TED: Falar, Convencer, Emocionar
6 Faça uma apresentação leve
Ao longo do último século, o senso de humor se tornou
um traço de personalidade altamente valorizado.
— ROD A. MARTIN, psicólogo
A palestra mais popular do TED de todos os tempos foi um azarão: Sir Ken Robinson explicando por que as escolas matam a criatividade. Já mencionei que a
apresentação dele foi a palestra mais popular do TED de todos os tempos, mas como
essa palestra de 18 minutos sobre a reforma do sistema educacional conseguiu atrair
mais de 15 milhões de visualizações? Pessoas muito mais famosas que Robinson
fizeram apresentações postadas no YouTube – Conan O’Brien, Stephen Colbert, J. K.
Rowling e Oprah Winfrey –, mas nenhum desses vídeos chega perto da popularidade
de Robinson.
O seu vídeo se tornou um fenômeno viral porque o nosso cérebro não consegue
ignorar a novidade. E também porque adora uma boa piada. Combine o senso de
humor com a novidade e você tem uma apresentação espetacular. Robinson usou
uma abordagem original para falar sobre um velho problema – como ensinar melhor
as crianças. A novidade: senso de humor.
“Se você está em um jantar e diz que trabalha na educação... na verdade, você
não é convidado a muitos jantares, francamente, se trabalha na educação”,[1]
Robinson disse ao abrir sua palestra. O público começou imediatamente a rir e as
risadas não deram trégua enquanto Robinson prosseguiu com outra observação
engraçada sobre o trabalho na educação: “Mas, se você for [convidado a um jantar],
e alguém perguntar: ‘O que você faz?’ E você responde que trabalha na educação, dá
para ver o sangue se esvaindo do rosto da pessoa. E você fica tipo, ‘Oh, céus, por que
eu? Justo na única noite da semana que tive a chance de sair!’.”
SEGREDO No 6
FAÇA UMA APRESENTAÇÃO LEVE
Não leve você mesmo (ou o seu tema) a sério demais. O cérebro também adora uma boa
piada. Dê ao seu público uma razão para sorrir.
A técnica funciona porque...: o senso de humor derruba defesas, deixando o seu
público mais receptivo à sua mensagem. As pessoas também acabam simpatizando mais
com você e têm mais chances de apoiar ou fazer negócio com pessoas de quem gostam.
Sir Ken Robinson entrelaçou de maneira magistral anedotas, histórias e piadas
em uma narrativa que comunicou muito bem o tema principal: o sistema educacional
dos Estados Unidos recompensa os alunos treinados para fazer provas e sufoca a
criatividade, a disposição a correr riscos e a inovação. Veja alguns outros exemplos
de como Robinson fez o seu público pensar e rir ao mesmo tempo.
• “Um dia desses ouvi uma história ótima, que adoro contar, de uma menininha
numa aula de desenho. Ela tinha 6 anos e estava nos fundos da sala, desenhando. A
professora disse que aquela menininha quase nunca prestava atenção, mas que,
naquela aula de desenho, ela estava muito concentrada. A professora ficou
intrigada, foi até a menininha e perguntou: ‘O que você está desenhando?’. E a
menininha respondeu: ‘Estou desenhando Deus’. A professora disse: ‘Mas
ninguém sabe como Deus é’. E a menininha disse: ‘Vocês vão saber daqui a
pouco’.”
• “Morei em Stratford-on-Avon [uma pequena cidade da Inglaterra], até uns cinco
anos atrás. Nós nos mudamos direto de Stratford para Los Angeles. Então dá para
imaginar a transição tranquila que foi. (Risos.) Na verdade, nós moramos num
lugar chamado Snitterfield, nas cercanias de Stratford, que foi onde o pai de
Shakespeare nasceu. Vocês não acham isso esquisito? Eu acho. Ninguém pensa
que Shakespeare teve um pai, não é mesmo? Vocês já pensaram nisso? Porque
ninguém pensa em Shakespeare como um moleque, não é? Dá para imaginar
Shakespeare com 7 anos de idade? Eu nunca pensei nisso. Quero dizer, um dia ele
teve 7 anos. E estudou na aula de inglês de alguém, não é mesmo? Dá para
imaginar como isso teria sido irritante? Imagine o pai de Shakespeare mandando
ele ir dormir: ‘Largue esse lápis e vá para a cama. E pare de falar desse jeito. Você
está deixando todo mundo confuso’. Então, nós nos mudamos de Stratford para
Los Angeles e eu só gostaria de dizer uma palavra sobre a transição, na verdade.
Meu filho não queria vir. Eu tenho dois filhos. Hoje ele tem 21 anos e a minha
filha tem 16. Ele não queria vir para Los Angeles. Ele adorava a cidade, mas tinha
uma namorada na Inglaterra. Era o amor da vida dele, a Sarah. Eles só se
conheciam havia um mês. Veja bem, eles comemoraram o quarto aniversário
porque isso é muito tempo quando se tem 16 anos. De qualquer maneira, ele estava
muito chateado no avião e disse: ‘Nunca mais vou encontrar outra garota como a
Sarah’. E nós estávamos bastante satisfeitos com isso, francamente, porque ela foi
a principal razão pela qual estávamos deixando o país.”
• “Eu gosto de professores universitários, mas, vejam bem, eles não representam o
auge de toda a realização humana. Eles não passam de uma forma de vida. E eles
são bastante estranhos, e digo isso porque tenho muito carinho por eles. Pela minha
experiência, os professores têm uma coisa curiosa – não todos, mas em geral –,
eles vivem na cabeça deles. Eles vivem aqui em cima, e um pouco deslocados para
o lado. Eles são desencarnados, sabem? Eles vivem numa espécie de forma literal.
Eles acham que o corpo não passa de um meio de transporte para a cabeça, não é
verdade? (Risos.) É só um jeito de levar a cabeça às reuniões.”
Robinson recebeu uma longa ovação de pé. Ele inspirou uma plateia de 1.200
pessoas que incluiu bilionários, filantropos, cientistas, pensadores e formadores de
opinião. E também inspirou milhões de pessoas na internet.
Uma das coisas que faço é estudar comunicadores inspiradores: quem eles são,
como conseguem fazer o que fazem e como qualquer outra pessoa também poderia
aprender a inspirar os outros. Se Robinson se limitasse ao conteúdo, poucas pessoas
teriam prestado atenção à sua apresentação, porque fatos e conteúdo literal, por si só,
não possuem qualquer carga emocional. Como vimos no Capítulo 5, as estatísticas
são chatas a menos que sejam embaladas em um pacote emocionalmente atraente.
Quando um bom comunicador dá vida às estatísticas, os dados têm o poder de nos
comover, nos inspirar e nos levar a fazer alguma coisa a respeito.
O senso de humor é uma tática usada com destreza pelos palestrantes mais
inspiradores do mundo. O humor funcionou para Robinson. E funcionará para você
também. No entanto, você precisa aprender a incorporar o humor de uma maneira
criativa e natural. Repetir piadas velhas ou, pior, grosseiras e sujas não o levará
muito longe. Na verdade, isso pode até indispor a sua plateia.
Os oradores mais populares do TED não contam piadas! A menos que você seja
um comediante profissional, as piadas não saem autênticas. Pense a respeito. Quando
encontra um cliente pela primeira vez, você abre a conversa com a última piada que
leu na internet? Não? Então por que você se sentiria compelido a abrir uma
apresentação de negócios com uma piada? Abrir com uma observação cômica, em
contrapartida, pode ser perfeitamente apropriado e bastante eficaz. Neste capítulo,
você vai aprender cinco alternativas bem-humoradas para contar uma piada.
Uma piada mal contada, ou pior, uma piada bem contada mas grosseira ou inoportuna pode
denegrir rapidamente a sua reputação diante do seu público. Certa vez, conduzi um workshop
para um grupo de representantes de vendas de uma grande companhia de viagens global.
Todos os representantes de vendas fizeram uma breve apresentação para o resto do grupo. O
homem que fez uma das apresentações mais bem elaboradas concluiu com uma piada
grosseira sobre as mulheres.
Piadas machistas são inaceitáveis em qualquer apresentação profissional de negócios e,
considerando que a maior parte do público dele era constituída de vendedoras bem-sucedidas, a
apresentação foi um terrível fracasso. Na sessão de feedback, quase todo mundo reclamou da
piada. A piada só conseguiu distrair a plateia de uma excelente história que o apresentador tinha
contado sobre o produto. Um comediante como Chris Rock consegue escapar impune de piadas
machistas, é pago regiamente para fazer isso e o público dele já espera esse tipo de humor. No
entanto, é pouco provável que o seu público espere que você seja um Chris Rock, então é
melhor nem tentar.
O CÉREBRO ADORA UM BOM SENSO DE HUMOR
O DOUTOR A. K. PRADEEP é o fundador da NeuroFocus, uma empresa de pesquisa
sediada em Berkeley que utiliza pesquisas neurológicas para descobrir como os
consumidores decidem o que assistir e o que comprar. “Em seu núcleo emocional, o
cérebro de todos os seres humanos modernos é bastante parecido”,[2] ele escreve em
O cérebro consumista. O senso de humor, ao que parece, é uma daquelas ferramentas
para as quais o cérebro foi programado para responder e é uma chave para tornar
uma mensagem original e inovadora.
Quando conversei com Pradeep em seu centro de pesquisas, soube que seus
experimentos corroboram as pesquisas existentes, que demonstram que conversas
breves, claras e interessantes têm mais chances de serem compreendidas pelos
ouvintes. Os ouvintes, por sua vez, serão muito mais propensos a lembrar essas
mensagens e a fazer alguma coisa a respeito. Como fazer com que as mensagens
sejam interessantes? Segundo Pradeep, use o humor para dar um toque de
originalidade à ideia. “O cérebro adora isso”, ele explica.
Rod A. Martin, professor de psicologia da University of Western Ontario, explica
que as pessoas usam o humor para “reforçar o próprio status na hierarquia de um
grupo. Por exemplo, você é mais propenso a fazer piadas e divertir as pessoas de um
grupo no qual você é o líder ou tem uma posição de dominância do que em um grupo
no qual você tem um status inferior e menos poder que os outros”.[3]
Em seu livro The psychology of humor, Martin argumenta que o humor é usado
como uma “tática de adulação”, na tentativa de ser aceito em um grupo. Isso explica
por que tantos comediantes famosos tiveram uma infância difícil ou passaram por um
período no qual foram tratados como párias. Eles usaram o humor para adular e se
imiscuir no grupo e o fizeram com tanta frequência que refinaram suas técnicas a
ponto de fazer disso uma profissão. De acordo com Martin:
Quando encontramos uma pessoa pela primeira vez, tendemos a formar rapidamente impressões e opiniões
sobre seus traços de personalidade, como simpatia, sua credibilidade, suas motivações e assim por diante.
Com efeito, a capacidade de formar impressões relativamente precisas dos outros com rapidez e eficiência
pode ter sido importante para a sobrevivência da humanidade na nossa história evolutiva. Uma fonte de
informações que contribuem para formar as nossas impressões iniciais dos outros é a maneira como eles
expressam o humor. O humor é uma forma de comunicação interpessoal, de modo que um bom senso de
humor é uma importante habilidade social que em geral admiramos nos outros. [4]
O riso também desempenha um importante papel reforçando a coesão do grupo,
segundo Martin. O humor e o riso são exemplos do que Martin chama de indução de
estados emocionais:
Um método de comunicação projetado para chamar a atenção dos outros, para transmitir informações
emocionais importantes e para ativar emoções similares nos outros... O riso não só transmite informações
cognitivas aos outros como também induz a acentuação de emoções positivas para influenciar seu
comportamento e promover uma atitude mais favorável daquele que ri.[5]
De acordo com Martin, estudos demonstram que, quando encontramos pessoas
com um bom senso de humor, somos mais propensos a atribuir outros aspectos
desejáveis à personalidade dessas pessoas. Estudos revelam que as pessoas bem-
humoradas são vistas como simpáticas, extrovertidas, atenciosas, agradáveis,
interessantes, criativas, inteligentes, perspicazes e emocionalmente estáveis.
Quando sites americanos de namoro na internet perguntam aos membros qual qualidade eles consideram mais desejável em um parceiro, mais de 80% respondem
“bom senso de humor”. Quando se trata de encontrar um companheiro, um
levantamento após o outro mostra que o senso de humor é mais importante que o
grau de escolaridade, sucesso profissional ou atratividade física. A menos que esteja
tentando se vender em uma rodada de speed dating, você provavelmente não está em
busca de um companheiro ao fazer uma apresentação, mas sim procurando prender a
atenção e conquistar o respeito da sua plateia. O seu público adora o humor. Dê-lhes
o que eles querem. A devoção deles o ajudará a ter muito mais sucesso.
RINDO O CAMINHO TODO ATÉ O BANCO
TER UM BOM senso de humor é importante no palco do TED, nos relacionamentos
pessoais e em qualquer ambiente de negócios. Em um estudo publicado na Harvard
Business Review (intitulado “Laughing all the way to the bank” ou “Rindo o caminho
todo até o banco”, em tradução livre), Fabio Sala compilou mais de quatro décadas
de pesquisas sobre o humor e descobriu que “o humor, se utilizado com destreza,
lubrifica as engrenagens da gestão. O humor reduz a hostilidade, evita críticas, alivia
a tensão, reforça a moral e ajuda a transmitir mensagens difíceis ou delicadas”.[6]
Além dessa compilação, Sala também conduziu suas próprias pesquisas. Ele
escolheu 20 executivos de uma empresa de alimentos e bebidas, metade dos quais foi
classificada como de desempenho mediano pelos colegas, enquanto a outra metade
foi caracterizada como de desempenho acima da média. Todos os executivos
participaram de uma entrevista de duas horas para falar sobre o desempenho da
liderança. Dois observadores categorizaram o conteúdo das entrevistas e anotaram as
referências cômicas. O humor que incluiu humilhar os outros foi codificado como
negativo, enquanto o humor utilizado para apontar coisas engraçadas ou absurdas foi
codificado como positivo. De acordo com Sala:
Os executivos classificados como de desempenho acima da média usaram o humor com uma frequência
mais que duas vezes maior que os executivos medianos, atingindo uma média de 17,8 vezes por hora em
comparação com 7,5 vezes por hora... Quando analisei a remuneração dos executivos naquele ano, descobri
que o montante do bônus que eles receberam apresentou uma correlação positiva com o uso do humor
durante as entrevistas. Em outras palavras, quanto mais engraçados os executivos eram, maior foi o bônus
recebido.
Sala observa que “ser engraçado” não foi o fator-chave, mas refletiu um
importante componente de sucesso: a inteligência emocional.
Nos meus estudos, os executivos de destaque usaram mais todos os tipos de humor em comparação com os
executivos medianos, embora favorecessem o humor positivo ou neutro. No entanto, não queremos sugerir
que é sempre bom usar mais humor ou que o humor positivo é sempre melhor do que o humor negativo,
depreciativo. Tanto na vida profissional quanto pessoal, o que decide o uso eficaz do humor é o modo como
ele é executado. Não tente forçá-lo. Mas preste mais atenção ao modo como você usa o humor, como os
outros reagem a isso e as mensagens que você transmite. Tudo depende do jeito de falar.
Se tudo depende do jeito de falar, como fazer graça em uma apresentação? O primeiro passo pode parecer um contrassenso, mas garanto que é fundamental: não
tente ser engraçado. Evite contar piadas. Assim que você começa a contar a piada da
loira no bar ou do rabino e do sacerdote no avião, você está morto. As piadas só
funcionam para os melhores comediantes profissionais.
Você não é o Jerry Seinfeld. Ele revela que, quando trabalha em um novo show,
dois terços de suas piadas são um lixo e, em sua maioria, seriam um enorme fracasso
no palco. Seinfeld passa anos trabalhando nas piadas antes de chegar ao ponto certo.
Em um vídeo para o site do New York Times, Seinfeld desconstruiu
detalhadamente a anatomia de uma piada. Ele contou que passou dois anos
trabalhando em uma piada sobre o Pop-Tart, um biscoito pré-assado recheado. “É
muito tempo para gastar em algo que não faz sentido algum, mas é o que eu faço e é
o que as pessoas querem que eu faça”,[7] ele explicou. Em seguida, desconstruiu a
piada na qual estava trabalhando: “Gosto que a primeira frase já seja, de cara,
engraçada. ‘Quando eu era um moleque e eles inventaram o Pop-Tart, a parte de trás
da minha cabeça quase explodiu.’ A frase preparava o terreno [para a piada]: foi uma
parte específica da minha cabeça que quase explodiu, e não a minha cabeça como um
todo...”. Dito isso, Seinfeld passou os próximos cinco minutos dissecando cada
componente – cada frase – do resto da piada. Se uma frase for comprida demais, ele
tira letras de palavras e conta sílabas para obter o comprimento perfeito.
O vídeo de Jerry Seinfeld nos dá um vislumbre fascinante da mente de um
comediante admirável. Aprendi duas lições: (1) dá muito trabalho fazer comédia e
(2) o humor que usamos nas apresentações e o modo como executamos esse humor
devem ser meticulosamente elaborados e considerados.
Como é possível ser engraçado sem contar piadas? Eu seria um milionário se
fosse pago a cada vez que um cliente me disse: “Eu não sou engraçado”. Você não
precisa ser engraçado para ser divertido. Você só precisa estar disposto a fazer a sua
lição de casa para injetar um pouco de diversão e leveza na sua apresentação. Veja
cinco maneiras de dar o toque certo de humor na sua palestra ou apresentação sem
passar dois anos lapidando uma piada.
1. Anedotas, observações e histórias pessoais
A maioria dos apresentadores do TED que arranca risos da plateia tende a contar
anedotas sobre si mesmos ou sobre conhecidos, fazer observações sobre o mundo ou
contar histórias pessoais. Se alguma coisa aconteceu com você e você achou graça na
situação, grandes são as chances de os outros também considerarem a situação
cômica. A maior parte do humor de Sir Ken Robinson foi apresentada na forma de
anedotas e histórias sobre si mesmo, seu filho, sua esposa etc.
Esse é o tipo de humor mais eficaz na maioria das apresentações de negócios.
Anedotas e observações são historietas ou exemplos que não têm a pretensão de
provocar grandes gargalhadas, mas sim colocar um sorriso no rosto das pessoas e
fazer com que a plateia simpatize com o palestrante. Por exemplo, no TED de 2013, Dan Pallotta, fundador do AIDS Rides, fez a seguinte observação: “E, por falar
nisso, eu sou gay. Ser gay e ser pai de trigêmeos é, de longe, a coisa mais
socialmente inovadora, socialmente empreendedora que já fiz”.[8]
A doutora Jill Bolte Taylor provocou grandes risadas quando fez uma piada sobre
si mesma relatando o momento em que teve um derrame. Ela disse: “Eu me dei
conta: ‘Meu Deus! Estou tendo um AVC! Estou tendo um AVC!’. A próxima coisa
que meu cérebro me diz é: ‘Uau! Que legal! Quantos cientistas cerebrais têm a
chance de estudar o próprio cérebro de dentro para fora?’”.[9] E, com o timing
perfeito de um comediante, a doutora Jill arrematou: “E foi quando o pensamento
passou pela minha cabeça: ‘Mas eu sou uma mulher muito ocupada! Não tenho
tempo para um derrame!’”.
É sempre um bom caminho abrir uma apresentação falando sobre algo cômico ou
divertido que você observou. Mas não tente provocar gargalhadas logo de cara. Você
pode arrancar risadas da plateia mais tarde, mas, se tentar fazer isso assim que pisar
no palco ou iniciar a sua apresentação, pode dar de cara com a parede e, apesar de
momento algum ser um “bom momento” para dar de cara com a parede, você pode
nunca se recuperar se isso acontecer cedo demais.
Dica do TED
Lembre-se do que deu certo. Pense nas anedotas, histórias, observações ou comentários que o fizeram sorrir no passado ou provocaram um sorriso nos seus colegas. Se esse tipo de humor deu certo na ocasião e for apropriado para a sua apresentação, incorpore-o à sua narrativa e pratique sua execução.
2. Analogias e metáforas
Uma analogia é uma comparação que aponta para as semelhanças entre duas coisas
diferentes. É uma excelente técnica de retórica que ajuda a explicar temas
complexos. No meu trabalho com a Intel, usamos a clássica analogia tecnológica de
que um semicondutor (chip de computador) é “como o cérebro do computador”.
Quando a Intel lançou seu primeiro chip dual-core, explicamos a tecnologia com
uma frase simples: “É como ter dois cérebros em um computador”. Trabalhei,
naquela mesma empresa, com a diretora de armazenamento computacional, que
declarou: “Em 2020 o mundo terá 40 zetabytes de dados. Isso é 57 vezes mais dados
que cada grão de areia do mundo. Carmine, onde você acha que vamos enfiar toda
essa informação?!”.
Ao comparar os dados com grãos de areia, a especialista em armazenamento
colocou a enorme estatística em perspectiva e se divertiu relatando os dados.
Aconselhei-a a abrir suas apresentações assim. Ela passou a fazer isso e foi muito
bem recebida pelo público, tanto interno quanto externo. Ora, não adianta mandar
alguém “ser engraçado” ou contar uma piada. Se orientar as pessoas a fazer algo no
palco que elas não costumam fazer numa conversa do dia a dia, você está preparando
o terreno para o fracasso. Em geral, uma analogia simples pode levar os ouvintes a sorrir.
Muitos dos melhores apresentadores do TED provocam o riso usando analogias.
Por exemplo:
• “Chris Anderson me perguntou se eu poderia relatar os últimos 25 anos de
campanhas contra a pobreza em dez minutos no TED. Estamos falando de um
inglês pedindo a um irlandês para ser sucinto.” — Bono;
• “Um especialista falando sobre a internet e dizendo que ela fará isso ou aquilo no
futuro deve ser recebido com o mesmo ceticismo que os comentários de um
economista sobre a economia ou um meteorologista sobre o clima.” — Danny
Hillis, inventor, TED de 2013;
• “Tentar governar o Congresso sem relações humanas é como tentar rodar um carro
sem óleo no motor. Você se surpreenderia se a coisa toda emperrasse?” —
Jonathan Haidt, psicólogo social, TED de 2012;
• “Se os americanos quiserem viver o sonho americano, eles deveriam ir à
Dinamarca.” — Richard Wilkinson, professor da University of Nottingham,
TEDGlobal de 2011.
3. Citações
Um jeito fácil de provocar risadas sem ser um comediante ou contar uma piada é
citar alguém dizendo algo engraçado. As citações podem ser de pessoas famosas,
anônimas ou de parentes e amigos. Os oradores do TED fazem isso o tempo todo.
Por exemplo, Carmen Agra Deedy citou sua mãe, que disse: “Larguei a vergonha
junto com a meia-calça – as duas me impedem os movimentos”. Alguns palestrantes
fazem citações e uma observação incisiva para enfatizar a piada. “Em 2006, o
presidente da American Mortgage Bankers Association (associação americana dos
bancos de crédito hipotecário) declarou: ‘Está mais do que claro que nenhum evento
sísmico está prestes a abalar a economia dos Estados Unidos’. Isso sim é um homem
que sabe o que diz”, ironizou Rory Bremner. (Dois anos depois, a crise do subprime
levou ao colapso financeiro de várias grandes instituições financeiras, anunciando a
pior retração econômica dos Estados Unidos desde a Grande Depressão.)
No TED de 2013, John McWhorter, linguista da Columbia University, ensinou
algo novo à plateia sugerindo uma nova maneira de ver os 22 milhões de mensagens
de texto enviadas todos os dias. Ele argumenta que, em vez de nos lamentar da
linguagem abreviada que define as mensagens de texto enviadas pelos adolescentes,
devemos ver o fenômeno como um “milagre linguístico” na evolução da língua
falada.
McWhorter mostrou uma série de cinco slides, cada qual com uma citação de
alguém criticando o jeito de falar dos jovens. No caso, as citações em si não eram
engraçadas, mas a maneira como McWhorter usou os slides para reforçar seu argumento provocou risadas da plateia.
Ele começou com uma citação de um professor de inglês em 1956: “Muitos
desconhecem o alfabeto ou a tabuada de multiplicação, não sabem escrever seguindo
as regras gramaticais...”.[10] A plateia não riu, nem McWhorter esperava isso. Ele
avançou para o segundo slide, que exibia uma citação de 1917 de um professor de
Connecticut: “As escolas do ensino médio estão em desespero porque os alunos
ignoram até os mais básicos rudimentos”. Nenhuma risada. “E dá para voltar ainda
mais no tempo”, McWhorter anunciou.
No terceiro slide, ele mostrou uma citação de Charles Eliot, presidente da
Harvard, em 1871: “Erros ortográficos, incorreções, bem como deselegância da
expressão por escrito... estão longe de ser raros entre os jovens de 18 anos, de outra
forma bem preparados para o ensino superior”. A plateia começou a entender e
alguns começaram a rir.
McWhorter prosseguiu, mostrando citações cada vez mais antigas até chegar a
uma de 63 d.C., um homem inconformado com a maneira como as pessoas estavam
falando latim, chateado ao ver que o idioma estava se transformando no francês.
Depois de várias citações, o público entendeu a premissa e passou a dar risada tanto
das citações quanto de si mesmos por não ter visto antes a evolução da linguagem da
perspectiva de McWhorter. As pessoas sempre se queixam do modo como os jovens
usam a linguagem, mas “o mundo continua girando”, McWhorter arrematou.
Incluir citações com criatividade na sua apresentação proporciona um intervalo
mental para os ouvintes. Tente evitar citações comuns e batidas. E não se limite a
visitar um site de citações na internet, escolhendo aleatoriamente uma citação de
acordo com a categoria. Pondere com cuidado o humor e as citações a utilizar. Eles
devem ser relevantes.
Quando dou palestras em uma associação ou conferência de negócios, costumo
usar citações de membros da associação, dos fundadores ou do CEO das empresas às
quais estou falando. As citações arrancam risadas dos ouvintes e me ajudam a me
conectar com eles. Incorporar boas citações requer algum empenho. Seria mais fácil
me limitar a usar uma citação famosa qualquer, mas estaria longe de ser tão criativo e
eficaz. Faça a sua lição de casa.
Dica do TED
Faça a sua lição de casa e pesquise as citações. Procure citações que possam dar um toque de leveza à sua apresentação ou atenuar a complexidade do tema. Você não precisa se ater a citações famosas. Evite o caminho batido. Em muitos casos, citações de conhecidos podem ser muito divertidas e envolventes.
4. Vídeo
No TEDxYouth de 2011, Kevin Allocca, diretor de tendências do YouTube, fez o
público rir histericamente com três breves vídeos do site: um homem em êxtase
vendo um arco-íris, uma adolescente cantando uma música bobinha chamada “Friday” e uma animação idiótica a ponto de ser hipnotizadora intitulada “Nyan cat”.
O tema de Allocca, por sua vez, não tinha nada de idiota.
Em uma apresentação perspicaz, ele revelou as três razões pelas quais aqueles
vídeos se tornaram virais (os vídeos tinham centenas de milhões de visualizações):
“formadores de opinião, comunidades de participação e o inesperado”. Entre um
vídeo e o outro, ele apresentou gráficos e estatísticas sobre cada um. Por si só, as
estatísticas teriam sido áridas, mas Allocca incluiu vídeos bobos para arrancar
gargalhadas da plateia.
Muito poucas pessoas usam vídeos nas apresentações, até nas palestras do TED.
O vídeo, no entanto, é uma excelente maneira de incluir o humor em uma
apresentação: ele se encarrega de ser engraçado por você, e você não se sente tão
pressionado a fazer graça.
Em palestra sobre as Apple Stores e o atendimento ao cliente, costumo mostrar
dois vídeos. Em um deles, um cliente testa até onde pode ir em uma Apple Store: ele
entra com uma cabra, pede uma pizza para ser entregue na loja e até chega a
contratar uma pequena banda para fazer uma serenata para ele e a esposa, que saem
bailando pela loja. No segundo vídeo, a plateia vê uma jovem dançando em uma
Apple Store enquanto os funcionários continuam trabalhando na área de vendas
como se nada estivesse acontecendo. O objetivo dos vídeos é reforçar o argumento
de que os funcionários da Apple Store são treinados não para “vender coisas”, mas
sim para “enriquecer vidas” e para garantir que as pessoas sejam felizes na loja. Os
vídeos sempre provocam boas risadas e, o melhor de tudo, eu não tenho de fingir que
sou um comediante; eu simplesmente deixo que os outros façam isso por mim.
5. Fotos
Quando você pensa na sua disciplina preferida na faculdade, grandes são as chances
de o professor ter injetado uma boa dose de humor nas aulas. Se eu pudesse
adivinhar, diria que você não incluiu um curso de economia na sua lista quando
pensou nos professores mais divertidos. Se for o caso, o seu professor
definitivamente não foi o palestrante do TED Juan Enriquez. Caso contrário, garanto
que teria adorado ir à aula de economia.
Enriquez fez quatro palestras no TED e tem o dom de eliminar a complexidade
da economia com o humor, geralmente na forma de fotografias. Seus temas são
complexos e o humor facilita o entendimento porque as fotos colocam o tema em um
contexto que todos conseguem entender.
No TED de 2009, ele abriu a palestra dizendo: “Há um grande elefante na sala
chamado economia. Então, vamos começar falando sobre isso. Eu queria mostrar a
vocês uma visão atual da economia”.[11]
A “visão” que ele mostrou foi um slide intitulado “A economia”. Não havia nada
no resto do slide, só um fundo preto. Em 2009, os Estados Unidos estavam
mergulhados em uma profunda recessão, de modo que nem foi preciso explicar. O slide vazio e escuro disse tudo e provocou uma grande gargalhada da plateia já no
início da apresentação.
No que se refere à economia, Enriquez prosseguiu: “Ainda temos dois grandes
problemas por aí. Um deles é a alavancagem. É esse problema que faz com que o
sistema financeiro americano se pareça com isso”. Enriquez avançou para um slide
mostrando uma foto de pessoas em uma piscina. O grupo dava risada, com um rádio
sobre uma mesinha no meio da piscina e o fio elétrico passando pela água ligado a
uma tomada elétrica que pendia sobre a borda da piscina.
Mais uma vez, Enriquez não precisou explicar o slide. A foto era uma metáfora
do problema de tomar empréstimos dando o patrimônio como garantia. É tudo muito
divertido quando o dinheiro está entrando, mas as consequências podem ser terríveis.
A definição técnica de “alavancagem econômica” é: volatilidade do patrimônio
dividida pela volatilidade de um investimento não alavancado nos mesmos bens. Ele
nunca chegou a dar essa definição. Isso teria sido demais e teria colocado a plateia
para dormir. Em vez disso, ele foi criativo e escolheu uma foto que atuou como uma
metáfora para os problemas causados pela alavancagem. Enriquez fez o público rir...
e pensar.
Mostrando outra série de fotos, ele diz: “O governo, por sua vez, acha que é o
Papai Noel. E quem é que não gosta do Papai Noel?”. Nesse ponto, Enriquez mostra
a foto de um Papai Noel típico que se esperaria ver em um shopping center. Ele
prossegue: “Mas o problema do Papai Noel é que, se analisarmos os gastos
compulsórios que esses sujeitos vêm fazendo e prometendo [na forma de direitos
como benefícios previdenciários]... agora que a conta precisa ser paga, o Papai Noel
não parece tão legal assim”.
O próximo slide mostra um homem gordo com uma barba branca sentado em um
carrinho de golfe... nu, com as partes íntimas censuradas. A plateia cai na gargalhada.
Eles sacaram a ideia: nós adoramos o dinheiro do governo quando o recebemos, mas
nos incomodamos quando os resultados dos gastos do governo são expostos.
Os comediantes testam as piadas com públicos diferentes para ver o que cai bem,
e eu costumo usar fotos e histórias da mesma maneira. Em um trecho da minha
palestra sobre atendimento ao cliente e comunicação, uso uma série de fotos do Ritz-
Carlton. A história (narrativa) diz assim:
Quando os funcionários têm a liberdade de fazer o melhor para o cliente, a magia é possível. Uma família se
hospedou no Ritz-Carlton da Ilha Amélia, na Flórida. Quando chegaram em casa, perceberam que tinham
esquecido o “Joshi”, o bichinho de pelúcia do menino, no hotel. O pai telefonou para o hotel, os
funcionários encontraram o brinquedo no quarto e se ofereceram para enviá-lo pelo correio. “Vocês
poderiam me fazer um favor?”, perguntou o pai do menino. “Será que vocês poderiam tirar uma foto para eu
mostrar ao meu filho que o Joshi está bem?” Os funcionários concordaram e foram ainda mais longe. Eles
enviaram várias fotos mostrando Joshi curtindo o resort. Este é o Joshi tomando sol na piscina; Joshi na
praia; Joshi em um carrinho de golfe; e Joshi fazendo um tratamento facial.
Quem ler a história pode reconhecer o valor do atendimento ao cliente, mas não
necessariamente cairá na risada. E eu garanto que as fotos são hilárias. Ver um bicho
de pelúcia deitado em uma cama de massagem com pepinos nos olhos enquanto alguém massageia seus ombros é muito engraçado. O humor ajuda as pessoas a
lembrar as fotos. E, o mais importante, as imagens reforçam a minha mensagem:
funcionários qualificados criam momentos memoráveis para os clientes.
Note que, no exemplo do Ritz-Carlton, são as fotos que provocam risadas; eu
mesmo não tento fazer a plateia rir, contando alguma piada forçada. É um humor
natural e autêntico. Não estou tentando ser algo que não sou. Você pode não ter a
mínima chance de ser um comediante de sucesso, mas isso não deve impedi-lo de
fazer uma apresentação ao mesmo tempo informativa e divertida.
Dica do TED
Faça uma apresentação leve incluindo vídeos e fotos. A maioria das apresentações de PowerPoint é terrível por ter muito pouco – se é que tem algum – impacto emocional. Inclua uma imagem ou vídeo divertido para dar mais leveza à sua apresentação.
Uso todas essas cinco técnicas nas minhas apresentações. Nunca fui de contar
piadas. Adoro comédias, gosto de assistir a comediantes stand-up, mas raramente me
lembro das piadas e costumo destruí-las quando tento contá-las. No entanto, não é
difícil me fazer rir e consigo ver o lado cômico de praticamente todas as situações.
Minha esposa e eu damos muita risada. Ao me desenvolver como um palestrante,
percebi que não precisava fazer o público rir; bastava eu revelar o lado cômico de
uma situação. Você não precisa tentar arrancar risadas o tempo todo, mas deve tentar
provocar pelo menos um sorriso.
“Um prazer mental se segue à reação física do riso, que, não por coincidência, libera
endorfinas no cérebro. E, simples assim, você é seduzido a ver algo de um jeito
diferente, porque as endorfinas derrubaram as suas defesas. A raiva, o medo, o pânico
e todas as reações de luta ou fuga, fazem exatamente o contrário. A reação de lutar ou
fugir libera adrenalina, que coloca as suas defesas nas alturas. E aí a comédia entra
em cena, lidando com várias das mesmas áreas nas quais as nossas defesas são mais
fortes – raça, religião, política, sexualidade. Abordando essas áreas com o humor, em
vez de usar a adrenalina, liberamos endorfinas e a alquimia do riso transforma os
nossos muros em janelas, revelando uma perspectiva original e inesperada.”[12]
— CHRIS BLISS, TEDX
VAMOS FALAR BOBAGENS
SEMPRE BUSQUE INJETAR um pouco de humor ao ajudar as pessoas a entenderem um
tema complexo, especialmente se o público não dominar o assunto. O humor também
é uma ferramenta interessante para evitar controvérsias ou mitigar o peso de eventos
traumáticos. Milhões de pessoas viram o Saturday Night Live depois dos ataques de
11 de Setembro em busca de algum alívio para o bombardeio constante de imagens
horríveis que se viam por toda a parte na TV, nos jornais e na internet. Quando o
comediante Will Ferrell apareceu em um dos primeiros esquetes vestindo apenas uma tanga com as cores da bandeira americana que revelava suas nádegas, o mundo
soube que podia voltar a rir – não esquecer, mas dar ao cérebro uma distração.
Rose George vê o lado cômico do cocô. Um dia, a jornalista britânica foi ao
banheiro e se perguntou: “Para onde é que vai essa coisa?”. Sendo uma jornalista, ela
ficou intrigada e decidiu desvendar o mistério. Ela passou os próximos dez anos
mergulhada até o pescoço, por assim dizer, no mundo do saneamento, escrevendo
artigos e um livro sobre como o saneamento salva vidas em países do terceiro
mundo.
Ela leva o tema a sério, mas não se leva muito a sério e sabe que o público
precisa de um alívio de algumas das imagens desalentadoras que ela mostra em sua
apresentação. Sua combinação de humor e seriedade conquistou o coração e, sim, a
mente, da plateia do TED em 2013. Ela sabe muito bem que a defecação a céu aberto
não é um tema muito agradável. Sua solução foi oferecer uma mistura criteriosa e
criativa de humor e choque. O primeiro slide de George mostrava a foto de uma bela
modelo ao lado de um vaso sanitário high-tech em uma conferência da World Toilet
Organization (organização mundial do saneamento).
Ela conta que cresceu “achando que tinha direito a um vaso sanitário como
aquele. Eu estava errada. Isso não é um direito, é um privilégio. Dois bilhões e meio
de pessoas no mundo não têm um saneamento adequado”.[13] George avançou para o
segundo slide, que mostrava um menino fazendo cocô na beira da estrada, enquanto
as pessoas caminham por ele, uma cena comum em muitos países do terceiro mundo.
Ela explica que o problema é que as fezes transportam patógenos que causam
muitos problemas, inclusive a diarreia. “A diarreia é meio que uma piada”, diz
George, enquanto avança ao próximo o slide – desta vez um slide divertido. “Se você
fizer uma busca pela palavra ‘diarreia’ no maior banco de imagens do mundo,
encontrará esta foto.” A plateia vê a foto de uma mulher de biquíni esperando do
lado de fora de um banheiro, com os olhos fechados e os punhos cerrados, fazendo
uma careta enquanto claramente tenta segurar o dito-cujo. A foto é engraçada e a
plateia ri. Então George choca os ouvintes ao prosseguir:
Aqui está outra imagem relacionada à diarreia. Esta é Maria Salie. Ela tem 9 meses de idade [o público vê a
foto de um homem chorando em um campo]. Vocês não conseguem vê-la porque ela está enterrada sob a
grama verde em uma pequena aldeia da Libéria. Ela morreu em três dias, de diarreia. E ela não foi a única
naquele dia. Quatro mil outras crianças morreram de diarreia... é uma arma muito potente de destruição em
massa.
Nesse ponto dá para ver qual é a fórmula de George: humor, choque, estatísticas.
As estatísticas sozinhas fariam a plateia cair no sono. Uma apresentação
excessivamente chocante seria rejeitada pelos ouvintes. Humor demais diluiria as
sérias implicações do tema. Ela combina com destreza os três elementos em uma
fórmula mágica para a persuasão.
Se Rose George pode incorporar o humor ao tema dela, você certamente também
pode fazê-lo. Não leve o seu tema, nem você mesmo, a sério demais. O famoso físico
teórico Stephen Hawking foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica aos 2
anos de idade. Hoje ele tem mais de 70 anos e passou a maior parte da vida confinado a uma cadeira de rodas e, desde 1985, precisou se comunicar através de
um computador.
Apesar de suas circunstâncias, ele tem um incrível e afável senso de humor. Por
ser uma pessoa tão espirituosa, ele consegue deixar a plateia à vontade. Em 2003,
Jim Carrey estava promovendo o filme Débi & Lóide. Ao ser entrevistado no
programa de Conan O’Brien, Carrey recebeu um telefonema de Hawking e os dois
deram início a um esquete cômico. “Só liguei para dizer que estou muito feliz que
você esteja animado com a nova teoria do universo ecpirótico”,[14] disse Hawking a
Carrey enquanto os dois se revezavam em cumprimentos pela genialidade do outro.
Posteriormente, quando lhe perguntaram sobre o esquete, Hawking disse que decidiu
participar porque seria divertido. Ele não se leva muito a sério.
Hawking também leva seu senso humor às suas apresentações. Ele sabe que o
cérebro dos seus ouvintes se transformaria em mingau tentando entender suas teorias.
Assim, sua leveza inclui as tão providenciais risadas da plateia.
Em fevereiro de 2008, Hawking subiu ao palco do TED para falar sobre as
grandes questões: “De onde viemos? Como o universo passou a existir? Estamos
sozinhos no universo? Existe vida alienígena lá fora? Qual é o futuro da raça
humana?”. Um tema bastante pesado. Entre as teorias que ele derruba estão as visitas
de alienígenas.
Parece que somos visitados por alienígenas. Não costumo levar a sério os relatos de óvnis. Por que será que
eles só aparecem para gente excêntrica e maluca? Se realmente existe uma conspiração do governo para
abafar os relatos e manter para si o conhecimento científico que os alienígenas trazem à Terra, parece que
essa política tem sido especialmente ineficaz até agora. Além disso, apesar da extensa busca realizada pelo
projeto SETI, ainda não ouvimos nenhum programa de variedades da TV alienígena. Isso provavelmente
indica que não existem civilizações alienígenas no nosso estágio de desenvolvimento dentro de um raio de
algumas centenas de anos-luz. Fazer uma apólice de seguro contra a abdução por alienígenas me parece uma
aposta bastante segura. [15]
SEGREDO No 6
FAÇA UMA APRESENTAÇÃO LEVE
O humor envolve algum risco e muita gente não tem coragem de usá-lo. É por isso que a
maioria das apresentações de negócios é tão árida e enfadonha. É preciso ter coragem para
ser vulnerável, para tirar sarro de si mesmo e do seu tema. A chave é ser autêntico. Não
tente ser alguém que você não é. No entanto, se alguma coisa o leva a rir, grandes são as
chances de os outros também enxergarem o lado cômico da coisa.
Se você ainda não está convencido de que o humor pode ajudá-lo a conquistar sua
plateia, pense nos estudos que demonstram que o humor faz bem para saúde. O riso reduz
a pressão arterial, fortalece o sistema imunológico, melhora a respiração, aumenta o nível de
energia e, em geral, faz as pessoas se sentirem bem. Se você se sentir bem, fará uma
apresentação melhor... e sairá sorrindo!