Stasilândia
28. Miriam e Charlie
O trem para Berlim passa por Leipzig, e eu desembarco.
O ar calmo da manhã se reveste de um calor sedoso que se tornará realidade por volta do meio-dia. Da última vez, a estação ainda estava em reformas. Agora, ela integra um shopping center de três andares num vasto átrio. Escadas rolantes sobem e descem entre os diferentes níveis. Perto da saída, há uma exposição de fotografias das manifestações de dez anos atrás. A placa sobre elas diz: “Leipzig. Cidade de heróis”. Não sei bem o que estou fazendo ali.
Perambulo pela cidade. A maior parte dos guindastes não está mais lá. A remoção dos andaimes revela novas fachadas de edifícios em amarelo brilhante, rosa escuro e até mesmo em dourado. Passo pela prefeitura e pelo Auerbachs Keller. No edifício ao lado, um novo museu foi inserido na velha paisagem da rua: o Fórum de História Contemporânea de Leipzig. O piso do interior é todo de granito e a mobília é cara. O museu, fico sabendo, é o esforço financiado pelo governo federal para pôr a história da divisão da Alemanha atrás de armários de vidro.
Vejo ali as famosas fotos da construção do muro: um soldado da Alemanha Oriental decidindo se mandar para o oeste e abrindo o arame farpado com as mãos; e Peter Fechter, o garoto de dezoito anos alvejado e morto em sua tentativa de fuga, em 1962, e abandonado na faixa mortal de segurança, porque um lado achou que o outro retaliaria se alguém tentasse ajudá-lo. Jogaram- lhe um rolo de ataduras, mas ele está imóvel e sangra. Há também fotografias de pessoas saindo de um túnel em Berlim Ocidental, o grupo que teve êxito, antes da tentativa de Frau Paul; e, estacionado ali dentro, vejo um camburão cinza idêntico àquele em que ela foi transportada até o julgamento. Um monitor de TV exibe a acidez de Karl-Eduard von Schnitzler em seu auge. Chego aos anos 1970 e encontro um mostruário de vidro com lembranças do Renft: discos, o velho violão de Klaus e fotos da banda, seus integrantes de umbigos peludos, com aspecto a um só tempo inocente e indecente.
Sou a única visitante. Os funcionários estão ansiosos por fazer contato e conversar um pouco, entediados até a alma. Talvez em virtude de todo o dinheiro derramado ali, os itens por trás dos vistosos mostruários parecem velhos e ordinários, como artigos de um tempo que ficou para trás. Desço as escadas fazendo barulho com minhas sandálias. Estou irritada que esse passado possa adquirir um aspecto tão barato e seguro, como se destinado desde o início a terminar por trás de um vidro, apartado por cordas de segurança e sob o controle de um botão. E estou irritada comigo mesma: qual o problema? Museus não são o lugar das coisas que já acabaram?
É uma boa caminhada, mas acho que sei chegar lá e, portanto, parto em direção à Runden Ecke. Espero que ainda esteja lá, que a versão espertinha e financiada pelo Ocidente que acabo de ver não seja tudo que restou da Alemanha Oriental. Sei que na periferia da cidade ficam os habituais altos blocos socialistas de apartamentos, mas ali, onde estou agora, as ruas são de paralelepípedo e os edifícios, grandiosos. Rostos esculpidos me olham de cima, dos arcos das arcadas, e uma fileira de cariátides sustenta o velho teatro. Passo por uma loja de música (era a casa de Bach), por um bistrô e por uma agência funerária com uma surpreendente gama de ofertas, além de uma placa que diz “dia e noite”: sepultamentos, cremações, enterros no mar e funerais anônimos integram a lista, tanto quanto o “transporte de urnas”. Um cachorro caminha resoluto pela calçada e, em alguma parte, suponho, uma pessoa se perdeu. A confiança do cachorro de cabeça erguida me faz sorrir. Um homem na vitrine de uma tabacaria me vê e retribui o sorriso.
O edifício ainda está lá, uma vastidão que ocupa o quarteirão inteiro e termina na esquina redonda, onde fica a entrada. Ao alcançá-la, vejo que o museu do comitê de cidadãos ainda existe e está aberto. Dentro de mim, uma angústia retesada se dissolve num alívio. Subo as escadas de pedra. A entrada para a exposição fica à esquerda, e para a Administração dos Arquivos da Stasi, à direita. Não mudou muita coisa. Caminho pelo corredor para além do escritório com o calendário de garotas, da cela com a janelinha e a cama minúsculas, e em direção ao escritório do museu. Cartazes solicitam doações para que o museu possa continuar funcionando.
Frau Hollitzer não está de serviço hoje, mas, sim, seu jovem colega me informa que ela ainda trabalha no Bürgerkomitee. Pergunto a ele sobre o novo museu da cidade, mas ele encolhe os ombros e diz alguma coisa sobre a incompatibilidade entre financiamento e autonomia. O comitê tentou negociar com as autoridades federais para que só existisse um museu da Alemanha dividida em Leipzig, e para que ele fosse administrado por alemães orientais, mas não funcionou. O museu do comitê ficou com um aspecto menor e mais pobrezinho do que o outro, mas, em compensação, é mais autêntico: era naquele prédio que as pessoas eram detidas e interrogadas, e era ali, no andar de cima, que se arquivavam as biografias roubadas. Passo algum tempo nas salas, vendo as pilhas de polpa de arquivo numa, os bigodes, perucas e a cola na outra, os vidros com amostras de cheiro numa terceira. Para mim, foi ali que tudo começou. Compro dois ou três livros com o rapaz e vou-me embora. Lá fora, faz muito calor. Desde a manhã, as árvores já adquiriram um verde mais profundo e produzem agora sombras mais escuras. Não tenho mais nada a fazer a não ser voltar para a estação ferroviária.
Caminho por um pequeno parque em cujos bancos pessoas almoçam. Há silêncio no ar, exceto pelo canto dos pássaros, pelo guinchar dos bondes e por um ruído rolante que vem se avolumando atrás de mim. Eu me viro, e dois garotos vêm em minha direção com seus skates, e avançam rápido. Antes que eu consiga me decidir por um lado, eles se separam numa formação graciosa, me ultrapassando um de cada lado para, mais à frente, juntarem-se de novo. Eu os observo deslizar para fora do parque. Repetem a mesma manobra em torno de uma garota numa cabine telefônica. Ela segue conversando enquanto se inclina para fora da cabine para vê-los prosseguir adiante em seus skates.
Quando chego perto da cabine, me pego observando a garota. Ela veste uma camiseta branca que deixa metade da barriga de fora e jeans, e masca chiclete enquanto fala ao telefone. Não ouço o que ela está dizendo, mas ela está completamente absorta em sua conversa, o calcanhar de uma perna apoiado no joelho da outra, dentro da cabine. Deve ter uns dezesseis anos, o que significa que tinha seis quando o muro caiu. Na certa, não vai se lembrar de um tempo em que não existiam cabines telefônicas.
Antes mesmo que eu possa compreender o que estou fazendo ali, ela me vê e acena com a cabeça, sinalizando que não vai se demorar muito mais. Por um momento, alivia-me ter encontrado um propósito. Mas agora estou paralisada. Quando a garota desliga, ela acena para mim e caminha para sua bicicleta. Eu entro na cabine. Dezesseis, penso comigo, dezesseis era sua idade quando ela embarcou daqui no trem para Berlim e escalou o muro. É tudo que me vai pela cabeça. Abro minha agenda no telefone dela e disco.
“Alô?”
“Miriam? Miriam, aqui quem fala é Anna Funder. Estou…”
“Anna! De onde você está ligando? Voltou para Berlim?”
“Eu... bom, na verdade, estou em Leipzig”, digo. “Pensei em você, e pensei em dar uma ligada para dar um oi enquanto estou aqui. Não sabia se o seu número ainda era o mesmo. Estive em Nuremberg, e agora estou a caminho de Berlim. Eu só...”
“Vou te buscar ”, ela diz. “Onde você está?”
“Perto da estação, acho.”
“OK. Encontro você na entrada lateral em dez minutos.”
Eu a vejo caminhando em minha direção. Está toda de branco, calça folgada e blusa esvoaçante. Tem a minha altura, mas uma constituição elegante. Quando me abraça, sinto as escápulas sob minhas mãos. Miriam ergue os óculos escuros, e seus olhos exibem o mesmo azul. Mas as linhas do rosto mostram um desenho mais profundo.
“Eu mudei de casa desde a última vez que você esteve aqui”, ela explica. Partimos de carro da estação sobre ruas de paralelepípedos e debaixo de olmos, plátanos e dos cabos do bonde.
O prédio de Miriam é de esquina e, restaurado, ficou muito bonito. Flores pintadas à mão sobem em espirais pelas paredes da grande escadaria e, lá no fundo, um discreto elevador de vidro e aço nos leva para cima. Mais uma vez, o apartamento dela é no último andar. A sala de estar dá para a esquina, as janelas estão todas abertas, e eu me dirijo para o parapeito. Do outro lado da rua, mais um belo edifício com um átrio de vidro no telhado e, para além dele, todo um campo de gramados e árvores estendendo-se até onde meus olhos alcançam.
“É a charneca de Leipzig”, ela diz às minhas costas. “É adorável para dar uma caminhada. Se você quiser, podemos ir até lá mais tarde. O zoológico de Leipzig também fica lá, e vale a pena dar uma olhada.”
“Que cheiro é esse?”, eu pergunto.
“A jaula dos felinos, talvez?”, ela ri.
“Não, é um cheiro doce.”
“Ah, são as acácias.” Ela se junta a mim na janela e aponta para o topo das árvores gloriosas, bem abaixo de nós. Flores de cor creme pendem aos cachos, como uvas. “É um belo perfume, não é?” ela pergunta. “Melhor do que o dos leões, pelo menos.” Ela ri e toca meu braço.
Miriam faz um chá, e nos sentamos para conversar. Não parece surpresa com minha chegada, ou não tão surpresa como me sinto por estar ali com ela. É como se ela sempre tivesse acreditado que nos veríamos de novo, quase como amigas. O que são alguns telefonemas em vão entre amigas?
O ar perfumado nos envolve suavemente. O apartamento possui assoalho de parquete, paredes claras e uma cozinha nova numa extremidade da sala de estar. O cômodo vizinho é um amplo espaço recoberto de um carpete cor de giz. Nele, há fileiras de livros e plantas, além de um computador a um canto, com o protetor de tela mostrando nuvens. Tudo é branco, luminoso e confortável.
Conto a ela sobre minhas viagens, sobre os homens da Stasi, sobre a provação de Julia nos tempos de escola, sobre os sequestros e os bebês deixados do lado errado do muro, sobre o Renft e o professor Cogumelo. Digo também que acabo de chegar de Nuremberg, onde conversei com as mulheres dos quebra-cabeças e descobri que há homens também entre elas — umas poucas dezenas de pessoas fazendo um trabalho que vai levar muito tempo. Descubro que não sou capaz de dizer “trezentos e setenta e cinco anos”
“Por aqui”, ela diz, “tudo leva muito, muito tempo.” Estamos sentadas a uma mesa de vime com tampo de vidro. Miriam deixa cair as sandálias e descansa os pés nos apoios da mesa. Os cabelos dela ainda estão cortados curtos, mas foram tingidos de um castanho escuro. Ela ainda usa óculos de aros redondos pequenos e sorri o mesmo sorriso gentil e repentino, as sombras entre os dentes acentuadas pela nicotina. “Muito... muito... tempo”, ela repete, acendendo um cigarro. Uma brisa que sopra pressiona suas roupas contra a pele, tornando a revelar por um instante como ela é franzina — algo de que sua voz possante me faz esquecer.
Ela trabalha numa estação pública de rádio. Há pouco tempo, pediram que fizesse um programa sobre as festas animadas pela chamada Ostalgie, nas quais entra de graça quem exibe uma identidade alemã oriental, todos se chamam de “camarada” e a cerveja custa apenas um marco e trinta centavos.
“Coisas como essas”, ela diz, “alimentam uma saudade maluca da RDA, como se a Alemanha Oriental tivesse sido um Estado de bem-estar social que cuidasse das necessidades das pessoas. Seja como for, a maioria dos que frequentam essas festas é jovem demais para se lembrar da RDA. Estão só procurando alguma coisa que possam querer muito.”
Alguns dos administradores da estação de rádio são ex-informantes, e um deles foi empregado da Stasi. Fico chocada, mas Miriam encolhe os ombros. “Os velhos quadros estão de volta ao poder ”, diz. Ela sabe que um deles costumava repassar à Stasi cartas e comentários de ouvintes queixosos, e ele sabe que ela sabe. “Não consegue olhar para mim”, ela conta. Quando Miriam se recusou a fazer o programa sobre Ostalgie, ele disse a ela: “Você sabe qual é o seu problema? Seu problema é que você não se identifica com a cultura desta estação”. Miriam rola os olhos diante da tentativa ridícula de um ex-Stasi de ressuscitar ameaças típicas da velha Stasi, apenas substituindo "nação” por “estação” O programa foi feito por outra pessoa e transmitido assim mesmo, alimentando a nostalgia fantasmagórica que, ali, ocupa o lugar de algum senso inexistente de integração.
O tu-tu-tu dos motores das vespas chega até nós, proveniente lá de baixo. O som me faz pensar em beira de praia, embora estejamos encalacradas bem no meio da Europa Central. Pergunto a Miriam sobre Charlie, sobre como ele era.
“Bom”, ela me diz, “ainda não organizei todas as fotos, elas continuam naquela mala velha.” Então, ela se levanta e vai até o quarto. Compreendo muito bem o impulso de não arquivá-las num álbum de plástico ou numa moldura. E, de repente, fica claro para mim por que o novo museu me irritara tanto. Envidraçaram coisas ainda não terminadas.
Miriam me mostra umas poucas velhas fotos em preto e branco, assim como um instantâneo colorido que lembra os da minha infância. Levo um choque. “Esta aqui é você?”, pergunto. A fotografia mostra um jovem casal sentado a uma mesa. Eu o reconheço da outra vez que estive com ela: o mesmo Charlie de rosto límpido e queixo quadrado. Ele está usando uma cartola, sem camisa, brincalhão. Eu não teria reconhecido Miriam. A garota da foto é maravilhosa, de uma beleza extraordinária. Magra, pele macia, um rosto que parece esculpido e um sorriso de tirar o fôlego. Irradia naturalidade, mas poderia ter saído de qualquer revista, daquele tempo ou de agora. “Isso foi logo depois do nosso casamento”, diz Miriam. “Nós fomos almoçar.” Eu me lembro da foto rasgada. Fico feliz que ela tenha se permitido continuar existindo nessa outra foto.
Há outra fotografia dos dois juntos: Miriam o abraça, olhando para a câmera. Ela é uma aparição, um anjo malvado que foi pego voando sobre o muro, posta numa jaula e, depois, solta — ali, ao lado do homem amado. Na terceira foto, uma Miriam mais jovem e de franja olha solenemente para a câmera. Parece ter uns doze anos.
“Essa aí foi bem quando saí da prisão”, ela diz. “Foi minha avó quem fez o vestido para mim.”
“Mas você parece tão jovem”, eu digo.
“E eu era, acho”, diz ela. “Tinha dezessete anos e meio.” Eu olho para ela. Não tem nenhuma vaidade, não esperava qualquer reação à beleza que se vê nas fotos. O sol brilha enviesado, dourando metade do seu rosto. Eu jamais teria visto a menina nela.
“Tem isto aqui também”, ela diz. “Pensei nisto na última vez que você veio aqui e, depois, encontrei.” Ela me passa um pedaço de papel dobrado duas vezes. “Na verdade, acho que não tinha remexido nessas coisas desde a morte do Charlie.” Ela respira fundo. “Foi difícil para mim tornar a mexer.” A página amarelou com os anos e está levemente rasgada. De um lado, há colunas de texto escrito a lápis, riscado e, depois, escrito de novo. No verso, o texto final, passado a limpo. “É um poema escrito pelo Charlie”, ela diz.
“Posso fazer uma cópia?”
“Pode levar com você, por favor ”, ela diz. “Uma outra hora, você me manda de volta.”
“Como ele era?”, pergunto de novo.
Miriam acende o isqueiro, só para ver a chama, e se recosta na poltrona. “Bom, era uma pessoa sensível”, diz. “Era muito reservado, notava as coisas. Tinha um bom senso de humor, mas, por baixo, eu diria que ele levava as coisas muito a sério.” Ela olha pela janela para o céu que passa. “Era individualista, e era filho único. Por isso é tão difícil para meus sogros.”
Ela se levanta e vai buscar uma tigela de cerejas na cozinha. “Os amigos pensavam que nosso casamento era uma catástrofe!”, ela ri, tornando a se sentar. “Mas, para nós, era o ideal.”
“Por que eles pensavam isso?”
“Tínhamos vidas separadas — até certo ponto, é claro! Acontecia de um querer ir ao cinema e o outro não, e aí quem queria ia sozinho. Nós achávamos que isso era bem normal. Ou, me lembro de uma vez em que eu estava voltando de uma viagem a Gera, na Turíngia, e topei com Charlie no corredor. 'Você está chegando ou saindo?’, perguntei. ‘Vou dar uma saidinha, te vejo amanhã’, ele disse.”
Vozes chegam da rua, notas isoladas de música humana. “Nossos amigos diziam: ‘Mas isso não é casamento coisa nenhuma!’. Só que, para nós, só podia ser desse jeito mesmo. É por isso que funcionava tão bem.” Ela cospe um caroço de cereja na mão. “Acho que, pelo menos para mim, isso veio da experiência na prisão. Reagi de um modo extremo quando saí de lá. Não conseguia planejar nada com antecedência, não conseguia dizer a alguém: ‘Vejo você no domingo’. Achava esse tipo de coisa uma obrigação intolerável.” Ela ri. “Com certeza, eu era difícil de aguentar!”
Não consigo imaginá-la como alguém difícil de aguentar, mas sei que é difícil apanhá-la. E percebo, de repente, que ela está contente de fato em me ver; que essa é a continuação de uma conversa iniciada três anos antes. Ela recebeu minhas mensagens telefônicas e minha carta, mas, por um impulso que agora compreendo, não quis ficar presa a uma resposta. Depois de passar anos tendo todos os seus movimentos vigiados, ela agora só quer deixar que as coisas tomem seu próprio curso. E o fato de eu ter aparecido é parte desse curso.
“Depois que fizemos a solicitação para sair do país, as coisas ficaram bem difíceis”, ela conta. “A Stasi começou a nos assediar na rua, paravam a gente a todo momento. Com muita frequência seguiam nosso carro também — queriam mesmo atazanar a nossa vida. No fim, Charlie foi chamado ao Departamento do Interior para interrogatório. Ele disse que só queria uma resposta para sua solicitação: sim ou não. Foi a primeira vez que o prenderam. Depois que ele foi solto, os cartões começaram a aparecer na nossa caixa de correio, convocando-o para comparecer à sala 111 da Dimitroffstrasse.”
Na Dimitroffstrasse ficava o prédio da polícia, mas Charlie Weber aprendeu que “sala 111” significava um encontro com a Stasi. O complexo de edifícios tinha um pátio interno. “Você podia entrar ali achando que ia resolver um probleminha administrativo e de repente se via numa sala sendo interrogado pela Stasi, ou mesmo trancafiado numa cela dos fundos.” Miriam faz uma pausa. “A última vez que Charlie entrou lá, ele compareceu à sala 111 e terminou numa cela.”
“Você queria exumar o corpo dele. O que aconteceu?”, pergunto. Ela remove o celofane de um novo maço de cigarros. Seus dedos parecem endurecidos e azulados pela falta de oxigênio.
“O gabinete do promotor daqui só quer saber de encobrir tudo que aconteceu e, acima de tudo, não quer ir atrás de ninguém da Stasi. Suponho que haja uma série de razões para isso, mas, em parte, esse comportamento se deve ao fato de que eles continuam trabalhando ao lado de gente que foi da Stasi: são todos colegas! Por exemplo, o juiz que assinou o mandado de prisão de Charlie, daquela última vez que o prenderam, continua em atividade.”
Ao que parece, no entanto, alguma coisa caminhou. O promotor encontrou uma testemunha do que aconteceu nas celas no dia em que Charlie morreu: um outro prisioneiro. “De acordo com o relato desse prisioneiro”, diz Miriam, “houve uma comoção na cela de Charlie logo cedo naquele dia. Alguma coisa aconteceu, e o guarda chamou outros guardas, que vieram correndo. Depois, foram todos embora. A testemunha afirma que tudo permaneceu calmo até o meio-dia, quando vieram trazer o almoço.Então, o guarda precisou de novo da ajuda dos outros, e houve gritaria na cela dele. Seria de esperar que esse novo indício impulsionasse outra vez as investigações, mas não. O promotor veio me dizer, depois, que tinha encontrado outro ex-prisioneiro, que teria lhe ‘assegurado com boa dose de credibilidade' não ter ouvido nada nas outras celas naquele dia. De novo, ele quis usar esse testemunho como motivo para encerrar o assunto."
Miriam perdeu a fé nas investigações. Há cerca de um mês ela enviou o arquivo e toda a correspondência de todos esses anos diretamente ao ministro da Justiça. “Ele ainda não me deu resposta", diz, “mas estou esperando." Ela deposita um cotovelo no braço da poltrona e segura o queixo na palma da mão. “E, claro, tem também os quebra-cabeças. Sei que existe uma grande quantidade de pedaços de papel que nem foi posta nos sacos, ou seja, que ainda não juntaram para enviar a Nuremberg. Talvez esses pedaços contenham alguma coisa sobre o Charlie."
Fico calada por um momento. Depois, pergunto o que ela acha que aconteceu na cela naquele dia.
“Charlie era teimoso. Sei, de sua prisão anterior, que ele se recusava a cooperar — que se recusava a falar ou a sair para os exercícios na prisão. Imagino que, talvez, ele não tenha respondido ou coisa do tipo quando foram à cela dele naquela manhã. Devem ter batido nele, e ele deu com a cabeça na parede ou coisa assim. Depois, devem ter deixado ele lá e, quando voltaram na hora do almoço, encontraram-no no mesmo lugar em que ele tinha caído. É provável que já estivesse morto ou, então, que estivesse morrendo, o que explica terem chamado mais guardas outra vez."
Ela apaga o cigarro e segue amassando a guimba.
Miriam provavelmente tem razão sobre o que teria acontecido. Mas desenterrar Charlie vai lhe revelar alguma coisa? Talvez possa esclarecer se ele morreu enforcado ou não, mas pelas mãos de quem? Ou, se o cremaram, como indica o arquivo, não vai haver nada no caixão que possa dizer a ela o que aconteceu. Ela própria, porém, seguirá vivendo, e só poderá contar com o consolo das frágeis teorias.
No momento, contudo, essa terrível espera mantém em suspensão sua vida com Charlie, o contato com ele. E, por baixo da necessidade de saber o que aconteceu, há o desejo de justiça. O regime pode ter acabado, mas o mundo não estará direito até que Miriam obtenha algum tipo de justiça. Envidraçaram coisas ainda não terminadas.
Seguimos conversando noite adentro. Comemos tomates com manjericão e melão com presunto. Miriam fala de amigos, mas não tem um companheiro. “É difícil demais”, diz ela com tristeza, “explicar tudo.” Pergunto sobre sua família. A mãe, ela me conta, é uma alpinista social. “Uma coisa difícil num regime socialista, mas ela conseguiu!”, ri. A irmã é dentista. “O consultório dela é aqui mesmo, no andar de baixo, daria para você ter visto.” Fico contente que sua irmã esteja por perto.
“E seu pai?”
“Meu pai era médico”, ela conta, “um homem muito bom. Morreu no começo dos anos 1970, ainda relativamente jovem.” Ela dá um tapinha no maço de cigarros sobre a mesa. “Câncer no pulmão.”
“Oh.”
“A vantagem é que não leva muito tempo”, ela diz, exalando a fumaça.
Através das portas duplas que conduzem à sala ao lado, meus olhos captam o olhar de porcelana de uma boneca. É uma velha marionete em trajes de seda branca, mãos na cintura, pendendo do crucifixo de barbantes atrelado a um canto da estante de livros.
Miriam pede que eu fique e insiste em me ceder sua cama. Acordo no meio da noite, em busca de água e de um pouco de ar. No caminho, entre o banheiro e a janela que dá para a charneca, eu a vejo à luz da lua e me detenho. Ela está dormindo no chão da sala de estar, de pijama branco folgado e uma venda nos olhos. O pescoço está dobrado, braços e pernas esparramados por uma almofada redonda. É tão esguia encolhida ali que praticamente seu corpo inteiro cabe na almofada, sob a luz.
De manhã, ela me leva até a estação. Para meu alívio, encontro uma copiadora aberta no caminho e posso lhe devolver o poema de Charlie. Ela me acompanha até a plataforma e espera até que o trem comece a andar, silencioso e lento. A garota sentada à minha frente beija um cachorrinho. Na plataforma, um cachorro mais velho bufa e se reacomoda, ciumento. Então, Miriam acena para mim e se afasta, as costas eretas, em direção à luz do sol.
Gosto de trens. Gosto de seu ritmo e da liberdade de estar suspensa entre dois lugares, as ansiedades inerentes aos propósitos sob controle: por enquanto, sei para onde estou indo. Logo deixamos Leipzig, passando por milho, trigo e caixas d’água de aspecto medieval junto de cada estação: Lutherstadt Wittenberg, Bitterfeld, Wannsee. Num dos campos, vejo um espantalho equipado para o que der e vier com um capacete preto de motociclista; atrás dele, um paraquedista busca seu ponto de pouso. Dois garotos sentados num bote entre os juncos pescam em meio ao vasto mar plano de improvável verde.
Eu me afasto da janela, e o cachorrinho, de súbito, passa a me achar fascinante. Ele detecta o ruído do papel no meu bolso. Eu abro o poema de Charlie.
Nesta terra
Fiquei doente de silêncio
Nesta terra
Caminhei, perdido
Nesta terra
Eu me agacho para ver
O que será de mim.
Nesta terra
Eu me contive
Para não gritar
— Mas gritei, tão alto
Que esta terra uivou para mim
Do mesmo modo horrível
Como constrói suas casas.
Nesta terra
Fui semeado
Só minha cabeça desponta
Desafiadora do chão
Mas um dia também ela será ceifada
Fazendo-me enfim
Desta terra.
Dobro o poema e penso em Charlie Weber, agora parte desta terra. E penso em Miriam, uma donzela que sopra fumaça em sua torre. Às vezes, ela as ouve e sente seu cheiro, mas, no momento, as feras estão todas em suas jaulas.
Caminho para casa, em direção ao apartamento da estação de Rosenthaler Platz. O parque está vivo, o sol brilha forte a ponto de destacar as pessoas de suas sombras num 3D exagerado. Os veranistas se esparramam na grama, alguns de calção, outros com o traseiro de fora. Adolescentes tiram o chiclete da boca para se beijar, beijar, um cão pastor exibe na testa um único tufo de pelos tingido de verde, um jovem deficiente é levado para uma voltinha num carrinho de bebê. Pessoas balançam bebês para lá e para cá, tentando acalmá-los, e crianças giram em balanços e carrosséis cuja presença ali eu nunca havia notado.