Uma prova do céu
Capítulo 28
ABSOLUTAMENTE REAL
Há duas maneiras de ser enganado. Uma é
acreditar no que não é verdade; a outra
é se recusar a acreditar no que é verdade.
– Søren Kierkegaard (1813-1855)
Em tudo o que eu escrevia, uma palavra aparecia repetidamente. Real.
Nunca, antes do coma, eu tinha percebido como uma palavra pode ser tão enganadora.
O modo como eu havia sido ensinado a pensar sobre a realidade, tanto na faculdade de medicina quanto na faculdade do bom senso chamada vida, me dizia que ou uma coisa é real ou não é (seja um acidente de carro, um jogo de futebol, um sanduíche etc.). Nos meus anos como neurocirurgião, vi muita gente sofrer alucinações. Pensei que soubesse quanto um fenômeno podia ser terrivelmente irreal para aqueles que o vivenciavam. E, durante o período em que atravessei a psicose da UTI, experimentei alguns devaneios impressionantemente reais. Mas, quando eles passavam, eu logo percebia que se tratava de uma ilusão: uma fantasmagoria neuronal causada pelo circuito cerebral lutando para funcionar bem de novo.
Porém vale lembrar que, quando estive em coma, meu cérebro não estava funcionando. A parte responsável por criar o mundo em que eu vivia e por fazer as informações chegarem aos meus sentidos estava simplesmente desligada. E, no entanto, eu estava vivo, desperto, verdadeiramente consciente, em um Universo marcado pelo amor, pela consciência e pela realidade. (Olha a palavra aí de novo.) Isso para mim era um fato indiscutível.
A minha experiência fora mais real do que a casa em que eu morava, mais real do que a lenha queimando na lareira. Porém, não havia espaço para essa realidade na comunidade científica.
De que forma eu poderia abrir espaço para essas duas realidades coexistirem?