TED: Falar, Convencer, Emocionar
8 Crie uma representação mental com experiências multissensoriais
8 CRIE UMA REPRESENTAÇÃO
MENTAL COM EXPERIÊNCIAS
MULTISSENSORIAIS
É melhor apresentar uma explicação em palavras e
imagens do que apenas em palavras.
— RICHARD MAYER, psicólogo, University of California, Santa Barbara
A água só é emocionalmente vívida se você não a tiver. Nesse caso, você não consegue pensar em outra coisa. Michael Pritchard se inspirou a inventar um sistema
portátil de filtragem de água depois das tragédias do tsunami no oceano Índico em
2004 e do furacão Katrina em 2005. Nesses eventos, as pessoas morreram ou caíram
gravemente doentes por falta de água potável. Pritchard inventou o filtro portátil
LIFESAVER, que transforma água imunda em água potável. Em 2009, Pritchard fez
uma apresentação no TED sobre a sua invenção. A palestra foi vista mais de três
milhões de vezes, atraindo uma atenção de dar inveja a qualquer empreendedor.
Pritchard abre a apresentação com a foto de um menino, vestido com trapos,
coletando uma água suja e repugnante em uma poça enlameada. “Vejo que vocês
estão usufruindo da água que lhes foi proporcionada aqui na conferência nos últimos
dois dias. E garanto que vocês acham que a água veio de uma fonte segura”,[1] ele
começou dizendo à plateia. “Mas e se a fonte não fosse segura? E se a água que
vocês estão bebendo tivesse vindo de uma fonte como esta? Nesse caso, de acordo
com as estatísticas, metade de vocês estaria com diarreia agora.” Pritchard começou,
desde cedo, chamando a atenção do público (criando um momento surpreendente)
com uma foto simples porém evocativa e uma estatística que fez a plateia se
contorcer. E ele só estava começando.
Aos três minutos de sua apresentação, Pritchard caminha até um aquário com
cerca de três quartos de água que ele pegou do rio Tâmisa, nas proximidades da
conferência. A água é quase transparente, só um pouco turva. “Fiquei pensando que,
se estivéssemos no meio de uma zona de inundação em Bangladesh, a água não teria
essa cara. Então trouxe umas coisinhas para colocar na água.” Dito isso, Pritchard se
põe a adicionar mais água ao aquário – água de sua lagoa, água de esgoto e, para
intensificar ainda mais a vividez emocional da demonstração, um “presentinho do
coelho de um amigo meu”.
Pritchard coletou um pouco da água imunda com sua garrafa de filtragem, deu
algumas bombadas e verteu água potável limpa e segura em um copo. Ele bebeu a
água e a ofereceu ao curador do TED, Chris Anderson, que estava perto do palco. A
manifestação inteira levou menos de três minutos.
A apresentação de Pritchard consistiu em fotos, estatísticas, e demonstrações.
Não foi só um elemento que levou sua apresentação a ser especialmente memorável
– foram todos os três elementos combinados.
SEGREDO No 8
CRIE UMA REPRESENTAÇÃO MENTAL
COM EXPERIÊNCIAS MULTISSENSORIAIS
Faça apresentações com elementos que envolvam mais de um dos sentidos: visão, audição,
tato, paladar e olfato.
A técnica funciona porque...: lembre-se: o cérebro não presta atenção a coisas
enfadonhas. É praticamente impossível ficar entediado se você for exposto a imagens
fascinantes, vídeos cativantes, adereços cênicos intrigantes, belas palavras e mais de uma
voz dando vida à história. Ninguém pede explicitamente que você incorpore elementos
multissensoriais à apresentação, mas, uma vez expostas a uma apresentação como essa,
as pessoas simplesmente adoram cada minuto. O cérebro anseia por experiências
multissensoriais. E os seus ouvintes podem nem saber explicar por que adoraram tanto a
sua apresentação – pode deixar que eu não revelarei o seu segredo.
EXPERIÊNCIAS MULTIMÍDIA REFORÇAM A
APRENDIZAGEM
VÁRIOS ANOS ATRÁS, conversei com o doutor Richard Mayer, professor de psicologia
da University of California, em Santa Barbara, e um grande defensor da
aprendizagem multimídia. Em um estudo intitulado “Uma teoria cognitiva da
aprendizagem multimídia”, Mayer sugere que é muito mais eficaz explicar conceitos
usando vários métodos de estimulação sensorial, como estímulos auditivos, visuais e
cinestésicos. Ele está convencido de que uma das áreas de estudo mais importantes
da psicologia cognitiva envolve entender como a multimídia pode promover a
aprendizagem de um aluno.
Nos experimentos de Mayer, os alunos expostos a ambientes multissensoriais –
texto, imagens, animação e vídeo – sempre – não só às vezes, mas sempre –
apresentaram um nível muito mais elevado de recordação das informações que os
alunos que só ouviram ou leram as informações. Mayer disse que o princípio não
deveria surpreender ninguém. Quando o cérebro pode elaborar duas representações
mentais de uma explicação – um modelo verbal e um modelo visual –, as conexões
mentais não são só um pouco mais fortes. Elas são muito, muito mais fortes.
Acrescente a isso o sentido do tato e você tem um vencedor!
As diferenças entre os dois tipos de aprendizagem (auditiva e visual) foram ainda
mais impressionantes quando o “público”, as pessoas que aprenderam a informação, não tinha qualquer conhecimento prévio da matéria. Os alunos com um bom
conhecimento prévio do conteúdo conseguem gerar as próprias imagens mentais
enquanto apenas ouvem ou leem.[2]
Pense nas suas apresentações mais importantes – elas provavelmente são dadas a
pessoas com um “baixo nível” de conhecimento prévio das informações:
• vender uma nova ideia, produto, empresa ou campanha;
• explicar novas regras, processos ou diretrizes;
• ensinar alunos no primeiro dia de aula;
• treinar funcionários ou vendedores em novas ferramentas ou iniciativas de
atendimento ao cliente;
• vender um produto para um cliente que nunca o usou ou ouviu falar dele;
• lançar um produto ou serviço inigualável, revolucionário;
• pedir a um investidor que financie o crescimento da sua empresa.
Em cada um desses casos, uma experiência multissensorial costuma levar aos
melhores resultados. Esses públicos são formados por seres humanos que podem ser
céticos e difíceis de convencer, mas não são imunes à psicologia que orienta o nosso
comportamento. Nós naturalmente reagimos a estímulos visuais, auditivos e táteis.
Os melhores oradores sabem disso e elaboram apresentações principalmente em
torno de um dos sentidos, mas incorporam pelo menos um ou dois outros: visão,
audição, tato, paladar e olfato. É mais difícil incorporar o olfato e o paladar a uma
apresentação, mas Pritchard nos deu um exemplo de como estimular esses dois
sentidos sem contato físico com o público (se uma pessoa imaginar o cheiro ou sabor
da água, ela aciona as mesmas regiões do cérebro que uma pessoa que efetivamente
cheirou ou ingeriu a água). Assim, com o olfato e o paladar fora do caminho, vamos
nos concentrar na visão, na audição e no tato.
Veja
Nos slides da sua apresentação, use imagens no lugar de texto sempre que possível.
A sua plateia terá muito mais chances de recordar informações apresentadas com
uma combinação de imagens com texto, e não apenas com o texto. Como a visão
supera todos os outros sentidos, dedicarei uma grande parte deste capítulo à técnica
de fazer com que a sua apresentação seja mais visual. Levar o seu público em uma
jornada com representações multissensoriais é em parte uma arte e em parte uma
ciência. Você deve ser criativo ao transferir as suas ideias a imagens visualmente
envolventes. Por 30 anos as mentes mais brilhantes do mundo têm cativado plateias
do TED em todo o mundo com imagens fortes, cativantes, inspiradoras e
memoráveis. Veja como eles espalham suas ideias.
A apresentação multimídia de Al Gore inflama o movimento
das mudanças climáticas
Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, em
2007, por seu trabalho relativo ao aquecimento global. Gore fora o destaque do TED
em Monterey no ano anterior, onde mostrou alguns dos mesmos slides que ganharam
fama no documentário vencedor do Oscar Uma verdade inconveniente. Quando ele
ganhou o Prêmio Nobel da Paz, a comunidade on-line do TED perguntou aos
TEDsters que viram a apresentação de Gore na conferência como a palestra os afetou
ou mudou suas vidas. Entre as respostas:
• “A palestra de Al Gore no TED abriu os meus olhos para o que eu precisava fazer
pela geração dos meus netos e passei a ponderar o nosso impacto sobre o planeta
em todos os empreendimentos que realizo.” — Howard Morgan, capitalista de
risco;
• “A apresentação de Gore no TED sobre a crise climática foi ao mesmo tempo
fascinante e inspiradora. A paixão dele pelo tema foi clara a ponto de me levar a
mostrar a palestra aos meus filhos. O nosso primogênito, Charlie, hoje com 11
anos, transformou-se numa verdadeira máquina de marketing no combate ao
aquecimento global. Ele criou a própria apresentação de PowerPoint, que mostra a
praticamente todas as pessoas que encontra.” — Jeff Levy, CEO;
• “A palestra de Al Gore no TED de 2006 foi um momento decisivo na minha vida.”
— David S. Rose, investidor-anjo [3].
Esses são apenas alguns comentários de pessoas que se sentiram inspiradas
depois de assistir à apresentação de Gore sobre a ameaça do aquecimento global,
suas causas e o que é possível fazer a respeito.
A apresentação de slides de Al Gore, feita com o software de apresentação
Keynote, é um exemplo surpreendente de como informações apresentadas
visualmente têm o poder de inspirar a ação. A plateia do TED reunida em Monterey
em fevereiro de 2006 viu uma “pré-estreia” dos slides que apareceriam no filme
alguns meses depois.
A história por trás de Uma verdade inconveniente começa dois anos antes. No dia
27 de maio de 2004, depois da estreia do filme O dia depois de amanhã, Gore
apresentou uma versão abreviada de dez minutos de sua palestra sobre as mudanças
climáticas em um encontro na Câmara Municipal de Nova York. A produtora Laurie
David estava na plateia. “Nunca tinha visto nada parecido antes e fiquei chocada”,[4]
ela conta.
Assim que a programação foi concluída, eu o abordei perguntando se ele me deixaria apresentar seu relato
dos fatos a líderes e amigos em Nova York e Los Angeles. Eu me encarregaria de toda a organização se ele
se comprometesse com as datas. A apresentação de Gore foi a explicação mais incisiva e clara do
aquecimento global que eu já tinha visto. E embarquei na missão de fazer com que todo mundo que eu