Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 9 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 8

ISRAEL

 

Às oito horas da manhã do dia seguinte, Holley estava de volta ao meu quarto. Ela ocupou o lugar de Phyllis na cadeira junto à cabeceira do meu leito e envolveu minha mão ainda inerte nas suas.

Por voltas das onze horas, o pastor Sullivan chegou e todos formaram um círculo ao meu redor. Betsy segurou minha mão para que eu também fosse incluído na roda. O pastor conduziu a oração. Quando estavam encerrando a prece, um dos médicos infectologistas apareceu trazendo notícias do laboratório. Apesar dos antibióticos ministrados durante toda a noite, minha taxa de glóbulos brancos continuava a subir. O que significava que a bactéria ainda estava atacando meu cérebro, sem enfrentar qualquer resistência.

Correndo contra o tempo, os médicos mais uma vez interpelaram Holley a fim de obter detalhes de minhas atividades nos últimos dias. Logo estenderam suas perguntas para as últimas semanas. Havia alguma coisa – qualquer coisa – que eu pudesse ter feito recentemente que lhes ajudasse a entender meu estado?

– Bem – disse Holley –, ele viajou para Israel há alguns meses.

Dr. Brennan vasculhou o seu bloco de notas.

As células bacterianas E. coli podem trocar DNA não somente com outras E. coli, mas também com outros organismos bacterianos gram-negativos. Isso tem sérias implicações nesta era de viagens globais, bombardeio de antibióticos e bactérias que sofrem mutações rapidamente. Se algumas E. coli se encontrarem em um ambiente biológico hostil com outros organismos primitivos mais resistentes, as E. coli podem incorporar parte do DNA dessas bactérias mais bem posicionadas.

Em 1996, pesquisadores descobriram uma nova linhagem de bactérias que hospedavam o código genético da KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase), uma bactéria que abriga uma enzima que confere resistência a antibióticos à bactéria hospedeira. Ela foi encontrada no estômago de um paciente que faleceu em um hospital da Carolina do Norte.

O caso imediatamente chamou atenção dos médicos do mundo todo quando se descobriu que a “superbactéria” KPC poderia potencialmente tornar a bactéria que a absorveu resistente não apenas aos antibióticos correntes, mas a todos eles.

Se uma linhagem de bactérias resistentes a antibióticos fugisse do controle e avançasse sobre a população do planeta, a espécie humana estaria em apuros. Nenhum novo antibiótico poderia vir em nosso socorro.

O Dr. Brennan sabia que alguns meses antes da minha crise um paciente dera entrada em um hospital com uma infecção bacteriana grave e recebera uma série de antibióticos potentes para tentar controlar uma infecção pela Klebsiella pneumoniae. Mas o estado do homem continuou a piorar. Exames revelaram que ele estava sucumbindo à bactéria e que os antibióticos não fizeram efeito. Exames posteriores mostraram que as bactérias que viviam no intestino grosso do paciente haviam adquirido o gene KPC. Em outras palavras, seu corpo tinha se tornado o laboratório para a criação de uma espécie de bactéria que, se chegasse à população geral, provocaria algo capaz de rivalizar com a peste bubônica, uma praga que dizimou metade dos europeus no século XIV.

O hospital onde tudo isso aconteceu foi o Centro Médico Sourasky, em Tel Aviv, Israel, e o caso tinha ocorrido havia poucos meses. Para ser preciso, acontecera na época em que estive por lá, em uma viagem a trabalho. Desembarquei em Jerusalém de madrugada e depois de dar entrada no hotel resolvi caminhar pela cidade velha. Acabei fazendo uma turnê ainda no escuro pela Via Dolorosa e visitando o suposto local da Última Ceia.

A caminhada havia sido estranhamente emocionante e, de volta aos Estados Unidos, eu sempre a mencionava para Holley. Mas, na ocasião, eu não conhecia a história do paciente no hospital Sourasky ou da bactéria que tinha se apropriado do gene KPC. Bactéria essa que, se desenvolvida, era uma grande facilitadora da meningite E. coli.

Será que, durante minha estadia em Israel, eu poderia ter contraído uma bactéria que hospedava a KPC à prova de antibióticos? Pouco provável. Mas era uma explicação plausível para a aparente resistência da minha infecção, e a junta médica que me assistia foi à luta para investigar se aquela era, de fato, a bactéria que atacava meu cérebro.

O meu caso estava prestes a se tornar, pela primeira de muitas razões, um episódio especial da história da medicina.