TED: Falar, Convencer, Emocionar

Carmine Gallo · Capítulo 17 de 50

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TED: Falar, Convencer, Emocionar

Figura 2.2

diante de juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos, consegue explorar o poder

das histórias, todos nós temos uma lição a aprender com a experiência dele.

 

O PODER DO PÁTHOS

 

STEVENSON TEM PÁTHOS. Eu explico: o filósofo grego Aristóteles foi um dos

fundadores da teoria da comunicação. Ele acreditava que a persuasão ocorre na

presença de três fatores: etos, logos e páthos. O etos representa a credibilidade.

Tendemos a concordar com as pessoas que respeitamos por suas conquistas, títulos,

experiência etc. O logos é a persuasão por meio da lógica, dados e estatísticas. Já o

páthos é o ato de recorrer às emoções.

 

FIGURA 2.2: Porcentagem de etos, logos e páthos da apresentação de

Bryan Stevenson, no TED de 2012

 

Fonte: Criada pela Empowered Presentations @empoweredpres.

 

A apresentação de Bryan Stevenson teve 4.057 palavras. Analisei essas palavras

e as classifiquei de acordo com essas três categorias. Quando Stevenson falou sobre o seu trabalho nas prisões, atribuí a frase ou o parágrafo à categoria etos. Quando

Stevenson apresentou estatísticas, incluí as frases na categoria logos. E, quando ele

contou uma história, coloquei o conteúdo na categoria páthos. Os resultados são

mostrados no gráfico de pizza apresentado na Figura 2.2.

Como podemos ver, o etos constituiu apenas 10% do conteúdo e o logos,

somente 25%. Já o páthos representou um total de 65% da palestra de Stevenson. E o

interessante é que a palestra de Stevenson foi nomeada uma das mais “persuasivas”

do TED.com. A palavra “persuadir” é definida como influenciar alguém para agir,

recorrendo à razão. As emoções não são incluídas na definição, mas, sem o impacto

emocional das histórias, a palestra de Stevenson não teria a influência que teve.

É simplesmente impossível persuadir só com a lógica. Quem disse isso? Algumas

das mentes mais lógicas do mundo.

 

Dica do TED

Como você pode aplicar os componentes da persuasão de Aristóteles? Pegue uma das suas últimas apresentações e classifique o conteúdo nas três categorias que acabamos de analisar: etos (credibilidade), logos (evidências e dados) e páthos (apelo emocional). Como o seu páthos se compara com o resto? Se o seu apelo emocional é mínimo, será interessante repensar o seu conteúdo antes de voltar a dar essa apresentação – por exemplo, incluindo mais histórias, casos curiosos e percepções pessoais.

 

O SEU CÉREBRO EM HISTÓRIAS

 

DALE CARNEGIE ACREDITAVA no poder das histórias para inspirar as pessoas. “Em

geral, as grandes verdades do mundo são expressas em histórias fascinantes”, ele

escreveu. Em outra ocasião, declarou: “As ideias que defendo não são minhas. Eu as

peguei emprestadas de Sócrates. Eu as roubei de Chesterfield. Eu me inspirei em

Jesus. E coloquei todas essas ideias em um livro. Se não gosta das regras deles, você

usaria as regras de quem?”.

Muitas das ideias apresentadas neste livro não me pertencem. Elas não pertencem

ao TED. Elas não pertencem aos oradores impressionantes que fizeram as

apresentações. As técnicas funcionam porque se baseiam no funcionamento da mente

humana, no modo como a mente processa e recorda informações e como essas

informações são gravadas no nosso cérebro. Carnegie fundamentou seus conselhos

na intuição. Hoje, temos varreduras cerebrais para provar que ele estava certo.

Cientistas utilizando imagens de ressonância magnética funcional se dedicam a

estudar a atividade cerebral monitorando alterações no fluxo sanguíneo. Nos últimos

dez anos, descobrimos mais sobre o cérebro humano do que em todos os anos

combinados em que os seres humanos caminharam sobre a Terra, e grande parte

dessas pesquisas tem implicações diretas para aqueles que buscam a excelência na

oratória e na comunicação.

AS HISTÓRIAS PLANTAM IDEIAS E EMOÇÕES NO

CÉREBRO DOS OUVINTES

 

EM UMA SALA de conferências escurecida no campus da Princeton University,

participantes de um estudo assistem a um filme de Charlie Chaplin para aprofundar a

nossa compreensão da maneira como o cérebro processa informações. Uri Hasson,

professor assistente de psicologia da universidade, é o psicólogo que conduz o

experimento para o Princeton Neuroscience Institute.

Os experimentos de Hasson incluem atividades como assistir a filmes ou ouvir

histórias com os participantes ligados a aparelhos de ressonância magnética

funcional para analisar suas ondas cerebrais. Hasson quer saber como o cérebro

processa informações complexas. Ele e seus colegas descobriram que as histórias

pessoais de fato sincronizam o cérebro tanto do narrador quanto do ouvinte. Uso o

termo “sincronizar”, mas Hasson chama o processo de “acoplamento cérebro a

cérebro”.

Hasson e seus colegas registraram a atividade cerebral de um orador contando

histórias não ensaiadas. Em seguida, eles mensuraram a atividade cerebral do ouvinte

da história e pediram que ele respondesse um questionário detalhado para testar a

compreensão. Os resultados estão entre os primeiros do gênero na área da

neurociência. Os pesquisadores descobriram que o cérebro do ouvinte e do orador

“exibiu padrões de resposta articulados, temporalmente acoplados”.[4] Em resumo,

“As reações cerebrais do ouvinte espelharam as reações do cérebro do falante”. Em

outras palavras, um elo mental foi efetivamente criado entre os dois.

Ele escolheu Lauren Silbert, uma estudante de pós-graduação, para ser a oradora.

Lauren contou uma história pessoal sobre sua formatura. Os pesquisadores

escanearam o cérebro dela e dos 11 estudantes que ouviam a história. As mesmas

partes do cérebro de todos foram ativadas, apontando para uma profunda conexão

entre o falante e os ouvintes. Os resultados também sugeriram que todas as pessoas

na sala – todos os ouvintes – estavam tendo uma reação semelhante! O

“acoplamento” não ocorreu quando os ouvintes ouviram a história em russo, uma

língua que eles desconheciam.

Hasson relata:

 

Quando a mulher falou em inglês, os voluntários entenderam a história e o cérebro deles se sincronizaram.

Quando ela exibiu atividade na ínsula, região do cérebro responsável pelas emoções, os ouvintes exibiram

atividade na mesma região. Quando o córtex frontal dela se iluminou, o mesmo aconteceu com o dos

ouvintes. Com o simples ato de contar uma história, a estudante pôde plantar ideias, pensamentos e emoções

no cérebro dos ouvintes.[5]

 

Os pesquisadores descobriram que o nosso cérebro é mais ativo quando ouvimos

histórias. Um slide de PowerPoint prolixo, cheio de bullets, ativa o centro cerebral de

processamento da linguagem, onde damos sentido às palavras. As histórias, por outro

lado, vão muito além, usando o cérebro inteiro e ativando, além da área da

linguagem, as áreas sensoriais, visuais e motoras.

As descobertas de Hassan têm profundas implicações para qualquer pessoa que

queira fazer uma apresentação com a intenção de influenciar o comportamento dos

ouvintes. Se as histórias acionam o “acoplamento cérebro a cérebro”, parte da

solução para convencer as pessoas do seu argumento é contar mais histórias.

 

AS HISTÓRIAS NÃO PASSAM DE DADOS COM ALMA

 

EM JUNHO DE 2010, Brené Brown apresentou a palestra intitulada “O poder da

vulnerabilidade” no TEDx Houston. Professora e pesquisadora da University of

Houston, Brown estuda vulnerabilidade, coragem, autenticidade e vergonha. Não é

fácil espremer uma área de estudo tão extensa em 18 minutos, mas ela fez isso tão

bem que sua palestra foi vista mais de sete milhões de vezes. Brown abriu sua

apresentação com uma breve anedota.

 

Um ou dois anos atrás, uma organizadora de eventos me ligou porque eu daria uma palestra em um evento.

Ela me ligou e disse: “Não estou conseguindo decidir o que escrever sobre você no folheto”. E eu pensei:

“Bem, qual é a dúvida?”. E ela explicou: “Então, vi uma das suas palestras e acho que posso dizer que você

é uma pesquisadora, mas tenho medo de que, se eu escrever que você é uma pesquisadora, ninguém queira ir

à sua palestra porque todo mundo vai pensar que você é chata e irrelevante”. E eu pensei “Certo...”. E ela

disse: “Mas o que mais gostei da sua palestra é que você é uma contadora de histórias. Então acho que o que

eu vou fazer é apresentá-la como uma contadora de histórias”.[6]

 

Brown contou que a parte “insegura” dela hesitou em adotar o título, porque ela

era uma pesquisadora acadêmica séria. No entanto, acabou gostando da ideia. “Eu

pensei, quer saber?, sou uma contadora de histórias. Sou uma pesquisadora

qualitativa. Eu coleto histórias. É o que eu faço. Talvez as histórias não passem de

dados com alma. E talvez eu seja apenas uma contadora de histórias.” Como Brown

sugere, todos nós somos contadores de histórias. Você conta histórias todos os dias.

Em uma apresentação de negócios, você conta a história da sua campanha, da sua

empresa ou do seu produto. Em uma entrevista de emprego, você conta a história da

sua marca pessoal. Em uma apresentação de marketing, você conta a história da sua

ideia. Sim, todos nós somos contadores de histórias e contamos histórias todo dia no

trabalho.

Nunca vou esquecer o dia em que levei uma bronca do meu professor da

Faculdade de Jornalismo da Northwestern. Eu tinha retornado de uma missão de

mãos vazias. “Não encontrei história alguma”, declarei ao meu professor. Ele ficou

tão furioso que achei que uma veia explodiria em sua testa. “Sempre tem uma

história!”, ele berrou. Sempre me lembro daquele encontro quando ouço alguém

dizer: “Eu não tenho uma história para contar”. Acredita em mim: você tem uma

história. Sempre tem uma história. Tudo o que você precisa fazer é procurar,

empenhando-se e usando a cabeça. Se fizer isso, pode ter certeza de que encontrará

uma boa história.

 

“Todos nós adoramos histórias. Nós nascemos para elas. As histórias confirmam

quem somos. Todos nós queremos confirmações de que a nossa vida tem algum

sentido. E nada confirma mais isso do que quando nos conectamos por meio de

histórias. Elas têm o poder de cruzar as barreiras do tempo – passado, presente e

futuro. Por meio de histórias, reais e imaginárias, percebemos nossas semelhanças

com as outras pessoas.”[7]

 

— ANDREW STANTON,

roteirista de Toy Story, TED, fevereiro de 2012

 

TRÊS TIPOS DE HISTÓRIAS SIMPLES E EFICAZES

 

OS COMUNICADORES MAIS inspirados e os melhores palestrantes do TED costumam se

ater a um de três tipos de história. O primeiro tipo são as histórias pessoais que se

encaixa diretamente no tema da palestra ou apresentação; o segundo tipo são

histórias sobre pessoas que aprenderam uma lição com a qual o público pode se

identificar; o terceiro tipo são histórias que envolvem o sucesso ou o fracasso de

produtos ou marcas.

 

Histórias pessoais

 

As histórias constituem uma parte central de quem somos. As apresentações mais

populares do TED começam com uma história pessoal. Lembre-se das histórias

comoventes que Bryan Stevenson contou sobre sua avó e aquele zelador que lhe deu

o conselho revigorante: “Não tire os olhos da linha de chegada”. A capacidade de

contar uma história pessoal é uma característica essencial dos líderes autênticos –

pessoas capazes de inspirar um empenho extraordinário. Então, conte histórias

pessoais. Quais são as suas memórias mais afetuosas de um ente querido? Você

provavelmente tem uma história para contar sobre essa pessoa. Minhas filhas adoram

ouvir histórias do avô delas (o “nonno”), que foi prisioneiro na Segunda Guerra

Mundial. Elas gostam de ouvir como ele tentou fugir e como ele e a minha mãe

acabaram emigrando para os Estados Unidos só com 20 dólares no bolso. Histórias

como essa são centrais para a nossa identidade familiar. E estou certo de que você

também tem as suas histórias.

Se você for contar uma história “pessoal”, faça com que ela seja realmente

pessoal. Leve a plateia em uma jornada. Faça com que a sua história seja tão

descritiva e rica em imagens que os seus ouvintes sejam capazes de se imaginar com

você naquele momento.

 

Unidade de queimados inspira uma carreira e uma

apresentação revolucionária

 

Dan Ariely, professor de psicologia e economista comportamental da Duke University e um autor de sucesso, concebe estudos engenhosos para demonstrar por

que as pessoas tomam decisões previsivelmente irracionais. Seu interesse no assunto

teve início na unidade de queimados, com uma história pessoal. “Eu me queimei

feio. E, quando se passa muito tempo em hospitais, você vê irracionalidades de todo

tipo. O que me incomodou em especial na unidade de queimados foi o processo pelo

qual os enfermeiros removiam os curativos do meu corpo”,[8] Ariely contou a uma

plateia do TED em 2009.

Em detalhes vívidos ele explicou como as ataduras podem ser removidas rápida

ou lentamente. Se você for como a maioria das pessoas – e como os enfermeiros de

Ariely –, provavelmente presumirá que é melhor retirar as ataduras rapidamente, para

acabar logo com a dor. Os enfermeiros levavam uma hora para remover os curativos.

Ariely, em uma dor lancinante, implorava aos enfermeiros para levar duas horas em

vez de uma, para reduzir a intensidade da dor. Os enfermeiros explicavam que

sabiam o que estavam fazendo e Ariely era forçado a suportar a dor.

Ariely saiu do hospital três anos mais tarde (70% de seu corpo fora queimado) e

entrou na Universidade de Tel Aviv. Lá, ele investigou a questão de como remover as

ataduras de pacientes de queimaduras.

 

O que descobri foi que os enfermeiros estavam errados. Eles eram seres humanos maravilhosos, cheios de

boas intenções e muita experiência, e mesmo assim faziam coisas erradas previsivelmente a cada ocorrência.

Acontece que, como não codificamos a duração do mesmo modo como codificamos a intensidade, eu

sentiria muito menos dor se a duração fosse mais longa e a intensidade fosse menor.

 

Ariely também usa uma técnica de storytelling bastante eficaz: o inesperado. No

livro Ideias que colam, Dan e Chip Heath revelam vários elementos de uma ideia

“que cola”, uma ideia que fica na cabeça das pessoas. De acordo com os Heaths, “O

jeito mais básico de chamar a atenção de alguém é o seguinte: quebrando um

padrão”.[9] Curiosidade e mistério são recursos eficazes para chamar a nossa atenção.

Para comprovar essa hipótese, os Heaths citam as pesquisas de George Loewenstein,

da Carnegie Mellon University.

 

Temos curiosidade, segundo ele, quando sentimos uma lacuna no nosso conhecimento... e lacunas são

dolorosas. Quando queremos saber alguma coisa mas não sabemos, é como sentir uma coceira que

precisamos coçar. Para nos livrar da dor, precisamos preencher a lacuna do conhecimento. Assistimos

pacientemente a um filme ruim, mesmo atormentados pela experiência, porque dói demais não saber como o

filme termina. [10]

 

A história pessoal de Ariely é ainda eficaz porque o final é inesperado. Conte

histórias pessoais, mas as escolha com critério. Mantenha em mente que uma

experiência pessoal que leva a um resultado inesperado em geral dá uma história

particularmente convincente.

 

O abismo fiscal pessoal da minha mãe

 

Histórias pessoais chamam a atenção em quase praticamente todos os formatos de comunicação – apresentações, mídia social e entrevistas na TV. Comecei a minha

carreira no jornalismo em 1989, o último ano de Ronald Reagan na presidência dos

Estados Unidos. Reagan era chamado de Grande Comunicador por ser capaz de

embalar sua mensagem em uma história. Quando saí do jornalismo para abrir meu

escritório de comunicação, lembrei-me da qualidade que dava a Reagan seu carisma:

sua capacidade de contar uma história.

Hoje em dia, dou a CEOs e políticos o mesmo conselho: se você quiser ser

citado, conte uma história e, quanto mais pessoal, melhor. Isso é praticamente

garantido. Por exemplo, em dezembro de 2012, a imprensa norte-americana estava

obcecada com o “abismo fiscal”, uma combinação de cortes automáticos de gastos e

aumentos de impostos que seriam instaurados se os legisladores não conseguissem

chegar a um acordo sobre o orçamento. Um novo congressista me ligou cerca de uma

hora antes de dar uma entrevista na TV. Ele queria a minha opinião sobre o que ele

pretendia dizer.

Tudo o que ouvi foi uma sucessão de argumentos, de modo que educadamente

sugeri que ele contasse histórias. Decidimos que ele deveria contar uma história

sobre sua mãe, uma enfermeira, e como o abismo fiscal a afetaria. O congressista

contou a história, o repórter levou a história ao ar e o político a usou em todas as suas

entrevistas subsequentes. Às vezes conseguia que seus argumentos fossem ao ar e às

vezes não. Sua mãe, contudo, era invariavelmente escolhida.

As pessoas adoram histórias. No mundo dos negócios, é raro ouvir histórias

pessoais, mais uma razão pela qual elas têm um impacto tão grande quando são

contadas. Quando oriento CEOs para dar entrevistas à imprensa ou importantes

apresentações, sempre os encorajo a incorporar uma história pessoal. Os repórteres e

blogueiros que cobrem o evento quase sempre incluem a história em seus relatos.

Nenhuma técnica é 100% garantida, mas contar histórias pessoais chega bem perto

disso.

 

Histórias sobre outras pessoas

 

Sir Ken Robinson, um líder intelectual com doutorado em criatividade e inovação em

educação e negócios, afirma que as escolas matam a criatividade. Milhões de pessoas

claramente concordam com ele ou consideraram seu argumento tão provocativo que

se sentiram compelidas a ver e compartilhar a palestra que ele deu no TED de 2006.

Sua apresentação é a mais popular de todos os tempos no TED, com 14 milhões de

visualizações no momento da escrita destas linhas. Meu fascínio pela apresentação

de Robinson se explica pelo fato de ele não usar PowerPoint, recursos visuais nem

adereços e mesmo assim conseguir se conectar com a plateia. Ele faz isso com a

utilização habilidosa de análise, dados, humor e storytelling.

 

Escolas que cultivam (e não podam) a criatividade A história mais intrigante e emocionante de Robinson não é sobre ele. Sua

personagem central é alguém que ele entrevistou. Seu nome é Gillian Lynne e poucos

participantes da conferência tinham ouvido falar dela. No entanto, eles já conheciam

seu trabalho. Lynne foi a coreógrafa dos espetáculos Cats e O fantasma da ópera.

Robinson perguntou como ela se tornou uma dançarina. Lynne contou que, nos anos

1930, os administradores de sua escola chegaram à conclusão de que ela tinha um

problema de aprendizagem, porque ela não conseguia se concentrar e estava sempre

se mexendo. “Acho que hoje eles diriam que ela tinha TDAH. Vocês não achariam

isso? Mas era a década de 1930 e o TDAH nem tinha sido inventado ainda. Não era

uma doença disponível. As pessoas não sabiam que podiam ter isso”, Robinson

disse, irônico, enquanto a plateia ria.[11]

Robinson continuou a história, contando a visita de Lynne com a mãe a um

especialista. Depois de ouvir as duas por cerca de 20 minutos, o médico disse a

Lynne que gostaria de conversar a sós com a mãe dela.

 

Mas, antes de eles saírem da sala, ele ligou o rádio em sua mesa. E, quando eles saíram da sala, ele disse à

mãe dela: “Fique olhando o que ela faz”. E, no instante em que eles saíram da sala, a menina estava de pé,

movendo-se ao som da música. Eles observaram por alguns minutos, o médico se virou para a mãe dela e

disse: “Senhora Lynne, Gillian não está doente. Ela é uma dançarina. Leve-a a uma escola de dança”.

 

Lynne de fato foi a uma escola de dança. Ela teve uma carreira no Royal Ballet,

conheceu Sir Andrew Lloyd Webber e foi responsável pela coreografia de alguns dos

maiores musicais da história.

Robinson usa a história para preparar o terreno para a conclusão de sua

apresentação e para reforçar o tema:

 

O que o TED celebra é o dom da imaginação humana. Agora, precisamos ter cuidado para usar esse dom

com sensatez e evitar alguns dos cenários dos quais falamos. O único jeito de fazer isso é reconhecendo a

riqueza das nossas capacidades criativas e reconhecendo a esperança que os nossos filhos representam. A

nossa tarefa é educar todo o ser deles, educá-los em sua totalidade, para que eles possam encarar esse futuro.

 

Seria difícil para a plateia compreender em sua plenitude o clamor de Robinson

por “educar o ser inteiro das crianças” se ele não tivesse contado a história de Gillian

Lynne. É difícil para a maioria das pessoas processar abstrações. As histórias

transformam conceitos abstratos em ideias concretas, emocionantes e memoráveis.

 

Um orador digno do TED conta histórias no púlpito

 

Joel Osteen, pastor da megaigreja evangélica Lakewood Church, nunca deu uma

palestra no TED, mas faz uma apresentação digna do TED toda semana para 40 mil

pessoas que comparecem pessoalmente a seus sermões e outras sete milhões que o

assistem pela TV.

Ao estilo do TED, Osteen sempre começa um sermão com um tema. Por

exemplo, ele abriu um deles anunciando: “Hoje quero conversar com vocês sobre

como ‘O sim está no seu futuro’.”[12] Dito isso, ele contou uma breve anedota sobre um amigo. O amigo passou anos trabalhando duro. Um dia, um supervisor se

aposentou e várias pessoas se revelaram qualificadas para preencher a vaga. O amigo

de Osteen tinha mais tempo de casa e sempre fora leal à empresa, mas mesmo assim

foi preterido para a promoção, que acabou indo para um jovem menos experiente. O

amigo se sentiu ludibriado, no entanto “não ficou amargurado nem deixou de dar o

melhor de si no trabalho”.

Dois anos mais tarde, um vice-presidente sênior se aposentou e o amigo de

Osteen recebeu a merecida promoção. “A nova posição dele na empresa fica muitos

níveis acima do cargo de supervisor ao qual ele foi preterido”, Osteen contou. “Você

pode estar em um ‘não’ neste exato momento, mas as boas graças estão por vir. A

cura está por vir. A promoção está por vir. Digam a si mesmos: ‘Eu me recuso a ficar

preso em um não. Eu sei que um sim está por vir’.”

Depois de estabelecer o páthos com a plateia, Osteen se voltou ao logos e passou

a apresentar dados estatísticos ao público. Ele disse que 90% de todas as primeiras

startups fracassam; 90% de todas as segundas startups têm sucesso, mas 80% dos

empreendedores jamais tentam uma segunda vez. “Eles não conseguem perceber que

estão a apenas alguns ‘nãos’ de distância do sucesso de sua empresa.”

Ao apresentar as estatísticas, Osteen contou muitas outras histórias. Os

personagens incluíram figuras bíblicas, pessoas que compareciam aos cultos de

Lakewood, personalidades históricas (Albert Einstein fracassou duas mil vezes) e sua

própria mãe, que estava sentada na primeira fila.

Osteen contou uma história sobre um amigo que tinha um pequeno negócio de

razoável sucesso. O amigo queria expandir e foi ao banco com o qual sua empresa

passara anos trabalhando. Ele tinha um plano de negócios e resultados comprovados.

O banco recusou a solicitação de empréstimo. Um segundo banco também recusou o

empréstimo. “Dez bancos, depois 20 bancos... qualquer outra pessoa teria sacado a

mensagem”, Osteen brincou. “Trinta bancos lhe recusaram o empréstimo. Depois

mais um. Trinta e um bancos disseram não. Então o 32o banco disse: ‘Gostamos da

sua ideia. Vamos apostar em você’. Quando Deus põe um sonho no seu coração,

você sabe que vai ter sucesso. Cada ‘não’ significa que você está um passo mais

perto do ‘sim’.”

Histórias pessoais são histórias sobre si mesmo, mas também podem ser histórias

sobre outras pessoas com as quais o público pode se identificar. Osteen e os oradores

populares do TED têm uma qualidade em comum: eles são mestres em criar empatia.

A empatia é a capacidade de reconhecer e sentir emoções vivenciadas por outra

pessoa. Nós nos colocamos na pele do outro. Já vimos como as histórias podem nos

ajudar a “vivenciar” as emoções de outra pessoa. Alguns proeminentes

neurocientistas acreditam que os seres humanos são configurados para sentir

empatia, que ela é a liga social que mantém a sociedade unida. Em uma

apresentação, você pode criar a empatia falando sobre si mesmo ou sobre alguma

outra pessoa.

 

“A história real e verdadeira da vida de praticamente qualquer homem – se relatada

com modéstia e isenta de vaidade – é absolutamente divertida. Isso torna qualquer

apresentação praticamente infalível.”

 

— DALE CARNEGIE

 

Histórias sobre o sucesso de uma marca

 

Quando dou uma palestra, conto histórias pessoais, histórias sobre pessoas que

conheço, que entrevistei ou sobre as quais li, e conto histórias de marcas que

conseguiram alavancar a estratégia de negócios à qual me refiro.

Estou sempre em busca de histórias para as minhas colunas e apresentações. E as

encontro por toda parte. Um dia, embarquei em um avião da Virgin America,

conversei com os pilotos e me surpreendi ao descobrir que eles monitoram o que é

dito sobre as marcas no Twitter. Isso me levou a uma história sobre marcas que usam

a mídia social para abrir um canal de diálogo com seus clientes.

Quando fiquei hospedado em um hotel Ritz-Carlton, perguntei a um garçom por

que ele me deu um aperitivo de cortesia. Ele respondeu: “Estou autorizado a

proporcionar uma excelente experiência aos nossos clientes”. Isso me levou a várias

histórias sobre o engajamento dos funcionários e o atendimento ao cliente. Entrei em

uma Apple Store e descobri que os funcionários são treinados para conduzir um

cliente por cinco etapas que levam a um de dois resultados possíveis: uma venda ou à

promoção da fidelidade à marca. Essa experiência me levou não apenas a uma

história, como me inspirou a escrever um livro inteiro sobre o assunto. As histórias

sobre as marcas estão por toda parte.

Seth Godin, palestrante do TED e blogueiro popular, também conta histórias de

marcas, e o faz com brilhantismo. Em fevereiro de 2003, Godin ensinou a plateia do

TED a fazer com que suas ideias fossem divulgadas. O vídeo se tornou um sucesso e

atraiu mais de 1,5 milhão de visualizações. Bono, vocalista do U2, disse que aquela

foi sua apresentação do TED favorita. “Ao descrever uma revolução nos meios de

comunicação com os termos mais ‘não revolucionários’ possíveis, essa palestra é um

verdadeiro eufemismo”,[13] Bono declarou. “Godin é um cara engraçado e

inteligente.”

 

Um cara engraçado e inteligente com uma história para

contar

 

Godin conta três histórias que servem de suporte ao tema: os melhores marqueteiros

promovem seus produtos de maneira diferenciada; o normal é chato. Ele usa

argumentos convincentes para explicar que o mais arriscado a se fazer é “evitar

riscos”, ou ser mediano, e usa histórias curtas e simples para passar essa mensagem.

Em uma história sobre a marca de pães Wonder Bread, Godin conta à plateia:

Esse sujeito chamado Otto Rohwedder inventou o pão de forma fatiado e se concentrou, como a maioria dos

inventores fazia, na parte das patentes e na parte da produção. E o lance da invenção do pão fatiado é que,

nos primeiros 15 anos depois que o pão fatiado foi disponibilizado, ninguém comprou o produto, ninguém

sabia de sua existência, foi um tremendo fracasso. E a razão para isso foi que, até a Wonder chegar e

encontrar um jeito de difundir a ideia do pão fatiado, ninguém o queria. O sucesso do pão fatiado, como o

sucesso de quase tudo sobre o que se falou nesta conferência, nem sempre depende da patente ou da

produção, mas sim da sua capacidade de difundir ou não a ideia.

 

Em outra história, Godin mostrou uma foto de um famoso prédio projetado pelo

arquiteto Frank Gehry.

 

Mais do que apenas mudar um museu, Frank Gehry mudou a economia de uma cidade inteira projetando um

edifício que pessoas do mundo todo passaram a visitar. Em incontáveis reuniões, digamos, na Câmara

Municipal da Cidade de Portland, ou em qualquer outra cidade, agora eles dizem: “Precisamos de um

arquiteto. Será que temos como fechar com o Frank Gehry?”. Porque ele fez uma coisa realmente inovadora.

 

Finalmente, veja como Godin contou a história do leite de soja Silk:

 

Silk. A Silk colocou um produto que não precisa ser refrigerado na seção refrigerada do supermercado ao

lado do leite. As vendas triplicaram. Por quê? Leite, leite, leite, leite, leite... não leite. Para os compradores

que estão no supermercado, naquela seção, aquilo chamava a atenção, era notável. Eles não triplicaram as

vendas com publicidade. Eles triplicaram as vendas fazendo algo notável. [14]

 

Todas as histórias de Godin dizem respeito a marcas notáveis. Da próxima vez

que estiver em um supermercado e vir pão fatiado ou leite de soja, você vai pensar de

um jeito diferente sobre as marcas e sobre as mensagens que a sua empresa usa para

se destacar no mercado de ideias.

 

As grandes empresas estão descobrindo que as histórias dão um rosto humano a um

conglomerado que de outra forma não teria rosto. Tostitos, Taco Bell, Domino’s Pizza, Kashi,

McDonald’s e Starbucks estão se voltando a comerciais que dão destaque aos agricultores que

cultivam os ingredientes por trás de seus produtos. As pessoas se envolvem mais com os

produtos quando sabem de onde eles vêm e quando têm a chance de conhecer as pessoas

reais por trás desses produtos. A cadeia britânica de lojas de cosméticos Lush inclui uma

pequena foto de um funcionário de verdade na embalagem de cada produto – são os rostos das

pessoas que efetivamente fabricaram o produto. A empresa acredita que todo produto tem uma

história. Não é por acaso que muitas marcas de sucesso gastam milhões em anúncios

publicitários que incluem rostos reais, pessoas reais e histórias reais. Pode acreditar: funciona

mesmo.

 

A praticidade de um rico e o salva-vidas de um pobre

 

Todo produto tem uma história e todo empreendedor da startup que fabrica esses

produtos também tem uma história. Ludwick Marishane, um jovem de 21 anos, da

Cidade do Cabo, África do Sul, foi nomeado o estudante-emprendedor global do ano,

em 2011, só porque não queria tomar banho. Marishane inventou o DryBath, a

primeira loção substituta do sabão não baseada em água.

Se Marishane quisesse vender sua invenção no elevador, sua apresentação de

vendas seria mais ou menos assim: “O DryBath é o primeiro e o único gel substituto do banho do mundo. Basta aplicá-lo à pele e não precisa tomar banho”. O que está

faltando aí? O “porquê” e o “o quê”. Por que ele inventou o produto e qual é o

benefício dele? As histórias ajudam a preencher as lacunas.

No TED Joanesburgo, em abril de 2012, Marishane contou uma história para

explicar o “porquê” e o “o quê”.

 

Cresci na província de Limpopo, em uma cidadezinha chamada Motetema. O fornecimento de água e

energia elétrica era tão imprevisível quanto o clima e cresci nessas condições difíceis. Aos 17 anos, eu e dois

amigos relaxávamos tomando banho de sol no inverno. O sol de Limpopo fica muito quente até no inverno.

Enquanto pegávamos sol, meu melhor amigo diz: “Cara, por que alguém não inventa alguma coisa que a

gente só coloca na pele e não precisa tomar banho?” Ao ouvir aquilo, eu me sentei e pensei, “Velho, eu

compraria isso!”.[15]

 

Marishane foi para casa, fez uma pesquisa e descobriu estatísticas “chocantes”.

Ele ficou sabendo que mais de 2,5 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso

adequado a saneamento, sendo que cinco milhões delas vivem na África do Sul.

Doenças horríveis se proliferam nesses ambientes. Por exemplo, o tracoma cega oito

milhões de pessoas por ano. “O mais chocante é que tudo que você precisa fazer para

evitar ser infectado com a tracoma é lavar o rosto”, Marishane explica. Munido

apenas de um celular e um acesso muito limitado à internet, Marishane fez a

pesquisa e elaborou um plano de negócios de 40 páginas. Quatro anos depois, ele

recebeu uma patente e o DryBath nasceu. Sua proposição de valor: “O DryBath é a

praticidade de um rico e o salva-vidas de um pobre”.

Toda marca, todo produto, tem uma história. Encontre-a e conte-a.

 

O que é uma história? Jonah Sachs propõe a seguinte definição em seu livro Winning the Story

Wars: “As histórias são um tipo particular de comunicação humana concebidas para convencer o

público da visão de mundo do contador de histórias. O contador de histórias faz isso colocando

personagens, reais ou fictícios, no palco e mostrando o que acontece com esses personagens

no decorrer de um período. Cada personagem busca atingir algum tipo de objetivo, de acordo

com seus valores, enfrentando dificuldades ao longo do caminho, e encontra o sucesso ou o

fracasso dependendo da visão do contador de histórias sobre como o mundo funciona”.[16]

Sachs acredita que, no campo de batalha das ideias, os marqueteiros têm uma arma secreta:

uma história bem contada. Sachs diz que o público contemporâneo é tão bombardeado por

mensagens que acaba sendo mais resistente e mais cético do que em qualquer outro momento

da história. No entanto, “Esse mesmo público, quando inspirado, mostra-se disposto e capaz de

difundir suas mensagens favoritas, criando um enorme efeito viral para aqueles que

conquistarem seu coração”.

 

Gladwell, felicidade e molho de espaguete

 

Na conferência TED Monterey de fevereiro de 2004, autor de O ponto da virada,

Malcolm Gladwell, contou uma história simples sobre Howard Moskowitz, um

homem que ficou famoso por reinventar o molho pronto de tomate para espaguete. O

título da apresentação foi, como você poderia imaginar, “Molho de espaguete”.

Diz a lenda que a Campbell’s Soup procurou a ajuda de Moskowitz para fazer um molho de tomate para competir com o Ragu, o molho para macarrão dominante nos

anos 1970 e 1980 (a Campbell’s produzia o molho Prego). O desempenho do Prego

não ia bem apesar de ser um produto de qualidade superior. Moskowitz trabalhou

com a empresa para criar 45 variedades de molho de espaguete. Feito isso, ele saiu

em turnê pelo país com seus molhos para submetê-los a testes de degustação com os

consumidores.

 

Se você parar para analisar todos esses dados sobre molhos de tomate, percebe que todos os americanos se

enquadram em um de três grupos. Algumas pessoas gostam de molho simples; outras gostam de molho

picante e outras gostam do molho com pedaços de tomate. Desses três fatores, o terceiro foi o mais

importante, porque, na época, no início dos anos 1980, não se encontrava molho com pedaços de tomate no

supermercado. Então o pessoal do Prego perguntou para Howard: “Quer dizer que um terço dos americanos

quer um molho de espaguete com pedaços de tomate e ninguém está atendendo a essa demanda?” E ele

respondeu: “É isso mesmo!” Então reformularam completamente o molho de tomate Prego e lançaram uma

linha com pedaços de tomate que dominou a indústria de molho de espaguete dos Estados Unidos imediata e

completamente. E, nos dez anos seguintes, eles ganharam 600 milhões de dólares com sua nova linha de

molhos com pedaços de tomate.” [17]

 

Toda a indústria alimentícia ficou sabendo da análise de Moskowitz. É por isso

que hoje em dia os americanos têm “14 tipos diferentes de mostarda e 71 tipos

diferentes de azeite de oliva”, de acordo com Gladwell. O Ragu também contratou

Moskowitz e hoje os americanos têm 36 variedades de molho Ragu. Gladwell contou

a história de Moskowitz em dez minutos. Feito isso, ele passou os sete minutos

restantes apresentando as lições que essa história nos ensina. Por exemplo, as pessoas

em geral não sabem o que querem e, mesmo quando sabem, têm dificuldade de

articular o que realmente desejam.

 

A premissa número um da indústria alimentícia costumava ser que o melhor jeito de descobrir o que as

pessoas querem comer – o que vai deixá-las feliz – é perguntando isso a elas. Por anos e anos e anos e anos,

Ragu e Prego conduziram grupos de foco para perguntar: “O que vocês querem de um molho de

espaguete?”. E, por muitos anos – 20, 30 anos –, em todas essas sessões de grupos de foco, ninguém jamais

disse que queria um molho com pedaços de tomate. Isso apesar de pelo menos um terço dessas pessoas, lá

no fundo, na verdade, desejar um molho com pedaços de tomate.

 

Gladwell concluiu sua apresentação com o que chamou de a mais bela lição de

todas: “Ao reconhecer e acolher a diversidade dos seres humanos, encontraremos um

caminho mais garantido para a verdadeira felicidade”.

A palestra de Gladwell foi um sucesso porque ele combinou a história de um

“herói” (que discutiremos em detalhes mais adiante neste capítulo) com a de uma

marca de sucesso. Os ouvintes querem torcer por alguém ou alguma coisa. Eles

querem ser inspirados. Dê um herói à sua plateia. Estimule a imaginação dela com

histórias sobre si mesmo, sobre outras pessoas ou sobre marcas de sucesso.

 

Dica do TED

Que história você poderia incluir? Pense em uma história (sobre você, sobre alguém ou sobre uma marca) que você poderia incluir nas suas comunicações ou na sua próxima apresentação. Se você já faz isso, está mais perto de ser um comunicador digno do TED. Em uma apresentação de negócios, contar histórias equivale a levar as pessoas a uma excursão, ajudando-as a vivenciar o conteúdo em um nível muito mais profundo.

LIDERE COM HISTÓRIAS E TENHA SUCESSO NOS

NEGÓCIOS

 

UMA HISTÓRIA BEM contada dá aos líderes uma grande vantagem em um mercado que

está cada vez mais competitivo. Uma narrativa envolvente tem o poder de convencer

clientes, colaboradores, investidores e stakeholders de que a sua empresa, seu

produto ou sua ideia poderá ajudá-los a atingir o sucesso que eles desejam.

Somos todos contadores de histórias natos, mas de alguma forma perdemos esse

nosso lado quando entramos no mundo corporativo. Essa afirmação é especialmente

verdadeira quando fazemos apresentações de PowerPoint. Caímos no “modo de

apresentação” e esquecemos que é muito mais eficaz transmitir informações usando a

conexão emocional possibilitada por uma história.

As histórias tornam os conceitos e ideias concretos e tangíveis. “Durante muito

tempo o mundo dos negócios ignorou ou menosprezou o poder da narrativa oral,

preferindo os slides do PowerPoint, fatos, números e dados sem alma”,[18] afirma

Peter Guber, presidente da Mandalay Entertainment. Guber, que produziu filmes

como Batman e A cor púrpura, escreveu um livro inteiro sobre o poder do

storytelling intitulado Contar histórias para vencer. Ele acrescenta: “Mas, à medida

que o nível de ruído da vida moderna se transformou numa verdadeira cacofonia, a

capacidade de contar uma boa história é cada vez mais necessária”.

 

O produtor de Batman fecha os olhos para a magia

 

Conversei com Guber sobre o poder das histórias nas apresentações. Refletindo sobre

seu sucesso na indústria do entretenimento, Guber percebeu que muito desse sucesso

se deve à sua capacidade de persuadir os clientes, funcionários, acionistas, imprensa

e parceiros usando o storytelling. Ele contou que perdeu grandes acordos por ter

insistido em jogar na cabeça dos potenciais investidores uma enxurrada de dados,

estatísticas e previsões, deixando de se engajar emocionalmente com eles.

 

Para ter sucesso, é preciso convencer os outros a apoiar a sua visão, o seu sonho ou a sua causa. Não importa

se você quer motivar seus executivos, organizar seus acionistas, influenciar a imprensa, envolver seus

clientes, conquistar investidores ou conseguir um emprego, você precisa dar um toque de clarim para

chamar a atenção dos seus ouvintes, emocioná-los para que eles acolham os seus objetivos e incitá-los a agir

em seu favor. Você precisa tocar o coração e a mente das pessoas. E é exatamente isso que o storytelling faz.

[19]

 

No início de 1990, um incidente no escritório de Guber o fez perceber que uma

história – se relatada com convicção – tem o poder de persuadir até o executivo mais

calejado, como ele próprio era na época. Na ocasião, Guber era CEO da Sony

Pictures. Magic Johnson e seu parceiro de negócios, Ken Lombard, visitaram Guber

em seu escritório e a primeira coisa que Lombard disse foi: “Feche os olhos. Vamos

contar uma história sobre um país estrangeiro”.[20] Guber achou a proposta um pouco bizarra, mas fechou os olhos e entrou na brincadeira. Lombard prosseguiu:

 

Este é um país com uma forte base de clientes, excelente localização e investidores qualificados. Vocês

sabem como construir cinemas na Europa, Ásia e América do Sul. Vocês sabem como investir em países

estrangeiros que falam línguas diferentes, que têm culturas diferentes e problemas diferentes. O que vocês

fazem, Peter, é encontrar um parceiro no país que fala a língua, que conhece a cultura e que sabe lidar com

os problemas locais. Certo? Guber anuiu com a cabeça, com os olhos ainda fechados. “Bem, e se eu lhe

dissesse que existe uma terra prometida que já fala inglês, adora ver filmes, tem uma abundância de imóveis

disponíveis e não tem nenhuma concorrência? E vou ainda mais longe: essa terra prometida fica só a uns dez

quilômetros daqui.”

 

Lombard e Johnson queriam convencer Guber a construir salas de cinema em

comunidades urbanas carentes. Eles se colocaram como os heróis da narrativa, os

personagens que ajudariam Guber a navegar pelos mares até chegar à terra

prometida. Nas quatro primeiras semanas que se seguiram à inauguração, o primeiro

Magic Johnson Theater foi um dos cinco cinemas de maior bilheteria de toda a

cadeia de cinemas da Sony.

Guber me lembrou de que o storytelling deve ser incorporado a todas as

conversas com o objetivo de convencer um ouvinte a apoiar sua ideia – seja em uma

apresentação formal ou em uma conversa casual. Ao refletir sobre suas quatro

décadas atuando no setor, ele afirma que sua capacidade de persuadir clientes,

funcionários, acionistas e parceiros usando o storytelling foi sem dúvida a sua maior

vantagem competitiva.

 

O poder das palavras

Evite chavões e clichês. Os marqueteiros adoram usar palavras como “líder”, “soluções” e

“ecossistema”. Essas palavras são vazias, sem sentido e tão usadas que perderam todo o

impacto que poderiam ter tido no passado.

Metáforas desgastadas também podem ser tediosas. De acordo com um estudo

apresentado no The New York Times, “A forma como o cérebro processa as metáforas também

tem sido um objeto de amplos estudos. Alguns cientistas afirmam que figuras de linguagem

como ‘um dia difícil’ são tão conhecidas que passaram a ser tratadas simplesmente como

palavras, e nada mais”.[21]

Estudos de varreduras cerebrais estão revelando que, quando as pessoas ouvem uma

descrição detalhada, “uma metáfora evocativa ou um diálogo carregado de emoções entre os

personagens [da história]”, áreas diferentes do cérebro são estimuladas. O simples fato de ouvir

a expressão “cheiro de lavanda” ativa a parte do cérebro envolvida no olfato. “Quando

participantes de estudos leram uma metáfora envolvendo textura, o córtex sensorial,

responsável por perceber a textura pelo toque, foi ativado. Frases como ‘O cantor tinha uma voz

aveludada’ e ‘As mãos dele tinham a pele dura como couro’ ativaram o córtex sensorial.” Ao

contar uma história, sinta-se à vontade para usar metáforas, analogias e linguagem vívida, mas

evite clichês, chavões e jargões. O seu público ficará indiferente a frases feitas que já ouviu um

milhão de vezes.

 

Conheça David e Susan

 

Quando a Toshiba Medical Systems lançou um novo e revolucionário aparelho de

tomografia computadorizada, reuni-me com um grupo de executivos para ajudá-los a elaborar a história para o lançamento global do dispositivo. As imagens

tridimensionais do coração e do cérebro que a máquina exibia eram de fato

impressionantes, mas como fazer uma apresentação igualmente impressionante sem

sobrecarregar o público com uma montanha de dados sem graça? Nós contamos uma

história.

Na entrevista coletiva, apresentamos David e Susan, duas pessoas que na verdade

não existem, mas que, para os propósitos do lançamento, ganharam vida. A

apresentação demonstrou como esse novo dispositivo médico pode reduzir

drasticamente o tempo necessário para os médicos chegarem a um diagnóstico

preciso e salvar a vida dos dois personagens. Demos a “David” e a “Susan” um nome

e um rosto e apresentamos informações sobre a vida deles. Queríamos que o público

visse a si mesmo ou a seus entes queridos nos rostos apresentados na tela. Os

médicos que compareceram à coletiva mais tarde contaram aos oradores que o que

mais gostaram na apresentação foi a parte “do David e da Susan”. A história, ao

mesmo tempo, apresentou informações e formou uma ligação emocional. Uma boa

história tem esse poder.

Você não precisa lançar um produto revolucionário como o iPhone ou um

dispositivo médico de US$ 2 milhões para contar uma boa história. Em uma

entrevista de emprego, conte uma história pessoal sobre o seu sucesso gerenciando

uma equipe ou executando um projeto difícil. Em uma apresentação de vendas, conte

uma história sobre como o seu produto ajudou a aumentar as vendas do cliente

apesar da retração econômica. No lançamento de um produto, conte uma história

pessoal por trás da criação do produto. Você pode se surpreender com o grande

número de pessoas que se lembrará das suas histórias.

 

QUERO TORCER POR UM PERSONAGEM

 

KURT VONNEGUT, ESCRITOR norte-americano do século 20, foi considerado um

contador de histórias magistral. Ele explica, em um vídeo postado na internet, o

formato das boas histórias. As histórias de sucesso – aquelas que se conectam

emocionalmente com a maioria das pessoas – têm um formato bem simples. Para

ilustrar esse conceito, ele traçou duas linhas em um gráfico (veja a Figura 2.3). No

eixo y, ele escreveu “Má sorte” e “Boa sorte”. No eixo x, ele escreveu “Começo” e

“Fim”.