TED: Falar, Convencer, Emocionar
9 Seja você mesmo
Não penso em trabalho como trabalho e em diversão
como diversão. Isso é tudo parte da vida.
— SIR RICHARD BRANSON
Em dezembro de 2010, Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, estava nos bastidores esperando para se dirigir a uma plateia do TED.
No dia anterior, levei a minha filha ao jardim da infância e contei que viajaria para a Costa Leste, então não
a veria naquela noite. Ela se agarrou à minha perna e me implorou para não ir. Eu simplesmente não
consegui tirar aquela imagem da minha cabeça e, no último minuto, perguntei a Pat [CEO do Paley Center]
se eu poderia incluí-la na minha palestra. “Claro que sim, conte a história”, foi a resposta.[1]
Sandberg percebeu que poderia ajudar outras mulheres falando com sinceridade
sobre as próprias dificuldades e sentimentos.
Respirei fundo e entrei no palco. Tentei ser autêntica e contei a verdade. Anunciei à sala – e, basicamente, a
todas as pessoas na internet – que estou muito longe de conseguir fazer tudo. Foi muito bom não só admitir
isso para mim mesma, mas também desabafar com os outros.[2]
SEGREDO No 9
SEJA VOCÊ MESMO
Seja autêntico, aberto e transparente.
A técnica funciona porque...: a maioria das pessoas consegue detectar um impostor.
Se você tentar ser algo ou alguém que não é, não conseguirá conquistar a confiança do seu
público.
A oratória é considerada uma forma de arte. Espero que este livro tenha
demonstrado que o lado artístico da persuasão também é sustentado pela ciência.
Agora eu proponho que deixe um pouco de lado a ciência e as técnicas e fale do
coração. É isso mesmo, tudo o que discutimos até agora será inútil se você só estiver
tentando representar um papel.
Você pode aprender com os outros e estudar as técnicas de oratória deles, mas
jamais deixará uma impressão duradoura se não encontrar a sua própria marca.
Lembro-me de ouvir a Oprah Winfrey responder a uma jovem que disse que queria
ser a próxima Oprah. “Não, você não quer isso”, Oprah retrucou. Ela explicou que as pessoas devem encontrar o próprio caminho e permanecer nesse caminho. Disse que
as pessoas de sucesso identificam o propósito central de sua vida e buscam
incansavelmente atingir o objetivo de se tornar a melhor representação possível de si
mesmas.
É preciso ter muita coragem para ser você mesmo. Quando a doutora Jill
trabalhava na elaboração de sua famosa palestra “A poderosa revelação pelo
derrame”, ela teve de tomar uma decisão. Embora os 12 primeiros minutos de sua
apresentação fossem fascinantes, ela não revelava nada de “vulnerável” ou “pessoal”.
A doutora Jill me contou que precisava de uma conclusão que pudesse “transformar
o universo”.
Uma semana antes de sua apresentação no TED, sua melhor amiga disse que a
apresentação ainda não estava boa. “Jill, você nos leva a este espaço incrivelmente
vulnerável e nos conduz nesta jornada. Nós embarcamos com você, nos
escancaramos, ficamos completamente abertos, ficamos nas suas mãos e você vem
falar [sobre o AVC]? Acho que você deveria usar melhor esse espaço.”[3] A amiga
sugeriu que a doutora Jill se mantivesse vulnerável, expressando todas as emoções
decorrentes do derrame e contando as lições que aprendeu com a experiência.
Ela entendeu a mensagem e alterou sua conclusão uma semana antes da
conferência. Veja como ela concluiu sua apresentação:
Meu espírito flutuou livre, como uma grande baleia deslizando pelo mar de euforia silenciosa. Nirvana.
Encontrei o nirvana... e, se eu encontrei o nirvana e ainda estou viva, todo mundo que está vivo pode
encontrar o nirvana. E imaginei um mundo repleto de pessoas belas, compassivas, pacíficas, amorosas, que
sabem que podem vir a este espaço quando quiserem... então percebi que esta experiência poderia ser um
tremendo presente, que poderia ser uma poderosa revelação sobre o modo como vivemos a vida.
A maioria dos cientistas não se atreveria a entrar no espaço ao qual a doutora Jill
levou sua plateia. Mesmo se o espírito deles flutuasse “livre, como uma grande
baleia deslizando pelo mar de euforia silenciosa”, eles jamais ousariam contar isso a
alguém.
A doutora Jill percebeu que a história de sua transformação espiritual era muito
mais importante que a história de um derrame. Quando o seu hemisfério esquerdo – a
parte de seu cérebro relativa ao ego – parou de funcionar, ela teve uma iluminação
espiritual. Ela não se sentia mais separada do universo, mas sim uma parte dele. Em
sua palestra, ela informou o público e o instruiu sobre o AVC. Se tivesse terminado
por ali, ela teria feito uma boa apresentação. Mas foi mais além. Ela também inspirou
e iluminou. E, com isso, sua apresentação foi de boa a notável. A doutora Jill
precisou de muita coragem para ser ela mesma, mas isso fez toda a diferença.
Em um episódio da série Grey’s Anatomy, a personagem doutora Callie Torres se
preparava para dar uma palestra no TED. Torres, uma cirurgiã ortopédica, não estava
satisfeita com a apresentação que tinha preparado e que parecia enfadonha em
comparação com as outras palestras que viu sendo apresentadas no palco do TED.
“Quem é que vai querer ouvir sobre cartilagem?”, ela se perguntou. Devido às
demandas do hospital, Callie perdeu o voo para o TED e achou que se safaria. Mas,
no último instante, seus colegas configuraram um canal de comunicação remota por satélite para que Callie pudesse fazer sua apresentação ao vivo para a plateia do TED
(tudo é possível em uma série televisiva de sucesso).
Callie sentou-se, segurando nervosamente uma pilha de cartões cheios de
anotações. “É só falar”, disse outro médico. “Só seja você mesma.” Seguindo o
conselho, Callie deixou as anotações de lado, respirou fundo e disse: “Oi. Sou a
doutora Callie Torres e tive um péssimo ano. Quase morri em um acidente de carro...
um acidente ceifou a vida do meu melhor amigo e pai da minha filha. Sou uma
cirurgiã ortopédica e trabalho com cartilagens, então passei muito tempo pensando
sobre o que nos mantém unidos quando tudo parece desabar...”.
Apesar de Grey’s Anatomy ser um drama médico fictício, ocorreu-me que,
quando os roteiristas da série quiseram criar uma história em torno do TED, eles
perceberam que a verdadeira magia de uma apresentação memorável do TED
envolve o palestrante deixando suas anotações de lado e falando diretamente do
coração, permitindo que a plateia tenha um vislumbre de sua alma. Roteiristas são
contadores de histórias e sabem intuitivamente que a magia do TED é mais profunda
que o tema de uma apresentação. Um palestrante inspirador deve levar seus ouvintes
a pensar de uma perspectiva diferente sobre a vida, carreira ou empresa. Um bom
orador faz você querer ser uma pessoa melhor.
Escolhi a citação de Richard Branson para abrir este capítulo porque acho que
muitos oradores separam seu verdadeiro eu da persona que revelam aos outros.
Branson, que conheci e entrevistei mais de uma vez, não finge ser alguém que não é.
Ele é verdadeiro. Ele é a mesma pessoa no palco e fora dele. O trabalho não é
distinto da diversão e a diversão não é distinta do trabalho. “É tudo parte da vida”,
Branson afirma.
Muitos executivos que conheço se portam e falam de um jeito na privacidade de
uma conversa e parecem se transformar quando fazem uma apresentação. Eles agem,
soam e se portam como duas pessoas diferentes. Eles não se sentem à vontade sendo
eles mesmos. Eles querem ser outra pessoa.
Já perdi as contas de quantas vezes conheci líderes apaixonados, bem-
humorados, entusiasmados e inspiradores só para descobrir que, assim que pisam no
palco, eles se transformam em pessoas sem alma, rígidas, chatas e sem graça.
Quando pergunto por que isso acontece, alguns respondem: “Porque estou fazendo
uma apresentação”.
Por favor, jamais se esqueça disto: ao fazer uma apresentação, o seu objetivo
jamais deve ser “fazer uma apresentação”. O objetivo deve ser inspirar o seu público,
comovê-los e encorajá-los a sonhar mais alto. Não é possível sensibilizar as pessoas,
se elas não acreditam que você está sendo autêntico. Você jamais vai convencer a sua
plateia se ela não confiar em você, se não o admirar e se não simpatizar com você.
Dica do TED
Apresente o seu conteúdo para um público diferente. Uma técnica que costumo usar para ajudar meus clientes a serem mais autênticos quando estão no palco é recomendar que eles apresentem o conteúdo a um amigo ou companheiro antes de apresentá-lo ao público-alvo. Eles são mais propensos a revelar um pouco mais de seu “verdadeiro eu” ao mostrar as
informações a amigos do que a um grupo de ouvintes que não necessariamente os conhecem bem.
Na palestra de Sheryl Sandberg, “Por que temos tão poucas líderes”, ela diz que
as mulheres tendem a subestimar sua capacidade no trabalho. Eu diria que a mesma
falta de confiança afeta muitas pessoas – tanto mulheres quanto homens – no que se
refere à sua capacidade de fazer apresentações inspiradoras. Já ouvi todas as
desculpas possíveis: sou tímido; não sou bom em falar em público; fico nervoso;
meus coleguinhas zombavam de mim na escola; meu conteúdo é muito complexo
etc. Essas justificativas – ou alguma variação delas – podem muito bem explicar a
sua falta de confiança em fazer uma apresentação, mas de maneira alguma definem o
seu potencial como um orador.
Posso garantir que muitas pessoas, até os melhores comunicadores, são inseguras
quanto à sua capacidade de falar em público. O pastor internacionalmente famoso
Joel Osteen contou que estava “morrendo de medo” antes de seu primeiro sermão em
outubro de 1999. Dez anos depois, ele fez um home run ao pregar a uma multidão
que lotou o novo estádio de beisebol dos Yankees. Ele levou dez anos e centenas de
sermões para dominar a arte de falar em público, mas hoje Osteen é considerado um
dos líderes espirituais mais inspiradores do mundo.
Richard Branson disse que quase passou mal quando foi convidado para dar uma
palestra no início de sua carreira. “Me deu um branco quando peguei o microfone.
Murmurei algumas palavras sem sentido por um tempo antes de deixar o pódio. Foi
um dos momentos mais vergonhosos da minha vida, e meu rosto ficou vermelho
como o logotipo da Virgin”,[4] ele contou.
Branson decidiu que seria um orador melhor. Ele praticou incansavelmente. “Os
bons oradores não são apenas sortudos ou talentosos, eles dão duro.” Branson
também aprendeu a ser ele mesmo, a ser autêntico.
“Para ser um orador público impressionante, você precisa acreditar no que diz. E,
se falar com convicção e se for empolgado com o tema, o público não dará muita
atenção aos seus erros porque eles sabem que você está dizendo a verdade. Prepare-
se e depois dê um tempo e relaxe. Fale do coração.”
O investidor bilionário Warren Buffett tinha terror de falar em público. Ele ficava
tão nervoso que chegava a escolher as disciplinas que fazia na faculdade para evitar
ter de falar na frente das pessoas. Ele chegou a se matricular em um curso de
oratória, mas desistiu antes mesmo de começar. “Não tive coragem”, ele contou. Aos
21 anos, Buffett entrou no negócio de títulos financeiros em Omaha e decidiu que, se
quisesse atingir seu pleno potencial, teria de superar seu medo de falar em público.
Buffett se matriculou em um curso de Dale Carnegie com 30 outras pessoas que,
como ele, “tinham terror de se levantar e se apresentar dizendo o próprio nome”. Ele
revelou sua insegurança inicial em uma entrevista para um site destinado a ajudar
jovens mulheres a atingir o sucesso profissional. O entrevistador perguntou a Buffett,
“Quais hábitos o senhor cultivou entre os 20 e 30 anos que considera a base do seu
sucesso hoje?”,[5] Buffett respondeu: “É extremamente importante ser capaz de se comunicar na vida. As instituições de ensino, em certa medida, não dão muita ênfase
a isso. Se não conseguir se comunicar, conversar com as pessoas e transmitir suas
ideias, você estará abrindo mão do seu potencial”.
Até as melhores faculdades de administração deixam a desejar quando se trata de
incorporar as habilidades de comunicação como uma parte vital de seus programas.
Perdi a conta de quantos executivos brilhantes treinei em grandes corporações que
me dizem: “Nunca me ensinaram essas coisas na faculdade nem no MBA, apesar de
serem importantíssimas para o meu trabalho”.
Dica do TED
Pratique. Por acaso você se lembra de ter trancado seu carro na última vez que o usou? Você pode não lembrar, mas é claro que trancou. Você precisa praticar a comunicação do seu conteúdo todos os dias, em todas as oportunidades que tiver, para que a mecânica de dar a apresentação não monopolize a sua atenção e foco. Você não quer ser o dançarino que conta os passos em voz alta. A repetição livra a sua mente para contar a sua “história” de um jeito interessante, dinâmico e, o mais importante, autêntico.
Trabalho com líderes corporativos que valem milhões de dólares e comandam
algumas das maiores marcas do mundo, incluindo produtos e serviços que você usa
todos os dias. Muitos me confessaram em particular que não são oradores confiantes.
Meu trabalho é trazer à tona a confiança deles para que consigam cativar o público.
Faço isso ajudando esses líderes a descobrir quem eles realmente são e qual é a
verdadeira paixão deles. Então, depois que elaboramos, visualizamos e ensaiamos a
apresentação, é hora de relaxar e, como Branson sugere, falar do coração. Essa
abordagem é infalível.
SEGREDO No 9
SEJA VOCÊ MESMO
Da próxima vez que fizer uma apresentação, você será comparado com os palestrantes do
TED. Sua plateia saberá que está diante de um estilo original e arrojado de transmitir
informações; um estilo que eleva o espírito dela, enche sua alma e os inspira a ver o mundo
e seu lugar no mundo de um jeito diferente.
Pessoas do mundo inteiro viram as apresentações do TED mais de um bilhão de vezes
na internet no site do TED, no YouTube ou em incontáveis blogs. Os próprios
apresentadores do TED melhoram a cada ano que passa, como observou Chris Anderson,
curador da conferência no TED de 2013.
O estilo do TED permeia grande parte da nossa cultura popular. Quando o ex-presidente
Bill Clinton participou do programa de Stephen Colbert no Comedy Central, Colbert sugeriu
que Clinton combinasse sua conferência, a Clinton Global Initiative, com o TED, rebatizando-
a de “A Excelente Iniciativa do Bill e do Ted!”. A ideia fez a plateia rolar de rir, mas a piada
não teria a menor graça se o público desconhecesse o TED ou o tipo de apresentação que
deu fama à conferência.
Enquanto o estilo do TED imbui a nossa cultura – e, como vimos nos oito capítulos
anteriores, os oradores do TED de fato têm algumas técnicas em comum –, cada um de nós
deve encontrar a própria paixão pelo tema para poder formar uma conexão autêntica com a
plateia. E, não importa o que você fizer, não tente ser Tony Robbins, a doutora Jill, Bono,
Sheryl Sandberg, Richard Branson ou qualquer uma das pessoas sobre as quais leu neste
livro. Eles descobriram quem são, encontraram o próprio caminho e o trilharam de maneira
excepcional. Seja você mesmo. Use melhor o seu espaço. Seja fiel ao seu eu autêntico: a
melhor representação de si mesmo que você pode ser.