Uma prova do céu

Eben Alexander · Capítulo 6 de 45

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Uma prova do céu

Capítulo 5

MUNDO SUBTERRÂNEO

 

Escuridão, mas uma escuridão visível – como estar submerso na lama, mas ainda assim poder ver através dela. Gelatina escura talvez seja a melhor descrição: transparente, mas turva, embaçada, claustrofóbica e sufocante.

Consciência, mas consciência sem memória nem identidade – como um sonho em que você sabe o que está acontecendo em volta, mas não tem ideia de quem ou o que você é.

Há som também: um golpear profundo e ritmado, distante porém forte, de modo que cada pulsação o atinge em cheio. Como uma batida do coração? Um pouco, só que mais sombrio, mais mecânico, como o som de metal contra metal, como se um gigantesco ferreiro subterrâneo estivesse martelando uma bigorna bem perto: golpeando tão forte que o barulho ecoa pela terra, pela lama, ou pelo que quer que seja aquilo onde você está.

Eu não tinha um corpo – nenhum de que me lembrasse de alguma maneira. Eu apenas estava... lá, naquele lugar de escuridão massacrante e pulsante. Na ocasião, eu podia ser chamado de “ser primordial”. Mas na hora em que tudo estava acontecendo, não conhecia essa expressão. Na verdade, eu não conhecia palavra alguma. As palavras usadas aqui foram registradas muito mais tarde, quando, ao voltar para este mundo, escrevi minhas recordações. Linguagem, emoção, razão: tudo havia desaparecido, como se eu tivesse regredido a algum estado primitivo nos primórdios da vida, talvez como a bactéria que se apoderou do meu cérebro e encerrou sua atividade.

Há quanto tempo habito este mundo? Não tenho ideia. Quando se está num lugar onde não há noção de tempo da maneira como o experimentamos, descrever com precisão o que se sente é quase impossível. Quando estava acontecendo, quando eu estava lá, me sentia como se sempre tivesse estado naquele lugar e sempre continuaria a estar. E isso não me preocupava. Por que ficaria preocupado se, afinal de contas, esse estado era o único de que eu tinha conhecimento? Sem lembranças de nada melhor, nada em particular me incomodava. Não me lembro de refletir se devia ou não sobreviver, e minha indiferença quanto a isso me proporcionou uma sensação de força. Eu não tinha pista alguma sobre as regras que governavam aquele mundo, mas também não estava com pressa de aprendê-las. Afinal, por que me preocupar?

Não sei dizer exatamente quando aconteceu, mas em certo momento tomei consciência de alguns objetos que me rodeavam. Eles se assemelhavam a pequenas raízes, ou a vasos sanguíneos em um grande útero lamacento. Com uma coloração vermelha, escura e brilhante, eles desciam de algum lugar muito lá em cima em direção a outro lugar igualmente distante lá embaixo. Olhar para essas coisas era como ser uma toupeira ou uma minhoca no fundo da terra e, de alguma forma, ser capaz de enxergar o intricado complexo de raízes e árvores à sua volta.

Essa é a razão pela qual, ao pensar sobre aquele lugar mais tarde, passei a chamá-lo de Região do Ponto de Vista da Minhoca. Durante um bom tempo, suspeitei de que aquilo poderia ser algum tipo de lembrança do que meu cérebro sentiu no momento em que as bactérias o invadiram.

No entanto, quanto mais eu pensava sobre essa explicação (e, insisto, foi muito, muito depois), menos sentido ela fazia. Porque – é difícil explicar para quem não esteve antes ali – a minha consciência não estava embaçada nem distorcida. Ela estava simplesmente limitada. Eu não era humano naquele lugar. Eu não era sequer animal. Eu era alguma coisa anterior, e inferior, a tudo isso. Era apenas um ponto solitário de consciência em um mar vermelho-escuro.

Quanto mais tempo ficava ali, menos confortável me sentia. No começo, eu estava tão imerso que não havia diferença entre “mim” e o elemento meio repulsivo e ligeiramente familiar que me rodeava. Mas, aos poucos, essa sensação de imersão profunda, atemporal e sem fronteiras deu lugar a outra coisa: o sentimento de que eu não fazia parte daquele mundo subterrâneo, embora estivesse dentro dele.

Caras grotescas de animais borbulhavam na lama, grunhiam, guinchavam e desapareciam de novo. Escutei urros medonhos. Algumas vezes, esses urros e grunhidos davam lugar a cânticos rítmicos e obscuros que eram, ao mesmo tempo, assustadores e curiosamente conhecidos – como se em algum momento eu mesmo os tivesse cantado.

Como não havia nenhuma lembrança da existência anterior, meu tempo naquela região se estendia indefinidamente. Meses? Anos? A eternidade? Qualquer que fosse a resposta, cheguei a um ponto em que a sensação rastejante suplantou a sensação de familiaridade. Quanto mais me sentia como um eu – como alguma coisa separada do ambiente frio, úmido e escuro à minha volta –, mais os rostos que borbulhavam na massa pegajosa se tornavam feios e ameaçadores. As batidas ritmadas do ferreiro também ficaram mais intensas: pareciam britadeiras de trabalhadores subterrâneos, tipo ogros, executando uma tarefa interminável e massacrantemente monótona. O movimento à minha volta se tornou menos visual e mais palpável, como se criaturas parecidas com vermes e répteis estivessem passando em bandos e de vez em quando esfregassem suas peles macias ou espinhosas em mim.

Foi então que tomei consciência de um odor: era uma mistura de cheiro de fezes, sangue e vômito. Em outras palavras, um cheiro biológico, porém de morte, não de vida. À medida que minha consciência se aguçava, eu me aproximava mais do pânico. Eu não pertencia àquele lugar. Precisava escapar.

Mas para onde?

Quando me fiz essa pergunta, algo novo emergiu da escuridão: alguma coisa que não era fria, nem morta, tampouco sombria, mas o exato oposto disso tudo. Mesmo que eu passasse o resto da vida tentando, não conseguiria fazer justiça à entidade que se aproximava de mim. Nem sequer chegaria perto de descrever como era bela.

Mas vou tentar.