Stasilândia

Anna Funder · Capítulo 30 de 36

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Stasilândia

25. Berlim, primavera de 2000

 

Berlim é uma cidade verde e perfumada. Noto que nunca estive aqui no auge da primavera. Nem mesmo em minhas antigas excursões televisivas voadoras rumo ao verão eu jamais poderia ter imaginado isso. As árvores são enormes e exuberantes, de um verde claro. Filtrada por elas, a luz do sol incide suave e perfumada sobre calçadas, parques, praças, escolas e cemitérios. Do lado de fora de minhas janelas, os castanheiros são mágicos. Carregam flores brancas em pilhas eretas, candelabros produzidos por um truque da natureza. Sua doçura inebriante paira no ar como a lembrança de tempos mais gentis.

Entrei em contato com a imobiliária. Num golpe de sorte sobrenatural, fico sabendo que meu velho apartamento tinha acabado de vagar, de repente. Ia ser reformado e, por isso, os estudantes tinham saído de lá. “Por causa dos preparativos para a reforma”, a imobiliária me escreveu, “não podemos garantir que o apartamento esteja em condições adequadas ou mesmo habitáveis.” Vou tentar a sorte, penso comigo. Comprei papel, roupa de cama, uma cafeteira e me mudei para lá.

É por ele que caminho agora, dobrando e desdobrando uma cópia da carta. Eu a enviei da Austrália para o novo endereço dela.

Cara Miriam,

Já faz algum tempo, mas talvez você se lembre da tarde e do começo de noite que passamos juntas. Depois disso, tentei escrever sua história, mas senti que precisava explicar um pouco do contexto, e o trabalho acabou tomando um curso próprio. Escrevi sobre a RDA e sobre a Stasi; depois, falei com outras pessoas — gente que foi perseguida pela Stasi e gente que trabalhou para ela. Estava tentando, creio, obter uma visão panorâmica desse mundo perdido, e dos tipos de coragem nele existentes.

Estou voltando a Berlim e queria ver se a gente poderia se encontrar de novo. Gostaria de saber se você conseguiu alguma coisa com o promotor em Dresden e se as mulheres dos quebra-cabeças, lá em Nuremberg, descobriram alguma coisa sobre o Charlie. Além disso, quero ter certeza de que contei a história direito.

Desculpe ter demorado tanto para retomar o contato com você. Tenho trabalhado nesse projeto apenas de vez em quando.

Estou ansiosa pelo verão em Berlim, e, se possível, por uma visitinha a Leipzig...

Não obtive resposta, mas o correio não devolveu a carta. Antes de partir para a Alemanha, escrevi a Julia também, por email. Ela me respondeu em inglês:

Oi Anna,

Legal você ter escrito! Estou em San Francisco — troquei Berlim pelos Estados Unidos há oito meses. Lá, eu vivia com uma porção de coisas do passado, e elas podiam me achar.

I'm doing great, como eles dizem por aqui. Trabalho numa livraria feminista perto de Berkeley e fiz alguns amigos. Faz pouco tempo, participei de uma manifestação ligada à “Reclaim the Night”, o que me fez sentir bem, bem longe da Turíngia e de tudo que aconteceu lá. Aqui, eles respeitam as vítimas de verdade. Todo mundo parece ter uma história para contar sobre algo que lhe aconteceu. Estou certa de que isso pode ir longe demais, mas, para mim, neste momento, é uma coisa boa.

Sou estrangeira aqui, falo com sotaque, mas me sinto muito mais em casa do que em meu próprio país! Engraçado, não?

Se você aparecer por San Fran, por favor me avise.

Julia :-)

O apartamento não mudou muito. Já é tão vazio que seria difícil tirar mais alguma coisa dele. Na verdade, são os acréscimos que mais chamam a atenção. Há uma fileira de cartões-postais pregada na parede e no teto da sala de estar. Eles sugerem viagens, mas são apenas lembranças de noitadas pelos bares da cidade — são aqueles cartões gratuitos, com publicidade. Na cozinha, há um jarro de alfazemas secas, esqueléticas, mas alegres. Na parede do quarto apareceu um desenho bem grande de um cogumelo, feito com um marca-texto. Duas janelas com esquadria em cruz formam os olhos, a porta é parte do caule. O rosto exibe um largo sorriso (a porta é um grande dente), porque o chapéu desse cogumelo é também um pênis, que sobe pela parede.

Na primeira manhã, eu me levanto e vou tomar café atravessando a rua que dá para o parque. É ainda muito cedo, mas está claro: um dia maravilhoso. Céu em azul e branco, brisa suave e fresca, ruas em silêncio. O parque é uma longa curva verde que sobe até o café, vedado como se por uma pálpebra. Lá embaixo fica o lago, que eu conhecia como uma coisa preta e morta. Agora, nenúfares flutuam na superfície, abrindo-se para tocar o sol. Em algum ponto próximo, uma bandinha de sapos saúda o dia.

Estou sentada num banco e contemplo a estátua de Heine. Nunca me detive ali antes, os bancos pareciam estar sempre ocupados. Em vez de mãos de poeta, o escultor alemão oriental deu a Heine enormes pás de trabalhador. A inscrição diz:

Não somos nós que nos apoderamos de uma ideia, mas é a ideia que se apodera de nós, nos escraviza e chicoteia para dentro da arena para que, transformados à força em gladiadores, lutemos por ela.

Heine, poeta e livre-pensador, estaria se revirando na tumba de ver o tipo de escravização, de força e de luta que teve lugar ali, sob seu nariz preto e gelado e ombros cobertos de cocô de pomba.

Formas atrás da estátua me chegam aos olhos. Dois homens aproximam-se arrastando os pés; um deles desce a colina, o outro provém da esquina de baixo, ambos de abrigo e chinelos, com latas de cerveja nos bolsos. Outros três aparecem e se acomodam nos bancos. Dois deles carregam sacolas de pano cheias de latas, um traz uma fita com uma medalha em torno do pescoço, como se fosse o digníssimo senhor prefeito. Uma vez instalados (estou ocupando o lugar de alguém? — deixaram um banco inteirinho para mim), trocam gentis cumprimentos e apertos de mão, saudando também a mim com um aceno de cabeça. É como se estivéssemos numa sala de estar.

Um sujeito já mais velho se ajoelha no banco para olhar para o parque. De posse de duas fatias de pão branco, ele as divide com mãos trêmulas em pedaços iguais. Em vez de jogá-los, ele arranja os pedacinhos de pão num desenho sobre a amurada atrás do banco, todos eles equidistantes. Algum tipo de loucura ou generosidade.

Um homem passa correndo de calção amarelo e bandana. Os bêbados o cumprimentam em coro: "Morgen!”.

"Morgen!”, responde ele, esbaforido.

São os guardiões do parque, esfinges próprias e apropriadas em seus abrigos.

Pardais e pombas chegam voando em busca dos pedacinhos de pão e, de repente, compreendo o cerimonioso cuidado do meu companheiro. Somos agora o foco daquele parque: a natureza vem até nós em genuflexões de asas curtas ante o altar de pão e cerveja.

Um retardatário de calça de abrigo preta caminha em direção ao grupo. Por dentro do tecido sintético, suas pernas parecem de pau. Ele é um pouco mais jovem do que os outros e tem os cabelos pretos e alisados para trás. Carrega consigo uma sacola esportiva cheia de cerveja.

“Harry, meu camarada! Há quanto tempo!”, saúda o homem da medalha. A medalha repousa em sua barriga nua. Ele veste um paletó sem camisa e suspensórios vermelhos sobre a pele, para segurar a calça.

“Estive fora.”

“Onde você esteve?”

“De férias.”

“De férias? Mensch, preciso de umas férias também! Aonde você foi?”

“México.”

Começo a sentir vontade de rir, mas os outros apenas assentem solenemente.

“E o que você foi fazer lá?”

“Caçar.”

“Ahá”, concorda o nobre senhor prefeito, “e é um bom lugar para caçar?”

“O melhor que existe.”

“E o que se caça no México?”

“Elefantes.”

Ninguém pisca nem um olho sequer. “Teve sorte?”

“Naaa…” Harry faz que não com a cabeça, senta-se e abre o zíper da sacola para ter acesso ao quinhão diário de bebida. Talvez esses homens sejam mesmo uma sociedade de poetas e sacerdotes cujas histórias são todas metafóricas. Ou talvez a realidade ali sempre tenha sido tão estranha que qualquer sucedâneo é bem-vindo.

O homem da medalha volta-se para mim e ergue sua lata.

“Saúde!”, diz ele.

“Saúde!”, respondo, erguendo minha caneca.

“Isso aí é mais saudável que cerveja”, ele sorri. Faltam-lhe dois dentes da frente.

“Mas não tão divertido”, retribuo o sorriso.

Ele entende o gesto como um convite e vem se sentar no meu banco. “Você não é daqui”, diz, enfiando a mão no bolso em busca da latinha de tabaco.

“Não.”

“É de Colônia?”

“Não, sou de…”

“Me deixe adivinhar. Hamburgo?”

“Não, sou australiana.”

“Oh”, ele diz, curvando-se em minha direção e pousando uma mão grande de unhas marrons e curvadas sobre meu joelho. “Não se preocupe com isso”, expira, “eu também tenho sangue impuro.”

Eu sorrio, espantada. “Como assim?”

“Minha mãe era polonesa.”

“Ah.”

Ele começa a enrolar um cigarro. O creme nos cabelos formou uma caprichada cauda de pato. Seu bigode possui uma mancha marrom no ponto em que ele traga o cigarro. Na boca, ele o equilibra entre os lábios e consegue seguir falando com as mãos livres. O cigarro pende misteriosamente do lábio inferior.

“Você gosta deste parque?”, pergunta.

“Sim, gosto muito.”

“O parque é legal, mas você devia vir catar cogumelo com a gente uma hora dessas. É o que há.”

“Mesmo? Aonde vocês vão?”

“Nós pegamos o trem, eu e meus amigos ali.” Ele aponta para os outros, que nos observavam com atenção, mas agora retomam rapidamente seus afazeres. “Vamos até o fim da linha com nossos cestos e colhemos os cogumelos. É fantástico.”

Eu me pergunto se ele está me gozando, pintando aquele quadro de bêbados pegando o trem, saltitando alegres pela floresta com seus cestos e suas cervejas, apanhando cogumelos deliciosos pelo caminho e acenando para os elefantes. Mas não está.

“A gente pega” — ele lista as espécies — “Steinpilze, Pfifferlinge, Maron, Bergenpilze, Butterpilze, Sandpilze (são amarelos por baixo e esponjosos), Rotkappe (parecem Fliegenpilze, mas não são) e...” Não entendo bem a última palavra. “Mas esses, melhor não apanhar, porque você só vai comer uma vez!” Ele ri e joga a cabeça para trás, de modo que posso ver uma extensão da gengiva e do palato encrespado que mais parece uma criatura subaquática. “Trazemos quatro quilos em cada cesto. Aí, chegando em casa, cozinhamos os cogumelos com um pouco de manteiga. Delicioso!” Ele brande o indicador à minha frente. “Você sabe”, diz ele, levando o dedo ao próprio peito, “quando o assunto é cogumelo, sou professor!”

A medalha do professor Cogumelo balança um pouco, cintilando à luz na altura da barriga. Um murmúrio de aprovação em uníssono provém dos demais bancos, onde os amigos erguem as latas de cerveja em sua homenagem. Estou contente de estar ali. Percebo de repente que é absurdo nunca ter conversado com aqueles homens, que, afinal, são meus vizinhos.

O professor prossegue, agora em tom de conselho. “Você precisa sair de casa”, ele diz. “Você sabe, televisão não faz bem para os olhos. Não é saudável.” Eu me pergunto se, por acaso, ele andou me vigiando durante o inverno, observando o bruxulear preto e branco da tv na minha janela. Talvez esses homens, estacionados nos parques e nas esquinas, nos pontos de bonde e no metrô, sejam agora os que veem tudo. Uma mulher passa a caminho do semáforo, e ele levanta a mão, para saudá-la ou deixá-la passar.

“Nos tempos da RDA, eu era alfaiate. É outra coisa que não faz nada bem para os olhos. Queria ser ator ou cozinheiro, mas não deu.” Penso comigo que ele se tornou as duas coisas, considerando-se sua presente atuação e os cogumelos salteados. “Até 1990, fui bombeiro voluntário, mas aí a coisa ferrou de vez. Esse tal de Kapitalismus, você não imagina quanta merda ele tem feito.” Ele funga e cospe no chão. Depois, enfia a mão no bolso e retira um pente. “Antes, era muito melhor. Moro no mesmo apartamento, que me custava 450 marcos por mês; agora, custa 804! E daí que a gente não tinha banana nem mexerica? Não sou tarado por bananas!” Ele desliza o pente cuidadosamente pelo penteado. “Eu costumava comprar cinco quilos de batatas por quase nada. Uma lata de cerveja custava cinquenta centavos. E agora? O transporte custava trinta centavos, ou vinte às sextas-feiras. Quero dizer, a gente tinha um Estado com preocupação social, nem precisávamos pagar pelos remédios. É o que eu digo a você, não entendo. Virou uma coisa imbecil.” Dou uma olhadela para além dele e vejo que seus amigos expressam aprovação trêmula e silenciosa com a cabeça.

Já ouvi esse tipo de discurso antes, embora a gente que trabalhou para a Stasi, os intelectuais privilegiados de esquerda ou os ex-membros do Partido reclamem mais das tarifas aéreas. “De que me serve a liberdade, se não tenho dinheiro para viajar para Nova York/Las Palmas/Nova Zelândia nas férias?” Uma vez, num bar em Leipzig, uma senhora de idade, bebendo sua dose diária de aguardente às quatro da tarde, me disse: “Bom, isso é melhor do que a República de Weimar e do que os nazistas, mas tragam de volta os comunistas, é tudo que eu peço. Na época do Honecker, os bares ficavam mais cheios. Saúde!” Não duvido da autenticidade dessa nostalgia, mas acho que ela doura um mundo ordinário e detestável, um mundo em que não havia nada para comprar, nenhum lugar para ir e, ainda, um mundo em que, quem quisesse fazer alguma coisa da vida que não fosse servir o Partido, arriscava-se a ser perseguido ou coisa pior.

A manhã ganha mais vida agora, insetos dançam sobre a grama e o pólen paira iluminado no ar, à medida que as pessoas atravessam o parque rumo à estação de Rosenthaler Platz. O professor Cogumelo está embalado. “No passado, quando você ficava bêbado, a polícia só te pegava embaixo do braço e sentava você num banco. Agora, nem dormir aqui a gente pode, porque, se fizermos isso, somos roubados! Hoje em dia, a noção de moral anda terrível. Você sabia que pode ser roubada por causa de um cigarro? São os romenos, os ciganos e a máfia russa. Se uma cigana viesse dançar neste banco, sua carteira sumiria num segundo!”

Também essa queixa já ouvi antes, em diferentes versões: o anseio por uma época perdida, em que havia mais segurança. Afinal, em um Estado de segurança máxima, o mínimo que as autoridades podiam fazer enquanto prendiam tantos inocentes era aproveitar para dar um jeito também nos criminosos.

“Veja, duzentos metros para lá”, o professor Cogumelo estica o braço, e vejo uma faixa de pelos grisalhos no peito, entre as alças dos suspensórios, “ficava o muro. Antes dele, os Wessis vinham em bando para o lado de cá e compravam todas as nossas coisas! Erguemos o muro para que a gente pudesse ir fazer compras nas nossas próprias lojas! Mas, no fim, puseram o muro abaixo e compraram todos nós do mesmo jeito, os Wessis com seu dinheiro ocidental. Compraram as fábricas, as empresas e até os bares. Agora, não deixam nem a gente levantar a cabeça, ah, não deixam, não senhora!”

“Vou dizer honestamente o que eu penso sobre a fronteira”, prossegue ele, com novo tapinha no meu joelho. “E sou um sujeito honesto. Todos nós sabíamos, todo cidadão da RDA sabia que se chegasse perto do muro levaria bala! Era isso e pronto. Portanto, a gente ficava do lado de cá. O que eu quero dizer é que era só sentar a bunda aqui e sossegar. Assim, ninguém levava bala!”

Conheço esse argumento também: não enfrente o sistema, e ele não vai te fazer mal nenhum.

Mas, pelo que vi, ele provavelmente faria, sim, de qualquer jeito.

O professor aperta minha mão. “Você devia mesmo vir com a gente colher cogumelos”, ele diz. O coro murmura e assente com a cabeça. Eu agradeço a todos e vou-me embora para meu palácio de luz, ar e linóleo.