Stasilândia
12. O lipsi
"... seus porcos, vocês pensam que esquecemos o que vocês, nazistas, fizeram, e entram na minha casa, na minha TV, com essa sua música, suas notícias. Seus merdas, melhor vocês...”
Alguém bate à porta da minha sala no escritório. É Uwe. “Que tal uma carona para casa?”, ele oferece.
“Seria ótimo.” Movida por um impulso idiota, faço menção de esconder a carta à minha frente, para poupá-lo do insulto. Dou de cara com seu olhar, e puxo o papel de volta para a mesa. A letra é grande e desigual, como numa nota de resgate, e chama a atenção dele.
“O que diz aí?”, ele pergunta.
“Ah, mais uma daquelas cartas de ódio”, digo.
“Sei, sei”, diz ele. Sabe de imediato o que significa: que o ódio não é dirigido a um apresentador em particular nem à estação em si, e sim à nação inteira.
“Em geral, a gente responde num tom moderado”, Uwe comenta, “dizendo que a ditadura nacional-socialista foi uma coisa terrível que nos aconteceu. Que causou dor indizível, sofrimento e por aí afora. E que nenhuma tentativa de reparação, nenhuma reconciliação jamais poderá etc. etc. etc.”
“É”, digo eu. Mas o que ele quer dizer com “que nos aconteceu”? Os alemães eram doidos por Hitler. É verdade que, uma vez eleito, ele mudou as estruturas do poder, implantando uma ditadura, mas é verdade também que, depois de terminada a guerra, o mesmo povo provavelmente o teria reeleito. Todo mundo está sempre alegando inocência por aqui.
“Bom, e aí?”, Uwe pergunta. Os olhos dele estão vermelhos nas bordas. Ele não descansa o bastante. “Quer a carona?”
“Claro, ótimo, obrigada.”
Raras vezes ando de carro em Berlim. A rede do metrô é tão densa que posso ir aonde quiser, emergindo de volta à superfície em qualquer ponto. É um emaranhado de artérias que bombeia pessoas pela cidade toda. A superfície é outro mundo.
As ruas são de paralelepípedo. Uwe corre um bocado. Está usando luvas de couro com botões de pressão nos pulsos. Seu carro atual é um Golf, brilhante e cheirando a spray de abacaxi.
“Você gosta de Elton John?” ele pergunta. Antes que eu possa responder, Uwe liga o toca-fitas no volume máximo. Depois, acende um cigarro com o acendedor do painel. Então, começa a mover a cabeça e a marcar o ritmo, batendo com sua mão de couro no couro que reveste o volante. Avança gritando pelas ruas, os pneus fazendo barulho sobre o paralelepípedo. Com uma mão, seguro na maçaneta da porta; com a outra, agarro o pacotinho no meu colo. Ponho-me a imaginar se o pacote poderia funcionar como uma espécie de airbag. Uwe segue cantarolando, fumando, batucando e jogando as cinzas pela janela, numa demonstração frenética de como ele é tranquilo e sossegado. Grita alguma coisa através da música, da fumaça e do alarido. Tudo que consigo entender é que ele está tendo aulas de bateria, “para adquirir mais ritmo”, leio nos lábios dele.
“É o que ando fazendo agora”, ele grita. “Meu professor mora em Mitte, como você. Falando nisso, você foi atrás de alguma daquelas histórias de alemães orientais, aquelas de que você falou?” Uwe não faz a pergunta como quem acha que eu preciso me desculpar do meu estouro com Scheller. Parece curiosidade genuína. Além disso, ele abaixa o volume da música.
“Fui, sim”, respondo. “São minhas aventuras na Stasilândia.” Ele ri, e eu continuo. “Estive num lugar onde o que era dito não era real, o que era real não era permitido e onde as pessoas desapareciam atrás de portas, sem nunca mais dar notícias, ou eram contrabandeadas para outro mundo.”
“É mesmo? E como você encontrou essas pessoas?”
“Elas estão em toda parte, Uwe. Afinal, isto aqui era o Leste. E eu resolvi olhar. Pus um anúncio à procura de gente da Stasi...”
“Você fez o quê?” Ele me olha, e eu gostaria muito que ele voltasse a olhar para a frente, para a rua.
“Pus um anúncio no jornal, nada de mais. E topei com outras pessoas também. A moça que me subloca o apartamento, por exemplo”, digo, e conto rapidamente sobre a expulsão de Julia da vida, até que a Stasi se oferecesse para salvá-la, caso ela concordasse em se transformar em informante. “E isso já na década de 1980”, concluo.
“Você está brincando...” diz Uwe, mostrando-me que a história de Julia soa tão estranha e terrível a ele quanto a mim. Por fim, reduz a velocidade até parar o carro. Chegamos à minha casa intactos. Uwe se volta para mim. “Duas coisas”, diz, com voz de jornalista sério. “Tem um sujeito que, quando jovem oficial da Stasi, traçou a linha onde seria construído o muro, e ele está disposto a falar sobre o assunto. O nome dele é Hagen Koch — ele esteve num programa que fizemos sobre o Checkpoint Charlie. E isso que você disse, sobre transformar um mundo em outro, me fez lembrar de outra pessoa. O camarada se chama Karl-Eduard von Schnitzler, e era o chefe da propaganda pró-regime. Pode te interessar também.”
“Julia mencionou esse Von Schnitzler. Então ele ainda está vivo?”
“Está, e feroz, pelo que ouvi dizer.”
“Como eu encontro essa gente?”
“Vou ver se temos algum endereço de contato no escritório.”
“Vou ver se temos algum endereço de contato no escritório.” Uwe se debruça sobre mim para abrir a porta, o que não deixa de ser cavalheiresco, embora desnecessário. Aproveita a oportunidade para dar uma olhada para cima, espiando meu prédio.
“Obrigada pela carona”, agradeço. “E pelas dicas também.” Ele cheira a cigarro e a spray de abacaxi, como um havaiano maltrapilho.
“Tudo bem.” Ele continua debruçado sobre mim, de modo que sigo seu olhar. Duas coisas brancas flutuam nos galhos da árvore pelada defronte a minha sala de estar. Uma delas é um saco plástico; a outra, como descobrimos ao olhar bem naquela direção, revela-se uma cueca. Encolho os ombros. Dá para ver que Uwe jamais moraria num lugar como esse. Ele retorna a seu assento. “Boa sorte na Stasilândia”, diz ele. “Tome cuidado por lá.”
Alguns dias depois, Uwe de fato encontra para mim um número de telefone de Von Schnitzler, mas o número está errado. “Minha senhora”, diz a voz ao telefone, “gente desse tipo não quer ser encontrada.” Herr Von Schnitzler não está na lista telefônica. Decido ligar para Herr Winz e ver se ele pode me ajudar. Herr Winz adorou a ideia de que eu possa precisar dele e diz que vai ver o que pode fazer. Nesse meio-tempo, decido assistir a alguns dos programas de Von Schnitzler, O canal negro.
Der Schwarze Kanal foi ao ar na Alemanha Oriental a partir de 1960. A intenção era que funcionasse como uma contramedida a Das rote Optik [A ótica vermelha], programa de TV da Alemanha Ocidental que era transmitido para a Oriental e criticava o socialismo. Nas noites de segunda-feira, a Deutsche Fernsehfunk — a única estação de TV da Alemanha Oriental à época — passava adorados filmes antigos do auge dos estúdios cinematográficos do pré-guerra, mas o partido resolveu que eles, assim como os programas ocidentais, necessitavam de alguém que os comentasse. A tarefa coube a Karl-Eduard von Schnitzler.
Por um bom tempo, os trabalhadores das usinas de energia precisaram ficar de prontidão toda segunda à noite. Primeiro, porque todo mundo sintonizava de imediato nos filmes, gerando sobrecarga. Depois, com o advento de Der Schwarze Kanal, eles tinham de se esforçar para evitar que o fornecimento de energia entrasse em colapso pelo fenômeno inverso: todos desligavam seus aparelhos de TV a um só tempo.
Karl-Eduard von Schnitzler tornou-se uma instituição, bem como o rosto mais odiado do regime. No final de 1989, junto com “Nós somos o povo!” e “Eleições livres!”, a multidão gritava também “Peça desculpa, Schnitzler!” e “Schnitzler no Muppet Show!” Isso traduzia precisamente o que ele era: um fantoche velho e rabugento que, das alturas, escarnecia de tudo e todos.
A estação de TV alemã oriental ficava em Adlershof, um bairro da zona leste de Berlim. O complexo de edifícios é hoje propagandeado como um novo e espetacular centro multimídia, mas permanece um grupo de prédios gélidos e cinzentos situado numa grande área coberta de cascalho, à maneira de um parque industrial. Num desses prédios estão arquivados os programas que eram transmitidos na RDA.
Na verdade, não se trata de um lugar aberto ao público: Uwe deu alguns telefonemas para que eu pudesse fazer minha visita. Entro pelo que parece ser a porta dos fundos e caminho por um corredor enegrecido e ladeado por vidros que liga o edifício a outro. Ninguém à vista. Chego a uma porta de folha dupla com um velho interfone de segurança. Falo no aparelho e a porta é aberta. Bem à frente há um balcão. À direita e à esquerda estende-se um comprido corredor de linóleo, cheio de equipamentos antiquíssimos de edição e de rolos de filme.
Atrás do balcão, encontro os primeiros sinais de vida. Dois homens vestidos com cardigãs marrons idênticos bebem café. Lançam-me um olhar rápido e, a seguir, voltam de imediato ao que estavam fazendo.
“Bom dia”, cumprimento.
“A senhora veio buscar um pacote?”, pergunta Cardigã 1, olhando diretamente para Cardigã 2.
“Não”, respondo. “Vim ver umas fitas.”
“Não sabemos nada sobre isso”, diz Cardigã 1. Ele ainda não olha para mim. Silêncio.
“Frau Anderson está?”, pergunto.
“Ela teria de falar com Frau Anderson, não é?”, Cardigã 1 quer saber do companheiro silente. Cardigã 2 bebe um gole de café. Cardigã 1 entende que isso significa sim.
“É”, repete 1, “ela teria de falar com Frau Anderson sobre isso.”
Olho para um lado e para outro do corredor vazio.
“Está quase na hora”, ele acrescenta. “Nós saímos às quatro e vinte e cinco, sabe?”
“Tudo bem”, digo.
Cardigã 2 resolve falar: “Estamos fazendo nossa pausa”, ele diz a 1.
“Está certo”, eu digo. Novo silêncio. O que é isso? Beckett? Lembro-me do que disse o poeta alemão do absurdo, Kurt Tucholsky, sobre seus conterrâneos e os balcões: ficam todos se humilhando diante deles, mas queriam mesmo era estar atrás. Estou tirando a sorte para ver se rastejo como um nativo ou se faço a maior cena, à maneira dos estrangeiros, quando sou salva por passos vindos do corredor. Frau Anderson.
“Aí está ela”, Cardigã 1 diz a Cardigã 2, como se todo aquele episódio não tivesse passado de uma aposta entre eles, “Frau Anderson.”
Frau Anderson é uma mulher de uns 55 anos. Difícil dizer como ela é, porque está usando maquiagem pesada, para disfarçar. Talvez já tivesse pisado com frequência num palco ou na TV. A pele brilhava, tinha a consistência de um cheesecake, e os lábios estavam pintados de uma forma que, teatral e ousada, divergia em muito do natural.
“Ach, Herr Von Schnitzler ”, diz ela, conduzindo-me pelo corredor. “Aquele, sim. A gente tem de admitir. Pelo menos manteve o que dizia antes. Não é um vira-casaca como os outros que a gente vê hoje em dia.” Fico chocada com a amargura e a saudade de Frau Anderson. São parte da nostalgia em relação ao Leste (Ost) que deu origem a um novo termo: Ostalgie. Estava claro que só trabalhavam ali os que haviam se mantido ostensivamente fiéis ao regime, e Frau Anderson ainda era uma dessas pessoas.
O corredor é iluminado por lâmpadas fluorescentes, sem um pingo de luz natural. O linóleo é bege, listrado ou imitando mármore. As paredes são de um terrível amarelo descascado. O cheiro é azedo. É como estar dentro de uma velha besta. Atravessamos toda a extensão do corredor e, hábito, obsessão ou nenhuma vontade de me perder, conto quinze portas de aço de cada lado antes de chegarmos à última delas. Frau Anderson a abre para mim e se volta na minha direção. “Saio às quatro e vinte e cinco”, diz ela. “Até lá, a senhora já terá acabado?”
“Espero que sim”, respondo.
“Seria terrível”, ela brinca, “passar a noite trancada aqui.”
Seria mesmo, sem dúvida. O lugar parece ter sido projetado no mesmo estilo arquitetônico pau-para-toda-obra que impera em toda parte: da Runden Ecke em Lepzig ao quartel-general da Stasi na Normannenstrasse. É a mesma arquitetura das prisões, dos hospitais, das escolas e dos prédios administrativos pelo país todo; provavelmente, o interior do Palast der Republik é igual, só que protegido por barras de ferro, e lá não posso entrar. Daqui até Vladivostok, este foi o presente do comunismo à paisagem urbana — linóleo e cimento cinza, amianto e concreto pré-fabricado, bem como, sempre, corredores longuíssimos, com salas projetadas para todo e qualquer propósito. Atrás das portas, pode-se encontrar de tudo: uma sala de interrogatório, uma prisão, um exame, uma sala de aula, uma repartição pública, um abrigo antiatômico ou, no presente caso, propaganda política.
Dentro, a sala tem as dimensões de uma cela, mas a decoração é a de um trailer da década de 1960. Veem-se cortinas marrons sobre as janelinhas lá em cima, e papel de parede marrom com padrões florais. A mobília consiste numa antiquíssima moviola, numa cadeira de escritório e num cartaz turístico exibindo o deserto de Gobi, com texto em russo e em alemão. No canto, uma televisão e um videocassete.
Frau Anderson me deixa a sós com algumas fitas que encontraram. Insiro uma delas no aparelho e apago as luzes. É o programa de estreia de Von Schnitzler, de março de 1960. Aparecem os créditos iniciais: o desenho de uma águia mal-encarada, o emblema da Alemanha Ocidental, no vermelho, branco e preto do fascismo, pousa numa antena de televisão. Em seguida, surgem as palavras DER Schwarze KANAL. De repente, um homem de terno e pesados óculos pretos enche a tela. Ele se dirige diretamente a mim, como se estivéssemos ambos sentados naquela sala:
O canal negro, senhoras e senhores, carrega sujeira e esgoto. Mas em vez de transportá-los para uma estação de tratamento, como deveria, ele despeja seu conteúdo diariamente em centenas de milhares de lares da Alemanha Ocidental e de Berlim Ocidental. Esse canal transmite programas da televisão alemã ocidental: O canal negro. Toda segunda-feira, neste horário, vamos nos dedicar ao que poderíamos chamar de uma operação de higienização.
A fita seguinte é de 1965, posterior à morte de duas pessoas, alvejadas quando tentavam atravessar o muro:
Caros telespectadores,
Todos sabem por que estou aqui hoje, tendo interrompido minhas férias para aparecer diante dos senhores nesta noite. Como é seu dever, nossos guardas de fronteira tiveram de atirar em dois homens. Os dois estavam infringindo a lei, tentando atravessar nossas fronteiras nacionais. Não pararam quando alertados, nem depois dos tiros de advertência. Um deles foi ferido mortalmente.
As pessoas deveriam nos dar ouvidos quando dizemos, repetidas vezes, que impomos a ordem em nossas fronteiras! E temos boas razões para garantir que ela seja mantida. Quem quer que deseje atravessar as fronteiras da RDA precisa de permissão para fazê-lo. Do contrário, melhor é que fique longe delas! Todo aquele que se arriscar vai morrer. Eu sei, senhoras e senhores, que isso soa duro. E será, talvez, interpretado por alguns até como "inumano”... Mas o que é “humano” e o que é “inumano”?
Humano é promover a paz na Terra para todos. Isso não se consegue com orações! Consegue-se com luta. Se, como nos ensina a história, as guerras não são obra de Deus, mas dos homens, também a paz é obra dos homens. E pela primeira vez em solo alemão, aqui na República Democrática da Alemanha, a paz foi elevada a princípio de governo por parte do Estado. Quem quer que busque enfraquecer ou prejudicar a RDA, consciente ou inconscientemente, enfraquece e prejudica as perspectivas de paz na Alemanha. Humano é ter criado e construído este Estado! Humano é fortalecê-lo e protegê-lo! Humano é guardar a República Democrática da Alemanha dessas pessoas que adorariam devorá-la no café da manhã…
E ele segue nessa toada, mas eu volto a fita para fazer anotações. Quero ser capaz de ver exatamente como aquele homem transforma o inumano em humano, como ele transforma aquelas mortes em símbolos de salvação. Mais ainda, quero encontrá-lo com urgência e saber o que ele pensa, agora que a fortaleza desmoronou e o mundo dele se foi.
São quase quatro da tarde, tenho tempo suficiente. Não vou ficar trancada aqui, de jeito nenhum. Começo a juntar minhas coisas. A fita ainda está rolando. A imagem muda para um programa chamado Gut Aufgelegt [De bom humor], introduzido por música alegre. Uma morena de belos olhos azuis num vestido de cinturinha franzida da década de 1960 está numa loja de discos. Ela se aproxima da câmera.
se aproxima da câmera. “As lojas de discos têm recebido pedidos estranhos de seus clientes ultimamente”, diz ela. “Todos querem música ‘lipsi’. Minha pergunta é: o que é ‘lipsi’? A Enciclopédia Brockhaus diria: "Não faço ideia, mas, se não está em nenhum dos meus vinte volumes, é porque não existe’. Mas os vendedores de discos dariam outra resposta: ‘Lipsi? É o que meus fregueses estão pedindo! Uma epidemia!’. Um jovem casal talvez dissesse: ‘Lipsi é a coisa mais simples do mundo. A dança é em compasso seis por quatro, você pega a garota com o braço esquerdo, assim’ — estende o braço — ‘e, bom... é fácil, veja’.” Ela finge não encontrar as palavras, até que anuncia o slogan:
Se você quer mesmo saber, é só sair dançando.
É o que toda a juventude está fazendo.
Fico curiosa e paro de arrumar minhas coisas. A imagem mostra um casal num salão de baile: ele, todo certinho num terno; ela, de vestido e salto alto fininho. Juntos, fazem a dança mais estranha que já vi.
De início, homem e mulher estão voltados para o mesmo
De início, homem e mulher estão voltados para o mesmo lado, como dançarinos gregos: ele, atrás dela; a mão dela na dele. Os dois se movem juntos de um lado para outro; depois, levantam os braços e se agacham, separando-se. Parecem chaleiras. A câmera corta para os pés, que, sem aviso prévio, irrompem numa complicação de passos que lembra uma dança irlandesa. A seguir, o par se junta numa espécie de valsa, antes de tornar a se separar e dar um saltinho no ar. O que vem depois é um movimento ao estilo russo, com as mãos na cintura. O tempo todo eles sorriem um enorme sorriso fixo, como se nem precisassem pensar no que os pés estão fazendo. Por fim, retornam à posição grega da chaleira. No fundo, uma voz de Doris Day canta em estilo bossa-nova:
Hoje, todos os jovens dançam
O lipsi, sempre o lipsi.
Toda a juventude quer aprender.
O lipsi é moderno!
Rumba, boogie e chachachá
São coisas do passado.
Agora, do nada, da noite para o dia,
O novo ritmo chegou para ficar!
Volto a fita. Quero identificar naqueles movimentos todos o que torna a dança tão curiosa. “Lipsi” é a forma coloquial para Leipzig, mas não era apenas uma tentativa óbvia do regime de fabricar uma moda para as massas, como se ela tivesse vindo da cidade grande. Olho mais de perto para aquele casal rijo. A mulher parece ter um incisivo a menos, uma escolha esquisita para uma modelo dançarina. Depois, concentro-me nos movimentos deles, e compreendo: em nenhum momento daquela multiplicidade de passos a cintura dos dançarinos se move. Os troncos permanecem retos: não se curvam na direção um do outro nem balançam para os lados. Os inventores daquela dança pilharam toda e qualquer tradição que conseguiram encontrar para, com o máximo cuidado, extrair daí apenas movimentos assexuados. Assim como Der Schwarze Kanal era o antídoto para a televisão ocidental, o lipsi era a reação do Leste a Elvis e à decadência estrangeira do rock-'n'-roll. Ali estava uma dança inventada por um comitê, um arremedo bizarro e sem cintura.
Junto minhas coisas rapidamente e saio correndo pelo corredor. As lâmpadas fluorescentes continuam acesas, mas não vejo luz vindo do balcão. Estou no meio do caminho quando me dou conta de que deixei a fita no videocassete. Volto à sala e retiro a fita do aparelho para devolvê-la a Frau Anderson, caso ela ainda esteja por ali. Caso ainda tenha alguém ali. Em disparada pelo corredor pela segunda vez, me pergunto se vou precisar de alguma senha para sair do edifício.
Meu relógio marca 4h27, e os cardigãs já foram embora. Fico parada diante do balcão, a bolsa numa mão, a fita na outra. Para um lado e outro, o infinito estende-se pelo corredor, todas as portas trancadas. Olho na direção da saída e vejo, à esquerda, o teclado do velho sistema de segurança. Serão quantas tentativas de acertar a combinação até eu ficar presa definitivamente? Ou até que o alarme dispare? Não quero provocar uma cena. Mas tampouco quero passar a noite ali dentro.
Tenho de encontrar um telefone. Ao me virar para trás, ouço um som. É uma porta que se abre. Frau Anderson vem saindo com uma imitação de chapéu de peles e uma pseudobolsa de crocodilo.
“Eu estava indo buscar a senhora”, ela diz. “Achei que tinha lhe dado um tempinho a mais.” Ela pega a fita, eu controlo minha respiração. Não sei se ela percebeu que eu estava em pânico e está zombando de mim. Talvez eu esteja começando a levar prazos, horários de trem e de final de expediente muito a sério nesse país de pontualidade implacável.
Uma semana mais tarde, um anônimo me liga. Herr Winz contou a ele o que eu quero, e ele me telefona apenas para fazer uma verificação, antes de ligar para Herr Schnitzler. Poucos minutos depois, torna a ligar para me dizer que Frau Von Schnitzler está aguardando um telefonema meu. Ele me dá o número. Frau Von Schnitzler atende e me passa o endereço.