TED: Falar, Convencer, Emocionar

Carmine Gallo · Capítulo 24 de 50

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TED: Falar, Convencer, Emocionar

4 Quero aprender algo novo

 

Nada do que apresentarei a vocês estava nos meus

livros escolares na época em que fui para a escola.

 

— ROBERT BALLARD, explorador do Titanic, TED de 2008

 

Robert Ballard, explorador de águas profundas, levou uma plateia do TED a uma jornada de 17 minutos para explorar os 72% do planeta que estão sob o oceano,

porque, como ele disse, “É muito ingênuo pensar que o Coelhinho da Páscoa põe

todos os ovos nos continentes”.[1] Ballard adora a adrenalina da exploração,

especialmente quando procura revelar mistérios que estendem os limites humanos.

Ele também gosta de desafios e me contou que foi muito bom se apresentar no TED

porque estava “competindo” com os melhores contadores de histórias.

Ballard é um dos mais bravos exploradores do nosso tempo. Em 1985, cerca de

1.500 quilômetros a leste de Boston, Ballard, então um oficial da inteligência naval,

descobriu os restos do RMS Titanic, quatro quilômetros abaixo da superfície do

Atlântico. A descoberta do Titanic é fruto da mais famosa expedição de Ballard, mas

ele conduziu mais de 120 explorações submarinas para descobrir algo novo sobre a

essência do que compõe a maior parte do nosso mundo. Ballard me contou que sua

missão em qualquer apresentação – no TED ou em sala de aula – é informar, educar

e inspirar. “Ao entrar em uma sala de aula, você tem duas tarefas: uma delas é

ensinar e a outra é recrutar todas as pessoas presentes naquela sala em busca da

verdade”,[2] declara Ballard.

Em sua apresentação, ele provocou a plateia com a seguinte pergunta: Por que

estamos ignorando os oceanos? Ballard disse que o orçamento anual da NASA seria

o suficiente para financiar a National Oceanic and Atmospheric Administration

(NOAA, ou Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) por 1.600

anos. E esse foi apenas um dos vários fatos e observações interessantes revelados por

Ballard, que incluíram:

 

• Tudo o que vamos falar hoje representa apenas um vislumbre de um décimo de

1%, porque isso é tudo o que sabemos;

 

• Cinquenta por cento dos Estados Unidos ficam abaixo do mar;

 

• A maior cadeia de montanhas da Terra está sob o oceano;

• A maior parte do nosso planeta vive em eterna escuridão;

 

• Descobrimos uma profusão de vida em um mundo no qual achávamos que a vida

não existia;

 

• As profundezas do mar contêm mais história que todos os museus da Terra

combinados.

 

Perto do final de sua apresentação, Ballard mostrou a foto de uma jovem, de

queixo caído e olhos arregalados em uma expressão de mais puro espanto. “É isso

que queremos”, disse Ballard.

 

Essa jovem não está vendo um jogo de futebol, não está vendo um jogo de basquete. Ela está vendo uma

exploração ao vivo, a milhares de quilômetros de distância, e está começando a entender o que se revela

diante de seus olhos. E, quando faz um queixo cair, você pode informar. Você pode colocar uma montanha

de informações nessa cabeça, que está em pleno modo de recepção.

 

Ballard foi aplaudido de pé. Sua apresentação no TED, em 2008, intriga, informa

e inspira porque leva as pessoas a verem o mundo de um jeito diferente – não de

cima, mas de baixo.

 

SEGREDO No 4

QUERO APRENDER ALGO NOVO

Revele informações completamente novas para o seu público, com uma embalagem

diferente ou que ofereçam um jeito original e inovador de resolver um velho problema.

A técnica funciona porque...: o cérebro humano adora novidades. Um elemento

estranho, incomum ou inesperado em uma apresentação intriga os ouvintes, os sacode de

suas noções preconcebidas e rapidamente lhes proporciona uma nova maneira de olhar o

mundo.

 

A CURIOSIDADE “INSACIÁVEL” DE JAMES CAMERON

 

SE NÃO FOSSE pela descoberta do Titanic por Ballard, um dos filmes de maior

sucesso de todos os tempos poderia nunca ter existido. “A curiosidade é a sua posse

mais importante”, [3] Cameron disse à plateia do TED em fevereiro de 2010. “A

imaginação é uma força que pode efetivamente se manifestar na realidade.”

Cameron fez revelações que o público não esperava do diretor de campeões de

bilheteria como Exterminador do futuro, Titanic e Avatar. Ele falou um pouco sobre

cinema e muito sobre criatividade, exploração, inovação e liderança.

A exploração dos oceanos foi um objeto de fascínio de Cameron desde que ele

tinha 15 anos de idade, quando tirou uma certificação de mergulhador. Ele explicou

que, quando fez o Titanic, vendeu a ideia aos estúdios como um “Romeu e Julieta

num navio”. No entanto, Cameron tinha segundas intenções:

 

O que eu realmente queria fazer era mergulhar até os destroços do Titanic. E foi por isso que fiz o filme.

Essa é a verdade. Agora, o estúdio não sabia disso. Mas eu os convenci. Eu disse: “Vamos mergulhar até os

destroços. Vamos filmá-lo de verdade. Usaremos as imagens na abertura do filme. Será importantíssimo. E

dará um grande gancho de marketing”. E os convenci a financiar uma expedição. Parece loucura. Mas isso

nos leva de volta àquele tema sobre a imaginação criando a realidade. Porque na verdade nós criamos uma

realidade na qual, seis meses depois, eu me vi em um submersível russo quatro quilômetros abaixo da

superfície do Atlântico Norte, olhando para o verdadeiro Titanic por uma escotilha. Não em um filme, não

em HD – mas ali, na minha frente. [4]

 

Sou um fã dos filmes de Cameron, especialmente o Titanic. Sim, ainda deixo

escapar uma lágrima quando Rose lança o diamante Hope ao mar e a música-tema

começa a tocar. Eu confesso: adoro esse tipo de filme. Embora eu conheça o enredo

do filme, Cameron me ensinou algo novo embalado em uma anedota interessante

contendo uma profunda lição para qualquer pessoa que quiser explorar toda a gama

do próprio potencial. Com isso, ele inspirou os ouvintes e lhes deu uma razão para

ouvir o resto de sua apresentação. O diretor “fisgou” a atenção do público, da mesma

forma como fez com o estúdio de cinema com seu “gancho de marketing”.

Os seres humanos são exploradores naturais. Como Cameron, a maioria de nós

tem um desejo insaciável de buscar, de aprender, de descobrir. E, ao que se revela,

somos programados para isso.

 

De acordo com alguns levantamentos, as pessoas têm mais medo de falar em público do que de

morrer. Perguntei a Robert Ballard o que o deixou mais ansioso, mergulhar quatro quilômetros

abaixo da superfície do oceano em um minúsculo e claustrofóbico submersível ou fazer sua

apresentação de 18 minutos no TED. Ele respondeu que a possibilidade de morrer no fundo do

mar foi muito pior! Lembre-se disso na próxima vez que ficar nervoso diante de uma plateia.

Como disse Jerry Seinfeld, é melhor ser a pessoa fazendo o discurso fúnebre do que ser a

pessoa no caixão.

 

APRENDER É UM BARATO

 

O MÚSICO PETER GABRIEL participou de uma conferência do TED, em 2006, e contou

a um cineasta: “A exposição a ideias novas e interessantes foi o maior barato para

mim”. Ele não estava brincando. Aprender é viciante porque é prazeroso. E também

é necessário para a evolução humana.

Ao aprender uma forma nova ou original de resolver um velho problema, você

está se beneficiando de milhões de anos de adaptação. Se o homem primitivo não

fosse curioso, a humanidade estaria extinta há um bom tempo. De acordo com John

Medina, biólogo molecular do desenvolvimento da Faculdade de Medicina da

University of Washington, 99,99% de todas as espécies que já viveram no nosso

planeta hoje estão extintas. O cérebro humano se adaptou a ambientes agressivos,

possibilitando a sobrevivência da humanidade. “É possível vencer a crueldade do

ambiente de duas maneiras: você pode se tornar mais forte ou pode se tornar mais

esperto. Nós escolhemos a segunda opção”,[5] explica Medina.

Medina diz que somos exploradores naturais com uma sede insaciável de saber e

aprender.

Os bebês nascem com um profundo desejo de entender o mundo ao seu redor e uma curiosidade incessante

que os leva a explorar agressivamente o mundo. Essa necessidade de exploração é tão intensamente ligada à

experiência dos bebês que alguns cientistas a descrevem como um impulso, da mesma forma como a fome, a

sede e o sexo são impulsos.[6]

 

De acordo com Medina, jamais saciamos a nossa sede de conhecimento, mesmo

depois de entrarmos na idade adulta.

Palestrantes como Ballard e Cameron aplacam a nossa sede com um copo de

conhecimento vindo das profundezas do mar. O seu público anseia por isso, mesmo

quando não tem um interesse especial pelo tema. Se você conseguir expor o seu tema

aos ouvintes ensinando-lhes algo novo que eles podem aplicar em sua vida cotidiana,

também irá fisgá-los.

No meu trabalho com a Intel, a maior fabricante global de microprocessadores de

computador, eu os convidei a relacionar a tecnologia que criavam com a nossa vida

cotidiana. Por exemplo, a Intel lançou uma tecnologia chamada “Turbo Boost” que,

por definição, “permite que o processador rode acima de sua frequência básica de

operação pelo controle dinâmico da velocidade do clock da CPU”. Entendeu? A

definição acima provavelmente não fez sentido algum para você e muito

provavelmente não o inspiraria a sair correndo para comprar um laptop ou

computador novo equipado com um chip da Intel.

E se eu dissesse: “A exclusiva tecnologia Turbo Boost da Intel sabe o que você

está fazendo no seu computador (jogando games, assistindo a vídeos) e ajusta o

desempenho para dar um empurrãozinho quando você precisar e pegar leve quando

você não precisar, prolongando a vida útil da bateria do seu notebook”. A segunda

descrição lhe ensina algo novo, demonstrando como o produto melhora a sua vida, e

essa é a razão de sua eficácia. Todas as vezes que um porta-voz da Intel usou a

última descrição – relacionando a tecnologia à nossa vida cotidiana –, ele foi citado

na imprensa. E raramente, ou nunca, um jornalista ou blogueiro usou a definição

técnica.

 

O “BOTÃO SALVAR” NATURAL DO CÉREBRO

 

MARTHA BURNS É professora-adjunta da Northwestern University que acredita que a

neurociência está ajudando os educadores a se tornarem professores melhores. Suas

descobertas também explicam que aprender algo novo é um barato, pois ativa as

mesmas áreas de recompensa do cérebro que as drogas e os jogos de azar.

 

Uma grande parte da resposta para explicar por que alguns dos seus alunos não recordam as informações

ensinadas e outros sim tem a ver com uma pequena substância no cérebro que deve estar presente para que

uma criança (ou um adulto) retenha informações. Ela se chama “dopamina”.[7]

 

A dopamina é uma substância química poderosa. Um novo relacionamento pode

desencadear uma onda de dopamina (que vai declinando com o tempo, razão pela

qual os terapeutas recomendam encontrar maneiras de manter a relação apimentada depois de vários anos de casamento). Avançar ao próximo nível de um videogame

pode acionar uma dose de dopamina, bem como o retinir de moedas sendo cuspidas

de um caça-níqueis ou até um barato de cocaína.

Drogas e jogos de azar são ativadores artificiais e levam a sérias consequências.

Será que não existe um jeito menos danoso de atingir esse barato mental? Pode ter

certeza de que sim. Segundo Burns, a dopamina também é liberada quando as

pessoas aprendem algo novo e empolgante – um jeito muito mais saudável de se

sentir bem! “Para muitos de seus alunos e muitos de nós adultos, aprender coisas

novas é uma aventura – uma aventura muito gratificante – e os níveis de dopamina

aumentam no cérebro para nos ajudar a reter essas novas informações”,[8] Burns

escreve. “Gosto de me referir à dopamina como o ‘botão salvar’ do cérebro. Quando

a dopamina se faz presente em um evento ou experiência, nós lembramos esse evento

ou experiência; quando a dopamina está ausente, parece que não nos lembramos de

nada.”

Isso nos leva à próxima pergunta: “Como faço para aumentar a dopamina?”.

Segundo Burns, a resposta é simples e direta: faça com que as informações sejam

novas e empolgantes. Por exemplo, ele diz que os melhores professores estão sempre

pensando em novas maneiras de transmitir as informações.

 

É por isso que você adora quando a sua escola adota novos livros didáticos – a novidade lhe permite ensinar

as informações de um jeito novo –, o que causa entusiasmo tanto em você quanto nos alunos... Reforce o

fator novidade em sala de aula para aumentar os níveis de dopamina dos seus alunos... Ela pode ser viciante

e o nosso objetivo, como professores, é viciar os alunos na aprendizagem.[9]

 

Agora sei por que tenho um barato sempre que ouço palavras vibrantes de

inspiração ou encorajamento. Passei vários anos acompanhando o meu irmão e

muitos amigos em um dia inteiro de palestras na cidade de Bakersfield, Califórnia. A

Bakersfield Business Conference era realizada uma vez por ano. Os ingressos eram

caros, a viagem era longa, mas os palestrantes faziam com que cada dólar e cada

minuto valessem muito a pena.

A conferência era conduzida à moda do TED, sendo que os palestrantes não

podiam falar mais que 20 minutos. Os palestrantes vinham dos campos da política,

negócios e artes. Alguns eram famosos (por exemplo, Ronald Reagan, Mikhail

Gorbachev, Rudy Giuliani, Steve Wynn, Wayne Gretzky) enquanto outros eram

menos conhecidos. No entanto, todos eram convidados pela sua capacidade de

ensinar ao público alguma coisa nova e original – maneiras inovadoras de abordar

velhos problemas. Na estrada, na longa viagem de cinco horas para casa, ao final de

cada conferência, eu me sentia capaz de conquistar o mundo. Eu estava viciado em

aprender algo novo. A aprendizagem é um vício que eu tenho e não me envergonho

de admitir. Pelo contrário, eu me orgulho dele.

 

UM ESTATÍSTICO TRANSFORMANDO A SUA VISÃO DO

MUNDO

HANS ROSLING É uma estrela do rock entre os TEDsters. Sua apresentação, no TED

de 2006, roubou a cena e o transformou em uma sensação viral na internet. O vídeo

de 18 minutos de Rosling foi visto mais de cinco milhões de vezes. O músico Peter

Gabriel o considera um de seus favoritos: a palestra mais “surpreendente” do TED.

Ben Affleck concorda, dizendo: “Hans é o estatístico mais criativo e divertido do

planeta!”. Steve Case, ex-CEO da AOL/Time Warner, também adorou a

apresentação, classificando-a entre suas três palestras mais “inesquecíveis”.

Quando o TED pediu que Bill Gates escolhesse suas apresentações favoritas, ele

disse que tinha palestras demais para escolher. No entanto, sua favorita, sem sombra

de dúvida, foi a de Rosling. O sucesso de Rosling se deve ao fato de que, como

sugere o título original de sua apresentação, ele apresenta estatísticas que

“transformam a sua visão de mundo”. Em português, o título é “Hans Rosling mostra

as melhores estatísticas que você já viu”. Ele transmite as informações de um jeito

absolutamente inovador.

Rosling é professor da área de saúde, em Estocolmo, Suécia, onde monitora as

tendências globais de saúde e pobreza. Nas mãos da maioria dos pesquisadores, esses

dados seriam, digamos... chatos. Rosling usa um software que ele ajudou a

desenvolver, o Gapminder, para dar vida às estatísticas. De acordo com o site do

Gapminder, o software “revela a beleza das estatísticas, transformando números

chatos em belas animações que fazem sentido no mundo real”.

Na marca dos três minutos de sua apresentação, Rosling exibe um slide com o

que parece ser um gráfico mostrando agregados aleatórios de bolhas, algumas

pequenas e outras muito maiores que o resto. Rosling explica que, quando pediu a

seus alunos para definir o “mundo desenvolvido” e o “terceiro mundo”, eles

responderam: “No mundo desenvolvido as pessoas vivem mais e têm famílias

menores. As pessoas do terceiro mundo vivem menos e têm famílias maiores”.[10]

Dito isso, Rosling se pôs a derrubar o mito de forma teatral.

No eixo x do gráfico, Rosling incluiu as taxas de fertilidade (o número de filhos

por mulher, com dados de cada país desde 1962). No eixo y, ele colocou dados de

expectativa de vida no momento do nascimento (30 anos na parte inferior do eixo e

70 anos na parte superior). Em 1962, via-se um conjunto bastante claro de grandes

bolhas perto do canto superior esquerdo, maiores países industrializados com

famílias menores e maior expectativa de vida. A parte inferior direita também tinha

um bom número de grandes bolhas, representando os países em desenvolvimento

com famílias maiores e vida mais curta.

FIGURA 4.1: Hans Rosling, cofundador e presidente do conselho da

fundação Gapminder, apresentando dados do Trendalyzer

 

Fonte: Cortesia de Stefan Nilsson.

 

O que aconteceu em seguida foi surpreendente, original e divertido. Rosling

animou os dados para mostrar as mudanças dinâmicas no mundo de 1962 a 2003, o

último ano em que os dados foram disponibilizados. À medida que as bolhas se

moviam e saltavam rapidamente pela tela, Rosling narrou as alterações como um

locutor esportivo narrando um jogo de hóquei:

 

Lá vamos nós. Dá para ver lá? É a China, aproximando-se de uma saúde melhor, melhorando. Todos os

países latino-americanos verdes estão se aproximando de famílias menores. Estes amarelos aqui são os

países árabes, e têm famílias maiores... não, eles têm uma vida mais longa, mas não famílias maiores. Os

africanos são os verdes aqui embaixo. Eles continuam aqui. Esta é a Índia. Lá vai a Indonésia, avançando

muito rápido. (Risos.) E, nos anos 1980 aqui, temos Bangladesh ainda entre os países africanos. Mas agora

Bangladesh é um milagre que acontece nos anos 1980: os imames começam a promover o planejamento

familiar. E eles sobem para aquele canto. E, na década de 1990, temos a terrível epidemia de HIV que

derruba a expectativa de vida nos países africanos e todo o resto sobe para o canto, onde temos uma vida

longa e famílias pequenas e um mundo completamente novo.[11]

 

Rosling revelou um mundo e uma maneira completamente novos de ver as

tendências demográficas globais. A plateia riu, aplaudiu, torceu e, em geral, se

mostrou profundamente intrigada.

Em 2012, a revista Time nomeou Rosling uma das pessoas mais influentes do

mundo, graças, em grande parte, à enorme popularidade de sua palestra no TED, vista na internet por milhões de pessoas. De acordo com a Time, Rosling é “um

homem na vanguarda de uma atividade de importância crucial: promover a

compreensão da ciência pelo público em geral”.[12]

A maioria dos cientistas apresenta estatísticas em palestras tediosas e maçantes.

Rosling foi um dos primeiros cientistas a apresentar estatísticas complexas que eu

quis assistir repetidas vezes – e que veria independentemente da duração da

apresentação, mas 18 minutos foi ainda melhor. Até as melhores ideias deixarão de

inspirar uma plateia se não vierem em uma boa embalagem, um pacote interessante.

Não permita que ninguém chame a oratória de uma “habilidade soft”. Se Rosling não

tivesse conseguido dar uma embalagem nova e original ao seu conteúdo, seus dados

“hard” teriam sido inúteis.

Às vezes, os dados apresentados podem não ser sensacionais ou completamente

desconhecidos para o seu público, mas isso não significa que você não possa

apresentá-los de um jeito original. Fui contratado para orientar os executivos da

SanDisk para a apresentação anual da empresa aos investidores (a empresa é a maior

fabricante mundial de memórias flash, a unidade de armazenamento usada na sua

câmera digital, MP3 player, iPad ou tablet, e cada vez mais presente nos

computadores portáteis). Os investidores estão entre as plateias mais difíceis. Eles

querem conhecer os números (de preferência números positivos), informações

técnicas e estratégias de crescimento. E também veem incontáveis apresentações,

sendo que maioria é árida, confusa e chata.

Naquela apresentação em particular, um vice-presidente sênior queria começar

com alguns dados que não eram completamente novos para a sala repleta de analistas

(as vendas crescentes de cartões de memória de alta capacidade). Nesse caso, ele não

teria de contar uma novidade, mas precisaria apresentar os dados de um jeito

diferente, revigorante. Os analistas esperam gráficos áridos, de modo que o executivo

decidiu levar a apresentação para o lado pessoal e injetar uma dose de emoção. Ele

contou que é um fanático pela fotografia digital e tem uma coleção de 80 mil fotos

em casa, quase todas armazenadas em cartões de memória da SanDisk. Ele mostrou

fotos de suas filhas adolescentes praticando esportes e explicou que só confiava nos

cartões da SanDisk para armazenar essas preciosas imagens. Ele também gosta de

tirar fotos panorâmicas de paisagens e mostrou várias fotos que tirou. O executivo

explicou aos analistas que as fotos panorâmicas requerem dez vezes mais capacidade

de armazenamento do que fotos tradicionais, “dez vezes mais oportunidade para a

SanDisk”. Pela sua própria natureza, as apresentações financeiras devem incluir

diagramas, gráficos e tabelas, mas isso não significa que você não possa apresentar

as informações para dar uma chacoalhada nos ouvintes, derrubando as noções

preconcebidas de como o conteúdo será apresentado.

Aquele executivo contou histórias bastante pessoais para dar vida aos dados e

vincular as histórias ao tema da apresentação. Todos os oito apresentadores daquele

dia estruturaram sua apresentação da mesma forma – revelando algo inteiramente

novo que os investidores não sabiam ou apresentando informações conhecidas

embaladas de um jeito diferente. Quando solicitados a avaliar a qualidade das apresentações em uma escala de cinco pontos, de “ruim” a “excelente”, quase 100%

dos entrevistados disseram que as apresentações foram “muito boas” ou

“excelentes”, colocando o evento entre as melhores apresentações de atualização que

os investidores tinham visto ao longo de todo aquele ano.

 

UMA INTROVERTIDA SAI DE SUA CONCHA

 

A INTROVERTIDA SUSAN Cain saiu de sua concha para ensinar milhões de espectadores

do TED algo novo sobre o poder da solitude. O TED celebra as mentes mais

brilhantes do mundo que fazem a apresentação de sua vida, mas a palestrante do

TED Susan Cain afirma que “a correlação entre ser o melhor orador e ter as melhores

ideias é nula”.[13]

Com essa declaração, Caim forçou muitos ouvintes naquele dia a questionar a

percepção de que as pessoas extrovertidas, sociáveis e falantes têm o monopólio das

ideias. “Alguns dos líderes mais revolucionários da história foram introvertidos”,

disse Cain.

Em uma sociedade que encoraja o brainstorming, dinâmicas de grupo e o

crowdsourcing, entre outros sistemas colaborativos, Caim é bastante convincente em

seus argumentos de que a solitude é um ingrediente crucial da criatividade. “Quanto

mais liberdade damos aos introvertidos para serem eles mesmos, maiores são as

chances de eles se saírem com as próprias soluções originais para esses problemas.”

O livro de Cain, O poder dos quiet os, se transformou em um best-seller e sua

palestra no TED foi vista mais de quatro milhões de vezes. “Introvertidos, o mundo

precisa de vocês e precisa do que vocês têm a oferecer. Então, desejo a vocês a

melhor de todas as jornadas possíveis e a coragem de falar em voz baixa.”

Cain é uma excelente oradora porque nos leva a ver o mundo de um jeito

diferente. Na minha carreira no jornalismo e depois, como coach de comunicação

executiva, perdi a conta de quantas vezes ouvi: “O problema é que o meu tema é

chato demais” ou “O que eu faço não é interessante” ou “Eles não prestam atenção

na minha apresentação, porque não tenho nada de novo a dizer”. Talvez o seu

público já tenha ouvido algumas das informações antes, mas os ouvintes não sabem o

que você sabe e podem ter visto uma versão dos dados ou das informações que

simplesmente não acendeu uma lâmpada na cabeça deles. É possível atrair e prender

a atenção deles mesmo se ensinar apenas uma coisa que eles não sabiam antes.

Steve Case foi um pioneiro da internet moderna quando cofundou a AOL. Ele é

um sujeito inteligentíssimo. E também é muito rico, ocupando a 258a posição na lista

da Forbes das pessoas mais ricas dos Estados Unidos. Quando lhe perguntaram quais

são as suas palestras do TED preferidas, Case respondeu que a apresentação de Caim

foi “inesquecível” e está na sua lista das dez melhores. Na posição de presidente do

conselho e CEO da empresa de investimento Revolution, Case está sempre aberto a

novas ideias que o ajudarão a tomar decisões de investimento melhores. “A

Revolution investe em pessoas e ideias que mudam o mundo. Pegamos o talento e a

paixão, e não apenas o capital, para criar grandes empresas.”[14] E Cain mostrou a

Case um novo jeito de ver o mundo.

Você pode estar fazendo uma apresentação para um venture capitalist abastado

ou alguém que acha que sabe mais do que você sobre determinada área. Não se

engane: quanto mais inteligentes e ricos forem, maiores são as chances de se

convencerem se você lhes proporcionar lentes originais para ver o mundo.

Isso me faz lembrar uma conversa que tive com um dos primeiros investidores do

Google, na famosa empresa de investimentos Sequoia Capital. Ele me contou que,

quando os sujeitos do Google, Sergey Brin e Larry Page, entraram no escritório, eles

fizeram uma apresentação de vendas com uma frase que transformou a perspectiva

do investidor. “O Google fornece acesso a todas as informações do mundo em um

clique.”

Essa frase pode muito bem ser as 13 palavras mais lucrativas da história

corporativa. O Google não foi a primeira ferramenta de busca do mundo, mas era um

sistema melhor porque classificava sites com base na relevância e não apenas com

base nos termos da busca. Os investidores viram inúmeros empreendedores tentando

vender suas tecnologias de busca e pelo menos um deles estava explorando uma

estratégia similar, mas os “sujeitos do Google” apresentaram a empresa de um jeito

mais interessante e levaram o financiamento inicial que ajudou a lançar a marca.

 

NÃO LIMITE A SUA EXPLORAÇÃO AO SEU CAMPO DE

ATUAÇÃO

 

VOCÊ SERÁ UMA pessoa mais interessante caso se interesse em aprender e

compartilhar ideias de áreas bastante diferentes das suas. Os melhores inovadores

conectam ideias de diferentes áreas. Quando eu estava escrevendo A experiência

Apple, sobre a Apple Retail Store, descobri que os executivos da Apple visitavam o

Ritz-Carlton para saber mais sobre o atendimento ao cliente. Por sua vez, muitas

outras marcas fora do setor de tecnologia estudam a Apple para melhorar a

experiência do cliente. Os melhores inovadores aplicam ideias de outras áreas além

das próprias áreas de atuação.

Conheci um executivo de uma grande empresa de relações públicas que

conquistou um grande cliente, uma agência de revitalização urbana encarregada de

obter financiamento federal para ajudar a recuperar New Orleans após o Furacão

Katrina. Eu tinha trabalhado em uma divisão diferente na mesma empresa de

relações públicas. Na posição de ex-vice-presidente de treinamento de mídia para

essa empresa, participei de inúmeras reuniões de novos negócios, nas quais o grupo

se voltava a discutir a melhor maneira de vender uma perspectiva.

Normalmente, essas reuniões são conduzidas nos ambientes menos criativos que

se pode imaginar: salas de conferências acinzentadas, monótonas e escurecidas para

que todos possam ver os tediosos slides de PowerPoint. No entanto, aquele executivo

sabia que seria mais interessante não confinar sua equipe de vendas a uma sala de conferências durante dois dias na esperança de que seu pessoal tivesse ideias

criativas. Em vez disso, ele e sua equipe visitaram o Lower Ninth Ward, a área mais

afetada de New Orleans após o furacão.

A equipe do executivo se comoveu tanto com a pobreza e o sofrimento que

decidiu que seria melhor deixar o PowerPoint de lado e falar de coração. Cada

membro da equipe falou sem o apoio de slides e anotações. Em vez disso, eles

falaram sobre o que viram e explicaram por que queriam participar do esforço de

reconstrução. Foi quase como se tivessem entrado na apresentação com os sapatos

ainda cheios de lama. A equipe conseguiu fechar o contrato e, mais tarde, um dos

tomadores de decisão do cliente revelou que, no momento em que deixaram a sala, já

tinham ganhado o caso.

É só ao ver o seu próprio mundo através de uma lente diferente que você será

capaz de dar aos seus ouvintes um jeito novo de ver o mundo deles.

 

Dica do TED

Bombardeie o cérebro com novas experiências. Incorporar novos conceitos à sua apresentação requer um pouco de criatividade e uma nova maneira de olhar o mundo. Uma boa técnica para fazer a sua criatividade pegar no tranco é receber as novas experiências de braços abertos. O cérebro usa atalhos para conservar energia. Os neurocientistas descobriram que é só bombardeando o cérebro com novas experiências que podemos forçar a nossa mente a ver o mundo através de novas lentes. Isso significa que você precisa sair do escritório de vez em quando. Exponha-se a novos eventos, pessoas e lugares. E, ainda mais importante, incorpore essas novas experiências às suas apresentações.

 

AS MELHORES APRESENTAÇÕES REVELAM IDEIAS

QUE VOCÊ NUNCA TINHA PENSADO ANTES

 

QUANDO A FAST COMPANY perguntou ao famoso entrevistador Charlie Rose o que faz

uma boa conversa, ele respondeu: “As melhores conversas o levam a um passeio, a

uma jornada. Eles prendem a sua atenção, você é levado pelo ritmo e a conversa se

desenvolve e flui a partir daí. Pensando bem, uma boa conversa pode até levá-lo a ter

ideias que você nunca tinha considerado antes, a lugares que lhe possibilitam

reinventar a si mesmo ou à sua empresa”.[15] As melhores conversas ou

apresentações o conduzem a ideias que você nunca pensou antes.

O ambiente de hoje, pautado pela mídia social, é uma cacofonia de ideias,

especialmente clichês, banalidades, ideias mofadas e desgastadas. Quantas vezes

você já ouviu um atleta ou um CEO dizendo: “Tudo o que fiz foi colaborar com a

equipe”. Quantas vezes você já ouviu um consultor sugerir: “Os melhores líderes

sabem ouvir”. Quantas vezes você já ouviu conselheiros matrimoniais recomendar

uma comunicação melhor como o segredo de um casamento longo e feliz? Há um

quê de verdade em todas essas observações, no entanto, quando você ouve

advertências embaladas e apresentadas do mesmo jeito vez após vez, elas perdem o

impacto. Elas perdem a capacidade de levá-lo a pensar de um jeito diferente. Perdem

a capacidade de inspirar.

Quando você leu o livro do conselheiro matrimonial John Gray, Homens são de

Marte, mulheres são de Vênus, aposto que as ideias apresentadas fizeram você

pensar. O livro era intrigante, contendo algumas informações antigas e outras novas,

em uma embalagem que tornava o conteúdo original e inovador. E também salvou

muitos casamentos. Mas o conteúdo passaria despercebido se o livro não fosse

notável.

 

VOCÊ É NOTÁVEL?

 

SETH GODIN É um proeminente blogueiro e marqueteiro que fundamentou sua carreira

em transmitir ideias inteligentes de um jeito incomum. Ele contou à plateia do TED

em fevereiro de 2003 que, em uma sociedade com tantas escolhas e tão pouco tempo,

a nossa inclinação natural é ignorar a maior parte dessas escolhas.

Imagine o seguinte cenário: você está dirigindo pela estrada e vê uma vaca. Você

continua dirigindo porque você já viu um monte de vacas antes. As vacas são

invisíveis. Vacas são chatas. Quem vai parar o carro no encostamento e dizer: “Ah,

olha só, é uma vaca!”. Ninguém. Mas, se a vaca fosse roxa, você a notaria por um

tempo. Quero dizer, se todas as vacas fossem roxas, você também se entediaria com

elas. O fator que vai decidir o que chama a atenção das pessoas, o que é feito, o que é

mudado, o que é comprado, o que é produzido, é o seguinte: isso é notável? E

“notável” é uma palavra muito legal porque achamos que ela só significa “boa”, mas

ela também significa que “vale pena notar”.[16]

Godin chegou a publicar um livro intitulado A vaca roxa no mesmo ano de sua

palestra no TED. O argumento de Godin – que ele próprio dominou – é que você não

será notado se transmitir as velhas informações da mesma maneira tediosa que todo

mundo. Você terá uma vaca marrom em vez de uma vaca roxa. Coloque uma ênfase

um pouco diferente no seu conteúdo, dê a ele um “gancho”, como chamamos no

jornalismo, e os seus ouvintes serão muito mais receptivos à sua mensagem.

O cérebro não passa de “um pedaço de carne preguiçoso”, segundo o

neurocientista Gregory Berns. Para forçar o cérebro a ver as coisas de um jeito

diferente, você deve encontrar maneiras inovadoras de ajudar o cérebro a perceber as

informações de outra forma. “O cérebro precisa receber algo que jamais foi

processado antes para ser forçado a sair da esfera das percepções previsíveis.”[17]

Essa sede de conhecimento, o desejo de forçar o cérebro a sair das “percepções

previsíveis”, é a razão pela qual Edi Rama cativou a plateia do TEDx com sua

solução para combater a corrupção e reduzir a criminalidade em sua Albânia natal.

Por cerca de uma década, Rama foi o prefeito de Tirana, capital daquele minúsculo

país.

Tirana já foi considerada uma das cidades mais corruptas do mundo. Era a cidade

da lama, do lixo, de prédios abandonados e do cinza... cinza por toda parte. Era um

lugar deprimente e degradante. Em 2000, Rama implementou uma série de reformas

que incluiu demolir edifícios antigos e, o mais notável, pintar o exterior dos prédios de Tirana em cores vivas. Ele usou o exterior dos edifícios da cidade como a sua tela

e, por ter sido um pintor antes de se tornar um político, ele sabia um pouco sobre

arte.

 

Poucas semanas depois de ser eleito à Câmara Municipal, em 2000, Rama se pôs a contratar pintores para

recobrir as fachadas acinzentadas e monótonas de Tirana com cores chamativas, lembrando Marselha ou a

Cidade do México. Hoje, partes de Tirana, uma cidade de aproximadamente 650 mil habitantes, se

assemelham a uma pintura de Mondrian, com azuis, amarelos e rosas quebrando o sombrio isolamento de 45

anos da Albânia sob uma ditadura comunista.[18]

 

À medida que o cinza dava lugar à cor, a criminalidade caiu e parques foram

surgindo. As pessoas se sentiram mais seguras e passaram a se orgulhar da cidade.

Um dia, caminhando por uma rua recém-pintada, Rama se deparou com um lojista

removendo as velhas venezianas de suas janelas para instalar uma fachada de vidro.

— Por que você está tirando as venezianas? — perguntou.

— Bem, porque a rua está mais segura agora — foi a resposta.

— Mais segura? Por quê? Eles alocaram mais policiais ao bairro?

— Que é isso, cara? Que policiais o quê! Veja você mesmo. A rua tem cores,

iluminação pública, asfalto novo sem buracos, árvores. Então ela está bonita, ela é

segura.

 

A paixão de Rama pela arte combinada com sua curiosidade natural lhe permitiu

resolver um problema que a maioria das pessoas achava sem solução. Ele fez

exatamente o que Gregory Berns recomenda: percebeu as informações de um jeito

diferente.

Ouvintes de qualquer área, em qualquer idioma, adoram aprender maneiras

originais e inovadoras de resolver problemas. Afinal, somos programados para isso!

Alguns oradores têm uma atitude derrotista. Eles acham que não têm nada de

novo para ensinar. É claro que têm. Todos nós temos. Todos nós temos histórias

inigualáveis para contar. Você pode não ter tido as mesmas experiências que os

palestrantes que conhecemos neste capítulo, mas com certeza tem histórias

interessantes e valiosas acumuladas ao longo da sua jornada de descoberta. Preste

atenção às histórias da sua vida. Se elas lhe ensinarem algo novo e valioso, são

grandes as chances de que os outros queiram ouvi-las.

 

O sexo é uma boa propaganda, até no TED

Os TEDsters têm um apetite voraz por conhecimento em uma ampla variedade de categorias. E

o sexo não é uma exceção. Alguns palestrantes propuseram respostas intrigantes – ou pelo

menos a promessa de uma resposta – para questões íntimas.

Em fevereiro de 2009, a jornalista científica Mary Roach revelou “As dez coisas que você

não sabia sobre o orgasmo” e recebeu mais de três milhões de visualizações.

Helen Fisher atraiu 2,5 milhões de visualizações com sua palestra “Por que amamos e por

que traímos”. No TEDMED de abril de 2012, Diane Kelly revelou o que as pessoas não sabem

sobre o órgão sexual masculino. Jenny McCarthy falou sobre o que não sabemos sobre o

casamento e Amy Lockwood instruiu a plateia do TED sobre o que não sabemos sobre a

distribuição de preservativos para reduzir o HIV na África. Parece que, também quando se trata

de sexo, as pessoas são mais curiosas sobre o que não sabem do que sobre o que sabem.

O TED É UMA ACADEMIA DE GINÁSTICA PARA O

CÉREBRO

 

O DOUTOR JAMES FLYNN, professor de estudos políticos da University of Otago, na

Nova Zelândia, acredita que a população mundial está ficando mais inteligente. Não

só um pouco mais inteligente, mas muito, muito mais inteligente. Sua teoria é tão

amplamente aceita nos círculos acadêmicos que tem sido chamada de “Efeito Flynn”.

O próprio Flynn a descreve nos seguintes termos: “Se você comparar os jovens de 18

anos de hoje com pessoas que tinham 18 anos de idade 10, 20, 30, 40, 50 anos atrás,

os jovens de hoje vão tirar pontuações muito mais altas em testes de Q.I.”[19]

Flynn descobriu que as pontuações de Q.I. subiram a cada geração, não apenas

em alguns poucos países, mas em todos os países nos quais os dados de Q.I. são

disponíveis. As discussões sobre o Efeito Flynn não se concentram necessariamente

nessa constatação, mas nas razões por trás dela. A resposta mais lógica e aceita

parece ser um maior acesso à educação. As pessoas da maioria dos países passam

mais tempo aprendendo, em ambientes educacionais formais e na internet, em sites

como o TED.com. De acordo com um artigo do The New York Times, “Flynn

argumenta que o Q.I. está subindo porque, nas sociedades industrializadas, damos ao

cérebro um constante exercício mental que desenvolve o que poderíamos chamar de

‘músculos’ do nosso cérebro”.[20]

O sucesso do TED pode ser explicado, em parte, pelo nosso Q.I. em alta e pelo

fato de as pessoas ansiarem por um treino mental. Os vídeos do TED.com foram

vistos mais de um bilhão de vezes, um número extraordinário de visualizações, se

considerarmos o fato de que os vídeos de 18 minutos são, basicamente,

apresentações. Pense na maioria das apresentações de negócios que você já viu. Elas

foram inspiradoras? Interessantes? Intrigantes? Provavelmente não. Os palestrantes,

em geral, ainda não aprenderam a se apresentar ao estilo do TED. Eles ainda não

aprenderam que o cérebro adora novidades e ainda não sabem como comunicar essas

novidades.

 

“O que o TED celebra é o dom da imaginação humana.”

 

— SIRKEN ROBINSON,

TED de 2006

 

UM TÍTULO COM JEITO DE TWITTER

 

EM JULHO DE 2009, o autor do best-seller Motivação 3.0, Dan Pink, desvendou o

enigma da motivação em uma apresentação no TED que foi vista mais de cinco

milhões de vezes. Quando pedi que Pink descrevesse sua palestra, ele o fez em uma

frase: “O conjunto de motivadores que costumamos utilizar está longe de ser tão eficaz quanto pensamos”. A frase anterior é composta de 94 caracteres e poderia

muito bem ser um post do Twitter, que tem um máximo de 140 caracteres.

Se você não puder explicar a sua grande ideia em 140 caracteres ou menos,

continue lapidando a sua mensagem. A disciplina traz clareza à sua apresentação e

ajuda o seu público a se lembrar da grande ideia que está tentando transmitir.

Antes de se tornar um autor e um palestrante, Pink se dedicava a elaborar

discursos, pensar em palavras e lapidar frases para líderes políticos.

 

Ao elaborar uma apresentação eu me perguntava: “De qual ideia quero que as pessoas se lembrem?”. Depois

que alguém ouve a sua apresentação, a prova de fogo é quando o ouvinte sai e alguém pergunta: “Sobre o

que foi a palestra?”. Quero que a apresentação seja boa a ponto de o ouvinte conseguir responder essa

pergunta com clareza. [21]

 

A resposta, diz Pink, não é um acúmulo de pequenos detalhes, mas a grande

ideia. “Executivos e especialistas tendem a se perder na floresta e nem sempre são

capazes de ver as coisas com uma mente de principiante e do ponto de vista do

público.”

Não é tão fácil se perder na floresta se você só tiver 140 caracteres para se

expressar.

O primeiro passo para fazer uma apresentação digna do TED é se perguntar:

Qual é a única coisa que quero que o público saiba? A resposta deve caber em um

tuíte, é o que eu chamo de “título com jeito de Twitter”.

É interessante notar que, depois de analisar os temas de cada uma das mais de

1.500 apresentações do TED disponíveis ao público no TED.com, não consegui

encontrar nenhum tema – nem um único tema – que ultrapassasse o limite de 140

caracteres. E um dos títulos mais longos, “Três previsões sobre o futuro do Irã

corroboradas pela matemática” (65 caracteres), contém um elemento retórico que faz

com que ele seja fácil de lembrar: a regra dos três (veja o Capítulo 7).

Observe alguns exemplos de títulos das apresentações mais vistas no TED.com.

Observe como cada título promete ensinar algo novo.

 

• “As escolas matam a criatividade” (Sir Ken Robinson)

 

• “Como os grandes líderes inspiram a ação” (Simon Sinek)

 

• “Alimentando a criatividade” (Elizabeth Gilbert)

• “Pergunta: por que somos felizes?” (Dan Gilbert)

 

• “O poder dos introvertidos” (Susan Cain)

 

• “Os oito segredos do sucesso” (Richard St. John)

 

• “Como viver antes de morrer” (Steve Jobs)

 

O título com jeito de Twitter funciona por duas razões: (1) é fruto de uma

excelente disciplina, obrigando-o a identificar e esclarecer a mensagem-chave que

você deseja que o seu público lembre e (2) ajuda ao seu público processar o conteúdo.

Pesquisas cognitivas demonstram que o nosso cérebro precisa ver o quadro geral

antes de se ocupar dos detalhes. John Medina me explicou o conceito da seguinte

maneira: “Quando o homem primitivo dava de cara com um tigre, ele não

perguntava: ‘Quantos dentes o tigre tem?’. Ele perguntava: ‘Será que esse tigre vai

querer me comer?’”.[22] O público precisa enxergar o quadro geral antes de se voltar

aos detalhes.

Se você não conseguir explicar seu produto ou ideia em 140 caracteres, continue

lapidando até conseguir. “As ideias notáveis vêm de todas as áreas do

conhecimento”,[23] de acordo com Chris Anderson, curador do TED. “Volta e meia,

faz sentido sair das profundas trincheiras que passamos a vida inteira cavando, para

ver o quadro geral e como as trincheiras se interconectam. É muito inspirador.” Você

até pode ter uma dessas ideias notáveis, mas é fundamental mostrar ao seu público o

quadro geral, ou, nas palavras de Anderson, “como as trincheiras se interconectam”.

 

Dica do TED

Crie um título com jeito de Twitter. Ao elaborar a sua próxima apresentação, pergunte-se: “Qual mensagem eu quero que o meu público saiba sobre a minha empresa, meu produto, serviço ou ideia?”. Não deixe de fazer com que o título seja específico e claro. Muitas vezes meus clientes criam algo que mais parece um slogan do que com um título, sem informar a mensagem central. Com um título bem elaborado, o público deve conseguir identificar o produto, o serviço ou a causa e o que faz com que ele seja diferente ou inigualável. Certifique-se de que o seu título se atenha ao limite de 140 caracteres de um tuíte. Isso não apenas é um bom exercício, como é essencial para o marketing. O Twitter é uma plataforma extremamente eficaz para o marketing e é fundamental criar uma descrição “tuitável” que possa ser lembrada e compartilhada com facilidade nas redes sociais.

 

SOMOS VICIADOS EM EXPLORAÇÃO

 

BEN SAUNDERS “ARRASTA coisas pesadas por lugares gelados”, anuncia seu perfil no

Twitter. Ele foi o homem mais jovem a esquiar solo no Polo Norte. Saunders é um

aventureiro, um explorador do gelo. Passou dez semanas arrastando 180 quilos de

comida, suprimentos e um computador para blogar. A temperatura não raro

despencava para dez graus abaixo de zero. Às vezes, Saunders chegava a ser o único

ser humano em 13 milhões de quilômetros quadrados.

O que o colocou numa situação como essa? Havia pouco a ganhar. Nenhum mapa

a ser traçado, nenhum ouro ou o carvão a minerar, nenhuma comida a ser encontrada.

Ele era viciado em exploração. “Acho que as expedições polares não são tão

diferentes do vício em crack”,[24] Saunders revelou a uma plateia do TED em

Londres. “Pela minha experiência, há algo de viciante em viver a vida nos limites do

humanamente possível.”

Mantenha em mente que o seu público é formado de pessoas naturalmente

programadas para explorar. De acordo com Saunders, as pessoas não querem se

limitar a assistir e admirar. Elas querem “vivenciar, se envolver, superar desafios... é aí que o verdadeiro sentido da vida pode ser encontrado”.

Saunders sugere que a inspiração e o crescimento resultam de “afastar-se da zona

de conforto... Na vida, todos nós temos temporais a suportar e polos para explorar e

acho que, pelo menos metaforicamente falando, todos nós poderíamos nos beneficiar

de sair um pouco mais de casa se ao menos tivéssemos a coragem de fazer isso”.

Os vídeos do TED.com lhe permitem “sair de casa” metaforicamente e se

envolver nessas jornadas de exploração com as mentes mais brilhantes do mundo.

Abra a porta. Dê uma olhada lá fora. Você vai descobrir um mundo inteiro de

apresentações magníficas que o ajudarão a melhorar as suas habilidades de oratória e

lhe darão as ferramentas para ter mais sucesso em qualquer esfera da sua vida.

 

SEGREDO No 4

QUERO APRENDER ALGO NOVO

Revele informações completamente novas para o seu público, com uma embalagem

diferente ou ofereça uma maneira original e inovadora de resolver um velho problema.

De acordo com Oliver Uberti, designer e orador do TEDx: “Todo super-herói tem uma

história de origem. Você também. Não seja um seguidor. Crie a sua própria obra-prima”.

Percebo que a maioria dos comunicadores são muito mais criativos do que acreditam.

Quando são encorajados a libertar sua criatividade e adotar uma abordagem inovadora à

apresentação de suas ideias, eles invariavelmente se mostram à altura do desafio.