Uma prova do céu
Capítulo 14
UM TIPO ESPECIAL DE EQM
O verdadeiro valor de um ser humano é determinado
principalmente pela medida com que atinge
a libertação de si próprio.
– Albert Einstein (1879-1955)
Quando estive pela primeira vez na Região do Ponto de Vista da Minhoca, eu não tinha nenhum centro de consciência. Não sabia quem eu era, o que eu era, nem mesmo se eu era. Eu estava simplesmente lá, num tipo de existência singular no meio de um nada pegajoso, escuro e lamacento que não tinha princípio e, aparentemente, não tinha fim.
Mas agora eu sei. Compreendi que sou parte do Divino e que nada, absolutamente nada, pode tirar isso de mim. A suspeita (falsa) de que estamos separados de Deus é a raiz de todas as formas de ansiedade no Universo; e a cura para isso – que eu comecei a receber no Portal e depois no Núcleo – é a certeza de que nada é capaz de nos separar do amor de Deus.
Essa compreensão, uma das coisas mais importantes que aprendi, fez com que a Região do Ponto de Vista da Minhoca se tornasse menos aterrorizante e me permitiu enxergá-la como realmente é: uma parte do Universo não muito prazerosa, mas, sem dúvida, necessária.
Muita gente já viajou pelas regiões em que estive, mas, estranhamente, a maioria se lembrava de sua identidade terrena enquanto estava fora do corpo físico. Eles nunca duvidaram de que seu lugar era na Terra. Sabiam que seus familiares estavam ao seu lado, ansiando por sua volta. Em muitos casos, encontraram amigos e parentes que já haviam morrido e os reconheciam imediatamente.
Muitos indivíduos que tiveram uma EQM relataram ter embarcado numa retrospectiva da vida, na qual viram suas interações com outras pessoas, assim como suas boas e más ações até aquele momento.
Não passei por nada disso e, coletando outros relatos, ficou claro o aspecto incomum de minha experiência. Eu estava completamente livre da minha identidade corporal durante todo o tempo e, portanto, qualquer ocorrência de EQM que necessitasse da lembrança da vida na Terra ficaria perdida.
Admito que afirmar que eu não tinha ideia de quem era, ou de onde tinha vindo, pode soar estranho. Afinal de contas, como eu poderia estar aprendendo todas aquelas coisas belas, espantosas e complexas, como podia ver a menina ao meu lado, as árvores em flor, as cascatas, os aldeãos, e não saber que era eu, Eben Alexander, quem vivia tudo aquilo? Como pude compreender tudo o que me aconteceu sem ter consciência da minha identidade? Eu não estava vendo árvores, rios e nuvens pela primeira vez na vida antes de passar pelo Portal. Pelo contrário, vi muito disso desde criança.
Minha melhor resposta é que eu estava na mesma condição de alguém com uma amnésia parcial. Ou seja, de uma pessoa que esqueceu alguns aspectos básicos de si mesma, mas que acabou colhendo benefícios por tê-los esquecido, mesmo que só por um curto período.
De que maneira fui beneficiado por não me lembrar da minha identidade terrena? Ora, isso me permitiu ir fundo nas dimensões invisíveis sem me preocupar com o que tinha deixado para trás. Durante toda a minha permanência nessas regiões eu era uma alma sem nada a perder. Nenhum lugar de onde sentir saudade, nenhum parente para chorar por mim. Eu não tinha vindo de parte alguma, não tinha história, e assim pude aceitar as circunstâncias com tranquilidade – até mesmo a escuridão inicial na Região do Ponto de Vista da Minhoca.
E porque tinha apagado a minha identidade mortal, recebi livre acesso ao verdadeiro ser cósmico que sou (e que nós todos somos). Como já disse, minha experiência foi análoga a um sonho, no qual você lembra algumas coisas e desconhece outras. No entanto essa não é uma analogia totalmente adequada, pois o Portal e o Núcleo não lembravam nem um pouco um sonho; pelo contrário, eram ultrarreais.
Hoje suspeito que minha falta de lembranças das coisas terrenas durante a viagem pela outra dimensão foi de certo modo proposital. Correndo o risco de simplificar demais a questão, acredito que tive a chance de “morrer mais intensamente” e viajar com mais profundidade do que a maioria das pessoas que têm uma experiência de quase morte.
Posso parecer presunçoso, mas minhas conclusões foram baseadas na rica literatura existente sobre a EQM. Não posso explicar por que tudo aconteceu comigo dessa maneira, mas sei agora (três anos depois) que a penetração nos mundos mais elevados tende a ser um processo gradual e requer que o indivíduo se liberte de seus apegos terrenos para entrar numa dimensão mais alta ou mais profunda.
Isso não foi um problema para mim, já que eu não tinha lembrança terrena alguma. Na verdade, a única dor e pesar que senti foi quando tive de retornar à Terra, onde minha jornada havia começado.