Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 12 de 36

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Stasilândia

7. O cheiro dos velhos

 

Aqui, no quartel-general da Normannenstrasse, houve pânico. Os oficiais da Stasi foram instruídos a destruir os arquivos, a começar dos mais comprometedores — aqueles que nomeavam ocidentais a serviço da organização e aqueles relativos a mortes. Rasgaram em tiras todos os documentos, até que as fragmentadoras pifaram. À escassez habitual de produtos no Leste, veio se juntar a escassez de fragmentadoras, de tal modo que agentes foram enviados a Berlim Ocidental para comprar mais desses equipamentos. Somente no edifício de número 8, integrantes do movimento popular encontraram mais de uma centena de máquinas quebradas. Quando a Stasi já não conseguia encontrar mais fragmentadoras, seus funcionários começaram a destruir os arquivos com as mãos, rasgando-os e enfiando-os em sacos. Mas fizeram isso de forma tão organizada — gavetas inteiras de documentos enfiados num único e mesmo saco — que agora, em Nuremberg, as mulheres dos quebra-cabeças podem juntar os pedacinhos.

No dia 13 de novembro, Mielke, aos 81 anos, desesperou-se com o desaparecimento daquele seu mundo. Fez seu primeiro e único discurso ao Parlamento. A fala foi transmitida ao vivo. “Prezados camaradas”, começou ele, e começaram também as vaias. Gritos de “Não somos seus camaradas!” ecoaram dos partidos minoritários, recém-independentes. Então, como se simplesmente não pudesse compreender por que não gostavam dele, Mielke gaguejou ao microfone. “Eu amo...”, disse ele, “eu amo todos vocês. Me empenhei por vocês todos...” Quando se lembram de Mielke, é disso que os alemães orientais gostam de se lembrar. Talvez haja algo de redentor no ridículo. É, de todo modo, um alívio do terror e da raiva.

Em 3 de dezembro, além de Mielke, Krenz foi expulso do Partido. Hans Modrow, um político de Dresden, tornou-se o líder. Modrow decidiu trocar o nome do “Ministério para a Segurança do Estado” para “Serviço de Segurança Estatal” (Amt für Nationale Sicherheit), uma reforma puramente cosmética, que ainda por cima resultou no infeliz acrônimo “Nasi”. Não enganou ninguém.

O grupo de alemães ocidentais em visita ao edifício está mais tenso. Pararam as piadinhas trocadas em silêncio pelos homens, as esposas já não se entreolham. A guia pergunta se querem visitar o piso de cima, mas eles desconversam, fazem que não com a cabeça, alegando provável falta de tempo hoje.

“Bom, então”, ela diz, “vamos ao final da nossa história.” Com seu jeito mandão e retorcendo o nariz, não vai deixar que os ocidentais saiam até contar a eles como o povo tomou o prédio.

O que ela conta é que, em janeiro de 1990, quando os berlinenses viram a fumaça saindo das chaminés, vieram protestar. Trouxeram tijolos, pedras e construíram um muro simbólico ao redor do edifício, pretendendo fazer com que a Stasi parasse de queimar os arquivos. É extraordinário, diz ela, que, com todas aquelas pedras, nenhuma tenha sido atirada contra o prédio e que, por outro lado, nenhum tiro tenha sido disparado de dentro do edifício. “Havia um bocado de agentes da Stasi misturados aos manifestantes”, ela desdenha, “e talvez não tenham atirado por isso: medo de acertar um colega.” Por fim, depois de ter feito tudo que podia para sumir com os arquivos ou destruí-los, a Stasi abriu as portas para os manifestantes.

 

As denúncias contra Mielke tiveram início tão logo ele perdeu o poder — e como podia ser diferente, se seu povo tinha recebido treinamento de alto nível em se tratando de denunciar as pessoas? O escritório do promotor público de Berlim recebeu uma nota, na qual Mielke era acusado de utilizar dinheiro público na construção de propriedade privada para a prática da caça. Em janeiro de 1990, novos itens foram acrescentados ao indiciamento: suspeita de alta traição, participação na tentativa de burlar a Constituição, na medida em que Mielke, juntamente com Erich Honecker, instituiu um “sistema nacional de vigilância dos correios e das telecomunicações” e, além disso, “ao arrepio da lei”, privou pessoas da liberdade, trancafiando-as em regime de “prisão preventiva” por ocasião do quadragésimo aniversário da RDA.

Mielke foi submetido à prisão preventiva. Ao longo de 1990 e 1991, entrou e saiu de diversas prisões berlinenses, incluindo-se aí Hohenschönhausen, para onde ele tinha mandado a maioria de seus prisioneiros políticos. Mais acusações surgiram, dentre elas a do assassinato dos policiais em 1931.O julgamento teve início em 1992, mas quando terminou as únicas acusações ainda restantes diziam respeito aos assassinatos da Bülowplatz. Por sua participação neles, Mielke foi condenado a seis anos de prisão. A guia turística diz a seu rebanho: “Foi ridículo pegá-lo por aqueles crimes antigos”. Mas muitas pessoas acharam que, pelo menos, era alguma coisa. Por motivo de saúde, Mielke foi posto em liberdade em 1995 e hoje mora não muito longe do prédio da Stasi.

Honecker se saiu pior. No começo de 1990 foi preso por suspeita de corrupção e alta traição, mas acabou libertado. Em novembro do mesmo ano foi acusado de ter responsabilidade nas matanças ocorridas no muro, mas fugiu para Moscou, de onde declarou à imprensa que não se arrependia de nada e protestou contra a prisão de ex-colegas. Em julho de 1992 foi extraditado para Berlim para ser julgado, mas o julgamento foi suspenso em janeiro de 1993, em razão de um câncer terminal no fígado. Honecker e a esposa partiram para o Chile, onde ele morreu em maio de 1994.

Quando o Partido começou a perder o controle do país, passou a negociar com a Runden Tisch, a associação formada por ativistas alemães orientais dos direitos civis e por grupos da Igreja. Também ela, porém, estava coalhada de informantes da Stasi. Ainda assim, quando a Runden Tisch aprovou resolução em sua primeira reunião, em 7 de dezembro de 1989 — que exigia eleições livres e controle civil sobre a dissolução da Stasi —, a maioria dos informantes votou a favor. Ao que parece, com o intuito de se manter no anonimato, os informantes se sentiram compelidos a votar medidas que destruíam o próprio regime que os empregara.

De 1989 a outubro de 1990, um acaloradíssimo debate teve lugar na Alemanha acerca do que fazer com os arquivos da Stasi. Deveriam ser abertos ou queimados? Deveriam permanecer trancados por cinquenta anos e, somente então, abertos, quando as pessoas de que falavam estariam mortas ou, talvez, perdoadas. Quais eram os perigos de se saber a verdade? Ou os de ignorar o passado e, com isso, acabar fazendo tudo de novo, sob bandeiras, lenços e capacetes de outra cor?

Por fim, parte dos arquivos foi destruída, parte trancafiada e parte aberta. A Runden Tisch decidiu que o Hauptverwaltung Aufklärung (o braço internacional da Stasi) podia se dissolver por conta própria. No cofre, guardavam documentos demais relativos a muitos outros países, inclusive sobre o governo da Alemanha Ocidental, que abrigava, infiltrados, espiões da Stasi. Eram documentos muito perigosos.

Restaram, assim, os arquivos relativos aos cidadãos da própria RDA. Muitos alemães orientais, em particular os que haviam estado no poder ou atuado como informantes, foram contrários à sua abertura. O governo alemão ocidental foi da mesma opinião. Temeria ele constrangimentos decorrentes daquilo que os arquivos poderiam revelar — suas próprias ações, que deram suporte ao regime? Ou haveria um banho de sangue indiscriminado, com as pessoas vingando-se dos informantes?

Em agosto de 1990, o primeiro e único parlamento eleito da RDA aprovou uma lei garantindo aos cidadãos o direito de acesso à sua própria ficha na Stasi. Mas o governo da Alemanha Ocidental, no esboço que propôs do tratado de unificação dos dois países, determinou que a totalidade dos documentos seria entregue ao Arquivo Federal, em Koblenz, Alemanha Ocidental, onde, muito provavelmente, os arquivos seriam trancafiados.

Na RDA, as pessoas comuns ficaram horrorizadas. Temiam que toda aquela informação a seu respeito continuasse sendo utilizada, assim como temiam jamais saber de que maneira suas vidas tinham sido manipuladas pela Firma. Os protestos começaram. Em 4 de setembro de 1990, manifestantes ocuparam o saguão do quartel-general da Normannenstrasse e, uma semana depois, deram início a uma greve de fome. Os protestos tiveram êxito e cláusulas foram incluídas no tratado de unificação, a fim de regulamentar o acesso aos arquivos.

Em 3 de outubro de 1990, o dia da reunificação das duas Alemanhas e também o dia em que a RDA deixou de existir, o alemão oriental Joachim Gauck, um pastor, tomou posse como diretor da recém-constituída Administração dos Arquivos da Stasi. Foi por pouco, mas, por fim, a Alemanha acabou sendo o único país do bloco oriental a ter a coragem e a consciência de abrir ao povo seus arquivos sobre esse mesmo povo.

 

O grupo deixa o prédio, as pessoas já nem balbuciam entre si. Imagino que estejam com pressa de voltar a seu hotel de Berlim Ocidental, estilo internacional, que não irá lembrá-las de coisa alguma, e eu não as culpo por isso. A guia vem até mim e me pergunta qual meu interesse naquele lugar. Explico que, depois de ter ido à Runden Ecke, em Leipzig, quis ver o quartel-general da Stasi. Mas digo também que estou à procura tanto de gente que enfrentou o regime como daqueles que o representavam. “Nesse caso”, diz ela, “você precisa conhecer Frau Paul.” Eu a acompanho até seu escritório, uma salinha cheia de fichários, e ela me dá um número de telefone.

De volta ao saguão, tomo o caminho das escadas. No primeiro patamar, estojos de vidro exibem objetos que ocultavam gravadores e câmeras, com o intuito de documentar o “inimigo”. Há mais variedade aqui do que observei em Leipzig: um vaso de flores, um regador, um recipiente para transporte de combustível e uma porta de carro, todos ocultando câmeras de tamanhos variados. Há também uma garrafa térmica com um microfone na tampa, um casaco esportivo com uma câmera costurada no bolso da lapela e um aparato semelhante a uma antena de televisão, capaz de captar conversas a cinquenta metros de distância — em outro prédio, por exemplo, ou num carro parado no sinal fechado.

No patamar seguinte, passo por um busto negro de Marx num pedestal, quase um deus de cabelos ondulados. Um dos escritórios foi convertido numa espécie de sala dos troféus, contendo as quinquilharias da Stasi. Estão ali os emblemas de cada regimento, fitas e medalhas por serviços prestados e broches indicativos de precedência. Há miniaturas de vários tamanhos de Lênin com sua barba pontuda e uma longa fileira de punhos fechados de gesso, erguidos em prol do socialismo internacional. Troféus, vasos e canecas de cerveja com o compasso e o martelo da RDA estampados nelas também estão presentes. Um estojo contendo livros em miniatura relata vida e obra do camarada Erich Honecker, e tem também um retrato em formato de medalhão do próprio Mielke, ainda por cima em esmalte. Na parede, uma tapeçaria exibe em lã o triunvirato de perfil — Marx, Engels e Lênin —, ladeado por um lúgubre capacho feito a mão, ostentando o emblema da Stasi em acrílico vermelho, amarelo e preto. Os tapetes me fascinam. Demonstram, creio, o valor superior do trabalho sobre tudo o mais, em particular sobre a estética e a funcionalidade.

Uma sala menor se liga a essa. De início, imagino que contenha mais kitsch revolucionário, mas exibe apenas páginas de livros e medalhas protegidas por vidro. Na verdade, parecem ser documentos. Assim que os leio, porém, entendo por que merecem uma sala só para si. São os planos da Stasi de 1985, visando a invasão de Berlim Ocidental com o auxílio do Exército.

Os planos são metódicos. Incluem a divisão do “novo território” em escritórios regionais da Stasi, bem como números determinando a quantidade exata de agentes a serem designados para cada um deles. E há também uma medalha, confeccionada em bronze, prata e ouro por ordem de Honecker, a ser outorgada, após a bem-sucedida invasão, por “Coragem Diante do Inimigo Ocidental”. Ninguém no Ocidente imaginara a dimensão das ambições da Stasi.

Os aposentos de Mielke ficam no segundo andar. Não há ninguém por perto. Meus sapatos produzem um ruído de plástico no linóleo, até eu alcançar o escritório dele, onde o chão é de parquete. É uma sala espaçosa, com um quê de pobreza bem conservada. Dá a mesma sensação de quando a gente visita um casal que comprou sua mobília quando noivos, na década de 1950, e nunca mais teve condições de renová-la. Na verdade, tudo parece exibir aquele verde-amarelado, aquela tonalidade mostarda peculiar aos anos 1950.

A principal característica é a mesa de tamanho médio, com folha de madeira compensada. Ao me aproximar, passo por um retrato de Lênin. Os olhos dele me seguem pela sala. Sobre a mesa, apenas dois telefones e uma máscara mortuária de Lênin em gesso. Em tamanho real, sua cabeça parece pequena, se comparada aos exageros em lã, tinta e mármore da sala dos tesouros lá embaixo. Parece também definitivamente morta — um memento mori de um sistema de crenças, tanto quanto o crucifixo o é de outro. Contudo, a não ser por sua presença, aquela sala bem poderia ser o gabinete do prefeito na combalida câmara municipal de uma pequena mas orgulhosa cidadezinha rural, cuja população se recorda com carinho dos dias em que iam altos os preços da lã.

A luz agora é tão fraca que os contornos se misturam. Vou adiante, caminho pelos aposentos particulares de Mielke (um sofá- cama e uma cadeira) e pelo banheiro privativo (ladrilhos e nada mais), até uma antecâmara mais ampla, que hoje abriga mesinhas de cafeteria para turistas. Também ela está vazia. Vejo duas ou três poltronas velhas a um canto, e um vídeo que passa num aparelho de TV. Avanço em direção ao televisor, uma fonte de luz, e me sento para assistir ao vídeo.

O filme mostra cenas captadas por amadores de manifestantes tomando de assalto o prédio na gélida noite de 15 de janeiro de 1990. Eles avançaram pelos escritórios, pelo supermercado, pelos cabeleireiros, abrindo portas trancadas e fitando sacos e mais sacos de papel. Não pareciam alegres e tampouco exibiam grande ousadia. Em vez disso, seus rostos mostravam uma calma mistura de asco e tristeza. Trata-se de um sentimento que já foi descrito como não saber ao certo se se quer rir ou vomitar.

Está gelado aqui dentro e o ar parece reciclado. Ergo o colarinho do casaco até as orelhas. Acho que não há paralelo na história para essa transformação, da noite para o dia, da sede de um serviço secreto, tão temido que quase não se podia mencioná-lo, em um museu, onde a gente pode se sentar numa espreguiçadeira ao lado do mictório particular do chefão e assistir a um vídeo que mostra como o prédio foi tomado. Passos atrás de mim me assustam. Uma loira baixinha, de jeans e luvas de borracha, segura um spray de algum produto de limpeza.

“Vocês estão fechando?”, pergunto. “Preciso ir?”

Ela sorri e afaga o ar com uma mão de plástico cor-de-rosa. “Tudo bem”, diz. “Sobramos só nós duas aqui. Podemos sair juntas quando eu terminar.”

Ela começa a borrifar uma amônia perfumada nas mesas. Eu volto a assistir ao vídeo. Surgem imagens do necrotério da Stasi em Leipzig — corpos sobre pranchas, entre eles o de um homem jovem sem nenhum ferimento aparente. Depois, uma entrevista com um trabalhador do Südfriedhof, que explica que, “umas vinte ou trinta vezes”, recebeu um telefonema solicitando que deixasse aberto determinado forno, “para que a Stasi pudesse cuidar de seus assuntos”. O homem parece pouco à vontade, mas, por outro lado, dá de ombros, como se dissesse: “É só o meu trabalho”. O locutor comenta que cerca de trinta urnas foram encontradas nos escritórios da Stasi em Leipzig, sem etiquetas e sem que ninguém as tenha procurado. Fico imaginando se Miriam sabe disso. Acho que deveria ligar para ela.

A imagem seguinte é de uma entrevista com um homem de cabelos bem penteados e um bigode ruivo, que foi psicólogo da Stasi. Ele explica a disposição das pessoas de informar sobre as atividades de seus compatriotas, o que chama de “um impulso de se certificar de que os vizinhos estão agindo bem”. Nem pestaneja. “No fundo, é um traço da mentalidade alemã”, diz, “um certo anseio pela ordem, pela meticulosidade e coisas assim.”

Coisas assim. Ouço um tossido às minhas costas.

“É claro que eu vivia normalmente”, a faxineira diz. Eu me volto na direção dela. O rosto tem aquelas rugas de quem fuma, o peito parece oco de tão magro. “Eu me submeti, como todo mundo. Mas não é certo dizer que a RDA era uma nação de 17 milhões de informantes. Eram só dois por cento.”

“É”, eu digo, e me vejo perplexa. Mesmo com um informante para cada cinquenta pessoas, a Stasi cobria a população inteira.

Ela desiste da conversa comigo. “Não consigo deixar estas mesas limpas”, diz, e volta ao trabalho.

Quando ela termina, atravessamos de volta os aposentos privados de Mielke, banheiro e escritório. Ela vai trancando as portas à medida que passamos. “Sabe, não existe unidade de fato neste país”, ela diz, “nem mesmo depois de sete anos. Não sinto que este é o meu lugar. Você sabia que lá em Kreuzberg, em Berlim Ocidental, eles queriam o muro de volta? Para se protegerem da gente!” Ela acende um cigarro. “Dá para entender esse pensamento alemão?”

Espero que não seja uma pergunta retórica. Tudo que sei é que levou apenas quarenta anos para que se criassem dois tipos muito diferentes de alemães, e que vai levar algum tempo até que essas diferenças desapareçam.

Passamos por um banheiro com um “H”, de Herren, na porta. “Eles só precisavam de banheiro masculino”, ela comenta. “As mulheres não iam além da patente de coronel, e eram só três, de todo modo. Isto aqui era um Männerklub”

Ela enfia a cabeça na saleta de uma sentinela. “Venha ver isto aqui”, diz. Sobre a mesa, o calendário ainda marca janeiro de 1996. “Não, ali.” Ela aponta para a outra parede, atrás da mesa. Há uma mancha na pintura da parede. “Era onde o sujeito se apoiava, quando tombava a cadeira para trás e encostava a cabeça gorda e oleosa na parede.” Ela sente nojo. “Não sai de jeito nenhum.”

Vamos em frente, descendo a escadaria em ziguezague, passando por Marx e por seu cabelo ondulado. O único som que se ouve é o de nossos passos, e a única luz provém da entrada, lá embaixo. “Você não tem medo de fantasma por aqui, à noite, quando está sozinha?” pergunto.

“Às vezes”, ela responde, “mas era muito pior na época em que o prédio tinha acabado de abrir. Naquele tempo, o prédio inteiro fedia — a gente limpava, limpava e o cheiro não saía.”

Ela se detém, volta o rosto na minha direção e ergue os olhos para mim. Mesmo na penumbra, os olhos são de um belo azul. Dá um sorrisinho doído. “Você conhece?” Mas não espera pela resposta: “Era o cheiro dos velhos”.