Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 23 de 36

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Stasilândia

18. A placa

 

Heinz Koch morreu em 1985. Sua irmã, que morava em Hamburgo, na Alemanha Ocidental, recebeu permissão para ir ao funeral. Devido à presença dela, proibiram Hagen de ir ao enterro do pai. Foi a gota d’água.

Ele solicitou dispensa de seu regimento. Queria tornar aquilo um pequeno enfrentamento final, um pequeno gesto de “vão tomar no...”, num momento em que nada mais podia acontecer a seu pai e em que ele próprio já não tinha muito a perder. Mas era apenas uma transferência, da Stasi para o Exército normal, sob a condição de que os segredos da Stasi seriam mantidos. Iam deixá-lo sair, e isso fez com que ele sentisse um vazio por dentro.

Sentou-se em seu escritório. Há momentos estranhos em que o presente já parece pertencer ao passado — o último dia de trabalho, por exemplo, quando os problemas e a política tornam-se uma história contada em terceira pessoa. Koch contemplou seu escritório como se ele pertencesse a outro.

Tudo que havia na sala deveria permanecer ali. Seu substituto chegaria, e ninguém notaria a diferença. Koch era intercambiável com qualquer outro sujeito de uniforme e cabelo escovinha. Irritava-o saber que não deixaria marca nenhuma, e mais ainda que, se lhe devolvessem o passado, ele provavelmente não teria coragem de fazer diferente.

A parede defronte tinha um brilho adoentado de pintura velha, assim como a placa pendurada nela. Era um prêmio pelo trabalho cultural realizado por sua unidade: terceiro lugar. Reluzia como ouro, mas era de plástico revestido com tinta metálica, como um brinquedo barato. Não era algo que ele pudesse dizer que havia ganhado sozinho. Ainda assim, Koch fechou a porta do escritório, subiu na cadeira e retirou a placa da parede. Ficou surpreso ao perceber como era leve. Com ela dentro, sua maleta não fechava. Ele tirou o colete, dobrou-o sobre a maleta e carregou- a pelas alças. Saiu do escritório, despediu-se do assistente e nunca mais voltou.

“Minha pequena vingança pessoal”, diz ele. “Levar aquela placa”, ele olha bem para mim, “era tudo que eu podia fazer com minha coragem.”

Três semanas depois, bateram à porta do seu apartamento. O chefe do ex-departamento de Koch estava no corredor. Ainda se comportava como um colega. “A placa sumiu.”

“O quê?”

“Você me ouviu: a placa sumiu. O comandante quer a placa de volta.”

“Não me diga”, respondeu Koch, encostando-se à porta aberta. “É só eu sair e aquilo começa a desmoronar. Enquanto eu estive sentado naquela cadeira, a placa esteve na parede.”

“Ora, vamos lá, Koch. Ela não pode ter simplesmente desaparecido. Nada desaparece assim no Ministério para a Segurança do Estado!”

“Eu lamento não poder ajudar ”, disse Koch, fechando a porta.

O comandante nomeou um “Grupo de Trabalho para a Recuperação da Placa”. Koch foi convocado ao quartel-general para entrevistas e exigiram que ele prestasse depoimento. A placa, ele a escondera na cozinha.

Pouco tempo depois, enviaram gente mais graúda. O promotor foi visitá-lo. “Onde está a placa?”

“Eu não sei.”

“Vou precisar de uma declaração escrita e juramentada a esse respeito.”

“Por mim, tudo bem.”

Nada mais aconteceu. Veio 1989, o muro caiu, e Koch começou a montar seu próprio arquivo. Retirou a placa de detrás do sifão da pia e pendurou-a em seu escritório. Agora, era um troféu de verdade.

Em 1993, uma equipe de televisão foi entrevistá-lo. A Alemanha havia sido reunificada, e a RDA era um lugar do passado. O entrevistador comunicou-lhe quais seriam as perguntas, antes de começarem a gravar, para que Koch pudesse se preparar. Mas ele já estava preparado, porque eram as perguntas de sempre. O senhor se arrepende do tempo que passou na Stasi? Qual a sua ligação com o muro? Foi isso que fez com que o senhor abrisse esse ‘Arquivo do Muro’?”

Koch já podia ver a chamada: “Homem da Stasi mantém o muro vivo em casa...” Pensou consigo mesmo como era fácil para um entrevistador assumir ares de superioridade, simplesmente pelo fato de ser quem faz as perguntas. Mesmo na nova Alemanha as perguntas não eram sobre como o regime se apoderava das pessoas, nem as respostas de Koch seriam respostas de fato. Zeloso, ele contaria a história de como fora criado.

O entrevistador estava pronto para gravar, já dera até o sinal, quando o câmera gritou: “Parem!”. A equipe relaxou os ombros.

“O que foi?” perguntou o entrevistador.

“Aquela placa tem de sair dali. Está dando reflexo na lente.”

O entrevistador fez sinal para que um auxiliar desse a volta em Koch e retirasse a placa, mas Koch se levantou. Ele me conta como um momento de glória. “Não!” disse. A sala ficou em silêncio. “Pouco me importa o que vocês me peçam”, prosseguiu ele, falando devagar. “Faço o que vocês me pedirem, viro este apartamento de cabeça para baixo, canto até o hino nacional, se vocês quiserem. Mas a-que-la pla-ca fi-ca on-de es-tá.”

O entrevistador ficou atônito. Ali estava um homem que tinha trabalhado para a Firma durante 25 anos e que agora tinha a cara de pau de viver disso — um sem-vergonha de um contorcionista moral requentando suas capitulações diante das câmeras. E seu limite era aquela placa?

Koch permaneceu de pé. “A placa”, repetiu ele, “fica onde está.”

“Tudo bem, tudo bem.”

Ele se sentou. O entrevistador sabia quando ficar calado. Koch começou a contar a história toda: falou do furto, da nomeação do “Grupo de Trabalho para a Recuperação da Placa”, dos interrogatórios e depoimentos, das ameaças e do rebuliço geral. Koch afirma que não sabia que a câmera estava gravando. Mas, a julgar pelo modo como o diz, não se importou que estivesse.

O programa foi finalizado e transmitido. Dias depois, tocaram a campainha do seu apartamento. Dois homens se identificaram com suas carteirinhas: Treuhand. A Treuhand foi a entidade formada após o colapso do regime para supervisionar a grande venda das empresas estatais da Alemanha Oriental para o setor privado. “Herr Koch, viemos buscar a placa”, disse um deles.

“ O quê?” Era já a Alemanha unificada, ocidentalizada, democrática e, ainda assim, alguém queria a placa.

“De acordo com o Tratado de Reunificação, firmado entre a República Federal da Alemanha e a ex-República Democrática da Alemanha, toda propriedade pertencente a essa última cabe, de direito, à primeira. Aquela placa era propriedade legítima da RDA e é agora propriedade da República Federal da Alemanha. Fomos encarregados de resgatá-la.”

“Caiam fora!”

“Estamos dispostos a fechar os olhos para a maneira como o senhor se apossou da placa, Herr Koch, contanto que o senhor a devolva imediatamente.”

Koch estava furioso. “Saiam do meu apartamento. Se querem a placa, consigam um mandado. Sem ele, vocês não entram aqui. Ninguém vai levar a placa.”

E foi assim que a ordem chegou pelo correio. Um processo criminal foi aberto. O indiciamento acusava Koch de furto de propriedade da RDA. Ainda assim, ele nada fez.

Não muito tempo depois, vieram bater de novo à sua porta. Eram os mesmos dois homens. “Com licença, Herr Koch, tenho o prazer de informar ao senhor que a acusação de furto foi retirada.”

“Ã-hã.”

“Primeiramente, em virtude da trivialidade: a placa valia apenas dezesseis marcos orientais. Em segundo lugar, porque o crime prescreveu: as alegações dizem respeito a um ato ocorrido oito anos atrás.”

Koch olha bem para mim.

“No entanto”, diz o funcionário, “novas medidas foram tomadas contra o senhor.”

“Hã?”

“Sob a acusação de perjúrio.”

“Ora, sumam daqui.”

O funcionário segurou a porta com o pé. “Eu lamento, Herr Koch, mas a alegação é que, em 14 de junho de 1985, o senhor jurou em declaração escrita ao Ministério para a Segurança do Estado da ex-República Democrática da Alemanha que desconhecia o paradeiro da referida placa. Trata-se de uma infração à lei então em vigor na RDA, e é responsabilidade da nova Alemanha assegurar o julgamento de crimes ocorridos na ex-RDA.”

A essa altura, estou rindo. Koch prossegue.

“Eu disse: ‘Parabéns. Ótimo. Muito bem! Mas será que vocês poderiam se decidir? Querem me punir porque trabalhei para a Firma ou porque trabalhei contra ela? O que vocês querem, afinal??’” Agora, Koch também está rindo. Esse é, sem dúvida, o seu momento. O homem que traçou a linha, que se sentou na cerca, demanda alguma retidão do entulho pós-muro.

“E o julgamento aconteceu?” pergunto.

“Não. Mas essas acusações todas fizeram um bom estrago. Minha esposa perdeu o emprego por causa delas. A boataria foi pesada e ganhou vida própria. Sabe como é: Koch é um ladrão, um mentiroso, cometeu perjúrio.” Ele faz uma pausa e se inclina em minha direção. De novo posso sentir seu cheiro, quente, de pinho. Ele diz: “A senhora sabe, valeu a pena mesmo assim. Toda a minha coragem está naquela placa. Toda a merdinha de coragem que eu tive. Está tudo ali. Aquela placa”, conclui, “fica onde está”.

 

Bip. “Oi, Miriam, é a Anna.” Mantenho a animação na minha voz. “Pensei em ligar só pra dar um alô. Adoraria pôr a conversa em dia. Tenho tido umas aventuras estranhas no seu antigo país! Cada vez mais curiosas. Tenho um monte de coisas para te contar. Bom, eu ligo de novo, ou então me liga.” Deixo meu número de telefone. “A gente se vê.”

Herr Koch deu-me alguns diagramas da Stasi e fotografias das “instalações fronteiriças” na Bornholmer Strasse. “ Top secret!”, exclamou ele, radiante, enquanto me fazia cópias delas na máquina do corredor.

Um ou dois dias depois, elas estão enroladas no meu bolso quando me ponho a caminho do ponto que Miriam escalou. Tenho comigo também o desenho que ela fez; o lugar onde ela foi pega está marcado com um talho de tinta azul. Quero ver como as coisas devem ter parecido a ela então. Quero comparar as fotos com o que existe agora, como se na tentativa de pôr o passado em alguma espécie de foco.

O dia está abafado. As pessoas mantêm seus aquecedores ligados há semanas, sem parar. As nuvens estão baixas, tingidas de poeira de carvão. Respiro um pouco do céu alaranjado enquanto caminho.

A primeira coisa que vejo são os jardinzinhos. Uma trilha atravessa os lotes, cada um deles separado do vizinho por uma cerca de arame trançado. Nos lotes, há pequenas cabanas, para guardar os instrumentos de jardinagem e as sementes, as churrasqueiras, as cadeiras de armar e as escadas de mão. Há também umas poucas árvores maiores, mas o grosso é composto de terra preta encharcada disposta em retângulos, à espera de uma lambida do sol para produzir verduras e flores. Alguns dos lotes são um cercado para fantasias contidas. Num deles, encontro Branca de Neve e seus anões, duas corças e dois corpulentos gnomos, todos convivendo pacificamente com uma porca quase em tamanho real e três gordos porquinhos.

Entre os jardinzinhos e o lugar onde ficava o muro há uma faixa mais ampla de grama e, depois dela, um aterro. Subo em outra cerca de arame trançado e olho para o emaranhado de linhas férreas e pequenos muros. A cerca é velha e está enferrujada. Eu me pergunto se é a mesma em que Miriam subiu. À minha esquerda, está a ponte de onde ela pensou que os guardas a estavam observando e por onde, vinte anos depois, 10 mil pessoas se acotovelaram numa única noite para passar para o Ocidente.

Seguro uma foto em preto-e-branco numa mão e o diagrama da Stasi na outra: “Melhorias Técnicas na Fronteira Nacional com Berlim (Ocidental)”. Quero ver onde ficavam a segunda cerca, a faixa de areia, as guaritas, as torres de luz, o cabo para o cachorro e os fios próximos ao chão. Já não estão ali. Depois, lembro-me de que eles ficavam defronte às linhas de trem — provavelmente na faixa de grama que atravessei entre os jardinzinhos e o lugar onde estou agora.

Pego o desenho de Miriam. São umas poucas linhas numa página, representando os muros, a dobra no muro onde ela parou para respirar e trocar olhares com o cachorro, o fio que a delatou. Minhas mãos estão azuis quando levanto o papel para junto dos losangos de arame enferrujado. Fico pensando se estou no lugar certo. Miriam disse que a ponte ficava a cerca de cem, 150 metros do lugar que ela atravessou. Caminho para a direita, até julgar que estou no ponto certo. Dois trens passam, os ritmos de suas rodas se fundem e tornam a se separar. Quando terminam de passar, olho para as linhas férreas. Há pelo menos seis, desviando os trens do norte para o sul e de volta. A seguir, um talude não muito alto, mas o solo adiante dele está em outro nível. Foi ali que ela subiu? Procuro por uma dobra e a encontro. Foi onde ela se agachou?

Começa a escurecer. As luzes na ponte irradiam seu brilho amarelo doentio. Enrolo a foto, o diagrama, o desenho de Miriam e enfio tudo no bolso. Atravesso as malhas de arame com os dedos e me penduro na cerca por alguns momentos.