TED: Falar, Convencer, Emocionar

Carmine Gallo · Capítulo 15 de 50

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TED: Falar, Convencer, Emocionar

Capítulo 12

para 30 idiomas. Fui procurada pela Time e pela Oprah’s Soul Series. Viajei para a Europa, a Ásia, a

América do Sul, o Canadá e pelos Estados Unidos. E, em fevereiro de 2012, fiz uma viagem para a Antártica

com o vice-presidente Al Gore, 20 cientistas e 125 líderes globais que se preocupam profundamente com as

questões climáticas.[12]

 

A doutora Jill teve uma carreira espetacular, como Larry Smith diria, porque

encontrou e buscou realizar a sua missão na vida muito antes do evento traumático

que faria dela uma palestrante inspiradora. Ela se tornou uma cientista cerebral

porque seu irmão tinha sido diagnosticado com esquizofrenia.

 

Como irmã e, mais tarde, como cientista, eu queria entender como pegar os meus sonhos, conectá-los com a

minha realidade e fazer com que eles se tornassem reais. O que acontece com o cérebro do meu irmão e sua

esquizofrenia que ele não consegue conectar seus sonhos a uma realidade comum e compartilhada, de modo

que, em vez disso, esses sonhos se transformam em delírios?”

 

Conversei com a doutora Jill sobre seu estilo de apresentação – como ela cria a

história, a pratica e a comunica. O conselho da doutora Jill aos educadores e

comunicadores é: conte uma história para expressar a sua paixão. “Quando estava em

Harvard, eu era aquela que ganhava os prêmios”, ela me contou. “Eu não ganhava os

prêmios porque a minha ciência era melhor que a dos outros. Eu ganhava os prêmios

porque conseguia contar uma história interessante e fascinante, uma história que era

minha até os últimos detalhes.”

A profunda ligação da doutora Jill com o tema não pode ser separada de sua

impressionante capacidade de se comunicar com paixão e, em consequência, alterar a

visão de mundo de seus ouvintes. Se você considera o seu tema fascinante,

interessante e maravilhoso, é mais do que provável que o seu público também se

sentirá assim.

 

O SEU CÉREBRO NUNCA PARA DE CRESCER

 

GRAÇAS AO ESTUDO da neuroplasticidade, os cientistas estão descobrindo que o

cérebro na verdade cresce e muda ao longo de toda a vida. A intensa repetição de

uma tarefa cria novos e mais fortes caminhos neurais. À medida que uma pessoa se

especializa em determinada área – música, esportes, oratória –, as regiões do cérebro

associadas às habilidades efetivamente crescem.

“Todos nós melhoramos em uma tarefa se a realizamos repetidamente”,[13] de

acordo com Pascale Michelon, professor adjunto da Washington University em St.

Louis. Michelon me contou sobre pesquisas que foram realizadas em pessoas com

profissões tão diversas quanto motoristas de táxi e músicos. Em comparação com os

motoristas de ônibus, os taxistas de Londres tinham um hipocampo maior na região

posterior do cérebro.

O hipocampo tem uma função especializada no desenvolvimento da habilidade

utilizada para navegar em diferentes rotas, enquanto o hipocampo dos motoristas de

ônibus era pouco estimulado já que eles percorriam a mesma rota dia após dia. Os cientistas também descobriram que a massa cinzenta envolvida na atividade de tocar

música (as regiões motoras, a região parietal superior anterior e as áreas temporais

inferiores) era mais desenvolvida em músicos profissionais que praticavam uma hora

por dia, intermediária em músicos amadores e menos desenvolvida em não músicos.

Aprender uma nova habilidade e repeti-la vez após vez cria novos caminhos no

cérebro.

Michelon acredita que essas constatações também se aplicam a pessoas que

falam repetidamente sobre temas que as empolgam.

 

As áreas do cérebro envolvidas na linguagem – as que nos ajudam a falar e explicar as ideias mais

claramente –, são mais ativadas e se tornam mais eficientes quanto mais a utilizamos. Quanto mais você

falar em público, mais a sua estrutura cerebral muda. Se você falar muito em público, as áreas cerebrais da

linguagem se tornam mais desenvolvidas.

 

Os bons comunicadores, como os apresentadores do TED que atraem o maior

número de visualizações on-line, são mestres em um tema específico em virtude de

toda a devoção, tempo e esforço inevitavelmente enormes investidos no tema e

motivados principalmente por seu desmedido entusiasmo.

 

OS SEGREDOS DAS PERSONALIDADES

CONTAGIANTES

 

O PSICÓLOGO HOWARD Friedman estuda a mais esquiva das qualidades: o carisma,

um conceito intimamente vinculado à paixão. Em seu livro O projeto longevidade,

ele revela os resultados surpreendentes de um estudo revolucionário sobre o tema.

Em primeiro lugar, Friedman concebeu um questionário destinado a categorizar

pessoas de baixo e de alto carisma. O levantamento inclui perguntas como: “Quando

ouço uma boa música meu corpo começa automaticamente a se movimentar

acompanhando a batida”[14] ou “Nas festas, sou o centro das atenções” e “Sou

apaixonado pelo meu trabalho”. As opções de respostas variavam de “não muito

verdadeiro” até “muito verdadeiro”. A pontuação média foi de 71 pontos (as

pontuações mais altas chegaram a aproximadamente 117 pontos). O estudo separou

as personalidades magnéticas daqueles que costumam ficar esquecidos num canto

nas festas. O levantamento é chamado de Teste de Comunicação Afetiva (TCA) e

destinado a mensurar a extensão na qual as pessoas são capazes de comunicar seus

sentimentos aos outros. Mas, ainda não satisfeito, Friedman resolveu estender ainda

mais a avaliação.

Ele escolheu dezenas de entrevistados que tiveram uma pontuação muito elevada

no teste e outros com pontuações extremamente baixas. Ele deu a essas pessoas um

questionário perguntando, entre outras coisas, como elas estavam se sentindo naquele

momento. Depois, aquelas com altas pontuações e aquelas com baixas pontuações

foram colocadas juntas em uma sala. Elas ficaram dois minutos na sala sem poder

conversar. Ao fim dos dois minutos, foram convidadas a preencher outro questionário para avaliar seu estado de espírito. Constatou-se que, sem dizer uma

única palavra, os indivíduos altamente carismáticos foram capazes de afetar o estado

de espírito dos pouco carismáticos.

Se a pessoa carismática estava feliz, a pessoa pouco carismática também relatava

uma maior felicidade. Caso contrário, a pessoa de baixo carisma também se sentia

menos feliz. As pessoas carismáticas sorriam mais e demonstravam mais energia na

linguagem corporal não verbal. Elas irradiavam alegria e paixão.

O estudo de Friedman demonstrou que a paixão de fato contagia os outros. As

pessoas que não se comunicavam emocionalmente (com pouco contato visual,

rígidas, sem gesticular com as mãos) não eram tão capazes de influenciar e persuadir

os outros quanto as pessoas altamente carismáticas.

 

A PAIXÃO É CONTAGIANTE, LITERALMENTE

 

RALPH WALDO EMERSON disse: “Nada grandioso jamais foi realizado sem

entusiasmo”. Os professores Joyce Bono, da University of Minnesota, e Remus Ilies,

da Michigan State University, provaram que Emerson estava certo. Os professores de

administração conduziram quatro estudos distintos com centenas de participantes

para mensurar o carisma, as emoções positivas e o “contágio do estado de espírito”.

Os pesquisadores descobriram que “os indivíduos com elevadas pontuações de

carisma tendem a expressar mais emoções positivas em suas comunicações escritas e

faladas”.[15] As emoções positivas incluem paixão, entusiasmo, empolgação e

otimismo. Bono e Ilies também descobriram que elas são contagiantes, melhorando o

ânimo dos ouvintes. Os participantes que ouviram e assistiram a líderes positivos,

pessoalmente e em vídeo, saíram com um estado de espírito melhor do que

participantes que assistiram ou ouviram os líderes com baixa pontuação para

emoções positivas. Além disso, os líderes positivos foram considerados mais eficazes

e, portanto, mais capazes de convencer seus seguidores a fazer algo.

 

Os resultados do nosso estudo indicam claramente que as expressões emocionais dos líderes exercem um

papel importante na percepção dos seguidores em relação à eficácia do líder, em sua atração pelos líderes e

em seu estado de espírito. Nossos resultados também sugerem que a liderança carismática é associada ao

sucesso da organização, já que os líderes carismáticos possibilitam aos seus seguidores sentir emoções

positivas. E, o mais importante, os nossos resultados indicam que o comportamento dos líderes pode afetar o

nível de felicidade e bem-estar dos seguidores, influenciando sua vida emocional.

 

Dizem que o sucesso não leva à felicidade e que é a felicidade que leva ao

sucesso. Os oradores mais populares do TED refletem a verdade desse aforismo. O

modo como você pensa – a confiança que tem em seu conhecimento, a paixão que

tem pelo tema – afeta diretamente a sua presença comunicativa. Os pensamentos

alteram a química do cérebro, influenciando o que você diz e como você diz.

 

“Quando você se sente inspirado por algum propósito elevado, algum projeto

extraordinário, todos os seus pensamentos se desassociam. A sua mente transcende

as limitações, sua consciência se expande em todas as direções e você se vê em um

mundo novo, notável e maravilhoso. Forças, faculdades e talentos dormentes ganham

vida e você se descobre uma pessoa muito maior do que você jamais poderia sonhar

em ser.”

 

— PATANJALI,

professor indiano considerado por muitos o pai do ioga.

 

Quando você se entusiasma pelo tema – obsessivamente –, sua energia e

empolgação contagiarão seus ouvintes. Não tenha medo de se expressar, de expressar

o seu eu autêntico. Se você se sentir inspirado como a doutora Jill, compartilhe a sua

inspiração. Se você se sentir frustrado como Larry Smith, comunique a sua

frustração. Se você se sentir feliz como Matthieu Ricard, expresse a sua felicidade.

 

Dica do TED

Cerque-se de pessoas empolgadas. Howard Schultz, fundador da Starbucks, uma vez me disse: “Quando você está cercado de pessoas que compartilham uma paixão coletiva por um objetivo em comum, tudo é possível”. Identificar a sua paixão é um passo do processo, mas você também deve compartilhá-la, expressá-la e falar sobre o que o motiva com os colegas, clientes e outras pessoas da sua vida. E, o mais importante, você deve se associar a outras pessoas que compartilham a sua paixão. Os líderes usam a paixão como um critério de contratação. Richard Branson contrata pessoas que demonstram a atitude da Virgin: elas sorriem muito, são positivas e entusiasmadas. Em consequência, elas se comunicam melhor. Não basta ser empolgado. Você também deve se cercar de pessoas que se empolgam com a sua organização e com o seu tema. O seu sucesso como líder e comunicador dependerá disso.

 

500 TEDSTERS NÃO PODEM ESTAR ERRADOS

 

RICHARD ST. JOHN estava em um avião a caminho de uma conferência do TED

quando um adolescente sentado a seu lado, curioso sobre o trabalho dele, perguntou:

“O que leva ao sucesso, de verdade?”. St. John não tinha uma boa resposta para dar,

mas teve uma boa ideia: ele perguntaria aos líderes de sucesso que compareceriam ao

TED como ouvintes ou palestrantes. Ele passou a década seguinte entrevistando 500

TEDsters e identificou as características que os levaram a seu enorme sucesso. St.

John revelou suas descobertas em uma apresentação de três minutos no TED

Monterey de 2005.

Em uma palestra vista mais de quatro milhões de vezes, St. John apresentou “Os

oito segredos do sucesso”. Adivinhe qual é o “segredo” número um? Você acertou: a

paixão. “Os TEDsters fazem o que fazem por amor, não por dinheiro”,[16] afirmou St.

John.

Em seu livro Eight to be great, St. John escreve sobre Mullins, com quem abri

este capítulo, dizendo:

 

A paixão possibilitou que Aimee Mullins quebrasse recordes de corrida mesmo sem ter dois membros

essenciais para correr: as pernas... O nome dela lhe cai muito bem, já que “Aimee” vem da palavra francesa

para “amor”, que é uma grande razão de seu sucesso tanto nas pistas de corrida quanto na vida. Não é à toa

que ela diz: “Se é a sua paixão, o sucesso será inevitável”.

 

QUER AJUDAR ALGUÉM? CALE-SE E OUÇA

 

O DOUTOR ERNESTO Sirolli, fundador do Sirolli Institute e um especialista

internacionalmente renomado de desenvolvimento econômico, aprendeu a duras

penas que nós é uma palavra mais potente que eu. Sirolli, que começou sua carreira

no desenvolvimento sustentável trabalhando em iniciativas de ajuda humanitária na

África no início dos anos 1970, contou a uma plateia do TEDx em 2012 que aquilo

que muitos “especialistas” sabiam – ou achavam que sabiam – sobre o

desenvolvimento sustentável acabou se revelando equivocado.

Aos 21 anos, ele trabalhava em uma ONG italiana e “todos os projetos, sem

exceção, que montamos na África fracassaram”.[17] O primeiro projeto de Sirolli foi

ensinar aldeões no sul da Zâmbia a cultivar tomates.

 

Tudo o que se plantava na África crescia que era uma beleza. Tínhamos aqueles tomates magníficos... e

dizíamos aos zambianos: “Vejam só como a agricultura é fácil”. Quando os tomates estavam lindos,

maduros e vermelhos, no meio da noite, 200 hipopótamos saíram do rio e devoraram tudo. [Risos.] E nós

dissemos aos zambienses, “Meu Deus, os hipopótamos!”. E os zambienses explicaram: “Sim, é por isso que

não temos agricultura aqui”. [Risos.] “Por que você não nos contaram?!?” “Vocês nunca perguntaram”.

 

Se você quer ajudar alguém, cale-se e ouça. Foi o que Sirolli aprendeu com suas

primeiras experiências na agricultura sustentável. “Nunca se deve chegar a uma

comunidade com ideias preconcebidas”, ele explicou. Em vez disso, ele recomenda

canalizar a paixão, a energia e a imaginação dos moradores dessa comunidade.

Como já vimos, a paixão é a base do sucesso nos negócios, do sucesso

profissional e do sucesso na oratória. Acontece que a paixão também é o fator

essencial de sucesso no trabalho de Sirolli.

 

Você pode dar uma ideia a alguém. Se a pessoa não quiser seguir essa ideia, o que você pode fazer? A

paixão da pessoa pelo próprio crescimento é o fator mais importante. A paixão daquele homem pelo próprio

crescimento pessoal é a coisa mais importante. Então nós os ajudamos a sair e encontrar o conhecimento,

porque nenhuma pessoa no mundo pode ter sucesso sozinha. A pessoa que tem a ideia pode não ter o

conhecimento, mas o conhecimento está por aí, disponível.

 

Você está lendo estas palavras porque tem uma paixão pelo crescimento pessoal.

Você provavelmente já domina (ou está perto de dominar) o tema sobre o qual fala.

Não tenha medo de compartilhar o seu entusiasmo. Ele contagiará o seu público.

 

“Pela nossa experiência, os melhores executivos são os mais apaixonados pelo que

fazem”.

 

— RONBARON,

investidor bilionário

SEGREDO No 1

LIBERTE O SEU MESTRE INTERIOR

Eu posso ensiná-lo a contar uma história. Eu posso ensiná-lo a criar um magnífico slide de

PowerPoint. Eu posso até ensiná-lo a usar melhor a sua voz e o seu corpo. Histórias

eficazes, slides e linguagem corporal são componentes importantes de uma boa

apresentação, mas não ajudam muito se o palestrante não for apaixonado pelo tema. O

primeiro passo para inspirar os outros é encontrar, você mesmo, a sua inspiração. A maneira

mais simples de identificar a sua verdadeira paixão é responder à pergunta que propus

antes, neste capítulo: “O que faz o meu coração bater mais forte?”. Uma vez que descobrir o

que faz o seu coração bater mais forte, as histórias que contar, os slides que usar e o seu

estilo de transmitir o conteúdo ganharão vida. Você se conectará com as pessoas de uma

maneira mais profunda do que jamais imaginou ser possível. Você terá a confiança de

compartilhar o que aprendeu como um verdadeiro mestre. Então estará pronto para fazer a

apresentação da sua vida.