TED: Falar, Convencer, Emocionar
3 Converse com a plateia
Não finja até conseguir.
Finja até se transformar.
— AMY CUDDY, professora, Harvard Business School
Não é fácil parecer natural; é algo que requer prática. Basta perguntar a Amanda Palmer, que dominou o palco do TED de 2013. Sua apresentação, “A arte de pedir”,
atingiu mais de um milhão de visualizações poucos dias depois de ter sido postada no
TED.com. Na semana que se seguiu à sua apresentação, Palmer escreveu um longo
post em seu blog agradecendo as muitas pessoas que a ajudaram a criar, ensaiar e
fazer a apresentação de sua vida. Foi preciso um grupo de pessoas para a
concretização de uma palestra no TED. O post também confirma que fazer uma
apresentação que toca profundamente as pessoas requer muito trabalho.
SEGREDO No 3
CONVERSE COM A PLATEIA
Ensaie incansavelmente e interiorize o conteúdo para fazer a apresentação da maneira mais
descontraída possível, como quem conversa com um bom amigo.
A técnica funciona porque...: a verdadeira persuasão só ocorre depois de criar uma
ligação emocional com os ouvintes e conquistar a confiança deles. Se a sua voz, gestos e
linguagem corporal forem incongruentes com as suas palavras, os ouvintes desconfiarão da
sua mensagem. É o equivalente a ter uma Ferrari (a história magnífica) sem saber dirigir
(apresentar a história).
A ARTE DE PEDIR... E ENSAIAR
AMANDA PALMER FEZ a apresentação mais comentada do TED de 2013. Palmer é a
primeira a admitir que sua música punk/rock/indie/cabaret não é para todos, mas, não
importa se você gosta ou não da música dela, todos nós temos algo a aprender com
sua abordagem à oratória.
Palmer é uma artista performática e uma musicista. Assim, seria possível pensar
que ela ficaria à vontade dando uma breve apresentação. Mas é justamente o fato de
ela ser uma artista que explica as incontáveis horas, ao longo de quatro meses, que
ela passou lapidando e praticando para chegar a uma apresentação perfeita. “Trabalhei feito um camelo na palestra, reescrevendo-a incontáveis vezes,
cronometrando o tempo e ajustando-a para encaixar os conjuntos perfeitos de
informações em apenas 12 minutos”,[1] Palmer explicou em seu blog.
No post de 30 páginas sobre a produção de sua apresentação do TED, Palmer
agradeceu 105 pessoas pelas opiniões e sugestões e atribui a elas o sucesso de sua
palestra. O seu primeiro mentor foi o músico Thomas Dolby, que ajuda o TED com a
sua programação musical. “Seja absolutamente autêntica”, ele sugeriu.
A autenticidade não ocorre naturalmente. É isso mesmo, você leu certo: A
autenticidade não ocorre naturalmente. Como pode ser? Afinal, se você for
autêntico, não faria mais sentido simplesmente falar do coração, sem qualquer
ensaio? Não necessariamente. Uma apresentação autêntica requer horas de trabalho,
mergulhando profundamente na sua alma como você jamais ousou fazer antes,
escolhendo as palavras certas que mais representam o modo como você se sente
sobre o tema, enunciando essas palavras da maneira mais incisiva possível e
garantindo que a sua comunicação não verbal – seus gestos, expressões faciais e
linguagem corporal – esteja de acordo com a sua mensagem.
Se não ensaiar a apresentação, você estará pensando em um milhão de outras
coisas em vez de se concentrar na sua história e criar um vínculo emocional com os
ouvintes. Você estará pensando em coisas como: “Será que eu incluí uma animação
neste slide? Qual é o próximo slide? Por que o controle remoto não está
funcionando? Que história eu planejei contar agora?”. As suas expressões e
linguagem corporal refletirão a sua incerteza. Você já praticou dança? A primeira
coisa que se aprende é a contar os passos. As pessoas chegam a contar em voz alta. É
só depois de horas e mais horas de prática que parecem dançar com facilidade. A
mesma regra se aplica a uma apresentação. Palmer levou meses de trabalho duro para
fazer com que sua apresentação parecesse fácil.
Depois de conversar com Dolby, Palmer prosseguiu em sua jornada a caminho da
excelência na oratória. Veja os três passos que Palmer seguiu para lapidar e executar
a palestra de sua vida.
1. Peça ajuda com o planejamento
Palmer manteve um blog popular durante anos. Ela literalmente aplicou o
crowdsourcing para melhorar seu tema, pedindo as sugestões dos leitores. Peça a
ajuda das pessoas que mais o conhecem – seja em um blog, no Twitter, entre seus
familiares, amigos ou colegas. Normalmente você descobrirá que está perto demais
do conteúdo para vê-lo com clareza. Você pode estar imerso em detalhes quando o
público pode precisar ver o quadro geral. Você pode presumir que a sua plateia sabe
exatamente do que você está falando, quando na verdade eles se beneficiariam de
uma explicação mais simples. Esse tipo de investigação é fundamental para criar uma
conexão com o seu público.
2. Colete feedback desde o início
Palmer leu sua palestra em voz alta e as primeiras pessoas que a ouviram se disseram
entediadas. Ela não estava conseguindo prender a atenção dos ouvintes. Seu antigo
diretor de teatro e mentor do ensino médio lhe deu um “feedback brutal” para a
primeira versão de sua palestra. Palmer pediu a ajuda do orador do TED e blogueiro
Seth Godin, que recomendou: “Mantenha-se vulnerável”.
Pedir e receber feedback desde o início foi apenas o começo. Dezenas de amigos,
experts, blogueiros e oradores leram o conteúdo de sua apresentação ou sugeriram
ideias para Palmer dar mais vida ao tema. Palmer chegou a abordar uma mulher
sentada sozinha em um bar e perguntou: “Posso lhe contar uma história?”.
As melhores apresentações de negócios que já vi demandaram centenas de horas
de trabalho forjando a narrativa por trás do produto ou da empresa. Um lançamento
de produto de 20 minutos da Apple consumiu ao todo 250 horas, incluindo o trabalho
de designers de apresentações, especialistas técnicos e profissionais de marketing,
além dos executivos que fizeram a apresentação final.
Dica do TED
Pratique na frente das pessoas, faça um vídeo da apresentação e assista. Peça que amigos e colegas assistam à sua apresentação e sejam sinceros nos comentários. Use um gravador também. Monte um smartphone em um tripé ou compre uma câmera de vídeo. Não importa o método escolhido, não deixe de se gravar fazendo a apresentação. Não precisa ser uma gravação de qualidade profissional. A menos que você decida mostrá-la a alguém, só você vai vê-la. Você pode se surpreender: uma abundância das chamadas expressões vocais fáticas, como “hum”, “er” e “ah”; movimentos das mãos que desviam a atenção da plateia, como coçar o nariz ou jogar o cabelo para trás; pouco contato visual com os ouvintes etc. Preste muita atenção ao ritmo da sua enunciação e peça a opinião das pessoas. É rápido demais? Lento demais? A câmera de vídeo é a melhor ferramenta para melhorar as suas habilidades de oratória.
3. Ensaie, ensaie e ensaie um pouco mais
Em seu blog, Palmer postou uma foto de cerca de 200 pessoas em um jantar estilo
bufê numa sala de estar assistindo-a apresentar uma versão preliminar de sua palestra
do TED. Entre as pessoas que ela convidou estavam amigos, músicos, engenheiros,
um professor de ioga, um venture capitalist, um fotógrafo, um professor de
psicologia. Foi uma ideia brilhante. Afinal, a criatividade floresce fertilizada por
diversos pontos de vista.
Palmer aproveitou todas as chances que teve de praticar na frente das pessoas.
Poucos dias depois do bufê, ela fez a mesma apresentação para um grupo de
estudantes de uma faculdade de belas-artes em Boston. O professor convidara Palmer
para falar com a turma sobre um tema não relacionado ao TED. Ela perguntou ao
professor se poderia dar sua palestra do TED e a proposta foi aceita com
empolgação. Palmer pediu aos alunos que desligassem as câmeras e deu uma
“palestra ainda não completamente lapidada”. Ela refinou a apresentação com base nas opiniões e sugestões dos alunos e continuou a apresentá-la a todos os grupos que
conseguiu reunir.
Três dias antes da palestra, Palmer esboçou o esquema da apresentação em uma
longa folha de papel que estendeu no chão. Foi uma excelente ferramenta de
apresentação, possibilitando-a “ver” o fluxo de toda a apresentação. Na viagem de
avião para a Califórnia, continuou ensaiando em voz alta, alertando a pessoa sentada
ao seu lado de que ela não era esquizofrênica e só estava praticando.
Mesmo assim, Palmer ainda não tinha terminado.
Quando chegou a Long Beach, ela pediu que um amigo ouvisse a sua
apresentação pelo Skype. Também apresentou a palestra duas vezes para a equipe do
TED, uma vez pelo Skype e uma vez no palco, para o ensaio geral.
A palestra de Palmer foi intitulada “A arte de pedir”. Eu poderia tê-la intitulado
“A arte de se conectar”, porque foi isso que ela fez. Uma apresentação de sucesso
como a sua não é possível sem horas e mais horas de prática e uma montanha de
opiniões e sugestões. “Se eu tivesse tentado fazer sozinha, provavelmente não teria
sido uma boa palestra. Todas essas pessoas transformaram as minhas ideias em uma
palestra brilhante”, Palmer explicou.
Steve Jobs e a regra das dez mil horas
É bastante conhecida a teoria de que se leva dez mil horas de prática para dominar uma
habilidade – tocar piano, jogar basquete ou jogar tênis. Acredito vivamente que isso também se
aplica à habilidade de falar em público. Muitas pessoas me dizem que jamais serão tão refinadas
quanto Steve Jobs ou outros grandes oradores do mundo dos negócios, porque simplesmente
“não são boas em falar em público”. Bem, Steve Jobs também não nasceu sabendo. Ele
trabalhou duro para desenvolver essa habilidade.
Um vídeo da primeira entrevista de Steve Jobs na TV, em meados da década de 1970, foi
postado no YouTube. Ele pode ser visto sentado na cadeira antes do início da entrevista,
visivelmente nervoso. Antes da entrevista, chegou a perguntar como fazer para ir ao banheiro
porque achava que passaria mal. “Não estou de brincadeira”, ele disse, enfaticamente. Em suas
primeiras apresentações, incluindo o lançamento do Macintosh em 1984, Jobs se manteve rígido
no palco, agarrado ao púlpito e lendo anotações. Ele foi melhorando a cada ano que passava.
Na verdade, cada década testemunhou um grande avanço em seu estilo e suas técnicas de
oratória. Jobs ficou famoso por ensaiar incansavelmente para uma apresentação – muitas,
muitas horas ao longo de muitas, muitas semanas. E acabou sendo considerado um dos líderes
de negócios mais carismáticos do mundo. O que muita gente não consegue perceber é que Jobs
parecia se apresentar sem esforço porque se empenhou muito nisso!
Quando trabalho com oradores que desejam melhorar sua linguagem corporal e
técnicas de oratória, sempre falo da importância do que chamo de “Os três Ps”
(Paixão, Prática, Presença) para que eles possam aprender a dar as apresentações
com autenticidade, como se estivessem em uma conversa informal. O primeiro passo
requer que o orador identifique sua paixão e como essa paixão se conecta com a
mensagem. O próximo passo é praticar, praticar e praticar. Só depois de percorrer
esses dois primeiros passos é que a verdadeira presença pode vir à tona. Palmer é
uma apaixonada pelo tema, que é central para a sua identidade, ela praticou durante
horas e, como resultado, dominou o palco.
Ninguém nasce com um controle remoto de PowerPoint nas mãos. As pessoas normalmente não nascem com a habilidade inata de destilar a essência de uma
história em um curto espaço de tempo, visualizar e dar vida à história e falar em
público com desenvoltura sem precisar muita prática. No entanto, já perdi as contas
de quantas vezes ouvi: “Carmine, falar em público não é tão natural para mim quanto
é para as outras pessoas”. Eu tenho uma novidade para você: falar em público
também não é natural para as outras pessoas. Dedique um tempo para praticar. As
suas ideias valem o esforço.
Se o seu objetivo for fazer uma apresentação memorável que deixará o seu
público impressionado, você precisa praticar. Durante as suas sessões de prática,
preste atenção em como você soa (sua execução verbal) e em sua aparência (sua
linguagem corporal). Vamos examinar os dois componentes de uma apresentação
vencedora.
COMO FALAR PARA SER OUVIDO
OS QUATRO ELEMENTOS da execução verbal são: velocidade, volume, tom e pausas.
• VELOCIDADE: o ritmo da sua fala
• VOLUME: alto ou baixo
• TOM: inflexão alta ou baixa
• PAUSAS: pausas curtas para enfatizar palavras-chave
Ao ler um texto impresso, seria natural usar um marcador de texto para enfatizar
uma palavra ou frase importante. O equivalente verbal de um marcador de texto é
aumentar ou diminuir o volume da sua voz, alterar a velocidade na qual você enuncia
as palavras e/ou destacar o termo ou frase-chave com uma pausa antes ou depois da
enunciação. Todos esses quatro elementos são importantes e apresentarei exemplos
de cada um deles neste capítulo. Entretanto, se você não conseguir acertar a
velocidade do seu discurso, nada mais importará.
A velocidade ideal para falar em público
Estudos demonstram que 150 a 160 palavras por minuto é a velocidade ideal de
enunciação para audiobooks. Essa parece ser a velocidade na qual a maioria dos
ouvintes consegue ouvir, absorver e recordar informações confortavelmente.[2] Tendo
lido meus próprios textos para audiobooks, posso dizer que a velocidade ideal do
ditado é ligeiramente mais lenta que a velocidade da fala em uma conversa normal.
Quando me pediram para ler a versão em áudio do meu livro Faça como Steve
Jobs, passei quatro dias em um estúdio de produção de som em Berkeley, lendo com
cuidado cada frase do livro, entre goles frequentes de chá quente com mel. A editora contratou um coach profissional de locução para me ajudar com a tarefa. De acordo
com ele, o meu maior problema era que eu estava falando rápido demais.
“Mas estou falando do jeito que sempre falo em conversas informais”, eu me
expliquei.
“Esta não é uma ‘conversa informal’”, disse o coach vocal. “Os audiobooks
devem ser lidos em uma velocidade um pouco mais lenta, porque as pessoas estão só
ouvindo, não vendo, e muitas vezes ouvem enquanto dirigem. Elas não têm as
informações sensoriais adicionais de ver os seus lábios se movendo e as suas
expressões faciais.”
Os profissionais de narração e leitura de livros dizem que os audiobooks devem
ser lidos a uma velocidade ligeiramente mais lenta do que em uma conversa
presencial. Então, faz sentido que, se um audiobook deve ser lido a 150 palavras por
minuto, a velocidade ideal de enunciação para uma apresentação presencial deve ser
um pouco maior em virtude das informações sensoriais adicionais proporcionadas
pelos gestos, contato visual e expressões faciais.
Testei essa teoria analisando a velocidade vocal de Bryan Stevenson, o advogado
de direitos civis que você conheceu neste livro. Você deve lembrar que Stevenson é
um orador experiente, que defendeu muitos casos diante da Suprema Corte dos
Estados Unidos. Depois de analisar centenas de apresentações do TED, bem como
milhares de outras apresentações ao longo da minha carreira como jornalista e coach
de comunicações, estou convencido de que Stevenson tem a velocidade mais
adequada que qualquer outro orador que já vi. Ele não está lendo para os ouvintes,
ele está conversando com eles.
Quando perguntei a Stevenson sobre seu estilo de enunciação, ele me contou que
gosta de soar como se estivesse conversando com um amigo durante o jantar em um
restaurante. Se a minha teoria estivesse correta – que um bom apresentador fala um
pouco mais rápido que a enunciação ideal para um audiobook, de 150 palavras por
minuto –, as palestras de Stevenson deveriam refletir isso. E, como era de se esperar,
em sua notória palestra do TED, Stevenson fala na velocidade ligeiramente mais
rápida de 190 palavras por minuto.
Eu queria testar ainda mais a minha teoria. Se Stevenson reflete a “zona
mediana” das apresentações ao público – não rápido demais nem lento demais –, um
palestrante motivacional hiperenérgico deveria falar muito, muito mais rápido que
Stevenson. Para comprovar essa hipótese, voltei-me ao guru motivacional Tony
Robbins, que deu uma palestra no TED em 2006. Nessa apresentação, Robbins falou
na velocidade de 240 palavras por minuto. Isso é rápido. Só para dar uma ideia, um
leiloeiro fala na velocidade de 250 palavras por minuto. Essa velocidade é muito
eficaz para Robbins, que salta no palco, agita os braços descontroladamente, pula
para cima e para baixo e está lá para energizar a plateia. O público espera um nível
extremamente elevado de energia na apresentação de Robbins, tanto na linguagem
corporal quanto na velocidade de enunciação verbal.
Para a teoria se sustentar, uma pessoa no extremo oposto de Robbins no espectro
de velocidade vocal deve falar muito, muito mais devagar – até mais devagar que um audiobook. Para testar a minha teoria, analisei a velocidade da fala de Henry
Kissinger, secretário de Estado da administração Nixon. Kissinger foi um homem
brilhante, mas dificilmente seria considerado um orador carismático. Ele chegou a
zombar da própria reputação quando declarou: “O poder é o afrodisíaco mais
potente”.
Kissinger falou muito, muito d-e-v-a-g-a-r e em um tom tão monótono que quem
não prestasse muita atenção a cada palavra corria o risco de cair no sono. Em suas
entrevistas coletivas – suas aparições mais casuais e coloquiais –, Kissinger usava
uma velocidade de apenas 90 palavras por minuto!
Se a velocidade ideal de enunciação para uma apresentação ou conversa
presencial for de 190 palavras por minuto, seria razoável supor que alguns dos
oradores mais populares do TED enunciaram 3.400 palavras em 18 minutos, ou algo
muito próximo desse número. Você deve se lembrar de Sir Ken Robinson, um
consagrado palestrante do TED. Ele fez sua palestra em 3.200 palavras. A doutora
Jill Bolte Taylor enunciou cerca de 2.700 palavras, não muito diferente de Sir Ken
Robinson (parte da razão pela qual o número de palavras ficou abaixo da marca das
três mil é que ela usou longas pausas para fins de impacto dramático).
Finalmente, o que dizer de Bryan Stevenson, o homem que acredito ter a
enunciação mais naturalmente coloquial que já vi no palco do TED? A famosa
palestra de Stevenson, intitulada “Precisamos falar sobre uma injustiça”, contém
quatro mil palavras. Na minha análise, contudo, descobri que ele forçou um pouco as
regras e falou por 21 minutos. O número total de palavras nos seus primeiros 18
minutos foi de 3.373.
Não estou sugerindo que você comece a contar o número de palavras das suas
apresentações. Você até pode tentar fazer isso uma vez, se quiser. Mas é mais
importante prestar atenção a como você fala nas conversas do dia a dia e como isso
muda durante as suas apresentações. A maioria das pessoas reduz a velocidade da
fala ao fazer um discurso ou uma apresentação e a enunciação verbal acaba perdendo
a naturalidade. Não faça uma apresentação. Em vez disso, tenha uma conversa com a
plateia.
Dica do TED
Fale em um tom coloquial. Assista à apresentação de Bryan Stevenson no TED. Ouça como ele conta suas três histórias. Ele soa como se estivesse batendo um papo descontraído com você. É natural, coloquial e muito autêntico. Ao praticar a sua apresentação, você tenderá a reduzir a velocidade da sua fala quando avançar os slides ou ao tentar lembrar os argumentos que deseja expor. Depois de internalizar o conteúdo, use o seu estilo natural de conversa para determinar a velocidade da sua fala.
Lisa Kristine enfatizando as palavras-chave
Lisa Kristine passou dois anos visitando os cantos mais remotos do mundo para
fotografar um dos crimes mais atrozes contra a humanidade: a escravidão. Ela é
fotógrafa e deixa que suas fotos contem a história. Durante a sua palestra no TEDx, Kristine direcionou a atenção da plateia aos slides, mas pontuou as fotos
apresentadas com sua intensidade vocal (retomaremos essa habilidade de Lisa no
Capítulo 8).
Na parte seguinte de sua apresentação no TEDx, ela reduziu a velocidade da fala,
enunciou cada palavra com clareza e enfatizou as palavras-chave (sublinhadas a
seguir):
Hoje em dia, a escravidão se baseia no comércio, de modo que os bens que as pessoas escravizadas
produzem têm valor, mas as pessoas que os produzem são descartáveis. A escravidão existe praticamente em
todo lugar do mundo, [pausa] e mesmo assim é ilegal em todos os lugares do mundo. [3]
Kristine é apaixonada pelo tema de sua palestra. Ela conta sobre o momento em
que descobriu sobre a escravidão moderna, em uma conferência na qual conheceu
uma pessoa que trabalhava para erradicar a escravidão ao redor do mundo. Ela não
usou muitos gestos, mas fechou os olhos quando disse:
Depois que terminamos de conversar, eu me senti péssima e sinceramente envergonhada da minha
ignorância sobre atrocidades que estão acontecendo neste exato momento e pensei que, se eu não sabia,
quantas outras pessoas também não sabem? Aquilo começou a queimar um buraco no meu estômago.
A doutora Jill encena uma história
O modo como você diz algo deixa uma impressão tão profunda no ouvinte quanto
aquilo que você diz, mas muitos de nós negligenciam essa habilidade crucial.
No TEDx Youth Indianapolis, a doutora Jill levou seu objeto cênico – um cérebro
humano – ao palco (falaremos mais sobre esse adereço cênico incomum no Capítulo
5) para explicar a uma plateia composta de adolescentes e jovens as razões pelas
quais eles se sentem fora de controle na puberdade e na adolescência. Munidos do
conhecimento de sua configuração neural, eles estariam mais bem equipados para
lidar com as inevitáveis variações de humor e sentimentos e emoções inexplicáveis.
A apresentação da doutora Jill foi uma das melhores palestras sobre ciência que já vi.
Se todos os educadores fizessem com que a ciência fosse tão interessante quanto a
doutora Jill fez, estou certo de que mais jovens se empolgariam em seguir carreiras
científicas e matemáticas!
A doutora Jill abriu a apresentação falando em uma velocidade mediana de 165
palavras por minuto – não muito rápida nem muito lenta. Ela é uma oradora talentosa
e perspicaz. Ela sabe que sua enunciação deve corresponder ao conteúdo da
narrativa. Falar na mesma velocidade durante toda a apresentação sem dúvida teria
entediado seu público, por mais fascinante que fosse o conteúdo. O objetivo dela era
informar e entreter ao mesmo tempo.
A doutora Jill chegou ao ponto de sua apresentação quando se voltou às
mudanças no cérebro humano durante a puberdade, o momento em que os
adolescentes “literalmente perdem a metade da cabeça”. Como seria perder a cabeça?
À medida que os gestos da doutora Jill se tornavam mais erráticos e expansivos, sua
voz se intensificou e a velocidade de sua fala aumentou consideravelmente. Ela estava falando na velocidade de 220 palavras por minuto quando disse:
Para começar, um enorme surto de crescimento físico. Quando passamos por um enorme surto de
crescimento físico, todo o nosso corpo muda. A nossa amígdala fica um pouco em alerta... um pouco em
alerta. É tudo muito interessante, mas ela fica um pouco em alerta. O que está acontecendo? O que está
acontecendo? E, além disso tudo, os nossos sistemas hormonais começam a fluir pelo nosso corpo e
passamos por todos os tipos de alterações de humor e todos os tipos de comportamentos interessantes e,
além disso tudo, passaremos pelo que chamamos de uma poda neuronal, uma poda de 50% das conexões
sinápticas dentro do nosso cérebro. Nós literalmente perdemos a metade da nossa cabeça![4]
Os melhores oradores encenam uma história. Eles expressam as palavras usando
o corpo. Quando a doutora Jill ensaia uma apresentação, ela escolhe as palavras que
comunicam melhor as mensagens e também pratica a maneira mais eficaz de
enunciar essas palavras. Os adolescentes não são “loucos”, afirma a doutora Jill. Na
verdade, seu comportamento espontâneo e agressivo pode ser explicado por razões
biológicas concretas. O conselho da doutora Jill para adolescentes e pais é:
sobreviver até os 25 anos, quando o cérebro adulto é formado. É uma mensagem
importante e ela espera que milhões de adolescentes e estudantes vejam a sua
apresentação, que foi disponibilizada no YouTube (sob o título “The neuroanatomical
transformation of the teenage brain”, a transformação neuroanatômica do cérebro
adolescente). A doutora Jill sabe que não tem como sensibilizar seu público se a sua
mensagem for apresentada de maneira insatisfatória.
Suas palestras soam naturais, autênticas, dinâmicas e coloquiais. Uma execução
coloquial requer prática. Ela ensaiou sua apresentação não uma, nem duas, nem 20
vezes. Ela a ensaiou 200 vezes! Veja como a doutora Jill criou sua popular palestra.
Sua apresentação de Indianápolis foi concebida em Cancun. Sentindo-se
especialmente criativa, ela saiu para caminhar na praia munida de um bloco de notas.
Anotou tudo o que lhe veio à mente, deixando que as palavras e as ideias fluíssem
livremente. Depois leu em voz alta o que escreveu para sentir como as palavras e os
sons se combinavam. Sem fazer qualquer edição, ela simplesmente anotou tudo o
que achava que seu público (adolescentes e pais) precisavam saber sobre o assunto.
Quando voltou ao quarto do hotel, digitou as anotações escritas à mão. Depois
das férias, ela tinha 25 páginas de texto em espaço simples. Seu próximo passo
envolveu condensar o material em cinco grandes pontos ou mensagens-chave. O
último passo foi descobrir como comunicá-las de um jeito visual, interessante e
divertido. Falaremos sobre a apresentação visual de informações no Capítulo 8, mas
observe que o componente de entretenimento da palestra da doutora Jill tem o
mesmo peso que os outros dois fatores.
O problema da maioria das apresentações técnicas ou científicas é que os
apresentadores não conseguem fazer com que seu conteúdo seja visual, interessante e
divertido. As pessoas que usam os três componentes se destacam, são notadas e
inspiram mudanças positivas de comportamento. Quanto ao último componente, o
entretenimento, sabemos que os melhores apresentadores usam a voz e expressões
faciais, gestuais e corporais para fazer com que a plateia sinta as emoções. É o que
acontece nas apresentações que se destacam.
DERRUBANDO OS MITOS DA LINGUAGEM CORPORAL
TANTO A ENUNCIAÇÃO vocal quanto a comunicação não verbal são importantes...
muito importantes. Mas até que ponto, exatamente, elas importam? Um mito que tem
sido aceito como um mandamento por “experts” em linguagem corporal é que 7% da
mensagem é transmitida por meio de palavras e 93% são transmitidos de forma não
verbal (38% pelo tom vocal e 55% pela linguagem corporal). Você já deve ter ouvido
essas estatísticas antes. Se já ouviu, ignore-as. Elas estão equivocadas.
Vários anos atrás, conversei com o professor da University of California em Los
Angeles, Albert Mehrabian, o homem por trás das estatísticas. Hoje aposentado,
Mehrabian conduziu estudos bastante limitados na década de 1960 na área da
comunicação interpessoal. Ele simplesmente descobriu que, quando as pessoas
expressavam uma mensagem de conteúdo emocional, essa mensagem poderia ser
mal interpretada se o tom e a linguagem corporal do falante não fossem congruentes
ou compatíveis com a mensagem. Isso faz muito sentido, mas Mehrabian afirma que
os dados foram tirados completamente do contexto. Na verdade, ele diz que tem
arrepios a cada vez que ouve a estatística terrivelmente equivocada.
Dito isso, estou bem certo de que a enunciação vocal e a linguagem corporal de
fato são responsáveis pela maior parte do impacto de uma mensagem. Não uso a
pesquisa de Mehrabian para corroborar o meu argumento porque, como ele mesmo
disse, ela não se aplica nesse contexto. Mas citarei uma pesquisa mais completa e
comprovada da área da análise do comportamento – os mesmos dados que
interrogadores profissionais usam para decidir se a pessoa está mentindo ou falando a
verdade.
A verdade sobre a mentira
Morgan Wright é um veterano há 18 anos no combate ao crime. Ele treina agentes da
CIA, do FBI e da NSA na análise do comportamento e em técnicas de entrevista e de
interrogatório.
“A linguagem corporal faz toda a diferença. Ela ajuda a identificar o que é
mentira e o que é verdade”,[5] ele me contou. Segundo Wright, a NSA (Agência de
Segurança Nacional dos Estados Unidos) realizou um estudo usando 300 casos
criminais cujos resultados eram conhecidos. Em um experimento, os entrevistadores
foram solicitados a identificar se o suspeito estava dizendo a verdade ouvindo apenas
a gravação de áudio do interrogatório. Um segundo grupo de entrevistadores viu o
vídeo do suspeito sendo interrogado, mas sem ouvir o áudio. O terceiro grupo viu e
ouviu a entrevista. O quarto grupo teve acesso ao vídeo, ao áudio e aos autos do
processo.
O grupo que só teve acesso ao áudio da entrevista teve uma taxa de sucesso de
55%. Isso significa que o comportamento verbal (o que o suspeito disse e o tom no
qual ele enunciou a informação) apresentou apenas 55% de precisão para determinar se o suspeito estava mentindo ou dizendo a verdade. O grupo que não teve acesso ao
áudio e só pôde ver a linguagem corporal do suspeito no vídeo teve um desempenho
melhor – eles foram precisos 65% das vezes. Já aqueles que tiveram a vantagem de
ouvir e ver o suspeito apresentaram uma taxa de sucesso de 85%, ao passo que os
que tiveram acesso ao contexto (os autos do processo) bem como ao vídeo e ao áudio
avaliaram corretamente o comportamento verídico versus o comportamento
fraudulento em 93% dos casos, um nível de precisão mais elevado que um teste de
polígrafo.
“Quando vejo alguém fazer uma apresentação, eu os avalio da mesma forma
como avaliava as pessoas nos interrogatórios”, Wright contou. “Ao comunicar
informações nas quais você não acredita ou sobre as quais está mentindo, você
manifesta os mesmos comportamentos dos suspeitos em casos criminais ou de
espionagem que mentem para os policiais ou agentes.”
O conselho de Wright é acreditar no que você diz (Capítulo 1).
Se você não acreditar no que diz, seus movimentos serão desajeitados e pouco naturais. Por mais que você
pratique – a menos que seja um agente de espionagem treinado ou um psicopata –, será impossível impedir
essa incongruência entre as palavras e as ações. Se não acredita na mensagem, não tem como forçar seu
corpo a agir como se acreditasse nela.
De acordo com Wright, pessoas sinceras e confiantes têm uma presença
dominante. Elas demonstram autoridade e essa “aura” de autoridade começa com o
modo como as pessoas se vestem e se portam. O FBI conduziu um estudo para
analisar prisioneiros que atiraram em policiais ou os atacaram. Antes de decidir
“travar combate”, os prisioneiros avaliavam a facilidade de subjugar os policiais pela
forma como estavam vestidos (desleixados ou alinhados) e o modo como eles se
portavam (relaxados ou empertigados). “Um policial pode atrair problemas se for
relaxado, evitar contato visual, usar uma linguagem vaga e imprecisa e se for
desleixado no modo de se vestir.”
É claro que há uma grande diferença entre fazer uma apresentação e abordar um
suspeito. No último caso, um tom vocal e uma linguagem corporal medíocres podem
levar à morte. No entanto, o argumento reforça a ideia de que as pessoas o julgam o
tempo todo – com base, em grande parte, no modo como você anda, fala e se porta.
Os melhores líderes têm um ar de confiança
Em uma apresentação em grupo, a pessoa com maior “presença dominante” costuma
ser o líder. Os líderes dominam mais o conteúdo, demonstram esse conhecimento e
são confiantes a ponto de assumir o comando. Eles normalmente se vestem um
pouco melhor que os outros. Seus sapatos são engraxados e suas roupas são
impecavelmente passadas. Eles fazem um contato visual mais intenso e têm um
aperto de mão mais firme. Falam de forma concisa e precisa. Não ficam confusos e
mantêm a calma. Eles usam gestos “abertos”, com as palmas das mãos para cima ou
abertas e as mãos separadas. Sua voz se projeta, porque eles falam usando o diafragma. Eles andam, falam e se portam como líderes inspiradores.
Vários anos atrás, tive a oportunidade de conhecer o comandante Matt
Eversmann, que ensina liderança na Johns Hopkins University. Ele liderou suas
tropas em uma operação militar em Mogadíscio, capital da Somália, em 1993. A
operação foi relatada em um livro e filme de mesmo nome, Falcão Negro em perigo.
O que me chamou imediatamente a atenção foi a incrível presença de Eversmann.
“Qual é o papel da linguagem corporal no desenvolvimento de um líder?”,
perguntei a ele.
“Os grandes líderes têm um ar de confiança”, ele respondeu.
Os subordinados precisam admirar alguém capaz de ficar firme, como um carvalho, não importa o que
estiver acontecendo ao redor. É preciso transmitir a sensação de que você está sempre no controle apesar das
circunstâncias, mesmo se não tiver uma solução imediata... um bom líder não perde o foco, não se acovarda,
não hesita. É preciso irradiar um ar de confiança.
Você tem esse ar de confiança no campo de batalha corporativo? Os melhores
comunicadores têm. Um líder incapaz de incutir confiança entre seus subordinados –
por meio das centenas de ações do dia a dia – perderá a lealdade de suas “tropas” no
momento mais importante.
Você pode nunca ter a chance de pisar num palco do TED, mas está se vendendo
o tempo todo. Se você for um empreendedor tentando convencer investidores ou um
desenvolvedor de software vendendo seu produto em um estande de uma feira
comercial, você está fazendo uma apresentação. Se você for um candidato a emprego
se vendendo a um recrutador ou um CEO apresentando um novo produto aos
clientes, está fazendo uma apresentação. Uma palestra no TED pode ser a
apresentação da vida de muita gente, mas as suas apresentações no dia a dia do
trabalho, em geral, são tão importantes para a sua carreira ou empresa quanto uma
apresentação no TED. Os melhores apresentadores do TED têm uma linguagem
corporal marcante que você também deve desenvolver.
FALE, ANDE E PORTE-SE COMO UM LÍDER
COLIN POWELL É um líder bastante ponderado. Seu processo mental é rigoroso e
estruturado, bem como sua experiência como um general do exército e secretário de
Estado norte-americano, de 2001 a 2005. Quando Powell é entrevistado na TV, ele
geralmente começa com as mãos entrelaçadas em cima da mesa. No entanto, ele não
mantém essa posição por muito tempo. Em poucos segundos, ele já está gesticulando
para complementar sua mensagem. Pesquisadores descobriram que não é fácil para
os pensadores rigorosos deixar de usar gestos, mesmo quando eles tentam manter as
mãos entrelaçadas. Os movimentos liberam a capacidade mental e os pensadores
complexos usam gestos complexos.
Powell usa gestos com frequência em entrevistas na TV e apresentações. Em
outubro de 2012, ele fez uma apresentação no TED sobre crianças e por que elas
precisam de uma estrutura sólida para ter um bom começo na vida.