TED: Falar, Convencer, Emocionar

Carmine Gallo · Capítulo 32 de 50

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TED: Falar, Convencer, Emocionar

Tabela 8.1,

conhecia também a visse.

 

Pense na observação de Laurie David: a explicação mais incisiva e clara que ela

viu. Se Gore não tivesse usado slides apresentando visualmente o tema do

aquecimento global, ele teria poucas chances de inspirar David a fazer um filme com

base em sua palestra. David se inspirou porque vivenciou um evento multimídia que

mais parecia um filme do que uma apresentação típica.

 

Tive a oportunidade de entrevistar Sir Richard Branson para a minha coluna na Forbes.com

sobre liderança e comunicação. Perguntei a Branson se ele viu alguma apresentação que o

surpreendeu. Sua resposta: a apresentação de Al Gore sobre o aquecimento global.

Ele [Al Gore] mostrou os efeitos irreversíveis do nosso método tradicional de fazer negócios

sobre o nosso frágil planeta. Tivemos uma conversa construtiva sobre como executivos de

empresas que trabalham com combustíveis sujos [como companhias aéreas ou ferroviárias]

podem abrir os mercados de tecnologia limpa e lançar novas e melhores maneiras de fazer

negócio. A conversa me levou a comprometer 100% dos lucros da Virgin no setor de transportes

à energia limpa e a encorajar mais empresas a priorizar igualmente as pessoas, o planeta e os

lucros.”[5]

— Sir Richard Branson, fundador do Virgin Group

 

Se Gore tivesse se limitado a ler o conteúdo sem recursos visuais de apoio,

poucas pessoas ficariam inspiradas ou intrigadas. Suas ideias teriam sido perdidas

ou, na melhor das hipóteses, relegadas a um grupo muito pequeno de pessoas

excepcionalmente engajadas no tema. A exibição visual de informações complexas

fez com que o tema parecesse claro e de fácil entendimento. Na Tabela 8.1, vemos

como Gore explica a ciência fundamental do aquecimento global. A coluna da

esquerda mostra suas palavras e a coluna da direita descreve a imagem dos slides

correspondentes e a animação visual que fez com que os recursos visuais tivessem

um impacto tão grande.

 

TABELA 8.1: As palavras de Al Gore com a descrição dos slides

correspondentes em sua apresentação “Uma verdade

inconveniente”

 

PALAVRAS DE GORE SLIDES DE GORE

 

A parte mais vulnerável do sistema ecológico da Imagem da Terra e do Sol emanando raios

Terra é a atmosfera; vulnerável porque ela é tão amarelos animados.

fina... fina o suficiente para podermos alterar sua

composição. Isso nos leva à ciência fundamental

do aquecimento global. A radiação do Sol vem

na forma de ondas de luz que aquecem o

planeta. [6]

Parte da radiação que é absorvida e aquece a Animação mostrando linhas vermelhas –

Terra é irradiada de volta ao espaço, na forma de representando a radiação infravermelha –

radiação infravermelha. saindo da atmosfera da Terra.

Parte dessa radiação infravermelha fica presa Algumas linhas vermelhas ficam presas sob a

por essa camada da atmosfera e é mantida lá. linha fina da atmosfera em vez de sair para o

espaço.

Isso é bom, porque mantém a temperatura da Fotos de fábricas cuspindo fumaça.

Terra dentro de certos limites, relativamente

constante e habitável. O problema é que essa

fina camada de atmosfera está ficando mais

espessa em virtude de toda a poluição que se

acumula lá. O que isso faz é engrossar essa

camada de atmosfera a ponto de a radiação

infravermelha ficar presa e a atmosfera se

aquecer por todo o mundo.

 

Gore sabe que o conteúdo complexo requer uma explicação simples e imagens

para ajudar o público a entender os conceitos. Você se lembra de Robert Ballard, o

explorador do Titanic que conhecemos no Capítulo 4? Sua apresentação no TED de

2008 incluiu 57 slides. E nenhum slide tinha uma única palavra! Ele mostrou fotos e

representações artísticas dos fascinantes mundos submarinos que descobriu, mas

nenhum texto. Por quê? “Quero contar uma história, não dar uma aula”, Ballard me

explicou.

 

Nancy Duarte, especialista em design de apresentações e autora de Ressonância, criou os

slides para apresentação de Al Gore sobre o aquecimento global. Conheço Nancy muito bem.

Usamos uma estética similar para o design de slides e compartilhamos uma filosofia de como as

apresentações podem verdadeiramente transformar o mundo. Como Duarte explicou em uma

palestra no TEDx: “Uma única ideia pode dar início a uma grande onda, ser um ponto crítico

para todo um movimento e efetivamente transformar o nosso futuro”. [7] “Mas uma ideia não tem

poder algum se permanecer dentro de vocês... se vocês comunicarem uma ideia de modo a

provocar a ressonância, as mudanças ocorrerão.”

 

O fim do PowerPoint como o conhecemos

 

O TED representa o fim do PowerPoint como o conhecemos. Como ninguém mais

aguenta o PowerPoint, é hora de matá-lo de vez. Permita-me esclarecer. Não estou

defendendo o fim do PowerPoint como uma ferramenta, mas o fim do design

tradicional do PowerPoint, repleto de uma barafunda de bullets e texto. Um slide de

PowerPoint tem em média 40 palavras. É praticamente impossível encontrar um

único slide em uma apresentação do TED contendo algo perto de 40 palavras, e essas

apresentações são consideradas algumas das melhores do mundo.

Brené Brown é professora e pesquisadora da Faculdade de Pós-Graduação em

Serviço de Assistência Social da University of Houston. Sua apresentação, que

comentei antes, “O poder da vulnerabilidade”, foi vista mais de sete milhões de

vezes. Por sorte, ela aparentemente não sabia que um slide de PowerPoint tem em

média 40 palavras. Slides entulhados desviam a atenção da mensagem, ao passo que

os slides de Brown complementaram a narrativa. Como? Ela usou imagens para

substituir palavras sempre que possível. Em consequência, usou 25 slides antes de atingir a marca das 40 palavras, número de palavras contidas em um único slide de

PowerPoint na maioria das apresentações.

Por exemplo, Brown abriu sua apresentação contando uma história pessoal sobre

a sua experiência como estudante de doutorado. Seu primeiro professor de pesquisa

costumava lhe dizer: “Se você não tem como mensurar o fenômeno, ele não existe”.

Nos dois minutos seguintes, enquanto ela falava, a plateia viu apenas essa frase – a

citação do professor – na tela. Em seguida, ela exibiu a imagem dos dedos de um

bebê na mão de sua mãe ao falar de seu estudo sobre “conexões” interpessoais.

Brown ganhou pontos com a plateia ao utilizar os slides como pano de fundo para a

narrativa e não como um substituto para a história que ela estava contando.

Entre os comentários postados no TED.com, na página de Brown, estão:

Apresentação excepcional e cheia de energia. Me agarrei a cada palavra. —

Melanie

Uma mensagem poderosa. — Bill

Conteúdo autêntico. Sem encheção de linguiça. — Juliette

 

Essas pessoas se encantaram com a mensagem, o conteúdo e a estrutura narrativa

de Brown. Se ela tivesse forçado os ouvintes a ler slides prolixos enquanto falava, a

mensagem teria sido perdida. Por quê? Porque o cérebro não realiza multitarefas tão

bem quanto imaginamos.

 

A multitarefa é um mito

 

“A multitarefa, no que se refere a prestar atenção, é um mito”,[8] afirma John

Medina, biólogo molecular da Faculdade de Medicina da University of Washington.

Medina reconhece que o cérebro de fato realiza a multitarefa em algum nível – todo

mundo consegue andar e falar ao mesmo tempo. No entanto, no que diz respeito à

capacidade do cérebro de prestar atenção a uma palestra, conversa ou apresentação,

somos simplesmente incapazes de prestar a mesma atenção a várias coisas diferentes.

“Sem meias palavras, pesquisas demonstram que não somos capazes de realizar a

multitarefa. Somos biologicamente incapazes de processar inputs ricos que

demandam muita atenção simultaneamente.”

FIGURA Brené Brown em sua apresentação no TED de 2012

8.1:

 

Fonte: Cortesia de James Duncan Davidson/TED (http://duncandavidson.com).

 

Pense a respeito. Será que não estamos impondo uma carga impossível ao nosso

público quando os forçamos a escutar atentamente ao que dissemos e ler um longo

slide de PowerPoint ao mesmo tempo? Eles não têm como fazer as duas coisas!

Então, como envolver o público, criar uma conexão emocional com eles e levá-los a

prestar atenção sem se distrair? Mais uma vez, a neurociência nos dá a resposta: o

efeito de superioridade da imagem (ESI).

 

As imagens são superiores

 

Os cientistas produziram uma montanha de evidências mostrando que os conceitos

apresentados na forma de imagens em vez de palavras têm mais chances de serem

lembrados. Em resumo, os recursos visuais importam – e muito. Ao ouvir

informações, você provavelmente se lembrará de cerca de 10% do conteúdo três dias

depois. Inclua uma imagem e a sua taxa de recordação decolará para 65%.

Contextualizando esses dados, uma imagem o ajudará a lembrar seis vezes mais

informações do que se você só ouvir as palavras.

“O ESI humano é algo verdadeiramente incrível”,[9] escreve Medina.

 

Testes realizados anos atrás demonstraram que as pessoas eram capazes de lembrar mais de 2.500 fotos com

pelo menos 90% de precisão vários dias depois da exposição, mesmo quando os participantes viram cada

foto por apenas cerca de dez segundos. As taxas de precisão um ano depois ainda giravam em torno dos

63%... alguns desses experimentos também fizeram comparações com outras formas de comunicação,

geralmente textos ou apresentações orais. Em geral, o resultado comprovava que o efeito de superioridade

da imagem vencia os dois. E ainda vence.

 

O nosso cérebro é configurado para processar informações visuais – imagens –

de maneira bastante distinta do texto e do som. Os cientistas chamam isso de efeito

da aprendizagem “multimodal”: as imagens são processadas em vários canais em vez

de apenas um, dando ao cérebro uma experiência de codificação muito mais

profunda e significativa.

Allan Paivio, professor de psicologia da University of Western Ontario, foi o

primeiro a apresentar a teoria da “codificação dual”. De acordo com essa teoria, as

informações visuais e verbais são armazenadas separadamente na nossa memória,

como imagens, palavras ou ambos. Conceitos aprendidos na forma de imagens são

codificados tanto visual quanto verbalmente. Por sua vez, as palavras só são

codificadas verbalmente. Dito de outra forma, as imagens ficam gravadas com mais

riqueza de detalhes no nosso cérebro e são mais fáceis de lembrar.

Por exemplo, se eu pedir que você se lembre da palavra cão, o seu cérebro

registrará a palavra como um código verbal. Se eu lhe mostrar a foto de um cão e

pedir para você se lembrar da palavra correspondente – cão –, o conceito será

registrado visual e verbalmente, aumentando em muito as chances de você recordar o

conceito. Todo mundo já viu um cão e, se você estiver familiarizado com o conceito,

isso também aumenta a sua capacidade de recordá-lo. Se, entretanto, você não

conhecer bem o conteúdo, como costuma ser o caso de uma apresentação do TED, é

muito mais eficaz armazenar o conceito na forma de imagens e palavras.

Estudos de ressonância magnética funcional confirmaram a teoria de Paivio.

Hoje em dia sabemos que os alunos que aprendem com imagens e palavras recordam

as informações com mais vividez do que os alunos que aprendem apenas por meio de

textos. Os pesquisadores também usam o termo princípio multimídia – a retenção é

reforçada com palavras e imagens e não apenas com palavras. Isso tem enormes

implicações sobre a melhor maneira de elaborar e fazer apresentações que se

destinam a inspirar ou convencer as pessoas a agir.

 

Bill Gates vira um fã dos recursos visuais

 

Desde que Bill Gates deixou a Microsoft para se dedicar a iniciativas filantrópicas,

ele tem pensado em como comunicar temas complexos com simplicidade. Ele aborda

temas que variam da redução de emissões de carbono até a reforma do sistema

educacional para ajudar as duas bilhões de pessoas mais pobres do mundo, em sua

maioria crianças, a levar uma vida melhor. São problemas complexos com soluções

complexas. O que não é nada complexo são os slides de Gates. Pelo contrário, eles

são modelos de clareza e excelentes exemplos da superioridade das imagens.

No TED de 2010, Gates fez sua famosa apresentação “Inovando para o zero!”. Bono, vocalista do U2, afirmou que a apresentação “me dá esperança” e a inclui nas