelos claros e olhos bem azuis. Pergunto a todos como eles realizam seu trabalho cotidiano.

A mulher de meia-idade sentada mais distante de mim responde: “É como um daqueles quebra-cabeças que a gente monta em casa, começando pelas quinas e completando o resto com base no formato das bordas. O tipo de papel e o formato da letra ou da caligrafia nos dão dicas também, e assim por diante”.

“A senhora monta quebra-cabeças em casa?”, eu pergunto.

“Monto, sim”, ela diz, “devo ser louca.” Todos riem.

A outra mulher, ao lado da primeira, começou a trabalhar ali faz apenas dois meses. Suas unhas estão esmaltadas e ela exibe uma fenda entre os dois dentes da frente. “Abriram um saco para me mostrar, eu vi os pedacinhos minúsculos de papel e pensei comigo: Ah, meu Deus, não vou conseguir fazer isso.” Os sacos têm mais de um metro de altura e o diâmetro de uma pessoa. “Mas cada um é diferente”, ela diz, “e, de fato, eles têm coisas muito interessantes.”

O homem de cabelos castanhos parece ser o mais antigo de casa. Tem olhos fundos e uma voz calma. Quando ele fala, os outros prestam atenção. “Às vezes”, diz ele, “a satisfação está em saber que, quando as pessoas descobrem o que aconteceu com elas, isso lhes dá alguma paz — por que perderam seu posto na universidade, o que aconteceu com o tio desaparecido e coisas assim. Ganham uma nova percepção da própria vida.”

Os outros servem o café e vão passando o leite longa-vida de mão em mão. Penso no que seria saber mais sobre mim por meio de um arquivo. Acho que acabaria vendo meu próprio passado como uma paisagem pela qual viajei sem notar as placas.

“Eu penso que, no fim”, diz o homem de cabelos loiros, “a Stasi tinha tanta informação que via todo mundo como inimigo, porque todos estavam sob observação. Acho que não sabiam dizer se as pessoas eram a favor deles, contra ou se estavam simplesmente fechando a boca.” Ele é tímido e, ao falar, olha para as mãos, que se fecham em torno da caneca de café. “Quando encontro um arquivo de uma família cuja sala de estar esteve sob vigilância durante vinte anos, eu me pergunto: que tipo de gente quer toda essa informação para si?”

“Vocês se comovem, às vezes, com o que encontram?”, eu pergunto.

A jovem mulher responde: “Quando encontro cartas de amor, penso comigo, Deus do céu, eles abriam tudo mesmo, e por quantas mãos essas cartas passaram? Quantas cópias foram feitas? Detestaria que isso acontecesse comigo. Nem me sinto bem de ler essas cartas eu mesma, depois de juntar os pedaços”.

O homem de cabelos castanhos afirma que o mais chocante para ele era o modo como a Stasi usava as aflições das pessoas contra elas próprias. “Quando estavam presas, por exemplo, e eles ofereciam liberdade a elas, contanto que espionassem para a Stasi.” Lembro-me do pai de Koch, tendo de mudar de partido político para não ser enviado para um campo russo, ou de Frau Paul, que podia ter servido de isca na captura de um alemão ocidental, ou mesmo de Julia, aprisionada em seu próprio país e recebendo uma oferta de liberdade, mas apenas se fornecesse informação sobre as pessoas em sua vida. Penso nas gerações de tragédias que os alemães vêm infligindo a si próprios.

“Mas a questão aqui não são os indivíduos”, prossegue o homem de cabelos castanhos, “e sim um sistema que manipulou as pessoas de tal forma a fazer com que elas agissem assim. Isso mostra como as pessoas podem ser usadas umas contra as outras. Eu reluto em condenar essa gente, porque a própria Stasi era manipulada, seus homens também precisavam de um emprego.” Os outros assentem com a cabeça. “Por outro lado”, diz ele, “houve um punhado de gente que simplesmente disse não. Nem todo mundo pode ser comprado.” Ele conta de um engenheiro que se recusou a ser informante. “E não aconteceu nada com ele. Apenas encerraram seu arquivo.”

Vem-me à lembrança a história da operária que, depois de abordada pela Stasi, anunciou em voz alta no refeitório, no dia seguinte: “Imaginem só! Vocês não vão acreditar, mas eles me acham tão confiável que me pediram para ser informante!” Arruinado o anonimato, deixaram-na em paz.

A jovem diz: “Eu acho que havia certas vantagens do lado de lá que a gente esquece, sobretudo para as mães e seus filhos. Sou mãe solteira e sei do que estou falando. Precisei trabalhar e foi difícil encontrar uma escolinha. Tenho uma amiga que vivia na RDA e ela diz que não trocaria aquilo por nada...”

“E os aluguéis eram mais baixos”, completa a mulher à minha direita, com a fenda entre os dentes.

“As escolinhas existiam”, diz o de cabelos castanhos, “porque eles queriam controlar as crianças desde cedo e educá-las na lealdade ao Estado.”

“Claro”, diz a jovem mãe, “mas, para mim, tudo se tornou de uma clareza cruel logo depois que o muro caiu. Encontrei um casal na rua que tinha acabado de chegar da RDA e não tinha dinheiro nem para onde ir, então eu disse a eles que podiam ficar na minha casa. Passaram um fim de semana comigo, e eu mostrei a eles a vizinhança. Fomos a uma loja de departamentos, a Karstadt, dar uma olhada na seção de alimentos. Eles ficaram malucos. 'Quantos tipos de ketchup vocês têm?', perguntaram, olhando as prateleiras. E eu pensei comigo que é muita coisa mesmo, que tem de haver um meio-termo. A gente precisa mesmo de trinta tipos diferentes de presunto e de quinze marcas de ketchup?”

“O erro da RDA foi forçar as pessoas a tomar uma única posição”, diz o homem de cabelos castanhos: “Ou você está do nosso lado ou é um inimigo. E, caso você se visse de fato como inimigo, tinha de se perguntar: o que é que eu estou fazendo aqui? Eles queriam encaixar tudo naquele esqueminha estreito deles, mas a vida simplesmente não cabia ali”. Ele faz uma pausa, e os demais aguardam a conclusão. “Acho que a gente precisa se lembrar de que eles vinham para cá em busca de liberdade, e não das quinze marcas de ketchup.”

Herr Raillard me acompanha até a saída. Confiro com ele as consequências para quem fosse abordado pela Stasi e contasse o fato a outras pessoas ou se recusasse a cooperar. “Na verdade, não havia consequência nenhuma”, ele diz. “Esse é o ponto. Só encerravam o arquivo da pessoa e marcavam um dekonspiriert nele. Mas, claro”, acrescenta, “ninguém tinha como saber à época que nada lhe aconteceria. Por isso, quase ninguém se recusava a cooperar.”

Chegamos à porta. Herr Raillard diz: “Tenho uma coisa aqui que preciso entregar à senhora”. Sem dizer mais nada, ele me passa uma cópia de uma folha de papel com alguns escritos. É a cópia de um memorando que ele escreveu:

Administração dos Arquivos da Stasi — Grupo de Reconstrução

Tempo necessário à reconstrução:

1 funcionário reconstrói em média 10 páginas por dia.

40 funcionários reconstroem em média 400 páginas por dia.

40 funcionários reconstroem em média 100 mil páginas por ano de 250 dias de trabalho.

Cada saco contém em média 2500 páginas.

100 mil páginas correspondem a 40 sacos por ano.

No total, a Administração dos Arquivos da Stasi abriga 15 mil sacos.

Isso significa que, para a reconstrução completa dos documentos, seriam necessários 40 funcionários e 375 anos.

Eu perco a fala. Só posso entender aquilo como um pequeno protesto. Herr Raillard aponta para o papel e diz: “Estes números são para quarenta funcionários. Como a senhora pôde ver, dispomos de apenas 31”. Ele está me dizendo, à sua maneira calada, que os recursos que a Alemanha unificada está empregando nessa parte da reconstrução das vidas dos ex-cidadãos da Alemanha Oriental são ridículos, uma espécie de piada de Sísifo. Na prática, aquilo que ele administra ali não passa de um ato simbólico.

Herr Raillard arranjou um motorista para me levar de Zirndorf a Nuremberg. O sol brilha no dia de céu limpo e azul. Longe dos refugiados em busca de asilo e dos pedaços de papel, tudo é claridade e alegria.

Olho pela janela, pensando em Miriam e em suas esperanças de que os pedaços rasgados de sua vida venham a ser reunidos na brisa fresca daquelas salas em algum momento dos próximos 375 anos.