Uma prova do céu
Capítulo 17
CASO ÚNICO
Foi na quinta-feira que os médicos concluíram que a característica específica da bactéria E. coli que eu havia contraído não coincidia com o tipo ultrarresistente que aparecera em Israel na época em que estive lá. Mas esse fato só tornava meu caso mais misterioso. Se, por um lado, era uma boa notícia eu não estar hospedando um tipo de bactéria que poderia dizimar um terço da nação, por outro, em se tratando da minha recuperação individual, só reforçava o que a junta médica que me assistia já vinha suspeitando: meu caso não tinha precedentes.
Isso também fez com que meu quadro clínico passasse de desesperador para sem esperança. Os médicos simplesmente não sabiam como eu poderia ter contraído a doença, ou quando eu voltaria do coma. Eles só tinham certeza de uma coisa: não conheciam ninguém que tivesse se recuperado completamente de uma meningite bacteriana após ter passado alguns dias em coma. Pois agora eu estava no quarto dia.
A tensão tomou conta de todos. Phyllis e Betsy tinham decidido que qualquer conversa sobre a possibilidade de minha morte estava proibida perto de meu leito, por acharem que alguma parte de mim podia escutar o que se falava. Na manhã de quinta, Jean perguntara a uma enfermeira da UTI quais eram as minhas chances de sobrevivência. Do outro lado do quarto, Betsy escutou e interveio: “Por favor, não conversem sobre isso aqui.”
Jean e eu sempre fomos muito próximos. Fazíamos parte da família tanto quanto nossos irmãos “nascidos em casa”, mas o fato de termos sido “escolhidos” por mamãe e papai, como eles gostavam de dizer, inevitavelmente criou um vínculo especial entre nós. Ela sempre cuidou de mim, e a frustração e a impotência diante daquela situação a levaram a um estado de esgotamento total.
Com lágrimas nos olhos, ela admitiu que precisava ir para casa descansar um pouco. Como havia muita gente para se revezar na vigília em volta do meu leito, todos concordaram que a equipe de enfermagem ficaria satisfeita de ver menos uma pessoa no quarto.
Jean passou lá em casa, arrumou as malas e pegou a estrada de volta para Delaware. Com a sua partida, ela expressou um sentimento que toda a família estava começando a sentir: impotência.
Poucas experiências são mais frustrantes do que ver alguém que se ama em estado de coma. Você quer ajudar, mas não pode. Você quer que a pessoa abra os olhos, mas ela não abre. Muitas vezes, a família abre os olhos do paciente, como uma maneira de forçar um pouco a barra – de ordenar que a pessoa desperte. É claro que isso não funciona e pode trazer ainda mais desespero. Pacientes em coma profundo perdem a coordenação dos olhos e das pupilas. Abra a pálpebra de uma pessoa em coma profundo e você verá, muito provavelmente, um olho apontando numa direção e o outro na direção contrária. É uma visão perturbadora, e que causou muita dor em Holley quando ela resolveu mexer nas minhas pálpebras e viu o globo ocular revirado como o de um cadáver.
Com a partida de Jean, as coisas realmente começaram a desandar. Phyllis apresentava um comportamento que eu tinha visto inúmeras vezes em familiares de pacientes durante minha carreira. Ela começou a ficar irritada com os médicos.
– Por que eles não nos dão mais informações? – perguntou ela a Besty com raiva. – Garanto que se Eben estivesse aqui, ele nos diria tudo o que está acontecendo.
A realidade é que meus médicos estavam fazendo absolutamente tudo o que podiam por mim. É claro que Phyllis sabia disso, mas a dor e a frustração estavam simplesmente minando a resistência de meus entes queridos.
Na terça-feira, Holley tinha chamado o Dr. Jay Loeffler, meu antigo parceiro no desenvolvimento do programa de radiocirurgia estereotáxica no Hospital Brigham & Women em Boston. Jay era na época o chefe da oncologia radioativa no Hospital Geral de Massachusetts, e Holley achou que ele pudesse lhe dar algumas respostas.
Quando Holley descreveu meu estado, Jay achou que ela devia estar passando detalhes errados do caso. O que ela descrevia era praticamente impossível. Mas quando ela enfim o convenceu de que eu me encontrava, sim, em estado de coma provocado por um caso raro de meningite bacteriana do tipo E. coli cuja origem ninguém conseguia explicar, ele logo tratou de contatar alguns dos maiores especialistas do país em doenças infectocontagiosas. Mas ninguém com quem ele falou tinha conhecimento de um caso como o meu.
Consultando a literatura médica desde 1991, Jay não conseguiu encontrar nenhum caso de meningite do tipo E. coli em um adulto que não tivesse passado por um procedimento neurocirúrgico recente.
Desde aquele dia, Jay passou a telefonar diariamente para se atualizar sobre meu estado e para contar o que suas investigações tinham revelado. Steve Tatter, um neurocirurgião amigo meu, também fez ligações diárias para oferecer conselhos e consolo. Mas a única revelação era que o meu caso era o primeiro desse tipo na história médica.
Como já disse, a meningite bacteriana causada por Escherichia coli é muito rara em adultos. Menos de 1 em 10 milhões da população mundial a contrai anualmente. E, assim como todas as espécies de bactérias gram-negativas, ela é extremamente agressiva. Tanto que, das pessoas que ela ataca, mais de 90% das que têm um rápido declínio neurológico, como eu tive, morrem. E essa era minha chance de morrer quando cheguei à emergência. Mas, no decorrer da semana, aqueles funestos 90% se encaminhavam para 100%, pois meu corpo não respondia aos antibióticos. Os poucos pacientes que sobrevivem a um caso tão grave quanto o meu em geral precisam de assistência 24 horas pelo resto da vida. Oficialmente, meu status era de “Caso Único”, um termo que se refere a estudos médicos nos quais um único paciente representa toda a ocorrência. Simplesmente não havia mais ninguém com quem os médicos pudessem comparar minha doença.
Holley passou a trazer Bond para uma visita todas as tardes após a aula. Mas na sexta-feira ela começou achar que essas visitas poderiam estar fazendo mais mal do que bem a ele. Algumas vezes, eu me mexia. Mais que isso: meu corpo se debatia ferozmente. Uma enfermeira segurava minha cabeça, aumentava a sedação e, por fim, eu me aquietava. Era doloroso para meu filhinho de 10 anos assistir a uma cena dessas. Como se não fosse ruim o suficiente ele ter de olhar para um corpo que já não parecia com seu pai, ver aquele corpo fazendo movimentos convulsivos era particularmente desafiador. Dia após dia, eu me tornava menos a pessoa que Bond conhecia e mais um corpo estranho estendido num leito de hospital.
Lá pelo fim da semana esses ataques ocasionais de atividade motora tinham praticamente desaparecido. Não precisei mais de sedação porque os movimentos haviam diminuído quase ao nível zero – até mesmo aquele tipo de convulsão morta e automática iniciada pelos reflexos mais primitivos do tronco encefálico e da medula espinhal.
Mais amigos e membros da família ligaram perguntando se deveriam aparecer. Ficou decidido que não deveriam. Já havia comoção demais no meu quarto. As enfermeiras foram enfáticas ao dizer que meu cérebro precisava descansar – quanto mais tranquilidade, melhor.
Houve uma mudança perceptível nesses telefonemas. Eles mudaram sutilmente de um tom esperançoso para um tom conformado. Olhando à sua volta, às vezes Holley sentia que já tinha me perdido.
Na quinta à tarde, alguém bateu na porta do gabinete do pastor Michael Sullivan. Era sua secretária na Igreja Episcopal St. John.
– É do hospital. Uma das enfermeiras que cuida de Eben quer falar com o senhor. Ela diz que é urgente.
O pastor atendeu o telefone.
– Sr. Michael, o senhor precisa vir rápido – disse a enfermeira. – Eben está morrendo.
Como sacerdote, Michael Sullivan já havia passado por essa situação antes. Pastores veem a morte e a destruição que ela causa quase tanto quanto os médicos. Mesmo assim, ele ficou chocado ao ouvir o termo “morrendo” dito em relação a mim. Assim, pediu a sua esposa, Page, que orasse: por mim e para que ele, o pastor, tivesse forças para lidar com a situação. Depois, dirigiu pela tarde fria e chuvosa até o hospital, lutando para enxergar com seus olhos cheios de lágrimas.
Quando chegou ao meu quarto, a cena era muito parecida com a que ele tinha visto a última vez que estivera lá. Phyllis estava sentada na cabeceira, cumprindo sua escala no propósito de segurar minha mão – corrente que prosseguia sem quebra desde a chegada dela ao hospital na segunda-feira à noite. Meu peito inflava e se esvaziava 12 vezes por minuto com a ajuda do respirador artificial; e a enfermeira da UTI cumpria sua rotina, verificando os aparelhos em volta do meu leito e anotando os registros.
Outra enfermeira entrou e o pastor quis saber se fora ela quem ligara para a igreja.
– Não – respondeu. – Estive aqui a manhã inteira e o estado dele não mudou muito desde a noite passada. Não sei quem ligou para o senhor.
À noite, Holley, mamãe, Phyllis e Betsy estavam em meu quarto. O pastor propôs uma oração. Todos, inclusive as duas enfermeiras, deram as mãos em torno de mim, e o pastor conduziu mais uma prece pelo meu retorno à vida.
– Senhor, traga Eben de volta para nós. Eu sei que depende do seu poder.
Ninguém sabia ainda quem havia chamado o pastor. Mas essa pessoa fez uma coisa boa. Porque as orações que chegaram até mim vindas do mundo terreno estavam finalmente começando a funcionar.