Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 19 de 36

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Stasilândia

14. Quanto pior...

 

Ligo para Julia e a convido para o almoço. O cardápio é macarrão com salmão, Mascarpone, gemas de ovo e creme de leite. Estou enfiando o máximo de calorias de que sou capaz num único prato. Ela liga mais ou menos na hora marcada e pergunta se pode se atrasar.

“Claro”, digo a ela. “Quanto tempo?”

“Meia hora.”

“Até daqui a pouco, então.”

Estou à janela da cozinha. Um homem vestindo luvas entra no pátio, vindo de uma das alas laterais. Ele carrega um balde de metal cheio de pó alaranjado de carvão. Abre o latão do lixo e despeja o conteúdo lá dentro — partículas da consistência do talco ou de algo que foi cremado. O latão se fecha num estalo, levantando uma nuvem de poeira alaranjada. Essa poeira está por toda parte. Mesmo quando não se sente o cheiro, ela continua ali, no ar alaranjado do inverno.

Ao chegar, Julia exibe uma polidez estranha, como quando se vai à casa dos outros. Acho que ela está acostumada a aparecer quando não estou aqui. Nós nos sentamos na cozinha, e eu abro uma cerveja.

“Você se importa se eu fumar?”, ela pergunta.

“Nem um pouco. Não sabia que você fumava.”

“Acabo de voltar a fumar ”, ela diz. Acende um cigarro e fuma metade dele, antes de apagá-lo.

Nós comemos e, em seguida, ela acende outro, que segura com destreza entre os dedos indicador e médio, girando-o enquanto fala. Julia está sentada na mesma cadeira de antes: a que segura a persiana da cozinha. Dá as costas para a janela, o rosto na sombra, os olhos brilhantes e escuros. Atrás dela, o céu exibe uma tonalidade de lã molhada. Convidei-a para almoçar, mas nós duas sabemos que ela ainda não contou toda a sua história.

Começo perguntando se ela percebeu sua vida se desenrolando de forma diferente depois da queda do muro. Imagino como seria ver desaparecer uma barreira que me manteve presa a vida toda, ver o mundo se abrir como num sonho novo e estranho.

“Bom, é complicado”, ela diz, passando a mão nos cabelos. A estática da manga eriça alguns fios isolados. “Acho que, talvez...” Pausa. “Percebo que eu ainda...” Julia respira fundo. “Tem coisas, como, por exemplo...” Nova pausa. “A coisa toda realmente me deixou confusa”, diz ela, soltando o ar. “Não só a coisa em si, mas depois também. Um monte de coisas, pessoais. Acho que toda essa história da Wende em 1989, e tudo que veio junto com ela... acho que experimentei isso tudo com mais intensidade do que os outros.”

Ela reencontrou o lugar em que o linóleo está se soltando da mesa e começa a cutucá-lo com a unha. “Eu tenho conversado sobre isso com minha terapeuta, e ela vive voltando a um mesmo tema, uma coisa que me incomoda. Tem a ver com o fato de eu não conseguir me submeter a nenhum tipo de autoridade. Agora, chegou a um ponto em que não sou capaz de me comprometer a cumprir um horário”, ela sorri, “como você bem viu. Não suporto que me imponham nenhuma estrutura.”

Sirvo mais cerveja. É a segunda ou terceira, e está contribuindo para descontrair a tarde. Por um instante, sou um olho no canto do teto. Vejo duas mulheres, como um reflexo uma da outra; vejo uma mesa velha numa cozinha velha de Berlim Oriental. Uma das mulheres arregaça as mangas; a outra cobre os punhos com o blusão, só os retirando dali para fumar. A cozinha parece oferecer refúgio modesto em relação ao mundo exterior, porque as cores do pátio vazaram para dentro dela, cinza e marrom — fora o azul da minúscula chama-piloto sobre a pia e os restos de um molho rosé na panela.

“É difícil viver em sociedade se você não consegue se subordinar à autoridade”, Julia afirma, “ainda mais na sociedade alemã. Imagino que minha incapacidade se deva a uma série de coisas. No começo, ter ficado presa pelo muro, depois, ter tido empregos bem abaixo da minha capacidade, sem poder escolher — no hotel e assim por diante. Eu simplesmente não suporto esse tipo de estrutura que me prende, acho.” A voz dela é agora bem suave. “E, além disso tudo”, ela completa, “fui estuprada. Isso me aconteceu logo depois da queda do muro. Foi em Berlim Oriental, e foi o fim.”

Sóbria, sinto frio e medo do que estou para ouvir. Eu não sabia à época quanto custava a Julia me contar o que havia acontecido com ela, e talvez nem ela própria soubesse. Uma semana depois, ela me ligou para dizer que tinha passado mal durante os três dias que se seguiram.

Logo depois da queda do muro, os prisioneiros detidos na RDA — na maioria prisioneiros políticos — foram anistiados. Julia retornou à Turíngia para ir a um casamento. Ela ia passar a noite no apartamento da noiva, um único cômodo no topo de um edifício alto, enquanto a amiga dormiria na casa do noivo. Julia a acompanhou até o táxi, lá embaixo. “Você nunca sabe o que pode acontecer naqueles prédios cheios de apartamentos”, diz ela. “Em geral, não se vê ninguém, e é meio assustador.”

Quando voltou para dentro do prédio, havia um homem esperando pelo elevador. O elevador chegou e os dois entraram, voltando-se para a porta que fechava. Julia conta: “Eu percebi — houve um momento em que pensei comigo que tinha alguma coisa de errado e que o melhor era sair correndo por aquela porta. Mas a gente aprende a dizer a si mesmo: ‘Ora, não seja ridícula'. E eu fiquei onde estava".

O homem olhou para o botão do andar que ela havia apertado. Não apertou botão nenhum. O elevador começou a subir. Então, ele apertou o botão da emergência.

Algum tempo depois, o zelador notou que um dos elevadores estava parado. Subiu até o telhado e chamou pelo poço, para ver se tinha alguém preso ou precisando de ajuda. Não houve resposta.

O homem era gigantesco. Ele atacou Julia e manteve as mãos sobre o rosto dela. Ela teve a impressão de que ele estava usando uma peruca preta. Ele ameaçou matá-la se ela gritasse ou chamasse a polícia. Quando terminou, ela rastejou do elevador até a porta do apartamento. Ele desceu correndo as escadas, em direção à escuridão.

Julia passou a noite sozinha ali, apavorada. Não havia telefone. O homem estava solto e sabia onde encontrá-la. No dia seguinte, ela conseguiu ir até a delegacia de polícia. Lá, não recebeu assistência psicológica, cuidados médicos nem apoio nenhum. “Estupro era tabu na RDA”, ela diz. A policial feminina que estava de serviço recusou-se a examiná-la: preferiu sair para fumar um cigarrinho. O exame físico completo ficou a cargo de um colega do sexo masculino — com Julia deitada nua sobre uma mesa. Depois, levaram-na de volta para o prédio e fizeram-na passar por tudo de novo, passo a passo, ela própria sendo solicitada a pressionar o botão da emergência e a reviver o ataque. “Era como se não acreditassem em mim”, conta. O homem estava solto, e não ofereceram a ela nenhuma proteção.

Julia foi ao casamento. “Não podia contar para ninguém. Teria estragado o dia de todo mundo”, diz ela. “Pus um monte de maquiagem e, sei lá como, aguentei firme.”

Ficamos sentadas na cozinha a tarde toda. Num determinado momento, começou a chover pedra, pedaços de um céu estilhaçado batendo na janela. Julia fuma seus cigarros pela metade e conta sua história. Não derrama uma lágrima. É como se ela fosse desprovida de autocompaixão.

Conta que os pais não sabiam como ajudá-la. As autoridades logo capturaram o sujeito, responsável por uma série de estupros e com uma fileira de condenações anteriores. Julia tornou-se incapaz de dar continuidade aos estudos, porque sentia medo de tudo. De novo, sentia-se apartada de todos. Certo dia, antes do julgamento, aceitou uma proposta para ser professora assistente por um semestre em San Francisco, onde encontrou gente com quem pôde conversar sobre estupro de uma forma que a ajudou. Ao retornar, teve de encarar novamente o estuprador.

“Chego a pensar que o julgamento foi o pior de tudo. Se acontecesse comigo de novo, eu jamais daria queixa”, afirma solenemente. “Mataria o sujeito.” Julia teve problemas para encontrar representação legal e, depois, para pagar a conta. Enquanto ela estava nos Estados Unidos, o homem foi condenado por outro estupro, praticado na mesma noitada — “e pior ainda: a garota foi parar no hospital”. No julgamento, o advogado dele postulou uma diminuição da responsabilidade em razão de seu cliente estar bêbado, e atacou a credibilidade dela como testemunha. “Se as mãos deste homem estavam sobre o seu rosto”, argumentou, “como a senhorita não viu de que cor eram os pelos dele?” Julia disse que não sabia. A esposa testemunhou que ele estivera em casa a noite toda. Mas a mãe dele também morava na mesma casa. E disse que o filho tingira os cabelos de preto naquele dia, antes de sair, e que não voltara até tarde da noite, quando queimou as roupas no incinerador atrás da casa. Ela olhou para Julia no tribunal e disse: “Me desculpe”. O estuprador foi condenado, mas Julia se sentiu violentada uma segunda vez.

Depois do julgamento, ela foi morar sozinha em Lichtenberg, em Berlim Oriental. Era-lhe difícil sair à rua. “Quando precisava sair para comprar alguma coisa”, ela diz, “eu me levantava de manhã e punha as roupas mais largas que tinha, camadas e camadas de roupas, para cobrir meu corpo. Depois, tomava cerveja — logo de manhã! — até me anestesiar o suficiente para ter coragem de sair pela porta.” A mãe de Julia, Irene, não entendia por que a filha não seguia em frente com sua vida. Julia estava angustiada, deprimida e com tendências suicidas, mas, uma vez por semana, ela se vestia, bebia e ia até a estação para ligar para Irene de um telefone público e dizer que estava tudo bem.

Um cigarro jaz esquecido no cinzeiro. O pálido fio de fumaça responde a correntes invisíveis na cozinha.

“Eu queria morrer ”, diz Julia. “Não via nem como seguir vivendo neste mundo, quanto mais como ter uma vida normal.” Pensou em se atirar embaixo de um trem na estação de Lichtenberg, mas pensar nas irmãs lendo sobre aquilo no jornal a horrorizava. Em vez disso, parou de comer. “Estava muito perturbada, no fim da minha capacidade de lidar com as coisas.” A irmã veio visitá-la e observava o que Julia comia. “Devo minha vida a ela, de verdade”, Julia diz. “Eu dizia a ela que estava satisfeita, mas ela contava quantas garfadas eu tinha comido e não me deixava parar.”

Aos trancos e barrancos, Julia tem conseguido estudar nos últimos seis anos. Trabalhou aqui e ali, para pagar as contas, “no que consegui encontrar ou no que apareceu” — algumas traduções, um emprego num brechó, aulas particulares, o trabalho na imobiliária.

Ela está convencida de que erros foram cometidos na anistia de 1989 e de que o estuprador em série foi libertado. “Foi terrível ter acontecido isso comigo justo naquela época”, diz. “Significa que, antes de as boas coisas do Ocidente chegarem aqui, eu fui afetada por esta coisa ruim: a libertação de criminosos.” Julia viu um documentário que afirmava que, na confusão da libertação dos prisioneiros políticos, criminosos contumazes tinham sido soltos. Se o homem que a estuprou estava entre eles ou se simplesmente já tinha cumprido a pena (como terá cumprido nova pena em breve), isso não muda o que ela experimentou: o fim da segurança do Estado significou também o fim de sua segurança pessoal. O sistema que a encarcerava era, de certo modo, o sistema que a protegia. “No Leste, eles eram bem mais rápidos na hora de encontrar, julgar e condenar as pessoas”, ela diz. No fundo, e por razões ainda indeléveis, ela associa a queda do muro ao fim do que restara de sua esfera pessoal, depois de a Stasi ter acabado com ela.

Julia diz que precisa ir embora. Vai se encontrar com a irmã.

“Claro”, digo eu, e não consigo pensar em mais nada para dizer. Ela nota que estou sem palavras.

“Acho que é importante o que você está fazendo”, ela me diz, como se para me consolar, e eu fico envergonhada. “Para que alguém consiga entender um regime como o da RDA é necessário contar as histórias das pessoas comuns. Não só as dos ativistas ou escritores famosos.” Os olhos dela, verde-acinzentados, exibem uma forma mais escura. Quando essa forma se move, noto que sou eu. “É preciso ver como as pessoas normais lidam com essas coisas no seu passado.”

“Acho que estou perdendo a noção do ‘normal’.”

“Pois é”, ela diz, sorrindo, “eu sei que é relativo. Nós, aqui do Leste, temos uma vantagem, talvez, porque podemos nos lembrar e comparar os dois sistemas.” A boca de Julia se retorce num sorriso enquanto ela apanha o cigarro, o isqueiro e os enfia no bolso. “Só não sei se é mesmo uma vantagem. Quero dizer, você vê os erros de um sistema — a vigilância — e os do outro — a desigualdade —, mas não pôde fazer nada no primeiro, e não há nada que você possa fazer agora, no segundo.” Ela ri, irônica. “E quanto maior a clareza com que você vê isso, pior se sente.”

Julia se vai, e eu me desloco para as janelas da frente, para vê-la sair do prédio. Vejo o topo de sua cabeça, os cabelos loiros e desgrenhados, vulnerável como uma criança enquanto ela se agacha para enfiar uma perna da calça jeans na meia. Depois, apoia o outro pé no pedal e vai-se embora, Tirésias de bicicleta.

 

Ligo para Klaus. “Quer tomar um porre?”

“Claro. Tudo bem com você?”

“Tudo.” Ele não acredita, mas é uma alma solidária, e nos encontramos lá embaixo, no bar.

 

Quando acordo, se mexo a cabeça, ela dói. Quero água. Olho para as palmeiras secas na sala de estar (despenquei no sofá). Elas refletem meu estado interior. Pior ainda do que a cabeça, a boca e meus pobres pulmões arruinados é uma vaga sensação de arrependimento. O que foi que eu disse? Tento me lembrar quem mais estava no bar, além de Klaus, e se estavam suficientemente bêbados. Não consigo. Numa espécie de penitência cósmica, passo o dia na cama.

No fim da tarde, decido ir nadar. Na piscina do bairro paga-se de acordo com o tempo que se pretende ficar ali, começando pelo mínimo de uma hora e meia. Aquilo não fazia sentido para mim (quem nada tanto tempo assim?), até que notei que as pessoas usavam a piscina para tomar banho.

Quero nadar de uma ponta a outra. Há corpos por toda parte, nadando, brincando ou, ao que parece, se lavando de fato. Não há raias. Nem direção estabelecida para se nadar. As pessoas nadam de peito na diagonal, as cabeças para fora d’água, feito patos. Um homem nem sequer tirou os óculos. Crianças pulam na água pelas laterais da piscina, e, a um canto, um velho remexe nos pelos de uma pinta debaixo do braço.

Preciso mexer braços e pernas, levar algum ar para meus pulmões. Tem de ser possível nadar de uma ponta a outra pelo menos umas duas vezes. Talvez exista algum sistema para passar pelos outros que eu ainda não conheço, como as regras de navegação a que os barcos obedecem. Escolho uma faixa menos povoada da piscina e arrisco um nado livre. Mas não é o tipo de braçada a que estou acostumada, porque tenho de olhar para a frente o tempo todo, à cata de obstáculos. E não só para a frente: um adolescente que cruza a piscina na lateral vem em minha direção. Quando me volto para o lado oposto para respirar, uma criança com uma boia debaixo dos braços salta para dentro da água e não me acerta por pouco. Ergo os olhos. Uma mulher num biquíni amarelo vem nadando em minha direção — nado cachorrinho, para não molhar a maquiagem. Não tem escapatória.

Eu paro, pedalo na água e calculo o que fazer a seguir. Enquanto tento traçar um curso, uma pergunta óbvia me toma de assalto: o que estou fazendo nesse caos, afinal? Nessa cidade caótica?

A mulher no biquíni amarelo finge que não me vê. O que é isso? Uma galinha nadando? Para mim, chega. Decido abrir caminho. Calculo que, me valendo da força bruta, vou conseguir atravessar a piscina e começo a bater os braços com rapidez. Não sou grande nadadora e estou na Alemanha Oriental, terra do doping e dos grandes, das mulheres-homens e dos prodígios mirins, mas, por um instante, transformo-me na nossa Dawnie, sou Shane Gould, sou Susie O’Neill, sou a batedeira humana espirrando água para todo lado. O biquíni amarelo? Nem sinal dela. O que há comigo?

Soa um apito. O quê? A mulher-galinha exibe um ar presunçoso. Terminou o assalto, e ela foi declarada vencedora. Um funcionário de calção de banho curto demais vem até a beira da piscina para falar comigo e garantir a diversão dos demais. “Aqui não é permitido nadar ”, ele diz. “É só para o banho.”

Ah, meu Deus, “e quando é que se pode nadar nesta piscina?”.

“Deixe-me ver…”, ele diz, “banhos quentes às terças, mulheres às quartas de manhã, mulheres com crianças às quartas à tarde, hidroterapia às sextas de manhã e, ah, aqui está: raias para natação entre quatro e seis da tarde às segundas, quintas e sextas. Fins de semana são só para o banho, como hoje.”

Entendo. Vou-me embora. Então isso é o caos ordenado. “Banhos” entre tal hora e tal hora, ou seja, agora. Permitimos equipamentos incomuns, bombas, verificação de pintas, lavagem geral e bebês, mas nadar é proibido. Há ordem em tudo o mais na vida alemã — até os deficientes recebem braçadeiras amarelas (amarelas!). (Servem para avisar aos outros que eles podem precisar de ajuda, mas chocam os estrangeiros: três pontos amarelos afixados na roupa.) Essa piscina deve ser o subconsciente do país: a zorra que dá origem à ordem.

O que estou fazendo aqui? As pessoas ficam olhando para mim. Afasto-me e vejo que a piscina para mergulhos está completamente vazia. Vou obedecer. Não vou nadar fora do horário. Entro na piscina de mergulho e me sento a um canto. Ninguém pode me ver, e não posso estar infringindo alguma regra. O que estou fazendo aqui?

Meu corpo perdeu todo peso, minhas pernas estão fora de proporção. Em perspectiva, elas estão mais curtas e distantes. Então, me vem à cabeça: estou retratando pessoas, alemães orientais, das quais não vai sobrar mais nenhuma em uma geração. E pinto um retrato de uma cidade na velha linha divisória entre Oriente e Ocidente. Isso é trabalhar contra o esquecimento, contra o tempo.

Soa outro apito, bem alto. Olho para cima, e o funcionário está de pé bem acima de mim, tão próximo que poderia ter sussurrado para chamar minha atenção. “Esta piscina é para mergulho”, ele avisa, “só para mergulho.” Perco a fala, e ele ainda acrescenta: “A senhora não está mergulhando”.

Nisso ele tem razão. Por outro lado, não tem ninguém mergulhando. Mas não posso discutir com um homem armado de um apito e pronto a fazer uso dele. Portanto, me retiro mais uma vez.

No vestiário, uma senhora rotunda numa espécie de uniforme me avisa que meu maiô está pingando água no chão.

“É porque está molhado”, respondo. Ela vem em minha direção, prestes a me dizer algo, mas apanho minha sacola e saio. É regra demais para o meu gosto.