Uma prova do céu
Capítulo 30
DE VOLTA DA MORTE
E o desenho próximo da morte, que nivela a todos,
que a todos impressiona com uma última revelação,
e que somente um autor vindo dos mortos
poderia adequadamente esboçar.
– Herman Melville (1819-1891)
Em todos os lugares aonde fui nas primeiras semanas, as pessoas me olhavam como se estivessem vendo uma assombração. Fui ao consultório de um médico que estava na Emergência do hospital no dia em que cheguei em crise. Ele não se envolveu diretamente no meu caso, mas me viu de perto enquanto eu tinha convulsões.
– Como você pode estar aqui? – perguntou ele, resumindo a perplexidade dos médicos diante da minha recuperação. – Você é o irmão gêmeo de Eben, por acaso?
Sorri, me aproximei e apertei a mão dele com firmeza para que soubesse que era realmente eu quem estava ali.
Embora a pergunta sobre o irmão gêmeo fosse uma piada, aquele médico estava, na verdade, levantando um ponto importante. Para todos os efeitos, eu era duas pessoas. E se fosse fazer o que eu disse a Eben IV que gostaria – usar minha experiência para ajudar as pessoas –, eu teria que conciliar minha EQM com meu conhecimento científico e unir esses dois polos opostos.
Certo dia, lembrei-me de uma ligação que recebi de uma mulher chamada Suzana, alguns anos antes. O marido dela havia sido meu paciente. Apesar de todos os nossos esforços, ele morrera um ano e meio depois de descobrirmos um tumor cerebral. Agora a filha dela é quem estava doente, com várias metástases cerebrais decorrentes de um câncer de mama. Seu prognóstico era de, no máximo, poucos meses de vida. Não era um bom momento para receber uma ligação como aquela, pois minha mente estava completamente concentrada no exame de um paciente que eu iria operar naquela tarde. Mas permaneci na linha com Suzana porque eu sabia que ela estava tentando encontrar um meio – qualquer um – de encarar a situação.
Sempre acreditei que, quando se está diante de uma enfermidade que pode levar ao óbito, suavizar a verdade é bom. Impedir que um paciente terminal tente se agarrar a uma pequena fantasia que lhe ajude a lidar com a possibilidade da morte é como suspender uma medicação para dor. É uma carga muitíssimo pesada e por isso dediquei toda a atenção ao que Suzana me dizia.
– Doutor, minha filha teve um sonho impressionante com o pai. Ele lhe disse que tudo ficaria bem, que ela não precisava se preocupar com a morte.
Esse era o tipo de coisa que eu ouvia dos pacientes inúmeras vezes: a mente fazendo o que podia para se tranquilizar em uma situação dolorosamente insuportável. E eu lhe disse que parecia um sonho maravilhoso.
– O mais incrível, doutor, é como ele estava vestido. Com uma camisa amarela e um chapéu Fedora!
– Bem, Suzana – falei com naturalidade. – Imagino que não existam códigos de moda no céu.
– Não, não é nada disso, doutor. No comecinho do nosso relacionamento, quando ainda estávamos namorando, eu dei para George uma camisa amarela. E ele gostava de usá-la com um chapéu Fedora que eu também lhe dera de presente. Mas a camisa e o chapéu foram perdidos quando a nossa bagagem se extraviou durante a lua de mel. Ele sabia que eu adorava vê-lo com aquela camisa e aquele chapéu, mas nunca os substituímos.
– Tenho certeza de que sua filha ouviu muitas histórias comoventes sobre aquela camisa e aquele chapéu. E sobre o namoro de vocês.
Suzana riu.
– Não. É isso que me impressiona, doutor. Aquele era o nosso pequeno segredo. Nós sabíamos como esse detalhe pareceria ridículo para qualquer outra pessoa. Nunca conversamos sobre a camisa e o chapéu depois que eles desapareceram. Nossa filha jamais ouviu uma palavra sobre isso. Ela estava com medo de morrer, mas agora sabe que não há nada a temer, nada mesmo.
Suzana estava me contando – e descobri isso depois, em minhas leituras – sobre a existência dos sonhos de confirmação que acontecem com frequência. Mas eu não passara ainda pela minha EQM quando recebi aquela ligação, e na ocasião eu acreditava piamente que o que aquela mulher estava me relatando era uma fantasia criada pela dor.
Ao longo da minha carreira, tratei de diversos pacientes que passaram por experiências estranhas durante a cirurgia ou enquanto estiveram em coma. Sempre que uma dessas pessoas narrava uma experiência extraordinária como a de Suzana, eu me mostrava solidário, embora estivesse completamente convencido de que aquilo só acontecia em sua mente. O cérebro é o órgão mais sofisticado (e temperamental) que temos. Experimente diminuir em alguns torr (unidade de pressão) o nível de oxigênio do cérebro de uma pessoa e ela terá a sua percepção da realidade alterada. Acrescente a isso todo o trauma físico e os medicamentos prescritos para uma pessoa com uma doença no cérebro e esteja certo de que, se aquele paciente tiver alguma lembrança quando voltar do coma, essas lembranças serão bem esquisitas. Com o cérebro afetado por uma infecção bacteriana letal e por medicamentos que alteram o funcionamento da mente, qualquer coisa poderia acontecer. Menos, é claro, a experiência ultrarreal que tive durante o coma.
Suzana não me ligou para ser consolada naquele dia – eu entendia agora com perplexidade. Era ela que, na verdade, tentava me consolar. Mas não fui capaz de perceber isso. Achei que estava fazendo uma caridade para Suzana, fingindo, do meu jeito distante e distraído, que acreditava em sua história. Mas não acreditava.
E lembrando-me daquela conversa e de tantas outras parecidas, me dei conta do longo caminho que tinha pela frente se quisesse convencer meus colegas médicos de que o que eu tinha vivido era real.