Stasilândia
24. Herr Bohnsack
Caminho ao encontro da minha última entrevista com um agente da Stasi. Novos trilhos de bonde estão sendo assentados na rua onde ele mora; as peças de aço esparramam-se pela faixa intermediária feito alcaçuz. Como é hora do almoço, não se vê um único trabalhador por ali. Toco a campainha logo acima do nome “Bohnsack”. Um homem aparece, trajando um elegante sobretudo castanho-amarelado. Ele é alto, ligeiramente curvado, tem o peito robusto. O rosto é agradável, com entradas nos cabelos e maçãs do rosto cheias. Olha bem nos olhos e sorri um sorriso caloroso.
“Vamos até o meu bar ”, ele diz.
O bar é uma Kneipe berlinense tradicional. A área do balcão é de madeira escura, com espelhos na parede de trás. Há mesas também, e cortinas de renda branca, para proteger os fregueses das pessoas que passam na rua. Enviesada, uma faixa de luz atravessa as cortinas, a luz lenta da tarde, com suas partículas e raios preguiçosos. Dois fregueses vigiam seus copos. Pequenos pubs como esse, onde todos parecem se conhecer, existem tanto em Berlim Oriental quanto em Berlim Ocidental. Já tive oportunidade de entrar em alguns deles, para comprar cigarros ou pedir alguma informação, e sempre que o fiz senti-me como se tivesse invadido, sem ter sido convidada, a sala de estar de alguém. Quando chega um estranho, as conversas se interrompem: as pessoas erguem os olhos para ver de quem se trata e, então, encolhem os ombros. Aqui, no entanto, quando os fregueses habituais veem Herr Bohnsack, eles o cumprimentam com um aceno de cabeça. O homem atrás do balcão sorri como um irmão. “Como estamos?”, pergunta, esfregando as mãos. “O que vai ser hoje?”
“Acho que vamos nos sentar na sala ao lado”, diz Herr Bohnsack, “se não tiver problema. Para conversarmos um pouco.”
“Claro, claro.” Calçando meias e chinelos, o homem deixa seu posto atrás do balcão arrastando os pés e nos conduz para a sala vizinha. As paredes estampam velhos cartazes com propaganda de cerveja, fotos de donzelas de rostos radiantes, cavalos e lúpulos. Olho para Herr Bohnsack. À luz das janelas às suas costas também ele parece irradiar algum brilho.
“O que vão querer a dama e o cavalheiro?”
“Para mim, uma cerveja de trigo e um Korn ele diz, “e para a senhora?” Ainda é cedo. Peço uma cerveja, mas me abstenho da aguardente. A voz de Günter Bohnsack é profunda e ligeiramente arrastada, como a de alguém cujas coroas não estão bem encaixadas ou a de um homem que andou bebendo. Seus olhos brilham, e ele está à vontade comigo. Fico sabendo que não se trata de um homem que ainda precise provar alguma coisa. Aos 57 anos, é o único agente da Stasi que revelou publicamente essa sua condição. Tenente-coronel, trabalhou numa das divisões mais secretas do serviço de espionagem internacional: a Hauptverwaltung Aufklärung (HVA). Herr Bohnsack integrava a Divisão X, responsável, como ele havia me dito ao telefone, “pela desinformação e pela guerra psicológica contra o Ocidente”.
A HVA era o serviço de espionagem internacional da Stasi. Markus Wolf, seu diretor, filho de um médico e dramaturgo judeu, é uma pessoa inteligente e refinada. Ao que parece, serviu de modelo ao espião mor de John le Carré, Karla. A HVA de Wolf estava subordinada ao ministério de Mielke. Mas Wolf e seus homens sempre se viram como raça à parte. Embora sua organização obedecesse à hierarquia militar, como o resto da Firma, vestiam terno em vez de uniformes, possuíam elevada educação e desfrutavam de uma existência privilegiada. “Como éramos responsáveis pelo Ocidente”, Herr Bohnsack me explica, “podíamos viajar e éramos bem diferentes. Nossos diplomatas sabiam falar línguas estrangeiras e eram pessoas cultas. Nós zombávamos de Mielke. Tínhamos o nosso Wolf, o intelectual alto, esbelto, elegante.”
Herr Bohnsack tinha formação jornalística e trabalhou durante 26 anos com desinformação. Boa parte do trabalho da Divisão X voltava-se contra a Alemanha Ocidental. Ela coletava informações confidenciais ou secretas dos agentes no Ocidente e depois as divulgava em vazamentos destinados a causar danos. Além disso, falsificava documentos e montava conversas gravadas que nunca aconteceram, a fim de prejudicar pessoas na esfera pública. Outra atividade comum consistia em espalhar boatos sobre ocidentais, incluindo-se aí o boato devastador de que alguém do outro lado trabalhava para a divisão. Os homens da Divisão X passavam informações aos jornalistas ocidentais sobre o passado nazista de políticos da Alemanha Ocidental (diversas figuras de destaque caíram dessa maneira); a divisão financiava publicações de esquerda e conseguiu, em pelo menos uma ocasião, exercer influência extraordinária sobre o próprio processo político alemão ocidental. Em 1972, o socialdemocrata Willy Brandt, chefe de governo da Alemanha Ocidental, enfrentou um voto de desconfiança no Parlamento. A Divisão X comprou o voto de pelo menos um parlamentar — ou, provavelmente, de dois deles — para mantê-lo no poder. O coronel Rolf Wagenbreth, chefe da divisão, descreveu o trabalho da Divisão X como “uma tentativa de fazer girar a roda da história”.
Herr Bohnsack começa contando uma piada. A mesma que contou a um grupo de colegas num almoço em 1980, no restaurante reservado para altos oficiais da Stasi. Ele se recosta na cadeira e sorri, como um tio que tem um segredo para contar. “Os Estados Unidos, a União Soviética e a RDA querem resgatar o Titanic”, principia ele, erguendo as sobrancelhas. “Os Estados Unidos querem as joias supostamente guardadas no cofre do navio. Os soviéticos querem a tecnologia de ponta. E a RDA”, ele toma sua aguardente de um só gole, fazendo uma pausa dramática, “a RDA quer a banda que estava tocando enquanto o navio afundava.”
Nós rimos. “Era normal contar piadas assim?” pergunto.
“Era, era, sim”, diz ele, “muito normal, mas dependia de quem estava presente. Assim que contei essa piada, pensei comigo: ai, ai, ai, isso não foi muito esperto da minha parte, porque tem um general à mesa.” Ele passa a mão na cabeça. “Depois do almoço, o general me chamou de lado e disse, em voz baixa: ‘Da próxima vez, Bohnsack, eu não contaria esse tipo de piada'. E isso ainda em 1980! Eles já estavam nervosos com a possibilidade de a coisa toda desabar, naquela época.”
“Tinha piadas sobre Mielke também?”
“Ah, um monte”, diz ele. “Mas as piores não eram piadas: eram a pura verdade.”
Herr Bohnsack foi convidado para a festa que a Stasi deu para si mesma e para os camaradas russos em comemoração aos quarenta anos da RDA. Foi em 3 de outubro de 1989, no auge dos protestos e distúrbios. “Tinha cerca de duas mil pessoas na festa”, ele conta. “Mielke entrou em cena” — com a mão erguida atrás da orelha, ele desenha a caminhada com dois dedos no ar — “descendo por uma escada no canto, cercado de generais. Parecia um fantasma, ou o deus ex machina.” Depois, fez um discurso. “Falou durante quatro horas, sem parar. De vez em quando, gritava alguma palavra de ordem. 'Lembrem-se de uma coisa, camaradas: o que os senhores têm de mais importante é o poder! Aferrem-se a ele a qualquer custo! Sem o poder, não são nada!’. Ele nem mencionou as manifestações democráticas ou o fato de os soviéticos estarem se afastando de nós”, observa Herr Bohnsack, “mas estava claro que, em algum nível, deve ter sentido que o fim estava próximo.”
Quando Mielke enfim terminou, houve um banquete. Serviram uvas, coxas de galinha, melão e frutas diversas, “coisas que nunca tivemos na RDA, e que eram deliciosas, iguarias fabulosas para nós”. Mas quando todos estavam prestes a se servir, Mielke pegava rapidamente o microfone para dizer “mais algumas idiotices”, e todo mundo tinha de pôr as coxas de galinha e cachos de uva de volta no prato, até ele terminar de falar. Concluía com um “guten Appetit" todos começavam a comer e, instantes depois, ele tornava a pegar o microfone, e todos se detinham mais uma vez. “E foi assim o tempo todo”, relata Herr Bohnsack. “Todo o evento foi insano.”
No Natal de 1989, segundo conta Herr Bohnsack, os acontecimentos desabrocharam em farsa completa e acelerada. Toda a divisão a que ele pertencia recebeu ordem de ficar em casa, para não provocar os manifestantes, e perto do telefone. Às três da madrugada vinha uma ligação ordenando que se dirigissem à Normannenstrasse, estacionassem seus carros a alguma distância do edifício e entrassem pelos fundos, para que os manifestantes não soubessem que havia gente ali. Quando chegavam a seus escritórios, as luzes estavam apagadas. A ordem era que vestissem uniforme de combate camuflado, “como a legião estrangeira na floresta”, e que se equipassem de utensílios de cozinha, facas, uma pá, um traje especial de proteção para a eventualidade de uma guerra química, um cobertor, pasta e escova de dentes, e munição. Cada um recebia um revólver e uma metralhadora. Toda a operação era cronometrada.
“E aí, faziam o quê?”, pergunto.
“Deitávamos em nossas mesas e dormíamos. Os generais lá em cima, no nono andar, ficavam simulando uma guerra. De vez em quando, descia um e nos acordava com uma mensagem — do tipo, digamos, um submarino americano foi avistado na costa da Turquia, ou os B52 norte-americanos estão em estado de alerta. Depois, lá pelas cinco da manhã, as notícias pioravam: um submarino russo abatido na costa da Noruega, por exemplo. Fingiam que a Terceira Guerra Mundial havia começado.”
“E o que vocês faziam?”
“Nada. A gente voltava a dormir ”
Às sete da manhã, recebiam ordens de sair a campo. “Brincávamos de guerra por um dia, ficávamos circulando e atirando nas figuras de papelão que pipocavam da grama. Estava todo mundo lá — especialistas de grande inteligência, gente que sabia falar árabe e sabe-se lá o que mais —, todos brincando de soldados.” Por volta do final de 1989, isso era feito toda semana. “E a gente sabia que a RDA estava perdida”, diz ele. “Era um circo.”
O grande medo de Herr Bohnsack era que ele e outros recebessem ordens de atirar nos manifestantes do lado de fora do prédio. Durante os exercícios, haviam dito que o inimigo tinha se infiltrado no país e estava incitando alemães orientais contra eles. No final, Mielke foi mais direto. Disse que “eles”, referindo-se ao povo, eram o inimigo. “Ou eles ou nós”, afirmava.
“Para mim”, diz Herr Bohnsack, “aquilo era a coisa mais apavorante. Que, em vez de atirar em figuras de papelão, tivéssemos de atirar no nosso próprio povo. E sabíamos que, como no tempo de Hitler, se nos recusássemos a fazer aquilo, seriamos levados dali e mortos.”
Mas havia também um outro medo. Mielke havia dito a seus homens: “Se perdermos, vão nos enforcar ”. O clima era de histeria. Herr Bohnsack havia sido o homem de ligação de Marcus Wolf, fazendo o contato da Stasi com os serviços secretos na Hungria, em Moscou, em Praga e em Varsóvia. “Nosso homem em Budapeste tinha me contado que, no drama de 1956, sua gente tinha sido enforcada nas árvores do lado de fora dos escritórios. Ele me disse: ‘Basta alguém apontar você e, em cinco minutos, você está pendendo de um galho’.”
Herr Bohnsack torna a passar a mão na cabeça. “Graças a Deus que não chegou a tanto”, ele diz. E me explica que, à época em que as manifestações tomaram impulso em Berlim — depois de isso ter acontecido em Leipzig e em outras partes —, Mielke já tinha renunciado. Estivera no poder por tanto tempo que os generais já não sabiam dar ordens por conta própria. Não conseguiram assumir o controle. “Foi o que nos salvou”, diz Bohnsack, balançando sua cabeça grande para um lado e para outro, “a nós e ao povo.”
De algum modo, ficara claro para Herr Bohnsack já em setembro que os arquivos precisariam ser destruídos. Ele disse a seu superior que começaria a picar os papéis. “Não é permitido!”, disse-lhe o chefe. “Não recebemos ordem para fazer isso!” Ainda assim, conta, “eu simplesmente estacionei meu carro no pátio do edifício e tirei os arquivos dos armários. Eram metros e metros de arquivos — arquivos dos agentes, relatórios, filmes —, pus tudo no carro e fui para nosso lotezinho de terra, a cem quilômetros de Berlim”. A família tinha um velho forno de padeiro em seu terreno minúsculo. Depois, “por conta própria, sem permissão nem ordem de ninguém”, diz ele, “destruí tudo, o dia inteiro”. Havia tanto papel para queimar que o forno quase desabou. Uma nuvem de fumaça negra pairava sobre sua cabeça, no céu. Herr Bohnsack passou três dias ali, alimentando o forno com os arquivos.
A luz fraca da tarde vai desaparecendo e o homem do balcão retorna para acender algumas luzes. Ê um homem da idade de Herr Bohnsack, mas com um rosto devastado, mãos vermelhas e um pano de prato enfiado no avental. “Tudo certo por aqui?”, ele pergunta.
Herr Bohnsack pede mais uma cerveja, outro Korn e um café. Digo que não quero mais nada por enquanto. Ele sorri gentilmente para mim. “Não?” pergunta. “Não precisa de nada mesmo?” Por baixo do simpático beberrão, vislumbro um homem não muito diferente dos outros, no Leste ou no Oeste.
Herr Bohnsack queria impedir que os arquivos caíssem nas mãos erradas. Diziam respeito a agentes ocidentais sob sua responsabilidade, cidadãos da Alemanha Ocidental que prestaram serviços à Stasi. “No meu setor ”, ele diz, “eram todos jornalistas. A gente os usava para deflagrar escândalos ou desmascarar falcatruas políticas. Nós os financiávamos e dávamos furos jornalísticos a eles.”
A fumaça despertou atenção. O vizinho de Bohnsack no campo era um bêbado inveterado, ele conta. “Mas é claro que até ele tinha uma ideia de onde eu trabalhava. É o que a gente chama de Stallgeruch (o cheiro do chiqueiro). Ele costumava debruçar-se na cerca e me xingar: ‘Seu vagabundo engomadinho!’, ‘SED’, todo tipo de insulto. E lá estava ele de novo, bêbado como sempre, enquanto eu queimava tudo. Quando a fumaça chegou à casa dele, ele começou a cantar o hino do movimento pelos direitos dos cidadãos, Wir Sind das Volk. Ele sabia muito bem o que eu estava fazendo. Foi grotesco, de verdade”, Bohnsack ri, “aquela ária acompanhando minha pira em chamas.”
Olho para Herr Bohnsack, em seu hábil desgrenhamento — uma mecha de cabelos desprendeu-se do restante e, enviesada, sobressai acima da orelha. Ele joga a cabeça para trás, para dar cabo do novo copinho de aguardente. O pescoço é anelado e encrespado, o pomo-de-adão se move para cima e para baixo, como um rato numa escada.
Ele olha em torno. “Este lugar ”, ele diz, “eu sempre frequentei. Tinha cadeira cativa no balcão. Faz 38 anos que moro dobrando a esquina. Antes de 1989, sempre fui Günter, simplesmente: ‘Oi, como vai?’. As pessoas não sabiam o que eu fazia, mas é claro que tinham suas suspeitas. Às vezes, eu vinha direto do trabalho, de gravata, um belo sobretudo, maletinha, e um rumor percorria o bar: ‘Sujeito elegante, não?’. Intuíam o bastante para desconfiar que alguma coisa estava errada comigo...”
Herr Bohnsack belisca o nariz com o indicador e o polegar. “O muro caiu em 9 de novembro de 1989. A primeira vez que vim aqui depois disso deve ter sido no dia 15.” Ele se detém, toma um gole, respira. “Tinha um bêbado no balcão que, quando me viu, girou o corpo devagar, apontou para mim e gritou: ‘Fora, Stasi!’ Todo mundo se calou e olhou em minha direção. Todos pensavam o mesmo que o bêbado, ou pelo menos metade dos fregueses. Não consegui me mexer. Disse ao homem atrás do balcão: ‘O que eles querem de mim?'. E continuei: ‘Não posso chegar aqui, diante de todos, e desfazer o que foi feito ou voltar atrás'. Depois disso, eu me sentei. Bebi minha cerveja e fiquei sentado ali” Seus lábios formam uma linha e ele estende as mãos, como se dissesse: “O que eu podia fazer?”
Herr Bohnsack continuou frequentando o bar. Levou quase três anos para que a hostilidade cessasse por completo. “Mas não houve nenhum enforcamento, nenhuma tentativa ou coisa do tipo. Na verdade, fiquei aliviado de ver como as pessoas reagiram de forma tão sensata.”
Os fregueses do bar, porém, não constituíam a totalidade da população. Herr Bohnsack ficou sabendo que uma revista, Die Linke, tinha obtido um disquete com os nomes de todos os 20 mil funcionários mais bem pagos da Stasi, e que estava prestes a publicá-los. Ele sabia que todo mundo leria a matéria, encontraria seu nome e endereço na lista e sentiria o que tivesse de sentir — desprezo, ódio ou superioridade intolerante. Sabia que só tinha uma coisa a fazer. “Iria me denunciar, antes que me denunciassem.”
Herr Bohnsack ligou para Der Spiegel, a famosa revista semanal da Alemanha Ocidental, e combinou de contar tudo a eles. “Baixei quase literalmente as calças, como dizem por aqui”, ele relata. “Quando recebi minha cópia da revista, senti vontade de vomitar. A matéria tinha saído com foto e tudo. Quero dizer, você fica em silêncio e mente durante 26 anos e então, de repente, se vê numa revista, aquilo foi muito...” Ele faz nova pausa. “Só posso dizer que me senti um pouco estranho aqui”, ele bate a mão no coração.
Praticamente nenhum de seus ex-colegas quererá falar sobre o que eles costumavam fazer no passado. É quase uma espécie de omertà, um código de honra a regê-los. Herr Bohnsack me conta que eles seguem se reunindo em grupos organizados por hierarquia, ou em aniversários e funerais. Um general que ainda fala com ele lhe contou que, num recente aniversário de setenta anos, os trabalhos foram regidos à moda das reuniões da divisão dos velhos tempos. Havia uma pauta, e os homens a examinaram item por item. Em linhas gerais, ficaram passando um ao outro boletins informativos ou relatórios sobre programas de televisão contra a Stasi. Era como se os velhos líderes da organização tivessem agora encontrado um novo inimigo: a mídia.
E Herr Bohnsack é um traidor, porque contou a própria história à mídia. Depois de se autodenunciar, ele recebeu ameaças de morte por telefone. “Seu bosta, até onde vai a sua vileza?” coisas desse tipo, ele me conta. Os telefonemas eram anônimos, mas às vezes ele reconhecia a voz. Um general ligou para ele de um bar. “Me disse: ‘Já chega, seu filho-da-puta! Você vai ver só!'. Depois, começou a berrar: ‘Pare com isso! Pare com isso!’, até que o levaram para longe do telefone.”
Agora, esses telefonemas cessaram. “Nunca tive medo”, Bohnsack diz. “Quero dizer, eu costumava dar uma olhada no meu carro, para ver se tinham mexido nele, mas não tem muito sentido fazer isso, porque se os caras são bons eles fazem o que têm de fazer e a gente nem percebe.”
Pergunto quem são os amigos dele hoje em dia.
“Bom, não tenho nenhum”, responde, fazendo sinal para que o homem do balcão traga mais bebida. Depois, me olha com olhos brilhantes e anestesiados. “Acho que poderia dizer que desagradei a gregos e troianos.”
O telefone toca às três horas da manhã. Dessa vez, não é Klaus. O chamado vem lá de casa. Encontraram quatro tumores na cabeça ainda jovem da minha mãe, resquícios de um câncer que todos havíamos ousado nutrir a esperança de que jamais voltaria. Ela diz ao telefone: “Je suis foutu, je suis foutu”. Depois, o que fizeram a ela afetou a fala por um tempo — uma mulher de expressão tão elegante e afiada. Mas, naquele momento, só mesmo apelando para o francês, e ela sabia que estava foutu.
Não surpreende que Uwe seja só gentileza para comigo. Ele me ajuda a empacotar as coisas do apartamento, juntando livros, fitas, meias perdidas e cobertas de poeira. Sou grata pela solidariedade dele, e mais ainda pelo modo como, nos momentos certos, ele ignora minha aflição. “Nós levamos você até o aeroporto, se você quiser ”, ele oferece.
“Obrigada.” Todas as minhas reações parecem irreais, lentas, como se eu estivesse embaixo d’água. “Nós?”
“Frederica e eu. Você conhece a Frederica. Da seção de tradução para o espanhol.”
“Sei”, minto.
Ligo para Miriam, mas sei que é mera formalidade. Nem tenho esperança de ouvir uma voz ao vivo do outro lado da linha. “Oi, Miriam. Espero que esteja tudo bem com você. Pelo jeito, a gente tem se desencontrado um bocado ultimamente! Acabou-se a minha temporada por aqui, estou voltando para casa.” De súbito, me soa obsceno dizer que meu tempo ali acabou. Penso em dizer “volto logo”, mas essa talvez seja a última coisa que ela queira ouvir. A fita está gravando e vai encompridar meu silêncio até uma medida embaraçosa. Eu gostaria de dizer alguma coisa informal e irônica para disfarçar, mas meu alemão não é nem suficiente nem confiável para a ironia. Sou forçada a dizer as coisas de um modo mais direto e sincero do que o faria em inglês. “Miriam, cuida bem de você”, eu digo, “e boa sorte.”
No momento da minha partida, tento de novo, mas o telefone toca até a ligação cair. A secretária eletrônica já nem está ligada.
Quando eles vêm me buscar, eu de fato reconheço a Frederica. É uma linda venezuelana com uma pinta no canto da boca. Juntos, ela e Uwe são pura eletricidade. Ele dirige com calma até Tegel, solícito para com um mundo que enfim soube cuidar dele.
Foram nove meses até a morte da minha mãe, e ela esteve consciente durante todo esse tempo, à exceção de seus três últimos dias. Consciente de que os dias estavam contados, como se diz, e de que o resultado dessa conta não era um número muito alto. E do sentimento de estar sendo privada de todas as coisas que queria fazer no futuro, compreendendo, porém, ao mesmo tempo, que elas não eram importantes, eram apenas o futuro em si, um número mais alto, só isso.
Depois que ela morreu, o pesar caiu sobre mim como uma jaula. Levei dezoito meses para conseguir me concentrar em alguma outra coisa que não fosse a vizinhança imediata da minha pequena área de tristeza, ou para conseguir me imaginar na vida de qualquer outra pessoa. Somando tudo, foram quase três anos até que eu voltasse a Berlim.