TED: Falar, Convencer, Emocionar
Tabela 8.2
velocidade, volume, intensidade, articulação) tem o poder de tocar a alma de seu
ouvinte.
A 45 metros de profundidade, em uma mina ilegal
Lisa Kristine passou mais de 25 anos viajando pelos cantos mais remotos do mundo
para documentar a beleza e expor as dificuldades da população de diversos lugares.
Vamos rever sua palestra no TEDx e nos concentrar em como ela usou suas palavras
para comover a plateia.
O público ficou em silêncio, paralisado, enquanto Kristine os levou em uma
jornada visual guiada por fotografias. Seu timing foi impecável e dramático. Em vez
de mostrar as fotos à medida que falava, ela começava a contar a história e só depois
de começar a narrativa é que ela exibia a foto. Essa técnica forçou a plateia a ouvir as
palavras com atenção antes de ver a foto dos personagens apresentados na história. A
Tabela 8.2 apresenta o que Kristine disse para abrir sua apresentação, a descrição das
fotos e em que momento elas foram mostradas.
TABELA 8.2: As palavras de Lisa Kristine com a descrição das fotos
correspondentes em sua apresentação no TEDx Maui em
2012
AS PALAVRAS DE LISA KRISTINE DESCRIÇÃO DAS FOTOS
Estou a 45 metros abaixo da superfície, em uma Foto em preto e branco de um mineiro sem
mina ilegal, em Gana. O ar é denso, carregado camisa segurando uma ferramenta primitiva.
de calor e pó, e é difícil respirar. Posso sentir o Somente a silhueta do mineiro é visível na
roçar de corpos suados passando por mim na escuridão, iluminada apenas por uma pequena
escuridão, mas não consigo ver muito mais do lanterna afixada à sua cabeça.
que isso. Ouço vozes, mas o que mais se ouve
na mina é a cacofonia de homens tossindo e
pedras sendo quebradas com ferramentas
primitivas.[14]
Como os outros, uso uma lanterna barata e Foto em preto e branco de um mineiro
tremeluzente amarrada à minha cabeça com descendo precariamente pela mina.
uma faixa de tecido esfarrapado...
...e mal posso distinguir os escorregadios galhos Close-up extremo do rosto de um mineiro na
de árvores que sustentam as paredes do buraco escuridão; só o reflexo da lanterna afixada à
quadrado de um metro, mergulhando a centenas sua cabeça revela seu semblante.
de metros para dentro da terra.
Quando a minha mão desliza, de repente me Foto de Kristine saindo da mina.
lembro de um mineiro que conheci dias antes,
que escorregou e caiu incontáveis metros até o
fundo da mina. Enquanto estou aqui, falando
com vocês hoje, esses homens ainda estão no
fundo daquele buraco, arriscando a vida, sem
qualquer pagamento ou compensação, e muitas
vezes morrendo.
Eu pude sair daquele buraco e pude voltar para Foto de mineiros ajudando Kristine a sair da
casa, mas eles provavelmente nunca terão essa mina.
chance porque estão presos na escravidão.
Os primeiros dois minutos da palestra de Kristine constituíram a abertura mais
tocante que já vi em uma apresentação. Nenhum texto nos slides, somente fotos, uma
narrativa fascinante e uma enunciação muito bem ponderada. Embora suas
fotografias tenham se beneficiado do sentido visual de sua plateia, o modo como ela
usou a voz foi fundamental para obter o efeito desejado. O impacto obtido ao
estimular a audição dos seus ouvintes pode ser tão intenso quanto a utilização de
recursos visuais.
Criando imagens com as palavras
A apresentação de Kristine foi extraordinária porque o poder de suas palavras
correspondia com as fotos impressionantes que ela mostrava. Leia a evocativa
descrição de uma visita de Kristine a uma olaria na Índia:
Aquela visão estranha e assombrosa foi como entrar no Egito antigo ou no Inferno de Dante. Envoltos em
temperaturas de 54 graus, homens, mulheres, crianças, famílias inteiras na verdade, estão cobertos com uma
pesada camada de pó, enquanto empilham mecanicamente tijolos na cabeça, até 18 de cada vez, e os levam
dos fornos escaldantes a caminhões estacionados a centenas de metros dali. Entorpecidos pela monotonia e
exaustão, eles trabalham em silêncio, realizando essa tarefa vez após vez durante 16 ou 17 horas por dia.
Não houve intervalos para comer nem para beber água, e a grave desidratação tornava o ato de urinar
relativamente irrelevante. O calor e o pó eram tão penetrantes a ponto de a minha câmera ficar tão quente
que eu mal conseguia tocá-la e ela parava de funcionar. A cada 20 minutos, eu precisava voltar correndo à
nossa van, limpar meu equipamento e deixá-lo um tempo no ar-condicionado para que ele voltasse a
funcionar. Sentada na van, pensei que a minha câmera estava recebendo um tratamento muito melhor que
aquelas pessoas.
A técnica usada por Kristine é o que o doutor Pascale Michelon chama de “deixar
uma marca visual na mente de uma pessoa”. Os neurocientistas descobriram que o
córtex visual do cérebro é incapaz de diferenciar o real do imaginado. Se você puder
pensar em algo com vividez – realmente imaginar a cena –, as mesmas áreas do
cérebro são ativadas como se você estivesse de fato testemunhando o evento. É por
isso que as metáforas, as analogias e um imaginário rico são maneiras extremamente
eficazes de criar uma imagem mental, em alguns casos até mais eficazes que uma
imagem real.
“Para melhorar a sua memória, transforme as informações verbais em
informações visuais tanto quanto possível”,[15] Michelon recomenda. “Isso pode ser
feito com recursos visuais ou usando exemplos para evocar imagens na cabeça dos ouvintes.” Pascale recomenda que os comunicadores usem o maior número possível
de exemplos concretos. O cérebro não evoluiu para entender abstrações. Mesmo em
apresentações de vendas, use exemplos concretos para colocar os clientes em uma
situação que eles consigam visualizar. Isso é muito mais eficaz que usar palavras
abstratas para descrever a sua estratégia de vendas. “Nós lembramos melhor as
imagens do que as palavras, então, se eu ajudar a pessoa a criar imagens visuais
enquanto falo, ela vai lembrar a informação muito melhor do que se eu só usasse
palavras abstratas”, explica Pascale.
Crie uma imagem mental sem usar imagens
O cérebro não consegue saber a diferença entre o que realmente vê e o que imagina.
Janine Shepherd, a esquiadora cross-country que conhecemos no Capítulo 3, criou
uma imagem para a sua plateia no TEDx sem mostrar um único slide ou foto.
Shepherd conta que fazia parte da equipe australiana de esqui e treinava para as
Olimpíadas de Inverno quando fez um passeio de bicicleta que mudou sua vida.
Usando palavras evocativas e descritivas, ela levou a plateia naquele fatídico passeio
de bicicleta.
Seguimos em direção às espetaculares Blue Mountains a oeste de Sydney, em um dia perfeito de outono: o
sol, o cheiro de eucalipto e um sonho. A vida era bela. Fazia umas cinco horas e meia que estávamos nas
nossas bicicletas quando chegamos à parte que eu mais gostava, as colinas, eu adorava as colinas. Eu me
levantei do assento da minha bicicleta e comecei a pedalar. Ao respirar o ar frio da montanha, pude senti-lo
queimando nos pulmões, e olhei para cima para ver o sol brilhando no meu rosto. E então tudo ficou preto.
[16]
Um utilitário tinha atingido Shepherd. Ela ficou gravemente ferida, foi levada de
helicóptero a uma unidade de traumatismos medulares em Sydney e foi proferida
uma paraplégica parcial. No resto de sua apresentação, ela relatou o longo caminho
para a recuperação, sempre amarrando a narrativa ao tema: você não é o seu corpo.
Decidida a provar que os médicos estavam errados, Shepherd encontrou um novo
sonho: voar. Ela tirou um brevê de piloto um ano depois do acidente e acabou se
tornando uma instrutora de acrobacias aéreas.
A apresentação de Shepherd foi vista mais de um milhão de vezes. Ela recebe e-
mails de pessoas que se inspiraram a continuar lutando e enfrentar as dificuldades.
Uma pessoa chegou a contar que o vídeo salvou sua vida. A pessoa vinha lutando
contra uma doença há 19 anos. “A situação piorou tanto nas últimas semanas que
cheguei a pensar em suicídio. Mas hoje, depois de ver e ouvir Janine, vi um novo
raio de esperança. Minha jornada começa AGORA.”
Um segundo por dia
Cesar Kuriyama poupou dinheiro suficiente para largar seu emprego na área da publicidade aos
30 anos e passou o ano seguinte viajando e se envolvendo em projetos que lhe interessavam.
Ele também gravou suas experiências diárias em vídeo – apenas um segundo de vídeo por dia.
Ele disse à plateia do TED, “A visualização é o melhor jeito de acionar a memória... até este
único segundo me possibilita lembrar tudo o que fiz naquele dia”. [17]
Imagine... um compositor com jeito com as palavras
O sentido da audição pode ser estimulado com recursos retóricos utilizados em um
discurso. Por exemplo, o discurso “Eu tenho um sonho” de Martin Luther King é um
dos mais famosos e citados da história contemporânea. King não usou o PowerPoint,
o Prezi ou o Keynote da Apple. Em vez disso, ele criou imagens com as palavras...
imagens que ficaram gravadas na nossa cabeça por meio século. King usou um
recurso de oratória chamado anáfora, repetindo a mesma palavra ou palavras no
início de expressões ou frases sucessivas. “Eu tenho um sonho...” é repetido em oito
sentenças sucessivas.
Além dos gráficos, animações e fotos mostradas em sua apresentação, Bono, do
U2, usou a anáfora com muita eficácia para estimular ainda mais os sentidos de seus
ouvintes. Veja dois exemplos:
Os fatos, assim como as pessoas, querem ser livres. E, quando os fatos são libertados, a liberdade está logo
ali, até para os mais miseráveis. Os fatos têm o poder de derrubar o ceticismo e a apatia que levam à inércia.
Os fatos nos dizem o que está ou não dando certo para podermos fazer ajustes. Os fatos, se ouvidos e
reconhecidos, têm o poder de atender ao clamor feito por Nelson Mandela em 2005, quando nos instigou a
sermos a grande geração capaz de superar essa terrível mazela da humanidade, a miséria extrema.
Estou pensando em Wael Ghonim, que criou um dos grupos do Facebook por trás das manifestações na
Praça Tahrir, no Cairo. Ele foi jogado na prisão por isso. Eu fiquei com as palavras dele tatuadas no meu
cérebro. “Vamos vencer porque não entendemos de política. Vamos vencer porque não jogamos os jogos
sujos deles. Vamos vencer porque não temos interesses político-partidários. Vamos vencer porque as
lágrimas vertidas dos nossos olhos na verdade vêm do nosso coração. Vamos vencer porque sonhamos e
estamos dispostos a lutar por esses sonhos.” Wael está certo. Vamos vencer se unirmos as nossas forças,
porque o poder do povo é muito maior que o das pessoas no poder.[18]
É importante notar que, ao enunciar o último parágrafo, Bono não mostrou
nenhum slide. Ele queria que a plateia se concentrasse no sentido da audição – em
suas palavras. Lágrimas encheram os olhos de Bono enquanto ele falava, refletindo
sua profunda ligação emocional com o que dizia. Palavras penetrantes, bem
elaboradas, têm o poder de provocar profundas emoções em todos nós. Um slide
teria diluído o impacto do momento. Bono recebeu aplausos tonitruantes e uma
ovação de pé da plateia do TED. Não é de admirar. Com suas palavras, ele despertou
os sentidos dos ouvintes.
Três pessoas e um computador amplificam a voz de um
homem
Em março de 2011, o crítico de cinema Roger Ebert, que perdeu a voz para o câncer
e veio a falecer em abril de 2013, “falou” para uma plateia de mais de mil pessoas no TED. “Estas são as minhas palavras, mas esta não é a minha voz. Este é Alex, a
melhor voz de computador que consegui achar, que vem instalado em todos os
computadores Macintosh”,[19] disse uma voz digitalizada com Ebert sentado em uma
cadeira com um Mac no colo.
Na qualidade de crítico de cinema, com décadas de experiência diante das
câmeras bem como um profundo conhecimento da arte da produção cinematográfica,
Ebert sabia que seria difícil prender a atenção do público e, dessa forma, foi
preparado com um truque na manga: uma experiência multissensorial auditiva.
Depois de falar por cerca de um minuto com a voz digitalizada, Ebert anunciou:
“Descobri que pode ser chato ouvir uma voz computadorizada por muito tempo,
então decidi recrutar alguns dos meus amigos para ler as minhas palavras em voz alta
para mim”. Três outras pessoas subiram ao palco e todos se sentaram em cadeiras ao
lado de Ebert. Eles incluíram sua mulher, Chaz, Dean Ornish e John Hunter. Foram
18 minutos muito tocantes, especialmente por demonstrar o profundo amor e afeição
entre Ebert e sua esposa.
A história de como Ebert recriou sua voz é interessante, mas ele estava
absolutamente certo: seria enfadonho ouvir uma voz digitalizada por 18 minutos, de
modo que ele escolheu não uma, mas quatro outras vozes (incluindo o computador)
para falar por ele. A experiência “multissensorial” inclui várias vozes. Acho irônico
que Ebert tenha dito que pode ser enfadonho ouvir uma voz digitalizada,
considerando que muitos oradores falam em um tom monótono e soam muito menos
vigorosos que a voz gerada pelo seu computador!
No Capítulo 7, afirmei que 18 ou 20 minutos de apresentação é sempre melhor
que 60 minutos. No entanto, a maioria das minhas palestras dura cerca de uma hora.
Será que estou sendo hipócrita? De jeito nenhum. Como Ebert, eu divido o palco.
Nas minhas apresentações, incluo várias vozes usando vídeos de líderes inspiradores.
O vídeo me dá a oportunidade de envolver dois sentidos ao mesmo tempo – a visão e
a audição.
Sinta
O Santo Graal de uma apresentação é transportar a plateia a outro lugar. A
representação visual de informações ajuda os ouvintes a visualizar o conteúdo, mas,
se a plateia não puder tocar algo fisicamente, como seria possível completar a
jornada? Mais uma vez, pense numa apresentação como um espetáculo da Broadway.
Um espetáculo premiado tem uma história maravilhosa, personagens intrigantes e
adereços cênicos relevantes. As melhores apresentações usam todos esses elementos,
incluindo adereços cênicos simples que dão ao público uma ideia de como seria
participar da cena.
Uma musicista é ovacionada de pé sem tocar uma única nota Você deve se lembrar de Amanda Palmer, a cantora e compositora punk rock, que
conhecemos no Capítulo 3. Mencionei que o vídeo da apresentação de Palmer no
TED de 2013 recebeu mais de um milhão de visualizações uma semana depois de ser
postado na internet. O tema de Palmer foi simples e direto – as vantagens de não
obrigar as pessoas a pagarem pela música. Como o conteúdo digital já está
disponível e já é compartilhável, Palmer sugere que os artistas deveriam pedir ajuda
diretamente aos fãs. A maioria das pessoas que veem a apresentação dela
provavelmente nunca foi um músico tocando na rua e suando a camisa para ganhar
uns trocados, mas Palmer leva a plateia a sentir essa situação na pele.
Sem dizer uma palavra, Palmer entrou no palco e colocou um engradado de leite
no chão. Ela subiu na caixa, envolveu seu braço esquerdo em um véu e estendeu uma
flor com a mão direita. Ela respirou lenta e profundamente duas vezes, passou alguns
segundos imóvel e disse:
Então, eu nem sempre ganhei a vida com a música. Depois de me formar em artes liberais, passei uns cinco
anos fazendo isso como meu ganha-pão. Eu era uma trabalhadora autônoma, uma estátua-viva chamada “A
noiva de 2,5 metros”, e adoro contar às pessoas que ganha a vida fazendo isso porque todo mundo quer
saber: Quem são esses malucos na vida real? Oi. Eu me pintava de branco, subia numa caixa, deixava um
chapéu ou uma lata aos meus pés e, quando alguém passava e me dava um trocado, eu lhe estendia uma flor
acompanhada de um intenso contato visual. E, se a pessoa não pegava a flor, eu lançava um gesto de tristeza
e anseio em sua direção enquanto ela se afastava.[20]
Palmer apresentou os primeiros três minutos de sua palestra em cima da caixa,
revivendo suas experiências e lembrando as pessoas que lhe deram dinheiro. “Eu não
fazia ideia de que estava recebendo, em cima desta caixa, o treinamento perfeito para
atuar na indústria da música.” Com o tempo, sua banda conseguiu ganhar dinheiro
suficiente para que ela abandonasse sua carreira de artista de rua. Assim que Palmer
contou à plateia que deixou de ser uma estátua-viva, ela desceu da caixa. A caixa
permaneceu no palco enquanto Palmer fez sua apresentação, com sua presença
atuando como uma metáfora para a narrativa:
Decidi que disponibilizaria a minha música de graça na internet sempre que possível... Que eu encorajaria o
download, o compartilhamento, mas que pediria ajuda, porque vi isso dando certo na rua. Passei a minha
carreira musical tentando encontrar pessoas na internet do mesmo jeito que encontrei pessoas em cima da
minha caixa. Então decidi blogar e tuitar não só sobre as datas das minhas turnês e sobre o meu novo vídeo,
mas também sobre o nosso trabalho e a nossa arte, sobre os nossos temores e as nossas ressacas, os nossos
erros e como nós vemos uns aos outros. Acho que, quando realmente vemos uns aos outros, nós queremos
ajudar uns aos outros.
Palmer concluiu sua apresentação com o seguinte clamor: acho que as pessoas
são obcecadas com a pergunta errada, que é: “Como podemos fazer com que as
pessoas paguem pela música?”. E se a gente começasse a perguntar: “Como podemos
deixar que as pessoas paguem pela música?”. Enquanto agradecia, Palmer tirou a flor
que usou para abrir sua apresentação, a estendeu aos ouvintes e a lançou para a
plateia. A plateia se levantou e a aplaudiu intensamente por 15 segundos. Palmer, a
musicista, teve a performance de sua vida sem tocar uma única nota.
A página do TED.com onde o vídeo de Palmer foi postado recebeu mais de 500 comentários em uma semana. Jody Murray comentou: “Uma voz dentro de mim
ficou o tempo todo tentando não gostar desta palestra, mas, no final, ela não
conseguiu. Uma apresentação impressionante com exemplos da concretização de
belas ideias”.
Você consegue se lembrar de ter visto uma apresentação de negócios
“impressionar” com “exemplos da concretização de belas ideias”? Esse tipo de
apresentação não é visto com muita frequência nas salas de reunião corporativas, não
é mesmo? No entanto, Amanda Palmer apresentou um verdadeiro business case para
dar músicas de graça, um tema bastante controverso na indústria fonográfica, e fez
isso de uma maneira que seus ouvintes realmente puderam sentir e vivenciar.
Sentindo a dor dos downloads lentos
Palmer subiu em um objeto cênico – um engradado de leite – para ajudar as pessoas
a “sentir” a dor de ser um músico lutando para sobreviver. Objetos cênicos e
demonstrações são bons recursos multissensoriais para ajudar o público a entender,
de forma tangível e concreta, a sua ideia e o problema que ela resolve.
Por exemplo, trabalhei com executivos de uma empresa de tecnologia que estava
lançando um dispositivo USB extremamente rápido para computadores. O produto
tinha uma “velocidade de leitura/escrita de 190/170 megabytes por segundo”. A
descrição em si não é muito interessante e nem um pouco “tátil”, mas, com uma
demonstração simples, encontramos uma maneira de fazer os ouvintes “sentir” sua
dor atual e comparar essa dor com o deleite que sentiriam ao usar o novo produto.
Depois de uma breve introdução e explicação do produto, o palestrante caminhou
para o lado esquerdo do palco, onde havia um laptop em uma mesa na altura do
peito. Ele tirou o novo produto – um drive USB – do bolso, o inseriu no computador
e entregou um cronômetro para uma pessoa da plateia. Ele pediu que o ouvinte
acionasse o cronômetro no momento em que ele começasse a transferir um arquivo
de vídeo de 1,5 GB do computador ao novo dispositivo USB da empresa. O tempo
total transcorrido foi de 10,5 segundos. Depois, ele repetiu o experimento, mas dessa
vez transferindo o mesmo arquivo ao produto de um concorrente. Sem dizer uma
palavra, o executivo e o público assistiram à transferência. Eles esperaram. E
esperaram. E esperaram um pouco mais. Mais de 40 segundos depois, a transferência
foi concluída. “Nem todos os drives USB são criados iguais”, ele concluiu. Se o
executivo tivesse falado durante a demonstração, o tempo teria passado mais rápido
para a plateia. No entanto, ele ficou em silêncio, estendendo a dor dos downloads
lentos.
A pena e o maçarico
“Sou um pediatra e um anestesista, de modo que ganho a vida botando crianças para
dormir. E sou um acadêmico, de forma que boto os ouvintes para dormir de
graça.”[21] Foi assim que o doutor Elliot Krane, que administra o centro de dor do
hospital infantil Packard Children’s Hospital da Stanford, abriu sua apresentação no
TED de 2011. A dor costuma ser um sinal de que algo está errado, mas, para algumas
crianças, a dor não passa e se transforma na própria doença.
Ele anunciou que, antes de mostrar à plateia como esse tipo de dor acontece e
como é tratada, ele queria mostrar como essa dor é sentida.
Imagine que eu esteja acariciando o seu braço com esta pena [Krane passa uma pena amarela suavemente
para cima e para baixo em seu braço esquerdo]. Agora quero que vocês imaginem que eu esteja acariciando
o seu braço com isto [Ele acende um maçarico e o coloca perto do braço. As pessoas dão risadas nervosas,
imaginando a sensação]. O que isso tem a ver com a dor crônica?
Imagine como seria a sua vida se eu acariciasse o seu braço com esta pena, mas o seu cérebro continua lhe
dizendo que o que vocês estão sentindo é isto [ele pega o maçarico]. Essa é a minha experiência com
pacientes que sofrem de dor crônica. Agora imaginem uma coisa ainda pior. Imaginem que eu esteja
acariciando o braço do seu filho com esta pena e o cérebro dele diz que ele está sentindo esta chama quente.
Nem sempre é fácil incorporar o sentido cinestésico (toque) a uma apresentação,
especialmente se o tema for uma ideia (ou, como no caso de Krane, um estado
clínico) e não um produto físico. Mas, como Krane demonstra, isso pode ser feito
com um pouco de imaginação.
Ao largar o maçarico, ele passou para o sentido da visão, mostrando a foto de
uma paciente, uma aspirante a dançarina de 16 anos que torceu o pulso e, depois de
curada, continuou a viver com uma dor insuportável no braço lesionado. Chandler
sofria de alodinia, um distúrbio no qual o mais leve toque provoca uma sensação de
queimação indescritível.
FIGURA 8.4: Elliot Krane usando um maçarico em sua apresentação no
TED de 2011
Fonte: Cortesia de James Duncan Davidson/TED (http://duncandavidson.com).
As conferências médicas são famosas por algumas das apresentações mais
maçantes imagináveis. E eu não sou o único que pensa assim. Basta perguntar a
qualquer médico. Eles lhe dirão que a maioria das apresentações é enfadonha e mal
preparada. Eu sei muito bem disso. Afinal, eu trabalho com muitos médicos e
executivos de companhias farmacêuticas, fabricantes de dispositivos médicos e
organizações de saúde. Curiosamente, mas nada pouco surpreendente, se você buscar
no Google “How to give a better medical presentation”, o primeiro resultado leva ao
TED.
Resumindo, as pessoas se lembram de informações com mais vividez quando
mais de um sentido é estimulado. Na próxima vez que elaborar uma apresentação,
seja criativo e tente “tocar” os cinco sentidos por meio de histórias (audição), fotos
ou slides (visão) e adereços cênicos (tato).
Não é bem o que você esperaria de uma caixa de presente da
Tiffany
Stacey Kramer sobreviveu a um tumor cerebral cancerígeno. Um palestrante
qualquer teria aberto a apresentação com essa revelação. Em vez disso, ela usou uma abordagem multissensorial criativa em sua palestra. A plateia viu a foto de uma bela
caixa azul de presente da Tiffany enquanto Kramer dizia:
Imaginem, por assim dizer, um presente. Eu gostaria que vocês visualizassem o presente na sua mente. Ele
não é muito grande, quase do tamanho de uma bola de golfe. Então imaginem como seria esse presente, em
um belo embrulho. Mas antes de eu lhes mostrar o conteúdo da caixa, devo dizer que esse presente fará
coisas incríveis para você. Ele unirá toda a sua família. Vocês vão se sentir amados e valorizados como
nunca se sentiram antes e voltarão a se conectar com amigos e conhecidos que não via há anos. Vocês serão
cobertos de adoração e admiração. Esse presente vai recalibrar o que há de mais importante na vida de
vocês.[22]
Kramer narrou a história do presente antes de fazer a surpreendente revelação.
Imagino que a esta altura vocês estejam morrendo de vontade de saber que presente é esse e onde vocês
podem comprar um. Será que ele está à venda na Amazon? Será que ele tem o logo da Apple? Será que tem
uma lista de espera? Pouco provável. Recebi esse presente uns cinco meses atrás. Todo embrulhado, ele
tinha esse aspecto... não é nada bonito [foto de um saco de plástico vermelho com as palavras risco
biológico]. E assim, e assim [fotos de um raio x mostrando o tumor e a longa cicatriz na parte de trás de sua
cabeça, de onde os médicos o removeram]. Era uma joia rara – um tumor cerebral chamado
hemangioblastoma –, um presente que nunca se esgota.
O contraste entre a bela caixa da Tiffany no início da apresentação de Kramer e
as fotos desagradáveis no final criou uma experiência sensorial marcante para a
plateia. Kramer concluiu sua apresentação com uma mensagem positiva e uma lição
que aprendeu com o evento que quase lhe tirou a vida:
Embora eu esteja bem agora, eu não desejaria esse presente para nenhum de vocês. Nem sei se vocês iriam
querer. Mas eu não mudaria a minha experiência. Ele transformou profundamente a minha vida de uma
maneira que eu não esperava, de todas as maneiras que eu relatei a vocês. Então, da próxima vez que se
depararem com algo inesperado, indesejado e incerto, pensem que pode ser só um presente.
Dica do TED
Ajude a plateia a “sentir” a sua apresentação. Abandone os slides de vez em quando. Incorpore demonstrações, mostre produtos, peça a participação do público. Se você estiver lançando um produto, é relativamente fácil de fazer isso porque as pessoas poderão vê-lo e tocá-lo. Mas e se o seu tema for uma ideia ou conceito? Você ainda pode criar experiências multissensoriais. Em uma das minhas palestras sobre atendimento ao cliente, falo de uma cadeia de lojas de sabonetes e cosméticos chamada Lush. Os sabonetes são caros. Costumo mostrar um sabonete em barra e pergunto quantas pessoas pagariam US$ 13,95 por ele. Ninguém levanta a mão. Caminho pela plateia e peço que um voluntário pegue o sabonete e sinta seu aroma. Repito a pergunta. Se o voluntário continuar dizendo que não pagaria pelo sabonete, eu lhe dou a barra “de graça”. Continuo contando a história e dando sabonetes de graça. Logo a plateia percebe que, quanto mais eles sabem sobre o sabonete, mais se sentem propensos a pagar pelo produto. É um jeito divertido de envolver os ouvintes e ao mesmo tempo ajudá-los a melhorar as comunicações de sua marca e a experiência de seus clientes.
SEGREDO No 8
CRIE UMA REPRESENTAÇÃO MENTAL COM EXPERIÊNCIAS MULTISSENSORIAIS
É preciso ter muita coragem para fazer o que Kramer fez e é por isso que não vemos
excelentes apresentações como essa todos os dias. É preciso ter muita coragem para
simplificar uma história a ponto de uma criança de 7 anos ser capaz de entender. É preciso
ter muita coragem para criar um slide com uma só palavra, como Bono fez. É preciso ter
muita coragem para mostrar fotos em vez de encher seus slides com bullets e texto. É
preciso ter muita coragem para usar uma pena e um maçarico como o doutor Krane fez sem
se sentir envergonhado. Metaforicamente, é preciso ter muita coragem para ficar três
minutos em cima de uma caixa de leite como Amanda Palmer fez.
A coragem se sobressai. A coragem é notada. A coragem conquista o coração e a
mente dos ouvintes. É de coragem que você precisa para fazer a apresentação da sua vida.
Eu sei que você tem coragem. Encontre-a, celebre-a e use-a. Uma apresentação corajosa
transformará a sua vida e a vida dos seus ouvintes. Você tem ideias que devem ser vistas,
sentidas e ouvidas. Use a sua voz para surpreender as pessoas, para inspirá-las e para
mudar o mundo.