Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 23 de 45

Páginas do PDF

Uma prova do céu

Capítulo 22

SEIS ROSTOS

 

Àmedida que eu descia, mais rostos borbulhavam, como sempre acontecia quando eu retornava para a Região do Ponto de Vista da Minhoca. Mas dessa vez havia algo diferente nesses rostos. Agora eles eram de humanos, não de animais.

E estavam claramente dizendo coisas.

Não que eu possa traduzir o que esses rostos diziam. Parecia um pouco como os desenhos animados de Charlie Brown, quando os adultos falam e tudo o que se houve são sons indecifráveis. Ao pensar sobre isso mais tarde, descobri que podia identificar seis dos rostos que tinha visto por lá. Eram os de Sylvia, Holley e sua irmã Peggy, o médico Scott Wade e Susan Reintjes. Destes, a única que não esteve fisicamente no meu leito de hospital foi Susan. Mas, à sua maneira, ela também estivera presente porque naquela noite, e na noite anterior, ela se concentrou na sua casa em Chapel Hill e tentou entrar em contato comigo.

Fiquei confuso por minha mãe e minhas irmãs, que durante toda a semana seguraram minha mão por longas horas, não estarem naquela exibição de rostos que vi no caminho de volta do coma. Mamãe se movia vagarosamente em um andador, devido às sequelas de uma fratura no pé, mas nunca deixou de ocupar seu lugar na vigília familiar. Phyllis, Betsy e Jean estiveram quase o tempo todo no meu quarto, mas me lembrei de que elas não estiveram no hospital na última noite. Os rostos que eu tinha visto eram daqueles que estiveram presentes na sétima manhã do meu coma ou na noite anterior.

É preciso deixar claro, mais uma vez, que na ocasião eu não tinha nome nem identidade para atribuir a qualquer um desses rostos. Eu apenas sabia, ou sentia, que de algum modo eles eram importantes para mim.

Um rosto, em particular, me atraiu com poder especial. Ele começou a me puxar. Com solavancos que pareciam reverberar acima e abaixo de toda a vastidão de nuvens e de seres angelicais em meio aos quais eu estava descendo, percebi, de repente, que os seres do Portal e do Núcleo – seres que eu havia encontrado e amado, aparentemente para sempre – não eram os únicos que eu conhecia naquela dimensão. Eu sabia quem eram e amava os seres que estavam abaixo de mim também, lá na região da qual eu agora me aproximava rapidamente. Seres dos quais eu havia me esquecido por completo.

Minha percepção se focalizou em todos os rostos, mas principalmente neste sexto rosto. Ele era tão familiar! Notei, com um sentimento de choque, quase de pânico, que não importava de quem fosse o rosto, ele pertencia a alguém que precisava de mim. Alguém que nunca se recuperaria se eu partisse. Se eu o abandonasse, a perda seria irreparável – como a sensação que tive quando as portas do Céu se fecharam para mim. Seria uma traição que eu simplesmente não poderia cometer.

Até aquele ponto, estive livre. Eu tinha viajado através das diversas dimensões como um aventureiro: sem qualquer preocupação com o destino. As consequências não importavam porque mesmo quando eu estava no Núcleo não havia qualquer ansiedade ou culpa por ter deixado alguém para trás. Aquilo havia sido uma das primeiras coisas que eu aprendi quando estive com a menina nas asas de borboleta e ela me dissera: “Não há nada que você possa fazer de errado.”

Agora, porém, era diferente. Tão diferente que, pela primeira vez naquela viagem, senti um terror fora do comum. Não era um medo por mim, mas por esses rostos – em especial pelo sexto. Um rosto que eu ainda não conseguia identificar, mas que sabia que era especialmente importante para mim.

Esse rosto se mostrava com cada vez mais detalhes, até que, por fim, vi que ele estava, na verdade, me pedindo para voltar: para me arriscar na terrível descida para o mundo lá embaixo, para que pudesse estar com ele novamente. Eu ainda não podia entender suas palavras, mas de alguma forma elas comunicavam que eu tinha uma responsabilidade ali – que eu tinha “de me manter no jogo”.

Era importante que eu retornasse. Eu tinha laços aqui – compromissos que eu precisava honrar. Quanto mais nítido aquele rosto ficava, mais eu percebia isso. E mais perto eu ficava de reconhecer aquela expressão.

Era o rosto de um menino.