Stasilândia
17. Traçando a linha
“Foi assim que, em 5 de abril de 1960, eu cheguei ao Ministério para a Segurança do Estado.” Hagen Koch quase engole as palavras. “Esta foto foi tirada quatro dias depois”, diz ele. A fotografia mostra um jovem vestindo o uniforme cinza da Stasi, empertigado e tenso atrás de um atril gigantesco. Koch fazia seu primeiro discurso: por que quero proteger e defender meu país. Prestou juramento: “Por ordem do Estado dos trabalhadores e dos camponeses, prometo dar a vida, se necessário... para protegê- lo do inimigo... com obediência e em qualquer parte...” Os figurões estavam todos lá. Mielke estava lá.
Mais tarde, Koch estava no meio de um grupo informal com seu comandante. Os outros recrutas fingiam relaxar, embora fazer- se notar fosse o que na verdade pretendiam. De repente, Koch sentiu os olhos de todos sobre ele, e uma mão no ombro. Ele se voltou. Era Mielke.
“O que você estudou, meu jovem?”
“Desenho técnico.”
Mielke dirigiu-se ao comandante de Koch. “Quero que você cuide deste rapaz. Ele é do tipo que nós precisamos.”
“Eis aí”, diz Koch, “como fui alçado da grande massa cinza.” De imediato, ele foi designado diretor do Escritório de Desenho Cartográfico e Topográfico. “Eu não fazia ideia do que era aquilo”, ele me conta. “Tinha me formado em desenho mecânico. Não sabia nada de mapas.”
No verão de 1960, logo depois de entrar para a Stasi, Koch se apaixonou por uma garota de Berlim. Ela não estivera na Pioniere ou na Juventude Livre Alemã, e muito menos no Partido, tampouco era radical. Koch sorri e dá uma meia piscadela. “Escolhi minha esposa pela aparência, não por suas convicções políticas.” Eu me pego vagando com os olhos, e o calendário com as garotas prende minha atenção. A garota em questão não pode retribuir meu olhar, porque não tem cabeça. O que vejo é um mapa da Tasmânia na floresta.
A Stasi sabia de tudo. O chefe de Koch o chamou e advertiu: “Aquela garota não é uma pessoa adequada. Temos grandes planos para você, e ela é do tipo RDA-negativo”.
Os pais da menina, por sua vez, estavam horrorizados: Koch era um deles. Assim que a garota fez dezoito anos, os dois fugiram. Era 21 de julho de 1961.
Koch se volta e dá um tapinha no calendário. “A senhora notou, não é?”, ele ri.
“Ã-hã.”
“Sabe o que é isto?”
“Como assim?”, pergunto.
“Este é o calendário feito para os guardas de fronteira da RDA”, ele explica. “Sabe o que há de especial nele?”
“Não.”
“Este calendário foi impresso em meados de 1990. Ou seja, depois da queda do muro. E foi impresso porque, mesmo àquela altura, as pessoas não podiam acreditar que o país simplesmente deixaria de existir. Ao contrário do que tudo indicava, elas achavam que a RDA seguiria adiante como país independente, com seu Exército e seus guardas de fronteira. E os guardas de fronteira iriam precisar de seu calendário cheio de garotas.”
“Quando construíram o muro, em 1961, achei que era uma coisa que a gente tinha de fazer, porque estavam nos roubando descaradamente”, diz Koch. “A RDA foi forçada a se proteger do Ocidente, de seus trapaceiros, parasitas e do mercado negro.”
Por causa dos subsídios, os preços eram mais baixos na Alemanha Oriental, assim como os salários. “Antes do muro”, conta Koch, “as pessoas pensavam: por que trabalhar no Leste, se posso ganhar mais no Oeste? Vai daí que atravessavam para o Ocidente todo santo dia, para oferecer seu trabalho, algo de que nós, aqui, precisávamos muito para reconstruir o país.”
“Depois, nos postos de fronteira, voltando para casa, trocavam seus marcos ocidentais pelos orientais, a uma taxa de cinco para um! Dá para imaginar?” Ele diz isso como se as taxas de câmbio fossem uma espécie de vodu monetário. “Ou seja, voltavam com dinheiro suficiente para comprar tudo que tínhamos. E não só isso: faziam compras para seus amigos ocidentais também. De manhã, a gente costumava ver essa gente indo para o trabalho com mochilas cheias do nosso pão, da nossa manteiga, do nosso leite, de ovos e de carne. Alguma coisa precisava ser feita para impedir que as pessoas continuassem com aquilo.”
À parte os que saíam todo dia para trabalhar no setor ocidental, centenas e, depois, milhares de refugiados começaram a abandonar de vez o setor oriental. Em 1961, cerca de 2 mil pessoas deixavam o país por dia, via Berlim Ocidental.
Segundo Koch, seu pensamento é representativo da ortodoxia do período. “Essas pessoas estavam se esquivando do trabalho pesado necessário à construção de um futuro melhor. Queriam gozar a vida aqui e agora.” Era como se aquilo fosse uma falha moral, um pecado religioso: quem são essas pessoas que querem colher sem ter plantado?
A RDA estava sofrendo uma grave hemorragia. “E não eram só os trabalhadores comuns que estavam indo embora! Eram doutores, engenheiros, pessoas de nível superior. A RDA havia pago sua educação, e elas agora se deixavam seduzir pelos encantos do Ocidente.”
Portanto, segundo Koch, Ulbricht, o chefe de Estado, decidiu que precisava de uma “medida de proteção antifascista”. Sempre tive certo carinho por essa expressão, que parece ter algo de profilático: proteger os orientais da doença ocidental do materialismo raso. Ela segue a mesma lógica existente em se prender pessoas livres para pô-las a salvo dos criminosos.
Na noite de 12 de agosto de 1961, um domingo, o Exército da Alemanha Oriental estendeu uma cerca de arame farpado ao longo das ruas que faziam fronteira com o setor ocidental e nelas posicionou sentinelas a intervalos regulares. Quando o dia amanheceu, a população descobriu-se apartada de parentes, do trabalho e da escola. Alguns investiram contra a cerca. Outros, moradores dos apartamentos que davam para a fronteira, começaram a pular das janelas rumo a cobertores estendidos por ocidentais na calçada abaixo. Então, as tropas obrigaram os moradores a vedar com tijolos suas próprias janelas. Começaram pelos andares mais baixos, forçando as pessoas a saltar de janelas cada vez mais altas.
• • •
Koch foi chamado à sua guarnição em 13 de agosto, o dia em que levantaram o muro. Em pleno estado de emergência, todos deveriam ficar em alerta. “Dois dias depois, fui convocado pelo comandante. Ele olhou para minhas botas e declarou que eram muito ruins para a missão. Ordenou que eu acompanhasse um grupo, que incluía Honecker, ao longo de todo o perímetro pelo qual haviam estendido arame farpado e onde o muro começava a nascer. E ordenou também que eu comprasse botas novas.”
“Era um dia comum de verão. Quando chegamos ao que viria a ser o Checkpoint Charlie, havia uma multidão do lado ocidental, protestando e gritando. Com a perna esquerda do lado oriental e a direita do lado ocidental, tracei minha linha branca pela rua. Concentrei-me na linha, e não no que acontecia a meu redor. Disse a mim mesmo que aqueles do lado ocidental eram os inimigos, os saqueadores e aproveitadores.” A seguir, Koch acompanhou Honecker e os outros numa caminhada por toda a extensão da fronteira, quase cinquenta quilômetros. Fico surpresa que ele não tenha mais nada a dizer sobre esse dia, que poderia ser considerado o marco inicial de sua obsessão. “Eu tinha só 21 anos”, ele diz, “e me concentrei no trabalho de traçar a linha.” Depois, acrescenta: “No dia seguinte, mal conseguia ficar de pé. Botas novas, a senhora sabe como é”.
Ele se inclina para a frente. “As pessoas me perguntam por que não atravessei a linha que estava traçando pelas ruas. Por que não passei para o lado ocidental e continuei andando? É porque eu estava apaixonado! Tinha me casado fazia três semanas. Portanto, claro, voltei para minha jovem esposa, é natural. Como meu pai. Ele voltou para a esposa dele, e eu voltei para a minha.”
Mas o pai dele havia voltado para a família sob ameaça de deportação para um campo de prisioneiros. Koch não precisou ser ameaçado: educado pelo pai, tinha se transformado no Homem Socialista.
Ele afirma ser a única pessoa viva capaz de representar o muro pelo lado oriental — por meio de seus documentos, das fotocópias e das fotografias. Talvez isso se deva ao fato de a maior parte das pessoas daquele lado preferir esquecer o assunto. Hoje, de fato, parece que, de ambos os lados, a maioria prefere fingir que o muro nunca esteve ali. Apagaram-no com tal rapidez que praticamente não restou traço dele nas ruas. Só um pequeno segmento da porção mais colorida continua de pé, como uma vistosa lápide.
Em 1966, Heinz Koch localizou seu pai biológico, que morava na Holanda. O avô de Hagen veio à RDA com um visto de um dia, para conhecer o filho. Veio como um turista comum. “E, como eu trabalhava para a Stasi”, diz Hagen, “meu pai, aos 54 anos, foi demitido do trabalho.”
“Porque ele era parente próximo do senhor e, portanto, não podia ter Westkontakte?"
“Não, porque eu não avisei a Stasi da visita.” A Stasi tinha de saber tudo sobre a família de todo mundo, mas, em particular, sobre sua própria família. “Foi aí que meu pai me contou sobre ser filho ilegítimo, sobre a candidatura a prefeito e sobre as ameaças que fizeram a ele, caso ele não me transformasse num bom socialista.”
Fiquei imaginando como seria descobrir ter sido criada por meus pais como um exemplo de um regime no qual eles não acreditavam.
Koch disse ao pai dele: “Se é assim, para mim chega. Estou fora”. Pensou consigo: se meu trabalho aqui impede meu pai de ver o pai dele, não quero mais ficar aqui. “Entreguei meu pedido de exoneração”, ele conta.
No mesmo dia, foi preso e trancafiado numa cela. Acusaram- no de crimes. Os crimes eram: ‘‘Preparação e reprodução de material pornográfico”.
“O quê?”
Koch aprecia minha surpresa e torna a mergulhar em sua caixa de papelão. De lá, retira um panfleto artesanal. O papel contém texto manuscrito, mimeografado, e quadrinhos. Koch fez uma dúzia de cópias para comemorar o casamento de um amigo. No estilo alemão tradicional, o panfleto zombava do noivo, da noiva e dos parentes. Exibia caricaturas deles (inteiramente vestidos), dotadas de balões, e estava muito longe de ser pornográfico. Era, porém, ilegal. Na RDA, todo e qualquer material impresso era proibido, a não ser que tivesse sido autorizado. A Stasi chegara mesmo a desenvolver uma técnica capaz de identificar cada máquina de escrever pelo tipo que ela produzia, como se quisesse tirar a impressão digital do pensamento. Koch tinha usado as máquinas de seu próprio escritório.
Mantiveram-no preso na cela por duas noites, e não avisaram a esposa onde ele estava. Não lhe permitiram nenhum contato externo, nenhum advogado, nenhum telefonema. Procedimento padrão. No terceiro dia, a Stasi e o promotor vasculharam o apartamento de Koch, em busca de mais material “pornográfico” a ser utilizado como prova. Não encontraram nada. Interrogaram a sra. Koch, que experimentou uma estranha mistura de alívio e terror: então era lá que ele estava.
“Perguntaram a ela”, a voz de Koch vacila de nojo, “perguntaram a ela sobre nossa vida sexual. Disseram que, se alguma coisa não estivesse bem nessa área, eles compreenderiam e ‘isso poderia explicar por que seu marido se tornou um pornógrafo’.”
“Não, não”, ela começou a chorar. Disse que não havia nada de errado.
“Bom, nesse caso, Frau Koch”, disse o promotor, “digo à senhora que seu marido só teria feito essa pornografia…”
“Que pornografia?”, perguntou ela, desesperada.
“… essa pornografia”, prosseguiu ele, ignorando-a, “instigado pela senhora.” O único som que se ouvia era o dos outros homens remexendo no apartamento. “Ao que parece, a senhora não tem nada a dizer ”, ele continuou. “Deixe-me perguntar uma coisa: a senhora teria alguém para cuidar do seu filho pequeno pelos próximos, digamos, cinco anos?”
“O quê? Mas por que isso?”
“Porque eu lamento dizer, senhora Koch, mas, como instigadora de um esquema de pornografia, as penas que aguardam a senhora serão severas.”
Ela começou a chorar. “Eu não entendo! O que o senhor quer de mim? O que o senhor quer? Não tire o menino de mim, por favor!”
“Frau Koch”, disse o promotor, “eu só vejo uma chance para a senhora. A senhora precisa distanciar-se de seu marido e de tudo que ele fez, mas precisa fazer isso de maneira crível, isto é, de um modo convincente. Só aí eu poderia recomendar que o juiz seja indulgente no seu caso.”
“O que o senhor quer dizer? O que quer que eu faça?”
“É muito simples”, disse ele, abrindo a maleta. “Basta que a senhora assine este papel, pedindo o divórcio.”
Sinto um leve choque físico.
Koch relata que um pedido de divórcio foi posto sobre a mesa, já preenchido com nome completo, data de nascimento, número da identidade e endereço dos dois. “Ela assinou”, ele diz calmamente. “Ela assinou de medo que fossem levar o menino embora. Aí, vieram até mim, na prisão, com aquela… aquela coisa.” Ele se enoja outra vez, só de contar a história. “Disseram: ‘Dê uma olhada nisto aqui. Ao que parece, sua mulher não quer mais nada com você?’ Koch baixa o tom de voz. “Naquele momento, meu mundo veio abaixo.”
“Três dias depois, o secretário do meu partido veio me ver na prisão. Era um homem de uns cinquenta anos, cabelos loiros e um rosto vermelho. Disse: 'Koch, meu amigo, faz três noites que não consigo dormir! Pelo amor de Deus, o que está acontecendo aqui? Você sempre foi tão pontual e confiável’. Tão trabalhador e ordeiro. Precisamos tirar você desta confusão’. Ele caminhava de um lado para outro da cela. 'A questão é: se você se for, o conhecimento vai embora com você. Todo o conhecimento operacional se vai junto com você! E esse conhecimento não pode sair daqui! Ou você compreende que cometeu um erro ao pedir exoneração ou vai ficar preso por quatro anos e meio, para que todo esse conhecimento não saia daqui de jeito nenhum’. E abriu os braços, num gesto de solidariedade. ‘Você sabe, Koch, que só tem uma saída: retirar seu pedido de exoneração e, como prova de que compreendeu o erro cometido ao solicitá-la, você deve renovar sua promessa de prestar serviços vitalícios’. O secretário pôs dois documentos sobre a mesa, ambos já preenchidos: a retratação e a promessa. ‘Ah, e que história é essa da sua esposa deixar você? Que coisa terrível. Você sabe, é em momentos como esses que nós, do Partido, vamos estar sempre a seu lado, camarada’.”
“O senhor acreditou que sua esposa iria deixá-lo?”, perguntei a Koch.
“Eu tinha essa confirmação por escrito!”, ele grita. “Estava tudo lá, por escrito!”
“Sim, mas o senhor acreditou?”
“Estava escrito!” Eis aí um homem que acredita em documentos. “Ah, e tem mais”, ele acrescenta, “me disseram o seguinte: ‘Quando você se livrar da sua mulher, uma influência negativa, provavelmente vai ser promovido’.”
“Eu estava lá, preso. Não tinha ninguém com quem discutir o assunto. Então, eu pedi: ‘Posso pelo menos ir para o Departamento Cultural?’. E ele disse que sim.”
Eu me pergunto como a coisa funcionava dentro da Stasi, quem arquitetava aquelas chantagens? Será que submetiam-nas à aprovação superior? Será que recebiam de volta documentos rubricados com iniciais e exibindo o carimbo “Aprovado”? Aprovados a destruição de um casamento, de uma carreira, o aprisionamento da esposa, o abandono do filho? Talvez atualizações circulassem internamente: “Cinco maneiras novas e diferentes de arruinar uma vida”?
Quando Koch saiu da prisão estava surdo para tudo que não fosse seu próprio infortúnio. É visível como o incomoda me contar essa história. “Não queria mais nada com aquela mulher ”, ele diz. “Ela pensa que pode simplesmente me abandonar num momento de dificuldade e, depois, voltar a ser minha esposa?”, pergunta. “Estávamos divorciados. Nosso menino, Frank, tinha cinco anos e foi morar com ela.”
Tento me pôr no lugar de Hagen Koch. Acho que o que mais iria querer ouvir seria uma explicação do meu amado de que tudo não passara de um terrível engano. Pergunto a ele por que ele próprio não perguntou a ela...
“Porque não queria nem saber! Não queria ouvir coisa nenhuma!” Ele grita, demonstrando como cortou relações com a esposa. “Como você ousa me pedir para ouvir, depois de tudo que fez?”
Mas Koch teve de ouvir o filho. Meses depois, quando levou Frank para tomar um sorvete, a história veio à tona. Frank estivera no apartamento e ouvira os homens ameaçando tirá-lo dela. Koch foi conversar com a ex-esposa. Um ano depois da prisão, e seis meses após o divórcio, o senhor e a senhora Koch tornaram a se casar.
A Stasi o submeteu a penas disciplinares por “inconstância”. Nos arquivos, atribuíram o novo casamento à “continuada influência negativa de Frau Koch”.